EntreContos

Detox Literário.

As Crônicas de Corpo (Hélio Crosta)

Nos recônditos mais remotos da Carne, onde o calor reconfortante das franjas limítrofes abraça as infinitas terras estéreis que há além; foi lá onde minha história começou.

Vivíamos numa casa isolada de tudo: de revestimento carcinoma-cartilaginoso até ordinário, brotada diretamente do Corpo. No primeiro dia, antes de eu ainda dominar Palavra, quando chegamos dalgum limbo que não sei precisar, o Paaai inseriu uma semente no solo, que sangrou. Logo, uma reação histamínica, de rejeição àquele objeto estranho se manifestou, e a casa, de um branco translúcido, ergueu suas paredes, atraiu capilares e se espalhou. Daí, foi só recortar as entradas e as janelas, usar algumas rebarbas como telhado e derrubar paredes que cresceram desordenadamente.

Era uma vida boa e calma: eu e meus sete irmãos gêmeos íamos atrás do Paaai o tempo todo, que nos apresentava o mundo e nos ensinava.

— Um rio de linfa, meninos, é algo muito bom – ele dizia, sentado à margem do córrego. — Tem sempre pedaços de plaquetas boiando que, combinados à própria linfa e uns ribossomos dão num guisado delicioso e nutritivo. Opa! Viram? É assim que se faz: atira-se a rede, puxa-se com delicadeza para não rasgar a plaqueta e se guarda no balde com um pouco de líquido, para não secar. Entenderam?

— Sim, Paaai – balíamos sempre em coro.

— Rios arteriais ou venosos são mais ricos, porém proporcionalmente perigosos; quase fui devorado por um enxame de leucócitos certa vez… Um dia, ensinarei como pescar neles também. “Respeite o Corpo e…”.

— “…Ele proverá. Abuse do Corpo, e Ele Consumirá!” – repetíamos o ensinamento.

Lembrar desses tempos é estranho: tenho a impressão que eu e meus irmãos éramos de certa forma extensões de uma coisa só. Vivíamos nus, dormíamos juntos, banhávamos juntos, ríamos e repetíamos sempre as mesmas coisas e ao mesmo tempo. Talvez até sonhássemos os mesmos sonhos. Não sei se o Paaai nos plantou feito a casa, ou se nos colheu de algum útero ainda ativo além da Derme Oeste: nós oito, embolados dentro duma gema placentária. Perguntávamos muito, mas ele não gostava de falar dos tempos antes do nosso tempo. “É bobagem, meninos. Vossas histórias começaram quando de vossa gênese. O antes é ilusório”.

Bom homem, o Paaai: prático, justo e paciente, nunca levantou a voz, nunca vestiu no rosto escuro e cheio de dobras alguma máscara carrancuda. Por dezesseis ciclos solares continuamos a viver aquela vida simples de pescadores e coletores, despertando cedo, arrumando com gosto a casinha, cantando canções melancólicas, cozinhando delícias providas pelo rio ou pelas montanhas de coágulos e lagos de enzimas. Isso até a chegada dele, do inimigo, do abusador de cabeça-de-flecha e coroa de anzóis: Saginata.

***

            Era manhã e pescávamos, como em todos os dias, quando o Paaai apertou os olhos ao notar uma estranha coluna de fumaça negra no horizonte, talvez além da Cordilheira de Ossos. A voz dele, nunca esquecerei, soou cansada. Notei, pela primeira vez, raiva também. Embora fosse avesso a falar sobre o passado, ele lancetou um abcesso de palavras inflamadas: — Os problemas sempre ramificam metástases para assombrar-nos. Meninos, ajudem-me a preparar o barco; juntem suas coisas, temos que ir embora, feito eu os treinei.

            Enquanto corríamos para todos os lados, sem entender, ele não parava de falar: — Há muitas dezenas de ciclos solares, antes de Corpo houve outro mundo, mas esse morreu queimado e irradiado. Chamavam o mundo velho de Terra. O novo que o substituiu, estéril, ganhou esse apelido usado até hoje para as terras ermas além-carne: Cemitério, pois era uma questão de poucos anos até que os raros sobreviventes finalmente se juntassem aos mortos da Guerra das Guerras.

            — O que é “guerra”? O que é um “cemitério”? – perguntávamos, porém ele não respondia.

            — Vocês são bons em recordar, foi assim que eu os moldei. Gravem tudo! Eu tive uma filha quando era jovem. “Eugênia” foi o nome que a mãe escolhera, como se pudesse prever o futuro. Minha filha tinha só dezesseis e sobreviveu às bombas H que mataram praticamente todos na cidade, mas estava morrendo de envenenamento radioativo.

— O que é “mãe”? O que é “cidade”? O que é “radioativo”? – nós registrávamos cada palavra, mas sem entender.

— Eu costumava trabalhar com ciências obscuras, mágicas do tempo antes do tempo. Chamavam minha especialidade de “genética”. Em busca de um tratamento, usei minha pesquisa: culturas de fungos negros, que vicejavam dentro dos reatores de usinas nucleares desativadas, que alimentavam-se e cresciam na presença de intensa radiação e que limpariam, em tese, os efeitos do envenenamento. Desesperado, ao observar Eugênia morrendo, dei-a várias doses de um soro experimental com vírus carregados de fragmentos de DNA dos fungos. De início, foi um verdadeiro milagre: ela se recuperou rapidamente, as feridas cicatrizaram, os cabelos voltaram a crescer. Em duas semanas já estava de pé e me sorria, agradecida.

— O que é “milagre”? O que é “cabelo”? – eu perguntei, agora estranhamente sozinho. Meus irmãos escutavam o eco ainda distante dos gritos borbulhantes de muitos. O Paaai piscou, assustado.

— Ainda temos um pouco de tempo: minhas armadilhas e alarmes não dispararam, mas preciso me apressar… Na ter-terceira semana, ao sair para um rápido passeio ao ar livre, Eugênia repentinamente começou a inchar. Eu deveria ter pensado nisso: havia radiação residual por quase todo lugar e uma parte dela se alimentava e consumia avidamente tal coisa. Tentei arrastá-la de volta ao meu laboratório, onde o isolamento era bom, mas ela caiu e eu não consegui erguê-la; estava pesada demais. Seguia crescendo e se espalhando em ondas de pele, enraizando-se no solo duro, aflorando montes cartilaginosos, poças de fluidos e moitas de flocos epiteliais. Limpando o mundo e cobrindo-o com sua carne, cruzando planícies, vales, salvando-nos com seu sacrifício. Antes de desaparecer, encontrei seu rosto afundando, envolta em si mesma, e ela me disse: “Foi melhor assim. O mundo não terá que morrer, eu não terei que morrer.”. Há uma lagoa turva e de águas salgadas, a leste daqui, acho que formada por suas derradeiras lágrimas.

O Paaai então chorava por sua criação acidental. Eu comecei a chorar também, quando as flechas-anzóis ósseas começaram a cruzar o ar sobre nós.

— Oh, Deus! Rápidos demais, estão evoluindo, os malditos… Conseguiram passar por minhas sondas e pelo fosso de suco gástrico! Como?! Perdoem-me, perdi tempo precioso! Rápido, para o barco! Ha-havia um parasita solitário que se beneficiou do crescimento, que me persegue e me fareja à distância faz muitos ciclos…  – ele falou, com enorme rapidez. Mais flechas. Esquivei-me, mas irmãos 3, 4 e 6 tombaram, sem dizer uma palavra. Seus corpinhos foram rasgados quando as flechas foram puxadas de volta por tendões retráteis. — Fuja, número 8! Eu posso ganhar algum tempo para vocês. Ele falou comigo: — Corra, lidere seus irmãos e desça o córrego. Procure pelo Broto no Pântano dos Miasmas, ela já deve estar crescida à essa altura. Lembre-se sempre: nós somos parentes do Corpo… Vocês são carne da Carne…

O Paaai voltou para subir o monte em direção à nossa casa. Contudo, mal deu dois passos e novas flechas-anzóis cruzaram o céu. Caiu de joelhos, com três cravadas no peito, banhando o solo com seu sangue sagrado. Esquivei-me outra vez, porém irmãos 1, 2, 5 e 7, como que paralisados pelo choque, tombaram. E eu corri, eu-sozinho, não mais parte de algo maior, com os olhos cegos de lágrimas, consegui. Já descendo o rio vi quando Saginata, o verme hermafrodita gigantesco, alto como dez homens, o general consumidor de tantas almas, devorou as carcaças de meus irmãos e do Paaai.

“Paaai… Você não me ensinou a ser um..” – eu lamentei em pensamento.

***

            De alguma forma, por algum conhecimento entranhado em meu ser, eu sabia quem era o Broto e onde ela estava. Ao mesmo tempo, até que o Paaai a citasse, eu não detinha tal informação; nunca tinha ouvido falar. Desci o rio por uns três dias, até que suas margens se cobrissem de névoa esverdeada. Então, sabia que estava no lugar certo.

            Ancorei e desci da balsa. O estranho solo era de osso poroso, cheio de poças de enzimas borbulhantes e filamentos rosados que ondulavam no ar. Árvores com copas arrepiadas e translúcidas estavam por todo lugar. Sob a maior delas, era onde eu devia procurar.

            Junto às raízes calosas duma árvore que parecia tocar os céus achei um poço coberto duma película transparente, cheio de líquido, que jazia escondido sob uma inflorescência de flocos epiteliais secos. Dentro, alguém branco tal como cartilagem, dormia. Meu conhecimento nunca ensinado orientou-me sobre o que fazer. Rompi a fina pele com meus dedos, e o líquido morno semigelatinoso começou a vazar pelas laterais. O poço então iniciou movimentos peristálticos, em contrações musculares estranhas, até que depois de uns dez minutos expulsou  Broto de seu âmago, coberta por um velo macio.

            Ela era fêmea, e eu nunca tinha visto uma antes. Não tinha a pele escura como a minha, dos irmãos e do Paaai, e a cabeça era envolta de filamentos finos, castanhos e lisos. Era pequena, talvez uns dois palmos menor do que eu. Tinha inúteis glândulas mamárias bem desenvolvidas.

            Ainda encharcada e coberta de sebo, Broto abriu os olhos devagar, a luz certamente a cegava. Encarou-me, curiosa, mas não disse nenhuma palavra. Apoiou-se em meu ombro e pôs-se de pé, olhando ao redor. Caminhou com alguma dificuldade para dentro do denso bosque das árvores arrepiadas, e os obstáculos no caminho simplesmente cediam-na espaço, deslocando-se e acolhendo. Chegou a perder o equilíbrio por um instante, e quando caiu havia uma formação de carne esponjosa que simplesmente não estava lá antes e a amparou.

            Depois de algumas horas de caminhada, sentou-se numa formação translúcida que se encaixava à perfeição nos contornos de seu corpo e cerrou os olhos. Filamentos desceram do alto das copas das árvores ao redor e se inseriram, gentis, em sua cabeça, pescoço e tronco. Pequenas faíscas elétricas subiam e desciam pelos filamentos.

            Então, repentinamente uma flecha-anzol cortou o ar com um silvo. Uma das árvores prontamente se inclinou e foi atingida, tendo parte da copa rasgada. Inúmeras outras flechas e dardos caíam e eram resvalados pelos dendritos e filamentos enquanto um véu de muco espesso começou a se formar do topo do bosque, e esse véu secava com rapidez e formava uma redoma nacarada. Mais muco então desceu e espessava a cobertura com novas camadas.

            Logo, criaturas armadas de lanças e facas de proteínas cristalinas tentavam romper a proteção enquanto o bosque aumentava a ejeção de mais camadas, conforme o exército de Saginata lograva romper mais e mais.

            — Eles vão conseguir atravessar a barreira! – apavorado eu gritei para Broto. — É preciso fazer alguma coisa, essas membranas não vão aguentar muito tempo. “O Paaai mandou-me aqui por alguma razão… Será que ela não estava pronta?” – pensei.

            No entanto, ela se mantinha plácida e com os olhos fechados. O fluxo elétrico intensificou-se nos filamentos e, na quase escuridão de dentro da redoma então muito espessa, as faíscas iluminavam fracamente nossas silhuetas.

            Alguma coisa rosnou a partir do alto da cúpula e começou a rasgá-la com facilidade, enquanto enfiava a cabeçorra cheia de ventosas e ganchos. Fagócitos começaram a invadir o domo quando senti-me tomado de um ódio assassino que jamais senti. Estava febril, crescia e me elevava do chão, sem entender como. Olhei para Broto e ela então tinha os olhos bem abertos e sorria. Encarou-me e disse:

— Eugênia acordou do sono e sabe que nós somos seus amados parentes! Luta, campeão! É chegada a Hora da Apoptose!

            Flechas e dardos voaram e se instalaram em meu peito, mas então eu já era unha, osso, quelóide e bile cristalina. Estava coberto, dos pés à cabeça, por alguma substância escura tal crosta de sangue seco. Eu era garras-espinhos-dentes. Era a escuridão que esperava no fundo do poço mais profundo, era a promessa de dor sem cessar.

            Deliciei-me com a expressão de medo do verme e das criaturas primitivas que ousaram cruzar nosso caminho. Banhei-me com gosto em fluidos e organelas rasgadas e gritava para que soubessem: — Eu sou carne da Carne! Eu sou Paaai, eu sou Corpo!

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação.