EntreContos

Detox Literário.

Não fazer nada é bom remédio (Castanha Dura)

Tarde da noite começava a caçada. Vasculhava memórias, gavetas, agendas. Não buscava um estranho. Nem um desaparecido. Ele estava morto. Eu vivia com um pé no passado, esquadrinhando vestígios de uma jornada que havia terminado. Esses ecos me ajudavam a passar os dias: 

O ombro batendo de propósito no meu, os olhos escuros me olhando de soslaio, de um modo que me fazia arrumar o lenço de seda nos ombros. Cabelo cor de terra, desalinhado, lábios suavemente curvados. Ele me conquistou com aquela cara de moleque. Um sorriso lindo, torto, cheio de promessas.

E se fez espaço para nós; dois espaços, um para os pés voláteis, outro para as palavras ternas. Ora, como foi impossível não amar, dizendo coisas bobas que açoitavam como plumas… Nós dois e a seriedade do divertir, compenetrados…

A rua acabou e somente uma porta se ofereceu: fiquei em um canto, fixada em posição, mãos vazias, luzes apagadas, os olhos girando (em direções opostas), soltando chispas. 

Em susto me vi livre-borboleta pregada no isopor. Não mais formava uma imagem de mim mesma, nem ângulos, moldes ou vertentes. Minha imagem quem a tinha eram os outros, mas amargurava-me a descoberta dos sorrisos fáceis. Maior surpresa ainda ao notar-me rindo também, abrindo guarda. Diante de mim, a acusação: os números pesados de minha idade. Possível transformar essa existência de ostra?

Poderia dizer que tudo havia mudado no dia da morte de André, mas tudo continuou mudando… Drástica, assustadora, incontrolavelmente.

 Era perturbador me verem tão vulnerável, a sensação de desapontar. 

— Mamãe, vamos conversar?

— Pfvr??? — vergonha.

— Passou bom tempo; merece mais…

— Ahn!!!

— Sabe que precisa dar um jeito nisso. Trouxe-lhe uma distração.

— É… que não seja comer lagartixa ou criar jacaré… — tentando fazer piadinha, as palavras soando como se eu mastigasse elástico de boca cheia. 

— Nada disso, mãe! — entregou-me uma caixinha preta. 

A princípio, fiquei perdida com as senhas. Sentia-me governada por combinações de letras e números que esquecia o tempo todo.  Depois usei o celular para pesquisar gente que não encontrava havia quase cinquenta anos. Isso me trouxe pequenos prazeres mesquinhos, como me alegrar ao ver que a garota mais bonita da escola se tornara feiosa e acinzentada ou que o campeão do basquete andava de bengala. 

Então, passei para as páginas de desconhecidos e a fantasiar sobre eles, a espiar anúncios sem intenção de comprar, clicar em fórmulas mágicas de rejuvenescimento. Repassava todos comentários de um vídeo viral ou sobre algum um crime. 

“Aqui tem internet?” — perguntava em qualquer lugar. Moderna e importante, declarava-me incapaz de passar um só dia desconectada. 

Porém, continuava sozinha na casa e não conseguia imaginar nenhuma vontade fora dos padrões que considerava normais; emoldurada pelo sistema, não era capaz de flutuar acima do racional. 

— Por que a senhora não se cadastra num site de namoro? — sugeriu a manicure. Era algo absurdo! Hã-hã, hã… por que não? 

No perfil, fui franca sobre a idade e ser autossuficiente financeiramente.  Tom direto: “Procuro um parceiro inteligente, com senso de humor, que goste de dançar e viajar. Sem joguinhos!” (Clone de André?) 

Troquei mensagens e telefonemas; cheguei a me encontrar com alguns para tomar café. No entanto, ou não faziam meu tipo ou não eram quem diziam ser. Então resolvi obedecer ao algoritmo do site:

 Nome misterioso (Combinação Perfeita), foto mostrando boa forma física, barba e cabelo grisalhos. Setenta e um anos. Gostava de Adriana Calcanhotto. Morava a três horas de distância. 

Pelo site, fiz contato com ele. Dois dias depois: “Obrigado pela mensagem. Sinto pela demora em responder, não venho aqui com frequência. Gostei do que vi sobre você. Adoraria conhecê-la.. E me deu um e-mail e um nome: Daniel. 

Quando voltei ao site, aquele perfil havia desaparecido. Então, escrevi o e-mail: “Seu perfil não está mais ativo; você o apagou? Pelo que me lembro, as informações que pôs lá me deixaram curiosa. Gostaria de saber mais sobre você“.

Recebi uma mensagem longa que esboçava uma vida em movimento, piadas sedutoras e uma descrição imaginária de nosso primeiro encontro: “…O restaurante é de madeira pintada de branco, simples, mas bem-cuidado, à beira de um lago…”

Trocamos alguns e-mails e passamos para o WhatsApp. Horas de conversas e mensagens. Ridículo? Encantei-me com sua voz musical, pelas frases curtas e pelo leve sotaque que não conseguia identificar.

Sem dúvidas, sabia usar as palavras: um questionário listando preferências — pratos, passatempos e esquisitices; o link de: “I Need You” (Preciso de você), com Marc Anthony. “Essa música tem uma mensagem — dizia ele — que transmite exatamente o que sinto por você“. Cliquei e escutei a balada de amor… 

Daniel não se parecia em nada com os homens que eu conhecera. Nem com André, cujas lembranças já não me incomodavam tanto.

Ninguém jamais teve tanta curiosidade a meu respeito. Abri-me com ele a respeito de meu casamento, filhos, netos e da convicção de que nada acontecia por acaso. 

Convidei-o para almoçar. Recusou. Viajaria para o Canadá naquela noite. A trabalho, foi a explicação, que veio junto do link para uma antiga canção de John Denver, sobre dois amantes separados pela distância. Não dissera antes, para não quebrar expectativas. Como eu adorava viajar, isso aumentou o enigma.

Respondi: “Uau… É como se o universo estivesse materializando meu parceiro perfeito. Orações atendidas, e, sim, parece mesmo que nos conhecemos há muito tempo“.

Trocamos minúcias cotidianas. E, misturadas a elas, declarações sedutoras: “Ontem à noite, em sonhos, vi você. O vento soprava seus cabelos e seus olhos refletiam a luz do sol“. Passei, também, a receber flores com bilhetes: “Minha vida não é mais a mesma depois de você. Amor, D“.

Essas atitudes lançavam-me um feitiço. “Você é de verdade? Será que vai aparecer algum dia e me tomar nos seus braços. Ou será apenas um sonho exótico… Se for, não quero acordar!” — confessei.

Daniel acabou mencionando pequenos problemas financeiros. Ele planejava voltar ao Brasil, quando terminasse o projeto: “Componentes estão presos na alfândega. A burocracia me impede de cobrir as taxas”.  Se eu pudesse ajudar, ele pagaria assim que retornasse. “Aposento depois disso”.

Eu tinha o dinheiro. Ele sabia. E também sabia que eu estava apaixonada… Transferi oito mil reais para a conta que ele indicou. Depois, cinco mil para subornar autoridades porque seu visto expirara. 

Finalmente, marcou o dia da viagem de volta. Comprei ingressos para nosso primeiro encontro, o show de Andrea Bocelli em São Paulo. E disse à família e a amigos que finalmente conheceriam meu namorado misterioso.

O dia marcado para o regresso veio e se foi sem Daniel. Pediu mil desculpas e mandou mais flores: surgiram crises e barreiras e embora tivesse recebido os valores referentes ao projeto (chegou a me enviar a imagem do cheque), não podia abrir uma conta bancária para compensá-lo. Mais dinheiro. E mais…

Eu comentava sua volta, sem nunca mencionar os empréstimos, consciente de que seria difícil entender a situação: já dera a ele mais de trinta mil. Daniel me pagaria, …é claro.

Se a dúvida se insinuava, eu olhava suas fotos, relia as mensagens. Assim, comecei a notar estranhezas: a ortografia do sobrenome que variava, mensagens repetidas ou desconexas. Uma ocasião, perguntei o que ele comera no jantar: “Frango frito”. Questionei: “Não detesta frango?”. Ele ria: “Amor, você me conhece melhor do que eu”.

Certo dia, pedi: “Mande uma selfie agora mesmo.” Recebi a foto: shorts e um banco ao sol. Era inverno no Canadá.

Como é que vou saber que você existe de verdade?” — repeti a pergunta, brincando. A mesma resposta: “Você me conhece melhor do que eu”. 

Assistia a tudo, impossibilitada de dirigir minha vida. Procurava, passando por cima das coisas, razões para confiar em Daniel. Meus pés revoltavam-se, não queriam seguir a direção que lhes imprimia, convulsos. Abandonada em qualquer lugar da casa, tinha a estranha capacidade de desprender-me do corpo, deixando a cabeça desligada (…lembrando que minha cabeça sempre foi minha morada): 

Ouvi um pássaro que cantava na mangueira, sem ser pardal. O sabor dessa melodia era doce-quente, quase um sabor de saudade. Foi um canto só, talvez eu nem tenha ouvido, mas estou certa de que houve o canto, uma emissão sonora, curta. Não de pardal, pois com eles estava acostumada e para mim não eram mais pássaros, não cantavam, e disputavam o convívio urbano, com todo o descaramento, o que é, por certo, uma virtude essencialmente humana…

Daniel marcou outra data para seu regresso. Em seguida se calou… e tentei segurar o pânico. Enviou uma mensagem três dias depois — algo sobre ser detido pela imigração e precisar de dinheiro. Enrolei.

Alguns dias depois, um acidente aéreo. Foi impossível não temer que estivesse a bordo. Finalmente, ele telefonou. Falamos apenas alguns momentos antes que a ligação caísse. Senti um grande alívio, mas também fiquei perturbada. 

Naquela semana, o cerco diário de telefonemas e conversas terminou e comecei a me perguntar até que ponto o conhecia? Então pus as fotos mandadas por ele no Google — uma página no Linkedln de um homem mais jovem, com nome desconhecido. 

Otária! — pensei, sacudindo a cabeça — Tonta!

Ao mesmo tempo que percebia a verdade, parte minha torcia para meu caso ser diferente, para que fosse a sortuda. Como se eu já não soubesse. Como se não conhecesse as regras: nunca se envolver — nunca permitir se importar. Apenas focar no divertimento, e nunca olhar para trás quando for hora de seguir em frente.

Continuei tentando manter contato. Queria forçá-lo a revelar algo que o incriminasse. Ele ousou responder: “Você é muito inocente” — tive de aceitar que Daniel nunca mostraria o verdadeiro rosto nem faria a confissão pela qual ansiava. E as conversas, jogadas fora, transmutaram-se em sem-sentido. Achei que fosse mais forte que isso…

Deletei mensagens e fotos do celular como se queimasse caixas de papel — essa mania de guardar o passado… Foi só ir mexendo. A custo tudo se consumiu e o coração ficou amaciado.

Então tossi — era a vida. Acordava em brusco, em pânico sempre; às vezes, sábia: 

Aviões passavam em formação, ao longe, no ecrã da janela — eram peixes ruidosos cortando as águas finas do ar. Um instante e se foram, sem o mistério do bojo e a intimidade dos passageiros.

O voo lento-pesado do pernilongo… Ufa! 

A árvore rósea da rua já está no nono ano da floração… 

Por que dar explicações? Fazer análises? Fujo à necessidade de dar nomes, de conceituar, de analisar e partir. Prefiro as coisas em bloco, doces à sensibilidade dos dentes que não perguntam e da boca que come. Cheiro os cheiros. Bebo e consumo.

Estão passando vozes na rua. Sobressaltei. Julguei identificá-las. Esperei que, materializadas, batessem à porta. Em vão. Espertas! Não querem ficar em minha órbita…  

Minha filha veio ontem ou foi na semana passada?

Os amores se perderam, históricos, distantes, apesar de alertas e algum preocupar-se. Foi só mais um belo rosto, como todos os outros antes dele… Ninguém jamais me pertenceu — e nunca pertencerá

Não me preparei nem um pouco para o fim vegetal. Egoísta, em constante vigília e defesa. Uma castanha dura — apenas a violência poderia me partir, mas não fiquei à mostra: parque despedaçado…

O menino quis conversar comigo. Puxou conversa, coitadinho. Não larguei a revista. Ele se esquivou, sem jeito. Espantei o sentimentalismo e prossegui, sem ninguém. Só com poucas coisas: curtindo dores impossíveis, os óculos grossos, aparições-relâmpagos pelos cantos, furtivas figuras, pedaços de noites. E virei a página…

Li, tensa:  

“Experimentos apontam que ratos idosos, ao receberem transfusões de bichinhos jovens, apresentaram melhora na memória, no olfato e na força física. A responsável pelos efeitos é a proteína GDF11 presente no sangue jovem. Em vez de incentivar que o planeta seja povoado por vampiros, os pesquisadores esperam aplicar a descoberta para tratar condições relacionadas com a idade”.

Falta-me tempo. Só tenho uma coisa a fazer…

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 1.