EntreContos

Detox Literário.

Admirável Chip Novo (Wesley B.)

O chip era programado para interagir com os diversos ambientes e ocasiões em que os cidadãos se encontram no dia-a-dia.

Emanuel andava a passos largos pela avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro. Entre os altos prédios, torres espelhadas que lhe doíam o pescoço para encarar o seu cume, ele lembrava do irmão, que era engenheiro e entusiasta do Novo Partido.

Uma grande obra impactava a vida e o trabalho na cidade, as ruas estavam cheias de trabalhadores, indo de lá pra cá, descansando nos bares, almoçando nas calçadas. O barulho das máquinas que eram operadas na Saúde se faziam ouvir dali, da Igreja da Candelária, e as bombas faziam o chão estremecer de tempos em tempos.

Ao atravessar a larga Avenida Presidente Novo, recém rebatizada, uma das explosões fez o chão tremer, fazendo uma sensação percorrer todo o corpo de Emanuel. Uma sensação boa, de paz. Olhou para as pessoas que iam e voltavam na mesma faixa de pedestres que ele, todos tinham um sorriso nos lábios — todos sentiram o mesmo que ele.

Não conteve-se e teve que olhar para o antigo Morro da Providência, em sua antiga imponência, derrotado pouco a pouco pelos explosivos, carregado para longe pelos caminhões que circulavam sem parar pela cidade, deixando o trânsito um caos — mas Emanuel pensava que tal obra era um avanço importante, seu próprio irmão estava lá, coordenando o que seria a primeira das Grandes Obras da Nova Grande Reforma da Cidade do Rio de Janeiro, que englobava, Moisés tinha dito, a planificação das áreas centrais da cidade. O que englobava Centro, Zona Sul, Barra, e áreas da Zona Norte.

O projeto foi aceito de bom grado pela maioria da população, mas a oposição ainda lutava — uma minoria barulhenta. O mero pensamento fez Emanuel sentir a bile lhe subindo a garganta.

Chegou ao prédio em que trabalhava, a sede do Novo Partido no Estado, um prédio de esquina, construído na última década. Destravou a catraca que permitia acesso aos elevadores ao encostar o seu braço no sensor. Subiu até o quinquagésimo andar, o mais alto antes do terraço, onde trabalhava como Jornalista.

Bom dia — disse, sorrindo a seu colega, Raquel, uma das poucas mulheres que circulavam pelo prédio. Era uma mulher de sorriso fácil, e capaz de um ódio ainda mais natural, o que a tornava respeitável para ele.

Olá, Emanuel — Ela desviou o olhar compenetrado da tela do computador por um momento, — Paz — Ela o saudou.

Paz — Ele respondeu. — Alguma novidade?

Infelizmente, sim — Ela bufou. — A oposição entrou em conflito com as tropas do Novo Exército na baixada fluminense hoje. Sequestraram inocentes.

Emanuel sentiu o sangue ferver. 

Sentou-se em sua cadeira e ligou seu monitor. 

Apesar de ambos serem jornalistas, falavam com públicos diferentes, portanto, Emanuel deveria escrever as notícias oficiais de forma que atingisse o público. Suas mensagens eram sempre cheias de frases de efeito e figuras que representavam sentimentos ou ações. 

O chip, que os cidadãos usavam na mão ou no antebraço, recebia os estímulos que ele escolhia, ao receberem as mensagens. Eram estímulos hormonais, em sua maioria. Emanuel considerava uma grande responsabilidade, controlar as reações químicas que aconteceriam dentro de diversos membros da sociedade — aqueles que confiavam no Novo como ele, que sabiam como antes era ruim. E, para aqueles que não se lembravam, pois já haviam nascido no Novo, seu trabalho também era informá-los das duras realidades enfrentadas no passado, antes que o Novo tomasse o poder e transformasse o Brasil na maior potência mundial.

Ele mesmo possuía um chip, que era controlado por outro setor, não na sua cidade, mas na capital. Em breve iria para lá, encontrar-se com o Presidente Novo, para receber seu quinto prêmio de Melhor Jornalista.

Mas, agora, deveria se ater ao problema da oposição. 

Seu sangue ainda fervia de ódio ao pensar em suas ideias destorcidas, que eles tentavam espalhar desesperadamente antes de serem esmagados como formigas. Eles eram contra o uso do chip, buscavam ajuda internacional contra a suposta manipulação que o governo brasileiro infligia sobre sua população. Eram contra também o plano de planificação do Rio de Janeiro, falavam que o governo queria privar a população de sua identidade, de seus laços com a paisagem natural. Um bando de besteiras românticas e enganosas. O Brasil havia fechado suas fronteiras e sua comunicação com o mundo exterior por culpa de suas mentiras. 

Eles eram muito bons em enganar, pensava Emanuel.

Emanuel escreveu centenas de notícias naquele dia. Cada uma tinha em média 200 palavras. 

Elas eram enviadas em tempo real e, provavelmente, quando acabasse o expediente, ouviria as pessoas comentando sobre suas atualizações nos bares, nas lojas, no ônibus, sentiria-se orgulhoso por manter o espírito das pessoas em comunhão com os ideais do partido, com seu sonho de um Brasil livre das mentiras da oposição.

Quando o relógio chegou às 5 horas da tarde, Emanuel e sua colega pegaram o elevador juntos, conversando sobre as notícias mais relevantes do dia.

As notícias se resumiam à elogios à: reformas necessárias acontecendo em todos os setores da sociedade; comparações com tempos passados, demonstrando como o Novo era superior e estávamos, como Nação, na direção certa; divulgação das atrocidades cometidas pela oposição e seu pseudo exército contra cidadãos inocentes; piadas contadas pelo presidente que eram acompanhadas de rajadas de estímulos sensoriais através dos chips.

Às vezes, penso — disse Raquel, enquanto o elevador passava pelo vigésimo andar, — o que seria dese país sem o nosso trabalho. — Ela disse, sem sorrir, olhando para frente, e Emanuel ficou confuso com o que ela queria dizer, mas conteve-se em perguntar, porque haviam chegado ao Térreo, e um leve tremor agitou a caixa do elevador.

Dopamina foi liberada em sua corrente sanguínea e ele apenas andou em direção à saída daquele prédio, cegado pela luz do sol da tarde, laranja como uma abóbora. Raquel caminhou um direção e ele pegou a oposta, indo para o metrô da Candelária, voltando pelo caminho que fizera mais cedo.

A cidade continuava um caos. Caminhões por toda parte, barulhos agudos e graves, pessoas sujas de poeira, andando freneticamente em direção às estações de metrô, falando e rindo entre si.

Emanuel observava toda a gente, a massa que ele ajudava a controlar, enquanto andava junto dela e pegava o metrô.

Em alguns momentos, enquanto esperava ele que chegasse na estação, olhava fixamente para os trilhos — aqueles trilhos que estavam ali há tanto tempo, mesmo antes do Novo Partido florescer. Ele era apenas um menino, mas algumas memórias lhe vinham, distorcidas, embaçadas. Sentia de repente uma grande angústia, e imaginava-se pulando nos trilhos. Perguntava-se se doeria muito partir.

Mas, sempre, quando o metrô chegava, ele entrava, sentava-se e viajava até o Catete, onde morava num modesto apartamento.

Naquela noite, ao sair do metrô na estação, e, caminhar com sua lentidão característica por quinhentos metros até o seu endereço, e levantar o braço para validar o chip no sensor presente no portão, sentiu uma pressão na têmpora e então alguém agarrou seus braços para trás. Outra pessoa colocou um saco em sua cabeça e ele não pôde ver mais nada. Lutou, tentou chutar seus sequestradores.

Eu sei quem —  ele gritou, mas logo teve sua boca tampada e não pôde terminar a frase, ou pedir ajuda dos vizinhos, que estavam entretidos demais em seus apartamentos para ouvir o que se passava na rua.

Seu corpo foi arrastado para um lugar escuro — um carro, ele deduziu.

Tem certeza de que é ele? — uma voz feminina perguntou. Não parecia ser uma mulher madura, mas uma jovem.

Sim, eu segui esse por semanas, trabalha pro governo — O outro disse. A chave foi girada e o carro foi ligado. Emanuel logo notou que o carro não tinha piloto automático, como os novos carros. Até o cheiro da máquina, fedia à passado. Ele começou a suar, pensou no que poderia fazer para sair daquela situação. Suas mãos atadas, boca amordaçada e pés amarrados. Estava fudido.

Sentiu a aproximação de alguém, que o tocou e, então, uma dor pujante no braço, bem onde seu chip ficava, e então sentiu o seu sangue escorrendo por sua pele. Em vez de querer gritar, começou a perder os sentidos.

Eles voltaram, mais fortes do que antes e ele se debateu assim que acordou.

Calma, cara! Estamos tentando te ajudar! Esses chips são a razão de todo mundo estar maluco! — disse a garota. Então seu tom de voz ficou mais baixo, e ela disse para o motorista: — Isso, pega a Dutra.

Pra onde vocês estão me levando?!, Emanuel pensou, desesperado.

Ele sentia todo seu corpo banhado em suor. Em algum ponto da viagem, tiraram o saco da sua cabeça. Era a garota. Ela tinha um longo cabelo escuro e olhos verdes que brilhavam na escuridão do carro em movimento. 

Sua posição de poder sobre ele o fez estremecer, e tudo que ele queria era ter suas mãos livres para mostrar àqueles comunistas que sabia lutar.

Emanuel, acho que você já sabe quem nós somos, ou acha que sabe. Eu sei que você sabe que tudo que o Novo fala é mentira, não sabe? É tudo balela, inventada por gente como você. Você nega isso?

Ele apenas a olhou, confusão o dominando.

Balança a cabeça pra responder! — o motorista, um homem com tatuagens nos braços malhados e cabelo longo (o completo oposto de Emanuel) cuspiu as palavras.

Ele fez que não.

Ele sabia que seu trabalho era um trabalho criativo, em prol do bem maior; ele nunca havia pensado como mentira.

Você está sem chip, eu arranquei — a garota mostrou uma faca suja com o seu sangue. Ele olhou para baixo e viu a ferida, coberta com uma gaze porcamente. Quando ele olhou de novo para ela, ela segurava algo tão pequeno que parecia um grão de arroz. — Esse é o seu chip.

E então ela o jogou pela janela. 

Agora o chip de Emanuel estava caído na beira da estrada em algum ponto da Dutra, e ele nunca havia sentido emoções tão fortes em toda sua vida. Todo seu corpo suava, sua mente corria a mil. E tudo que ele sabia era que sua vida estava em perigo.

Nós não queremos te machucar. Nós só queremos que você veja a verdade, você entende? — Ela estalou a língua e olhou para o motorista. Emanuel não tirava os olhos de seu rosto, como para garantir que ela não fosse o machucar novamente.

Ele fez que sim.

Toda vez que vocês veem um programa de tv, falando bem do governo, eles liberam dopamina na corrente sanguínea. O cérebro humano fica viciado em dopamina. Eles geraram um exército de viciados em adorar o governo, basicamente. E você é parte disso, mas também é controlado, por aquele chip que nós tiramos de você.

Ele fez que sim.

Emanuel sabia de tudo aquilo, nada era novidade para ele, mas sem o chip sua percepção das coisas se tornara diferente, a realidade lhe doía cem vezes mais do que doeria se estivesse com o chip.

Quando pararam o carro, o desespero de estar longe de sua casa, de seu mundo, era mais que insuportável, mas ele fez o possível para parecer pacífico com aqueles vermes da oposição. Eles o levantaram e tiraram a mordaça, mas ele não tinha nada para dizer. Estava em algo que parecia um acampamento de guerra, no meio do nada, só o que via para todos os lados era mato e montanhas iluminadas pelo luar e o vento gelado soprava em seus ouvidos e arrepiava-o.

Naquele acampamento, ele teve contato com um grupo independente de fugitivos — todos tinham uma cicatriz no braço, onde um dia havia chips. Todos eles o olhavam com compaixão,

Estamos viajando para a base da oposição no interior de São Paulo; de lá, alguns vão para o Nordeste, — a menina começou a apresentá-lo às tendas dos rebeldes. 

Ele olhava com uma expressão vazia para aquilo, como se estivesse tendo uma experiência extracorpórea e sua mente se recusasse a acreditar.

(…)

Ele fugiu pela manhã. Enquanto os seus sequestradores dormiam, ele desatou os nós das mãos e pés e saiu correndo até a estrada, onde deu sinal desesperadamente até que um cidadão parasse e o levasse de volta à cidade.

A angústia crescia a cada momento que passava sem o chip, sem sua dopamina, mas não era só isso. Precisava voltar para sua função — mais do que nunca entendia sua importância no grande esquema das coisas. 

Disse para os policiais que havia se cortado, acidentalmente, e substituíram seu chip imediatamente por um provisório — logo um chip personalizado seria enviado pelo correio. 

O alívio que veio com a nova dose de dopamina o preencheu por completo, e ele pôde voltar no dia seguinte para o prédio do Partido com uma ótima ideia sobre as torturas que a oposição infligia em suas vítimas e sobre como o Novo era soberano.

 

P.S. Conto inspirado nas distopias 1984, de George Orwell, e na música Admirável chip novo, da banda brasileira Pitty.

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Informação

Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Grupo 2.