EntreContos

Detox Literário.

Cansaço (Gastão Lopes)

Parei de ir à missa – disse. Num tom de voz baixo como se temesse ouvir-se.  O amigo estranhou: 

– Por causa daquilo? 

– Exatamente, por causa daquilo.  

– Está exagerando, homem. Deixe de escrúpulos.

– Não. Preciso de um tempo. Conectar com Deus de novo. 

– Mas fora da igreja? Dos ritos? Dos sacramentos? Não lhe parece contraditório isso?

– É contraditório. Os caminhos da transcendência às vezes passam pelo paradoxo – emendou.

Dias atrás, sentara no banco da praça exausto. Cansado de resistir a tanta insensatez. Algo se quebrara. Seu filho, por exemplo, não fazia ideia a quanto andava. No último encontro, precisou olhar com atenção, ouvir generosamente seus relatos para se convencer. 

Meu filho… – disse. 

– Pai? Entendeu o que eu falei. 

– Entendi. 

Na verdade, não. Em alguns momentos, chegou a cismar de si mesmo. De todos a sua volta. O que acontecera de tão ilógico a ponto de se rasgar o véu desse jeito. Era incapaz de responder. 

Vivera numa bolha religiosa. Projetando verdades e sonhos. Acreditava ter ao seu lado semelhantes. E mesmo em seus pecados e dores, intuía erroneamente contar com o olhar fraterno do outro. Esse, afinal, sempre fora o seu grande projeto interior: compreender.     

– Pai, precisamos admitir que estamos numa nova situação. Então, requer nova forma de atuar.   

– Sim, claro – preferindo calar-se. Fingir concordar passou a ser o seu mantra. Nova forma de calar.   

Dias mais atrás ainda, lembrava-se, conversavam animadamente falando sobre o Fla x Flu e demais notícias irrelevantes que fazem pai e filho ser o momento presente. 

E agora. 

Não o reconheço mais, pensou. Arriscaria dizer que desconhecia seu filho na amorosa decepção de um zeloso pai. Jamais levantaria a mão pra você, meu filho. Nunca lhe dei uma surra sequer – voltou a pensar.  

Preferiu o afastamento. E, depois dele – do próprio filho – depois dele, o primo, a irmã mais nova e a sobrinha que estuda em Oxford. Ligavam, não atendia. Mensagem, respondia educado, porém distante.   

– Melhor assim. Como sabe, vivi numa bolha religiosa. Acreditei, como Jonas, que a barriga da baleia era o mundo e tudo o que havia dentro dela, a razão da existência. Não é fácil, amigo, ser cuspido de proteção ilusória para cair nas areias de Nínive, da vida real… 

– Vai continuar assim? 

– Assim, como. 

– Sem rituais, sem imagens.

Preciso confessar – disse. 

Mas não quero, pensou.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 2.