EntreContos

Detox Literário.

O Pesadelo Mais Profundo (Dom Cobb)

Tina corria aterrorizada pelas ruas escuras. Por entre as brumas, surgia uma figura de chapéu, sorrindo sarcasticamente.

— Por favor, Deus! — ela implorou, assustada.

— Isso — o homem disse, levantando a mão direita vestida numa luva de couro com enormes lâminas nos dedos — que é Deus.

Ela correu na direção oposta, mas esbarrou justamente na criatura de rosto queimado de quem fugia. Não era possível que ele galgasse essa distância em tão pouco tempo. 

O homem levantou a mão esquerda, como um mágico prestes a realizar um truque.

— Olha isso — disse, para em seguida decepar dois de seus dedos. 

Enquanto um sague esverdeado esguichava, ele exibia um sorriso travesso no rosto desfigurado, sem demonstrar dor.

Tina gritou bem alto e tentou correr, mas a criatura a segurou, derrubando-a no chão. Subiu sobre a menina, com seu imundo suéter listrado de vermelho e verde. Durante a luta, as lâminas rasgavam a camisola que ela vestia e, também, sua carne. Ela, desesperadamente, empurrou o rosto terrível que tentava beijá-la, mas acabou arrancando-lhe a pele. Por debaixo, uma caveira gargalhava esganiçada.

— Pare! — exigiu uma voz que vinha da névoa. O homem sorriu, com a pele queimada cobrindo-lhe novamente o rosto.

Um vento dissipou o nevoeiro e revelou uma jovem mulher de olhos decididos.

— Hummm… — ele lambeu os lábios. — Adoro um ménage.

O homem, então, levantou-se e agarrou Tina, ameaçando-a com as garras no pescoço.

— Vem, menina. Vem brincar com o Freddy.

— E se eu não quiser? — a jovem perguntou, com sorriso irônico.

Ele reparou, então, que segurava apenas um manequim. 

— Quem é você? — perguntou assustado, enquanto estraçalhava a boneca de plástico.

— Eu tenho meus truques — a jovem brincou, colocando-se à frente de Tina, de forma protetora.

— Ah! Mas também tem medo, né? — ele perguntou, retomando a expressão brincalhona. — Todo mundo tem. 

— Tina, acorda! — a jovem pediu.

— Como? — ela perguntou, confusa.

— O que você teme? — Freddy continuou. — É de mim que tem medo — Seu rosto havia mudado, adquirindo a forma de um homem magricelo e barbudo. E o suéter listrado agora era uma camisa desbotada, daquelas compradas em lojas de suvenires —, Ariadne?

— Como…? — Ariadne hesitou.

— Não é só você que tem os seus truques — ele zombou.

— Maldito! — ela berrou. Lágrimas escorrendo pelo rosto. — Tina, acorde agora! — exigiu.

— Venha, pequena, não vou machucá-la — o homem barbudo se aproximou. — Tenho certeza de que vai gostar.

O ambiente ao redor havia mudado. Estavam agora num quarto de papel de parede rosa com enfeites de flores. Ariadne agachou-se num canto, agarrando-se com força à sua boneca de pano. Freddy, então, recuperou sua forma desprezível e cravou as garras no ventre de Tina, rasgando-a por dentro.

A menina berrou desesperadamente, enquanto o assassino sorria e a arrastava, pintando a parede com o sangue que jorrava.

Ariadne abriu os olhos. Estava no quarto de Tina. Um fino tubo pendia de seu braço, ligado a um dispositivo largado no chão, dentro de uma maleta prateada. Uma outra ponta do tubo balançava pelo ar, ligado à adolescente que estrebuchava-se pela parede, como se movida por uma força invisível. O namorado dela assistia a tudo aterrorizado. Depois de um longo instante de agonia, seu corpo tombou aos pés de Ariadne, que observava a cena perplexa.

Com os olhos inchados de lágrimas, ela retirou uma pistola da cintura, apontou para cabeça e atirou.

***

— Quem era esse cara, Miles? — Ariadne perguntou, após despertar e contar ao tutor a terrível experiência. — O que ele era?

— Provavelmente uma projeção do subconsciente de Tina — o homem, que exibia todo o peso da idade em suas feições, respondeu em tom acadêmico.

— Mas ele sabia coisas… — ela hesitou. — Coisas sobre mim que ninguém mais sabe.

— Só você estava compartilhando sonhos com ela, Ariadne — Miles disse, observando a jovem loira que jazia num leito hospitalar ligado a diversos aparelhos. — Ou era parte do sonho dela, ou do seu.

— Não pode ser — disse, pensativa. — Ele tinha o controle, Miles. Matou ela no segundo nível e refletiu no primeiro.

— Isso é incomum — ele sempre mantinha seu tom professoral. 

— E, mesmo após morrer nos dois níveis, ela não despertou. 

— Algo assim só costuma acontecer quando a sedação é muito forte — ele recordou. 

— Eu sei disso, lembra? — ela reclamou, aborrecida. — Mas ela tomou a mesma coisa que eu. Tenho que pegar esse Freddy. Ele é a chave.

— Não torne isso pessoal, Ariadne — Miles advertiu. — Você sabe como é perigoso.

— Preciso voltar lá — ignorou-o. — Me ajude a conectar nessa aqui. Qual o nome dela? — leu o prontuário. — Nancy Thompson. 

O tutor a observou preocupado. Olhou, então, para a ala hospitalar em que estavam. Dezenas de pessoas jaziam em coma há anos por um motivo desconhecido. Ariadne era sua última esperança. Sua melhor aluna. Muito mais do que ele fora um dia.

Abriu a maleta prateada que continha o dispositivo que ele havia ajudado a projetar há tantos anos. Puxou um tubo e conectou a extremidade com a agulha na adolescente de cabelos cacheados deitada inerte em seu leito. Sua determinada discípula já havia se conectado e procurava uma posição confortável na cadeira ao lado.

Assim que se ajustou, acenou para que Miles iniciasse o processo. Ele sorriu, mas sem alegria. Desejou boa sorte e pressionou o botão. Ariadne observou o Somnacin colorindo o tubo de azul serpenteando o caminho até seu braço. A droga, que permitia o compartilhamento de sonhos, misturou-se à sua corrente sanguínea. Fechou os olhos e adormeceu.

***

Encontrou a adolescente saindo às pressas da escola, com expressão assustada.

— Nancy — chamou.

— Que… quem é você?

— Meu nome é Ariadne. Eu sei sobre o homem que a persegue nos seus pesadelos.

— Como? — a adolescente perguntou, segurando uma queimadura no braço.

— Eu posso derrotá-lo. Mas preciso de sua ajuda.

— Quem é ele? Como você sabe?

— Calma, já vou te responder tudo isso. Vem comigo.

Nancy estava sendo aterrorizada por Freddy há dias e sabia que ele havia sido responsável pela morte de Tina. 

Após algumas explicações superficiais — Ariadne não contou, por exemplo, que Nancy estava em um sonho causado por um coma —, as duas combinaram de se encontrarem à noite. Elas precisavam que alguém operasse o dispositivo e, por isso, chamaram o namorado de Nancy, Glen.

Após inventar uma desculpa para seus pais, elas se conectaram ao dispositivo e contaram apenas o superficial ao rapaz, que acabou tendo seus planos íntimos bastante frustrados.

— Se a gente começar a gritar, acorde a gente de qualquer jeito — advertiram o rapaz, que apenas concordou com a cabeça, assustado, antes de apertar o botão. 

No instante seguinte, as duas ainda se encontravam no mesmo quarto, mas tudo estava mais escuro e sombrio. As luzes piscavam e elas ouviam sons vindos do corredor.

— Fique atrás de mim.

Passos se aproximavam cada vez mais da porta e elas mantinham-se atentas. Mas, ainda assim, Nancy começou a gritar.

Ariadne olhou para trás e viu Freddy segurando a menina com as lâminas em seu rosto, ameaçando-a.

— Que bom que voltou — o assassino disse, zombeteiro.

— Quem é você, Freddy? — Ariadne perguntou, aproximando-se. 

— Ora, ainda não descobriu? Sou seu pior pesadelo.

— Mas quem é o homem por trás dessas queimaduras? 

— Se quer saber o nome do seu assassino — ele iniciou, ainda sorrindo. — Freddy Krueger, ao seu dispor — retirou o chapéu num simulacro de cumprimento.

Quando o colocou de volta à cabeça, percebeu que a casa ardia em chamas. 

— Tem medo de fogo, Freddy? — Ariadne brincou, observando o pânico do algoz.

Nancy aproveitou o momento e injetou uma agulha na criatura que há pouco a ameaçava. Dela pendia um tubo cirúrgico ligado a uma maleta prateada largada no chão. A outra extremidade estava conectada a Ariadne.

— Pare! — Freddy gritou. — Não pode fazer isso!

Nancy ignorou os apelos do assassino, dirigiu-se à maleta e, determinada, apertou o único botão no centro do dispositivo.

***

Estava no inferno. Chamas ardiam por toda parte, o céu era escuro com nuvens vermelhas como feridas abertas. A terra era feita de pedras negras e rios de lava vertiam de montanhas que se elevavam tão escuras quanto a alma dos condenados. 

Este é o terceiro nível”, Ariadne pensou. “O sonho dentro do sonho dentro do sonho”. A cada descida, a realidade se tornava mais distante e menos palpável. Era fácil se perder.

Criaturas demoníacas aladas voavam por todo canto e muitas a encaravam. “Sabem que não pertenço a este lugar”. Ela caminhou à procura de Freddy e acreditava que ele estaria no local para onde os rios de lava se encaminhavam. Conforme avançava, mais demônios a acompanhavam, observando-a com ira no olhar.

Quando percebeu que eles estavam prestes a atacar, ela começou a correr. Centenas, talvez milhares de criaturas infernais voaram a seu encalço, num terrível enxame vermelho. Ela, sabendo que não tinha mais como se manter incógnita no sonho de Freddy, resolveu usar suas habilidades sem restrição. Um buraco abriu sobre seus pés e ela correu pela caverna que se escavava instantaneamente à sua frente. Os demônios continuaram a perseguição, mas apenas um podia segui-la por vez.

De tempos em tempos, a caverna se bifurcava e Ariadne escolhia um dos caminhos. O enxame infernal, sem saber qual dos túneis seguir, dividia-se na tarefa de persegui-la. 

Depois de quase uma hora correndo pelo formigueiro infernal que havia construído, Ariadne parou. Não havia mais demônios atrás de si. À sua frente, o caminho subia à superfície. Ela sorriu constatando que conseguira prender os demônios em seu labirinto paradoxal.

Percebeu, então, que encarava um imenso oceano flamejante. Um homem berrava enquanto queimava eternamente no mar de fogo. Ariadne imaginou uma corrente de ouro nas mãos com um arpão na ponta. Mediu o peso da nova arma admirando sua beleza. Calculou a distância e arremessou. A lança dourada cravou no homem, trespassando-lhe o peito. Enquanto ele berrava ainda mais forte, ela o arrastou aos seus pés. 

— Não pode fazer isso — o homem nu, com queimaduras por todo o corpo, reclamou.

— Se você sonha, não é uma projeção do meu subconsciente — ela observou a criatura aos seus pés, igual, mas tão diferente daquela que antes a amedrontava. — Quem é você? — ela removeu o arpão de seu peito, manchando a terra negra de sangue. — Quem é o verdadeiro Freddy Krueger?

O céu se fechou e paredes com papel rosa enfeitadas de flores subiram ao redor, trancando-os naquele quarto infantil. O homem não estava mais queimado, nem mesmo machucado, e sorria malignamente por trás de uma barba espessa.

— Não. Esse não é você — ela afirmou.

Agora ele vestia um suéter listrado de vermelho e verde. As flores rosas que enfeitavam o quarto haviam se transformado em nuvens azuis e estrelas amarelas. Não tinha mais barba e usava um chapéu.

— Esse, sim, é você.

No canto, uma criança. Um menino de, no máximo, quatro anos. Freddy ainda não tinha o rosto queimado, mas carregava facas nas mãos.

Ariadne fechou os olhos. Não suportaria ver a cena. Mas os sons que ouviu penetraram em sua mente como garras afiadas destruindo sua alma. A imagem que formou em sua memória a perseguiria por todas as noites desde então. 

A janela explodiu em milhares de cacos que brilhavam à luz de tochas. Freddy fugiu, deixando pegadas de sangue pelo caminho. No instante seguinte, estavam em um depósito. Centenas de galões com algum produto químico se equilibravam um sobre o outro.

Do lado de fora do galpão, um grupo gritava, xingava e tentava arrombar as portas. O assassino escondia-se entre os galões.

— Esse é seu pesadelo — Ariadne concluiu, observando enquanto os portões tombavam num estrondo que ecoou por toda a escuridão.

Cerca de dez pessoas invadiram o depósito, algumas com tochas em punho. Um homem se adiantou e, com um taco de beisebol, acertou Freddy na testa. Os outros vieram em seguida. 

Ela ouviu, então, um grito muito alto e agonizante. O homem com taco de beisebol havia desabado sobre os tonéis, com as entranhas escorrendo para fora da barriga aberta. Um líquido azulado despejou do barril e espalhou pelo chão. Freddy havia se levantado, com uma faca em cada mão pingando de sangue. No rosto, aquele sorriso cruel e zombeteiro. Ele se deliciava com a morte. Sua cabeça sangrava muito, mas ele não parava de golpear os agressores. Um a um, todos iam caindo aos seus pés.

O último que havia sobrado, assustado com a matança, olhou para Ariadne implorando por ajuda. Mas ela nada podia fazer. Era um sonho, uma lembrança. A ele, então, restou ameaçar Freddy com a tocha. 

— Você não devia mexer com fogo — o assassino brincou, empurrando uma pilha de galões para cima do homem.

Só então Ariadne conseguiu reparar nos tonéis, que tombavam como peças de dominó. “Somnacin”, era o que estava escrito em todos eles. “A droga do sono”. Um segundo depois, tudo explodiu numa enorme chama azul.

***

— Encontraram ele — disse Miles, entrando em seu quarto.

— Onde? — Ariadne perguntou, levantando-se num salto.

— Num hospital do outro lado da cidade. Na ala de queimados – ele contou. 

— Mais alguém sobreviveu àquela explosão?

— Só ele.

— E a empresa abafou o caso, né?

— Eu não me envolvo nessa parte, Ariadne. Você sabe que só me preocupo em ajudar.

— Nem todos são tão puros como você, Miles — alfinetou. — E as meninas? Despertaram?

— Não — olhou para a discípula, com o velho ar professoral. — Foi a fumaça da que explosão as colocou em coma. Por isso partilhavam o mesmo sonho. 

— Eu disse que Freddy era real. Ele é a chave — ela afirmou e ele concordou. — Ele as mantém em coma.

— Mas não sabemos como despertá-lo.

— Eu sei uma forma — afirmou. — Me passa o endereço.

— Ariadne, querida. Você fez um ótimo trabalho — disse, com compaixão. — Deixe essa parte conosco.

— Eu descubro sozinha — ela o ignorou e saiu.

***

“Frederick Charles Krueger” era o nome no prontuário. O rosto queimado era exatamente como nos sonhos. Quem visse apenas aquela expressão serena, não poderia imaginar o quão cruel e sádico era essa criatura.

— Você é parente dele? — uma enfermeira perguntou.

— Só conhecida — Ariadne respondeu.

— Ele está assim há anos e nunca recebeu visita — ela entregou-lhe uma prancheta. — Se incomoda de assinar uns papéis?

— Não, tudo bem — pegou a papelada, com olhos úmidos.

— Vou deixá-los à sós — a enfermeira se retirou.

Ariadne o observou ali, destruído, imóvel. Indefeso. Como uma criança pequena num quarto com papel de parede colorido. Não era barbudo nem magricelo com camisa desbotada comprada em loja de suvenires. Mas era tão cruel quanto — talvez mais. Mesmo nesse estado, era capaz de causar medo e dor.

Era no sonho dele que todos estavam presos. Tina, Nancy, Glen e tantos outros. Miles disse que para acordá-los precisaria despertar esse monstro. 

Mas havia outra forma. 

Uma lágrima escorreu pelo seu rosto de Ariadne. Não estava feliz. 

Precisava ser feito. 

E ela fez.

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Informação

Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Grupo 1.