EntreContos

Detox Literário.

A Queda (Bill Finger)

Após dez anos de trabalho, um maldito assalto, finalmente.

Howard sempre pensou que poderia muito bem acontecer, principalmente na cidade em que vivia. Não dá pra habitar Gotham City por muito tempo sem te roubarem, ou matarem, ou sequestrarem seus filhos, ou tudo ao mesmo tempo.

Mesmo assim, lá no fundo, nunca acreditou que aconteceria com ele, por algum estranho motivo. Talvez porque não havia sofrido algo semelhante antes, enquanto morava em Atlanta. Quem sabe isso tenha lhe feito crer em algum tipo de sorte. Já devia saber a essa altura, no entanto, que a sorte te abandona quando você se muda para uma cidade como Gotham. Ela Te deixa na porta e diz “foi bom enquanto durou, parceiro, mas tenho meus próprios sonhos pra perseguir”.

Agora, era arrastado a contragosto por uma aberração e dois bandidinhos; um deles carregava uma maleta enorme nas mãos, o outro um trabuco que cutucava a lombar de Howard. “Se esse negócio disparar, nunca mais vou poder andar. Isso se sobreviver”, pensou o vigia noturno. Suava frio naquele momento. É, a sorte lhe dera um pé na bunda, mesmo.

O terceiro membro da festa era o doido conhecido como “Duas-Caras”. O motivo do apelido é bem evidente. Se não fosse a situação tensa em que estava metido, Howard já teria vomitado só de olhar para o rosto daquele sujeito. Mas estava tão nervoso que seu corpo resolveu lhe dar uma trégua, graças a deus.

Os quatro andavam pelo corredor escuro do banco, rumo ao maior cofre do local. O vigia se perguntava como diabos aqueles três pretendiam abrir a enorme porta metálica. Que tipo de equipamento eles tinham naquela maleta? Porque uma coisa era certa: ele não tinha chave, combinação, nada. Serviria apenas de GPS para os bandidos. E, se eles quisessem mais, ele estaria mais do que frito. Disso não tinha dúvidas.

Chegaram ao objetivo. Uma sala enorme e escura. A lanterna trêmula de Howard iluminava a entrada do cofre

– Vou começar a abrir, chefe – Disse o da maleta.

– Não – Respondeu o líder – Antes, cuide do morcego.

Silêncio. 

Os dois capangas se olharam, tentando descobrir se algum deles havia entendido o que o chefe quis dizer. Essa parte não estava no script. As duas faces do chefão continuaram encarando a enorme porta metálica, entrada pra terra da vida fácil.

Começando a ficar bastante nervoso (mas provavelmente não tanto quanto Howard se sentia), o que portava a maleta jogou-a no chão e sacou sua pistola. Virava o rosto para todos os cantos da sala escura, como um gato seguindo um laser imaginário. Não sabia nem se havia algo ali para servir de alvo, mas, se houvesse, poderia vir de qualquer direção.

Apesar de toda a cautela, uma espécie de estrela ninja acertou em cheio a mão do homem. Seu grito ecoou pela sala, assim como o som da arma atingindo o chão. Tentando conter o sangramento com a camisa, se afastou até bater as costas numa parede, onde permaneceu, tremendo.

Segurando mais forte no ombro de Howard agora, e pressionando sua pistola contra a cabeça do vigia noturno, o segundo assaltante berrou, quase babando:

– Morcego, não se aproxima que eu tô com um refém aqui! Atiro mesmo! Não faz nenhum movimento brusco e nem pensa em jogar esses brinquedos aí! Eu sou rápido, hein!

Howard olhou de esguelha para Duas-Caras, que assistia a cena sem reação alguma.

Uma voz profunda saiu das sombras.

– Solte a arma. Não pedirei novamente. Você pode ser preso por tentativa de assalto ou, se preferir, por assassinato. Mas não vai me escapar A escolha é sua – Apesar de soar calmo, sua voz continha um tom de ameaça. Seu dono estava seguro de sua infalibilidade. Tão seguro que convenceu seu interlocutor.

Após um breve silêncio, em que os outros quase puderam ouvir as engrenagens de sua mente girando, o bandido fechou os olhos e sussurrou, derrotado: “está bem”. Deixou a pistola no chão e ergueu as mãos para cima. O outro capanga aproveitou e fez o mesmo. Howard pisou na arma mais próxima e, com um movimento rápido, a afastou do bando. Cauteloso, foi até a outra e a pegou. Estava com medo do chefe deles ter uma terceira, mas aquele sujeito parecia ter decidido passar de vilão para espectador da peça.

Quando tudo parecia sob controle, o morcego saiu das sombras, se dirigindo a Duas-Caras.

– Sua arma, Dent?

– Não trouxe uma – Respondeu. Batman o encarou por um segundo, escaneando sua linguagem corporal.

– Muito bem.

Sacou três pares de algemas do cinto, prendendo primeiro os dois capangas. Se aproximou do prato principal e disse:

– Precisa de homens mais confiáveis. Gordon me avisou ontem de seus planos.

Harvey Dent reagiu pela primeira vez na noite, de uma forma inesperada a todos ali: com um sorriso.

– Nem todos os planos – Respondeu.

Todos se assustaram com o movimento brusco do vilão, que, com os braços para cima, se jogou sobre Batman. Porém, não o estava atacando. 

Parecia estar tentando… beijá-lo. 

As algemas escorregaram das mãos do morcego e atingiram o chão.

Batman tentava se desvencilhar, mas obviamente havia sido pego de surpresa. Um selinho passou por suas defesas, tocando o canto de sua boca.

Enquanto isso, os três espectadores olhavam atônitos para a cena. Viam o herói que, antes sempre pronto para tudo, agora se surpreendia com o gesto impulsivo. Batman não estava acostumado com atos de carinho, muito menos vindos de um de seus mais antigos inimigos.

Após alguns momentos de “briga”, no entanto, o cavaleiro das trevas recuperou a compostura e, com um golpe de judô, agarrou seu oponente pelo colarinho, derrubando-o. 

Dent se levantou do chão, limpando os lábios  com as costas da mão.

– O que diabos significa isso, Duas-Caras? – Batman parecia recusar a intimidade dos dois, se dirigindo ao vilão agora por sua alcunha, ao invés do nome de batismo. Seria… nervosismo? A estupefação era sem dúvida real, e estampava no rosto do homem-morcego.

– Está na hora de lhe mostrar minha verdadeira face, a que venho escondendo há anos. Por favor, me aceite, Batman. Não sabe como foi difícil realizar esse ato de paixão. E sei que é recíproco. Saiba que… para certas decisões, não preciso jogar uma moeda.

Se aproximou aos poucos, ainda na esperança de ter convencido o antigo oponente.

Batman, no entanto, aproveitou a distância para desferir um soco no queixo do vilão. Duas-Caras desmaiou imediatamente.

– Você será examinado pelo time de toxicologia do departamento de polícia, Harvey – Disse Batman para o pretendente desacordado. O herói havia recuperado a seriedade, soando mais aliviado e seguro de si. Recuperou a algema perdida e prendeu Duas-Caras. Só então dirigiu-se ao segurança, cujo medo pela vida havia dado lugar à perplexidade em poucos minutos.

– Chame a polícia assim que eu sair daqui – Instruiu o homem-morcego.

Abriu uma das janelas da sala e fez menção de sair, mas antes, sem se virar, acrescentou:

– Não relate a ninguém o que aconteceu aqui.

 

A noite continuou agitada.

Espantalho sequestrou alguns empresários proeminentes e, por algum motivo, os levou ao zoológico da cidade. Lá chegando, encheu a todos com seu gás e riu enquanto tinham alucinações. Batman invadiu o local com sua máscara de gás, essencial para encontros com o vilão, e resgatou as vítimas.

Ao ser capturado, espantalho gritou “chega de ter medo de ser feliz!”, e tentou beijar o herói, assim como Duas-Caras.

Um pouco mais tarde, Senhor Frio tentou transformar a prefeitura em uma caverna de gelo. Diferente dos anteriores, ao ser derrotado o meliante apenas sugeriu suas intenções, resmungando sobre o “frio real da solidão”, e de como precisava de um pouco mais de calor humano. Batman o nocauteou, sem responder.

No entanto, uma pergunta destoava na mente do homem-morcego: o que estaria acontecendo com os vilões de sua cidade? Que espécie de cupido estaria à espreita, os enfeitiçando e influenciando com sintomas tão bizarros?

Mais um caso para o maior detetive do mundo. No entanto, não sabia por onde começar. Além disso, esse comportamento desviante o incomodava mais que os crimes habituais. Mas por que?

Dirigia o batmóvel pela cidade enquanto buscava uma causa para os acontecimentos. Que toxinas poderiam justificar tal conduta? Que novas indústrias químicas haviam acabado de se mudar para a cidade? Algum funcionário novo fora admitido em Arkham no último mês?

Decidiu retroceder suas memórias da noite, em busca de pistas. Seria a última tentativa, antes de se ver obrigado a iniciar a fase de interrogatórios.

Vários detalhes fugiam de sua mente. Lembrava-se apenas das capturas e do estranho comportamento dos criminosos. A tentativa de assalto ao banco, empreendida por Duas-Caras, era sua memória mais vívida. O bandido claramente quis ser pego para atrair Batman a uma cilada amorosa. Antes disso, no entanto: a luta com os capangas, a espera nas sombras. Howard pensando como nunca havia sofrido um assalto em 10 anos de trabalho.

…a mente de Bruce Wayne parou de repente. Como ele sabia o nome de Howard, quanto mais seus pensamentos? Se lembrava do acontecimento como uma narrativa em terceira pessoa. Uma narrativa em que ele mesmo aparecia, sendo protagonista e personagem ao mesmo tempo, ambos se confundindo. Como num sonho.

Sim, isso acontecia às vezes em seus sonhos. Sem dúvida já tivera alguns assim. Porém, nenhum tão realista quanto esse. Dificilmente, também, pensaria tanto durante um sonho.

No entanto, lembrou-se de uma ocasião parecida. Capturado e submetido a um aparato criado pelo Chapeleiro Louco, sonhara que era apenas Bruce Wayne, com uma vida comum ao lado de seus pais. Precisara duvidar da sua realidade para quebrar a ilusão e descobrir toda a verdade. Estaria agora numa situação semelhante?

Felizmente, seria fácil descobrir.

Parou o Batmóvel e procurou algo para ler na rua silenciosa, composta em sua maioria por prédios comerciais. O toldo de um restaurante foi suficiente para confirmar suas suspeitas: ao invés do nome do local, avistou um conjunto de letras embaralhadas, sem sentido nenhum. Pela natureza do cérebro humano, é impossível ler num sonho.

Solucionada a charada, restava uma coisa a fazer: acordar. Sacou sua pistola de gancho e subiu num prédio de altura adequada. De pé sobre o parapeito, olhou para o horizonte, apreciando o falso céu noturno por um último momento.

Mirou o asfalto e pulou.

 

Tudo tornou-se escuridão, até que vozes surgiram do vazio. Uma delas era inconfundível.

Batman sentia um capacete acoplado à sua cabeça, mas não se mexeu. Decidiu permanecer de olhos fechados, imóvel, esperando o momento mais oportuno para agir.

– Chefe, por que a gente não tira a máscara dele pra descobrir quem ele é? Daí a gente fode com a vida dele!

– Acho que ele não gostaria que isso acontecesse, não é mesmo? Além disso, é nosso convidado e o objetivo aqui é ajudá-lo a sonhar, não a ter um pesadelo. Por que não arruína a vida do seu amiguinho ali, o Doug? Ele parece que precisa de um pouco de agitação, sentado quieto há tanto tempo.

– Hã? – Uma expressão de espanto soou mais longe que as outras vozes.

– Chefe, estou dizendo que a gente poderia dar um trato no Batman, seu inimigo de décadas, aqui e agora. Acabar com ele! Se vingar legal! A gente deu sorte de pegá-lo, e não pode deixar essa escapar!

– Não, não, não… Agora gostei mais da outra ideia. Vai lá. Mostra pro Doug quem é que manda. Mostra o que você queria fazer com o Batman. Agora.

Um revólver fez click..

– Chefe…

Uma porta foi aberta. Doug deve ter fugido. Batman ouviu um disparo e sons de corrida. O outro capanga provavelmente foi atrás. 

O palhaço do crime riu, satisfeito. Em seguida, aproximou-se do corpo do cavaleiro das trevas.

– Agora somos só nós dois nesse armazém, querido. Que deliciosos sonhos molhados deve estar tendo, hein? Cortesia do seu velho amigo aqui. Que vontade de me juntar a você… – Sentou-se na mesa, ao lado de Batman, e começou a alisar os músculos de seu peitoral.

– Hmm… Se quiser que eu pare, avise – Esperou por alguns segundos, como se em sinal de respeito por um morto – Quem cala, consente – E gargalhou.

Num movimento rápido, Batman se desprendeu do capacete e desferiu um soco no nariz do criminoso. Sangue explodiu dos orifícios nasais.

– Dessa vez suas brincadeiras foram longe demais, palhaço. De matança a libertinagem sexual. Como inseriu aquelas ideias específicas em meu sonho?

Mais sério que o usual, talvez pela dor que sentia, Coringa respondeu, com a voz fraca, enquanto segurava o nariz quebrado:

– O sonho foi todo seu…

“Claramente mentira”, pensou o cavaleiro das trevas. Depois investigaria a máquina. Era hora de imobilizar seu maior inimigo e enviá-lo para o asilo Arkham, mais uma vez.

Após capturar os outros dois comparsas (ambos usando maquiagem mal-feita de palhaço e brigando do lado de fora do galpão), retornou e inspecionou o aparato. 

Era o mesmo ao qual o Chapeleiro o prendera anos atrás. Provavelmente furtado do Museu do Crime de Gotham. 

De fato não era capaz de construir sonhos, apenas induzia a vítima a sonhar. 

O herói decidiu pensar sobre tudo depois. Tivera uma longa noite.

.

 

Já era quase de manhã. Exausto, Batman voltou para casa, a fim de vestir novamente a identidade de Bruce Wayne e ter um dia inteiro de sono profundo.

Sentou-se à mesa de sua cozinha. Era hora de comer bolachas e tomar leite antes de partir para a cama. Alfred, como de praxe, preparava a refeição.

– Noite agitada, patrão Bruce?

– Você nem imagina, Alfred. Das mais estranhas, aliás. Depois lhe contarei os detalhes, se tiver estômago pra isso.

– Soa cansado! Quer que eu prepare a jacuzzi para que possa aliviar as tensões antes de dormir, patrão? Sabe como sempre lhe ajuda…

– Não, Alfred, obrigado. Não será necessário.

– Tem certeza? Comprei um óleo novo para massagens, posso aplicar em seu corpo, sem problema nenhum. Na verdade, seria um prazer.

O mordomo ostentava um sorriso malandro no rosto, expressão que Bruce nunca o vira fazer antes. 

Incrédulo, o cavaleiro das trevas colocou as mãos na cabeça, duvidando novamente da realidade que experimentava. Àquela altura, questionava até mesmo a própria sanidade.

Que tipo de deus trapaceiro se apoderou de minha vida?, pensou. Por favor, me faça acordar. Acabe com esse sonho!

Não tinha mais forças para raciocinar, nem resistir. O mestre da força de vontade enfim cedeu à sua queda.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Grupo 2.