EntreContos

Detox Literário.

Envelhecer (Ana Li)

Sou uma carcaça. Tenho trezentos anos. Quem pensa ser eu algo sobrenatural, está se enganando. Os antigos viviam horrores, e ter essa idade não significa nada. Já vi de tudo, menos a morte. Provavelmente morrerei virgem e sã. A carapaça da idade não escondeu meu caráter. Ele foi alterado durante a vida. E continua sendo. A essência permanece quase intacta. São os malefícios que há degeneram um pouco. Meus olhos são reconhecidos pelos familiares, mesmo aqueles que sucumbiram. Eu, não. Jamais reconheço figuras. A lembrança edificou algo estranho nesse caminho. De coisas, já não lembro mais. Pessoas, também. O que é viver plenamente e anular vivências? Adoro palhaços. Devido ao sofrimento. Personagens cômicos têm a eficácia necessária à redenção da alma. Lógico. Pareço experiente, mas não sou. Já me apaixono por todas as gerações. Isso não me destrói, pois o meu ofício é a velhice. Os jornais já imprimiram infindos artigos meus sobre o assunto, e o palhaço de quinhentos anos agora mora comigo. É meu professor. Ensinou-me a arte de bater punheta em dias santos… Para uma velha isso é uma dádiva. Guardei o meu segredo a sete-chaves, porém a funcionabilidade da vagina segreda cabimentos inesperados. A siririca, em si, deve ser sempre voltada ao bem. Procuro evitar fantasiar a perversidade, e quando impossível, vou ao cemitério colher inspirações. Quando eu morrer. Estarei perto do silêncio. A lembrança da juventude diz que o melhor já passou. A complexidade exige capricho. Procuro amar o velho. Aperfeiçoo o tempo. Podemos de tudo um pouco. Beber, tomar drogas, trepar… Pena que o auge sexual diminui. Quero voltar a ser jovem. É mais legal. Tínhamos ótimas turmas. Agora, tudo é mais difícil. Sou mais solitária e a degeneração assusta. O que de pior pode ainda acontecer? Enxergar menos? Ter mais algum obstáculo? Ficar caquética? Gostaria muito de educar crianças. Sempre escrevi para adultos como jornalista. Não tinha espaço na folhinha infantil. Acostumei aos anciãos. Dia cinco de setembro farei trezentos e um anos. Parabéns pra mim.  Vou fazer um bolo, colocar uma vela solitária e chorar sobre o passado. Não restou mais ninguém da minha família, e o fato de nunca ter tido filhos apressou o estado solitário. Quando me olho no espelho, vejo a mesma pessoa. Só que transformada. O reflexo me convida à morte. Luto pela vida. A voz dita à desdita. Canto tomando birita. Ele isola a alma na imagem bendita. Foco a mente nos verbos gozados. Onomatopeias, puns e princesas. Na outra vida serei a Gal Costa dos enforcados, a dama do lotação do rosto corado, a dama de um vagabundo famoso, o brócolis, o alho e o cheiroso. Ordeno a piada. Ela vem de farda. Cruel e violenta. Sei disso. E me aplico. A fidelidade é capaz de um livramento valioso. Ensino capachos, peixes e despachos. Cobro pela verdade. Prosperidade. Ressuscito a igualdade. Serafins, querubins, anjos, arcanjos, potestades, principados e impérios modelam a hierarquia simplíssima. Terei asas. Não abrirei outro parágrafo. Sou o cinema e o talco. A alegoria e o mendigo descalço. Pago pela alegria e forneço o inusitado. Tenho culpas e sou de todas as religiões. Faço macumbas gritando sobre o mármore nu. Comungo em uma ilha imaginária. De um futuro sem máculas. Procuro palavras difíceis. Seduzo através da santidade. Quero quinhentas palavras. Concedo a boa educação, este escrito, e a aventura acontece. Acendam os holofotes, liguem as câmeras. Venha contracenar comigo. Somos galinhas velhas e frangos apaixonados. Não botamos mais ovos. O certo é esquecer o medo da maldita, a morte. Fiz para ela uma trança. Ela veste a carapuça e desaparece senil. É louca e tem dois sexos. Prefere ser homem, mas é mulher. Foi jovem e trabalhou pra caralho. Evite cacarejar demais. A morte está a nos escutar. É sofrida. Lunar. Surgiu um ovo do espaço sideral. Talvez tenhamos morrido. Os trezentos e um ficaram guardados num baú. Quantos anos temos agora? Conte o número de cabides. Escolha um figurino. Faça um drink. Vou preparar a cocada… Para chegar a mil palavras deveria me oferecer a você, mas Deus não deixa. É ciumento. Disse que vamos rejuvenescer e brincaremos como crianças com outras crianças, e estas crianças serão os nossos próprios pais. Seremos o que desejamos ser. Não vai haver tristeza. Então, devo estar relando ao purgatório. Ainda preciso entender o inefável. Aliso minhas penas de galinha, e agora, ela bota um ovo. Choco o bendito. O tempo passa e ele se quebra. É o pinto. Os frangos dão assistência. Até a próxima cena não envelheceremos mais. O pinto é bonito. Talvez aprenda muito com ele. Vou chamá-lo de Toco. Surgiu do além. Provavelmente um anjo disfarçado. O fim de tudo isso não é o paraíso. É o éden. Um dos frangos foi realmente ao purgatório. Nós não. Continue a filmar. São quinhentos anos de glória merecida. Vamos festejar. Convide todos os amigos, as celebridades e os palhaços. Ponha a pamonha no fogo, acenda a fogueira que eu preparo os andrajos. Convide o moço pobre, a tia dele, o Papa e o corno. Afinal ele é filho de Deus. Conte até três e enfie a pica no bolo. É cenário. Coma a atriz e não esqueça o suborno. Afinal a ficção não descarta nada. Até a próxima parte. O que seria isso? Eu arrisco –Serão os mistérios gozosos…

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 2.