EntreContos

Detox Literário.

Zhiji (Suíbiàn)

Tudo na vida é muito fugaz. Quais são as coisas que permanecem, quais as que nos motivam a mais? Há momentos que lembraremos por mais tempo e outros que esqueceremos em alguns anos; dias; minutos. O que fica então, de verdade, marcado em nós? Tudo passa. Nossa vida passa.

Havia coisas que Wang não gostava de pensar, não gostava sequer de cogitar, mas assim como as coisas não permanecem para sempre, alguns pensamentos nos cercam de tal forma que se escondem no fundo de nossas almas. O que pode ser um tanto contraditório. Como algo poderia estar tão intrinsecamente enraizado dentro do nosso âmago e ao mesmo tempo sentirmos como se nada fosse realmente durar para sempre?

Ele ouvia as palavras sendo ditas ao fundo enquanto sua mente vagava por estradas que só o levariam a um profundidade agonizante, uma que ele não sabia sequer cogitar de onde vinha, mas que, contraditoriamente, parecia vir de muito longe. Muito antes.

Até que uma frase o fez saltar da cadeira, olhos arregalados e coração disparado, parecendo querer saltar de sua garganta. Ele não sabia sequer se estava respirando. Aquela frase. De onde vinha? De longe. De antes.

– Sr. Wang, posso lhe tirar alguma dúvida?

– Repita isso.

– Perdão?

 Wang olhava diretamente nos olhos do homem. Por algum motivo não se lembrava de onde estava, o que estava fazendo ali, ou quem era tal pessoa. Parte de seu cérebro gritava dizendo que devia respeito aquele homem simplesmente por sua posição acadêmica de alto reconhecimento, a outra parte estava em uma espiral de sentimentos que eram inclassificáveis e incompreensíveis.

 – Repita a frase.

Sua voz adotara um tom que jamais havia possuído, uma força que não sabia conciliar a si mesmo. Seu semblante tomara uma forma jamais retida por aquele rosto. O coração doía, uma dor que parecia vir de muito longe. Muito antes.

Se refere a expressão muitas vezes traduzida de forma leviana pelo vocabulário ocidental? Ah, sim, compreendo sua indignação, realmente a tradução parece que não abrangente todo o significado e peso das palavras. A expressão [我曾經把你當做我畢生知己], geralmente traduzida para “Eu costumava pensar em você como uma alma gêmea para toda a vida”, como mostrada, pode trazer um significado muito mais aprofundado. Pode-se ver que a expressão pode passar significado de “alma gêmea”, porém devido a profundidade epistemológica das partículas contidas na frase podemos ter significados distintos. Por exemplo os ideogramas 知己 zhiji, traduzidos literalmente para “aquele que me conhece”, pode ser considerado totalmente válido. Para nós ocidentais do século XXI a palavra Amor – ai – é considerada e tida como a forma mais alta e perfeita de um relacionamento, porém nos conceitos da China antiga tal visão não existia e em vez de termos a palavra ai, amor, com tal, teríamos zhi, saber, conhecer. zhi seria a forma e sentimento mais profundo em que duas pessoas poderiam se relacionar; a base do mais sólido relacionamento. Como dito em poemas onde o relacionamento fosse tal, no evento da morte de uma das entidades pertencentes a tal relacionamento a outra jamais retornaria ao seu estado anterior; onde a música não seria mais tocada, pois a única pessoa que capaz compreendê-la havia deixado esse mundo, por exemplo. A profundidade era tanta que valeria a pena morrer por tal relação.

Podemos então verificar que tais partículas podem ser traduzidas para “alguém que compreende a melodia de minha alma”.

– Agora, para os ocidentais a expressão almas gêmeas tem um certo peso, não há como negar, porém devido a complexidade dos ideogramas componentes da frase, esse significado parece não capturar completamente a profundidade de tal…

Almas gêmeas. Aquele que compreende a melodia da minha alma. 知己 zhiji. Wang sequer registrou o que estava fazendo. Seu corpo se movia por conta própria, seus pensamentos pareciam se alternar entre as frases e a necessidade de desvendar tudo aquilo. Algo o puxava, o ordenava a andar. Respiração entrecortada, pés caminhando, trotando, correndo. A mochila caída já não importava. Suas pernas, correndo, importavam. 

Não havia destino. Não havia porquê. Não havia nada. Só o muito longe. Muito antes. 

Seus ouvidos zumbiam e seus olhos nada viam. Respiração arfada. Pulmões levados ao extremo. Coração descontrolado. Pernas ardendo. Ele corria sem saber para onde, por que ou para quem. A frase o fazia perder os sentido, a noção, a visão. Teria que achar. Mas o que? Teria que correr. Mas para onde? Teria que ver. Mas o que? Teria que encontrar. Mas quem?

Almas gêmeas. Aquele que compreende a melodia da minha alma.

Que infernos significava aquilo? Já não sabia. Não sabia quem era. Onde estava ou para onde ir. Não sabia seu tempo ou seu estado. Não sabia se encontrava-se muito longe ou muito depois. Mas tinha que achar, encontrar, ouvir.

Por onde? Qual caminho deveria seguir, qual direção? Ele corria a esmo, sem uma direção exata, mas algo lhe guiava, direcionava. Corria. Era perigoso. Correr a esmo no meio da cidade sem olhar nada ao redor. Cidade? Corria entre árvores e montanhas. Entre prédios. Corria por rios. Entre carros. Mas corria. Onde estava? Para qual lado? Através de quais rios, quais lagos? Atrás de quantas montanhas? Atravessando quantas avenidas? Respiração arfante. Coração gritante. Na garganta.

Então ouviu, e de lá vinha, uma direção mais certa, por ali, gritava seu coração. Suas pernas já não mais lhe davam suporte, e ainda assim corria. Para muito longe. Muito antes. Podia ver vestes negras como a noite e outras brancas como a neve. Podia sentir o aroma do vinho proibido e o sabor da pimenta que nunca comera. Podia ouvir gritos e choros, risadas e promessas, regras recitadas e quebradas. 

Uma promessa de sempre velar pela justiça e viver sem arrependimentos.

Ele precisava encontrar; precisava ver e ouvir. Onde? Onde estava? Ouvindo a melodia, deixando que ela o guiasse. Deveria olhar ao redor, andar, correr? Não, correr não era o suficiente, não mais. Precisava olhar, ver. Precisava estar. Seus passo corridos, respiração arfante, coração ardente. Estava ali, ao seu redor. Seus olhos percorriam seu entorno e seu corpo tremia pelo esforço. Sentia-se perdido.

Suas mãos escorregaram por seus cabelos, puxando os fios, buscando um momento de claridade. Por qual caminho? Pelo caminho aberto e certo? Ou pelo caminho estreito e escuro? Não. Não importava por onde. A melodia o guaria, a canção os conectaria e o levaria. Deixou-se voltar, sentir o que há muito não sentia e ali estava. O caminho, o único caminho. Arfante ele tornou a correr, suas pernas ardendo. Sua alma lhe guiava. Ele chegaria.

E chegou. Não importava onde mas chegou. Ali estava. Uma música. Uma canção cujo nome já não mais recordava, mas que sabia; guardada estava, no fundo de sua alma. Puxando-o. Levando. Guiando. Algo que parecia conter um nome. Uma fita. Uma fita branca com símbolos de nuvens. Nada fazia sentido. 

Mas ali estava. Havia caído e depois de muito retornado. Perdido e levado. Mas a melodia ainda estava lá. Sendo compartilhada onde quer que estivessem. Haviam se perdido e reencontrado. Através do tempo a conexão permanecia pura. Desde muito antes. Muito longe.

Seus passos agora leves e trêmulos. Em sua frente, finalmente, a melodia. A fita, uma flauta. Um olhar. Um olhar que havia perdido. Esquecido. O nome, como havia esquecido o nome? Não poderia. Jamais esqueceria. Por eras e eras aquele nome permaneceria gravado em sua alma.

– Wei Ying. 

A música parou e a flauta foi abaixada. O corpo a sua frente lentamente voltou-se para si. Ali no meio de uma rua movimentada, sem sequer saber onde ele havia encontrado algo que muito havia perdido, mas que jamais deixaria, jamais se desvencilharia. 

Os olhos eram os mesmos. Os mesmos de muito longe. Muito antes. 

Olhos que já transbordaram amor, dor, perda e sonhos. Olhar que capturara sua alma para todo o sempre, que vira tudo e não vira nada. Olhos que o guiavam a uma dor profunda e duradoura, mas que o acolhera, tempos depois, e o reconstruíra. 

Podia recordar-se de um sorriso; de alguém que mudara tudo, de alguém que desafiara seus conhecimentos, arrancara suas regras e remodelara suas crenças. Lembrava-se de caminhos tortos e perigosos, que levaram-no a uma perda que tinha gravada no peito a ferro e fogo. Lembrava de decisões que foram chicoteadas em seu corpo e rasgaram sua alma. 

Via fitas. Uma branca e uma vermelha. Uma flauta e um guqin. Montanhas e coelhos. E via aquele um sorriso. O sorriso que mudou tudo e todos. Um sorriso que havia mudado tudo o que sabia e tudo o que acreditara.

Mas nada disso mais importava. Lá estava o sorriso, os olhos. A alma. Aquela que compreende a melodia de sua alma. Seus olhos viam além, num mundo distante, onde ele usara branco e o outro, preto. Uma era distante onde haviam se separado e reencontrado.

Como agora.

Muito passou. Ou pouco. Mas os olhares permaneciam como numa vida distante. Conectados e cheios de significado. Cheios de amor. Olhos de quem conhecia tudo. Olhos que o conheciam.

– Lan Zhan

Uma fita foi estendida e em seus dedos pousava novamente. A fita de seu clã. Já passaram-se eras. Muito tempo. Muito longe. Mas agora tudo estava bem. Seu Wei Ying. A música de sua alma.

Quem disse que tudo é passageiro? Quem prova que nada permanece? Como negar algo que está a centímetros de seu corpo, mas que vem de tão longe, de muito tempo. Nós esquecemos muitas coisas em nossas vidas, algumas tão fugazes que jamais serão lembradas, que passarão em um piscar de olhos para nunca mais retornar.

Mas há coisas, coisas que permanecem. Elas são gravadas em nossa alma, e mesmo que momentaneamente as esqueçamos, elas permanecem ali até que estejamos prontos para reencontrá-las. Até que possamos retornar a elas.

E assim era.

Retornaríamos àquele que compreende a melodia de nossa alma. Assim como Lan Zhan e Wei Ying.

Finalmente estavam retornando a Gu Su.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Grupo 1.