EntreContos

Detox Literário.

Meu nome é Alma, talvez porque não a tenha (Claire)

Dizem, “com o tempo se esquece”,
Mas isto não é verdade,
Que a dor real endurece,
Como os músculos com a idade.

O tempo é o teste da dor,
Mas não é o seu remédio —
Prove-o e, se provador for,
É que não houve moléstia.
Emily Dickinson – Tradução de Aíla de Oliveira Gomes

 

Que foi, Alma? não te vou prender, disse ele sorrindo. E algo me acometeu, como uma luz, ou talvez uma escuridão, ou ambas.

***

Leonardo e eu fazíamos um belo par, todos nos apontavam na faculdade – ele, já finalista de medicina e eu a iniciar em direito, ele, por vocação e eu porque “nunca se sabe quando é que faz falta um bom advogado”, dizia, mas não sabia o meu porquê, agora sei.
O curso dele desagradava-me, nunca gostei de médicos, sempre associei a sua imagem a corvos agourentos, um presságio de morte. Mas Leonardo Jordão era diferente, alto, bonito, garboso, o seu porte era um pouco old fashion, talvez devido à sua ascendência americana, de que discretamente se orgulhava. Apaixonámo-nos desde o primeiro dia, creio. Mas levámos algum tempo a trazer o amor à superfície, sou uma mulher de muitas camadas e existe sempre outra por debaixo da mais recente, outra que nunca me permite saber se já cheguei onde queria e, uma vez lá, sinto a presença da seguinte, ameaçadoramente à espreita. Ele dizia, mais tarde, em tom de brincadeira que o fulgor do meu cabelo ruivo o hipnotizara, eu não dizia nada, sempre soube que é melhor não dizermos o que queremos nem o que pensamos.
Leonardo não compreendia o meu horror a médicos e dizia, Nem sequer vou ser um médico desses, vou especializar-me em psiquiatria, quero compreender a mente dos desalinhados, mas eu não queria saber, até porque nem compreendia a aversão que sentia pelo curso que ele escolhera, agora sei.
No fatídico dia em que disse aquela frase, Leonardo aparecera-me à porta impante de orgulho e vestido com um fato preto que lhe ficava absurdamente grande em largura e pequeno em comprimento e trazia na mão esquerda uma maleta daquelas que já ninguém usa e que, soube-o depois durante o julgamento, tinha comprado nessa mesma manhã na feira da ladra a um daqueles feirantes que vendem coisas que ninguém sabe donde saíram nem como lhes chegaram às mãos e que sempre se aproveitam da ingenuidade dos raros clientes que por vezes lhes calha encantarem-se com alguma dessas velharias. Uma maleta de médico do século XIX! Leonardo estava feliz, eu gritei, fiquei possessa e nesse momento voltámos a juntar-nos as três, eu, a Mary e a Nancy. E depois ele disse, Que foi, Alma? não te vou prender.
Não me recordo do que sucedeu em seguida, não sei. Foi a claridade e a escuridão e nós as três em uníssono de novo, movidas pelo horror despertado pela maleta, com as suas facas e aparelhómetros clínicos diversos. Não abri a janela, disso não posso esquecer-me. Lembro-me do sangue, vermelho como as flores do quintal do Sr. Kinnear, que a Nancy apanhava naquela primeira manhã em que entrei ao seu serviço, como os quadrados das minhas colchas que toda a vida cosi compulsivamente, num frenesim que me acalmava e aplacava fosse lá o que fosse que sempre me atormentou, como uma memória, corta a maça, Alma, corta a maça para saberes com quem vais casar, mas eu sabia, ia casar com Leonardo. 


Sou famosa e não compreendo porquê, a humanidade evoluiu muito pouco nestes quase dois séculos que me separam de quando fui Grace, os humanos são ainda presas do mesmo fascínio por sangue, por experimentar um prazer mórbido e amoral face ao hediondo, que os repele e atrai em simultâneo, sem que nem saibam dizer qual das sensações prevalece ou lhes é mais querida – têm fome de sentir. 

Leonardo morreu, foi morto e esquartejado no hall de entrada de minha casa, estávamos só nós, os amantes apaixonados e Leonardo desfez-se em sangue, as vísceras espalhadas por cima do tapete que teve de ir para o lixo, recordo-me bem de como isso me incomodou, o tapete inutilizado por sangue e vísceras. E a alma dele não teve como sair para a liberdade, pois que não abri a janela, tal como com Mary.
Mary sorria dentro de mim, feliz e Nancy já não me olhava de olhos esbugalhados e saídos das órbitas por força do meu lenço que James me pediu para a estrangularmos e acabar com o que ainda lhe restava de vida, era de novo a Nancy levemente arredondada que se deixava envolver voluptuosa pelos braços fortes e morenos do adorável Sr. Kinnear, e Leonardo, mesmo agora uma massa informe, recuperara o rosto do Dr. Jordan com quem vim a descobrir que tinha laços sanguíneos obscuros. Desconfio que fosse seu tetraneto de um possível filho bastardo e cuja existência nunca foi mencionada, talvez de uma das filhas do Sr. Diretor, quem sabe? Que interessa! O passado está enterrado e, embora nunca morra, há segredos que se lhe juntam na cova e não temos como desenterrar. Se não há como saber, não merece a pena pensar no assunto.


Hoje sei porque sempre acreditei que casaria com um homem com o nome começado por J, a maçã revelou-o há muitas décadas, não calhou ser o Jeremiah, não foi o Dr. Jordan, não foi o James McDermott, claro, que bem o desejou, mas foi enforcado acusando-me dos atos que lhe foram imputados; houve o Jamie Walsh, com ele casei, mas ficou lá para trás sem qualquer brilho e por isso não conta; poderia agora ter sido o tetraneto do Dr. Jordan, que apesar de Leonardo era Jordão, que o Dr. Jordan também só o era de apelido, pois que o seu nome era Simon. Corta a maçã, Claire, corta a maçã, Alma. Nunca cortei nesta vida, mas agora sei de quem era a voz, querida Mary que nunca me abandonaste, amiga maior e melhor não tive nem quis, continuamos juntas.


As prisões do século XXI são um luxo, mas aborrecem-me de morte. Talvez a memória me atraiçoe, os anos suavizando o ardor das vergastadas que já não recebemos, mas agora as presas têm permissão para falar e são balofas, desinteressantes e insuportáveis. Apanhei a pena máxima e a prisão não é no meio do campo, nem posso ir trabalhar para casa do diretor, tenho de passar aqui os dias. Quase consigo sentir falta dos guardas e das guardas de outrora – porcos, imundos, ordinários; agora são elas, as presas e não tenho como fugir-lhes, estão em todo o lado, dividem a cela comigo, falam alto no refeitório e também só dizem ordinarices e velhacarias e fumam e fazem contrabando e algumas também tentam aproximações sexuais, metem-me nojo. Perdi as mordomias que em tempos tive e durante o julgamento ninguém quis saber da minha beleza, nem da minha educação, sou uma reles presidiária comum, com algumas vantagens, pois sou organizada e laboriosa e deixam-me ajudar na biblioteca da prisão e trabalhar na lavandaria, onde coso a roupa interminavelmente rasgada e rota de velhice e de brigas sem sentido que surgem do nada, só para aliviar as tensões de mulheres afastadas dos filhos e das famílias e sem os homens que são muitas vezes a causa que  as lá levou, umas mataram-nos outras tentaram, todas que já conheci tiveram motivos válidos menos eu, mas ninguém quis saber disso, ninguém se preocupou com as tareias que levavam dia após dia, com os murros, os pontapés, os filhos perdidos ainda nas barrigas devido aos maus-tratos, ninguém se preocupou se eram ameaçadas, perseguidas. As pessoas acreditam que as mulheres se emanciparam e ocupam um papel igual ao dos homens na sociedade de hoje, mas estão enganadas, está tudo na mesma, só que agora é mais bem disfarçado, existe a ilusão de que se emanciparam, só porque podem votar, ter amantes e trabalhar e, em termos relativos, ser ainda mais escravizadas e estigmatizadas do que eram antes.


O meu advogado tentou alegar insanidade temporária, fiquei furiosa, vê-se bem que ele nunca passou por um hospício, nunca lhe mediram a cabeça para perceber se era um assassino nato e incurável, ou apenas um homicida movido pela ganância. Eu já vivi isso tudo uma vez e não quero mais, ele disse, Os hospícios já não são o que eram, até o nome é diferente, mas eu sei bem como tudo mudou tão pouco, como as palavras mudaram e vestiram as verdades de outras cores e promessas, mas nada mudou, os humanos são os mesmos de sempre, vivemos com mais conforto, mas albergamos os sentimentos e pulsões de sempre e, quem pode, abusa como sempre sucedeu. Por isso, durante o julgamento, mostrei-me circunspecta, clara, lúcida, concisa – escolhi a prisão deliberadamente. Só não me recordo do que fiz, desta vez não me recordo mesmo. Quando a Nancy e o Sr. Kinnear foram assassinados, lembrava-me bem, mas fiz-me de esquecida e escapei à pena de morte, apesar de ter penado 29 anos, desta vez será menos, com o meu bom comportamento, saio dentro de uma década ou pouco mais e ainda vamos muito a tempo de prosseguir com as nossas vidas.


Já não quero ser advogada, continuo a fazer colchas, são um sucesso, tenho imensas encomendas das guardas que arranjam maneira de diminuir as minhas horas na lavandaria e assim disponho de mais tempo para as fazer. Não ganho muito, mas as refeições são melhoradas, nunca me faltam cigarros que negoceio com as outras reclusas em troca de me deixarem em paz e tenho algum dinheiro que vou juntando. É minha intenção continuar a fazer colchas por toda a vida, nada me dá mais prazer e calma.
Vou guardando alguns retalhos mais especiais para a minha própria colcha que farei com eles, a minha Árvore do Paraíso, adornada, na cercadura, por algumas serpentes entrançadas (não podem faltar) e de olhos bem pequeninos para que observem sem ser vistas e com muitas maçãs, vermelhas e vivas como sangue a pulsar e acrescentarei um recorte branco, disfarçado de nuvem, pela Mary, um da minha farda de prisioneira e outro de um estampado florido, que ficará na base do tronco, quais flores campestres de que a Nancy tanto gostava e bem no centro da Árvore irei acrescentar um quarto quadrado especial, preto, que foi do fato do Leonardo e ainda está manchado pelo sangue dele, será um olho no tronco da própria Árvore e irá unir-nos aos quatro indelevelmente. E vamos ficar assim os quatro, todos juntos para sempre.

Quando eu morrer, por favor, abram a janela.

Minha vida terminou duas vezes antes de findar.
Ainda falta saber
Se a imortalidade está a guardar
Um terceiro fôlego para mim
Tão grande, tão impossível de conceber
Como estes que duas vezes já foi a minha vida
Tudo o que do céu podemos saber é a despedida
E é tudo que do inferno precisamos ter.
Emily Dickinson – Traduzido pelo autor

 

Nota final: a história relatada no livro é baseada em factos. Grace Marks, nasceu na Irlanda e migrou para o Canadá ainda criança. Ficou órfã pouco depois e começou a servir como criada. Profundamente marcada pela morte precoce da sua primeira e única amiga, Amy, Grace aceitou o convite de Nancy Montgomery, governanta na casa do Sr. Thomas Kinnear, para trabalhar lá e aí conheceu James McDermott  e  Jamie Walsh. Nancy e o Sr.  Kinnear eram amantes e foram ambos assassinados em 23 de julho de 1843, supostamente por James e Grace, então com 16 anos. James foi condenado à morte e enforcado, Grace, em parte devido à sua idade e beleza invulgar, em parte devida à  suposta fraqueza do seu sexo, facilmente influenciável, foi condenada a prisão perpétua. Esteve internada por alguns anos num hospício e mais tarde cumpriu pena na penitenciária provincial de Kingston, em casa de cujo diretor trabalhou e onde foi longamente analisada por médicos, clérigos, entusiastas de espiritismo e outras personalidades respeitáveis que, no seu conjunto, acabaram por lhe conseguir obter o indulto em 1872. Supõe-se que depois disso, Grace terá contraído matrimónio com Jamie Walsh, que se sentia bastante culpado pelo testemunho prestado em tribunal contra ela, movido por ciúmes, pois estava apaixonado por ela. Nunca se soube o que se passou ao certo e o assunto dividiu a opinião pública durante o resto do século. Terá sido uma mulher perversa? Uma vítima forçada pelo verdadeiro assassino? Uma louca? Sofreria da, ainda desconhecida, esquizofrenia e teria múltiplas personalidades? A sua amiga Amy teria existido e morrido, ou seria fruto da sua imaginação? Terá convertido Nancy em mais uma das suas personalidades adquiridas? Nada sobre Grace Marks é definitivo, além da sua origem, envolvimento nos assassinatos e factos concretos; a mulher que foi, permanece um mistério. 

Considerei relevante o esclarecimento acima e espero ter conseguido fazer jus a Grace e a Margaret, mas desejo que o conto seja meritório por si mesmo.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Grupo 1.