EntreContos

Detox Literário.

A Onça do Sertão – versão estendida – Conto (Rafael Penha)

Era tarde, o sol batia forte na casa de tolerância da pequena cidade no interior do Pernambuco, pouco maior que um vilarejo. Gritaria e correria se ouviam pelas ruas.

– Vamu embora daqui, homi! Isso não é lugar decente pruma família – A mulher tentava proteger a criança em seu colo, incomodada com as moças de fino-trato que habitavam o estabelecimento.

– Já te falei que não tem jeito, mulé.  – O marido respondeu – O bando de Virgulino Ferreira tá por aí. Dizem que eles não atacam os bordéis das cidade. A gente tem que ficar aqui até eles irem embora – o homem falava sem muita convicção, olhando preocupado para o garoto aninhado nos braços da mãe.

– E de onde tu tirou isso? – retrucou a esposa, indignada.

No lugar da resposta, a porta do bordel se escancarou num baque e três homens entraram no recinto. Trajavam chapéus de couro com as abas torcidas para cima, moedas lhes ornavam a fronte e a farda marrom lhes descia do pescoço aos pés. Cada um trazia cintas de munição que lhes faziam um “X” no peito: Cangaceiros.

Severos, os homens estudaram cada pessoa e canto do andar térreo, os trabucos nas mãos, prontos para a ação. Um deles deu um passo adiante, o rosto era jovem mas castigado pelo sol, como o da maioria por ali, mas ainda assim, era bonito. Possuía um queixo quadrado e uma mandíbula possante, os cabelos loiros brilhavam com a luz do sol que lhe batia às costas.

– Vocês bem sabem que nóis num é de matar gente do povo – ele fez uma pausa – Era só pagar o resgate e tudo ficava bem, mas parece que o prefeito daqui num se importa com a vida d’ocês. Nós num é de matar o povo, mas uma lição tem que ser ensinada!

– Faz isso não, seu Corisco… – um velho choramingou.

Súbito, o jovem puxou o rifle que pendia na bandoleira e alvejou o velho que ousara lhe dirigir a palavra. Enquanto o corpo do idoso tombava, um verdadeiro massacre começou. Pessoas corriam tontas como baratas enquanto os cangaceiros iam abatendo uma a uma, sem distinguir cor, sexo ou idade.

– Corre lá pra cima meu filho, e se esconde! – Gritou a mãe para o menino segundos antes de receber um balaço nas costas, que a levou ao chão com um grito. O garoto congelou sem entender, olhando a mãe tombar. O grito do pai o despertou: -VAI!!! – o homem o empurrou escada acima antes de também ser abatido.

O garoto subiu as escadas correndo entre mulheres seminuas que também fugiam naquela direção, mas o cangaceiro os viu. Tinha suas ordens. Implacável, o jovem deixou o resto de seus cabras terminando o trabalho ali e subiu as escadas atrás dos fugitivos. 

O menino chegou ao segundo andar, correu pelo corredor e entrou por uma porta entreaberta, se deparando com uma mulher com os seios desnudos, sentada numa cama.

– Se esconde aqui embaixo, rápido garoto! – ela o puxou pela roupa, empurrando-o para debaixo da cama. No corredor, o facínora se aproximava deixando uma trilha sinistra de súplicas, xingamentos, tiros e gritos.

Pela porta que o garoto entrou surgiu o assassino, o rifle fumegava na mãos e seus olhos se cravaram na nova vítima. Mas a mulher, marota, levou as mãos aos seios pesados acariciando-os, e abriu as pernas para o cangaceiro, convidando-o a conhecer o que tinha no meio.

O assassino, apesar de cruel, não era de ferro, e colocando o fuzil de lado, rapidamente tirou as calças avançando para a mulher, que o esperava com os braços abertos.

Abrigado embaixo da cama, o menino ouvia sons guturais e gemidos, enquanto a cama pulava. Ele teve vontade de sair do esconderijo, mas ouviu a voz da mulher:

– Ah meu menino, bem aí, bem aí, fica aí. Eu vou cuidar bem de você. Isso, isso, não sai daí. Eu vou cuidar de você.

O cangaceiro gorgolejava em resposta, sem pescar que as palavras não eram para ele, mas o menino, que acabava de deixar de sê-lo, pescou. E obedeceu.

Situado na rua principal da pequena Barra dos Mendes (que contava com meia dúzia de lojas), o bar de Dona Laurinda era um refúgio certo para quem queria bebericar uma cachacinha ou saborear um sarapatel caprichado. 

O local contava com algumas cadeiras e mesas de madeira espalhadas pelo cômodo pequeno e no fundo um balcão e uma estante cheios de cachaças, aguardentes e cervejas. Havia também ovos em conserva, salsichas e doces para as raras crianças que conseguiam juntar alguns réis para obtê-los.

Uma menina magra e de longos cabelos escuros entrou pela porta da frente do bar com uma cumbuca de água na cabeça. Ela ignorou os homens bebendo, rindo e discutindo no salão e foi até o balcão onde Dona Laurinda a aguardava. Quando a jovem passou a cumbuca para as mãos da avó, a luz do sol que penetrava o bar pela porta foi eclipsada por quatro sombras.

Rústicos e silenciosos, os recém-chegados trajavam o uniforme típico marrom, ornado e adornado com armas e enfeites. De flores de lis a punhais. O som dos embornais cheios de água e farinha à esquerda se somava ao som das moedas que pendiam de sacos a direita, criando um cômico chacoalhar. Mas apesar das figuras parecerem pitorescas à vista dos incautos, ninguém no bar riu. Um silêncio sepulcral baixou no estabelecimento. Todos pararam suas atividades no meio, fosse o que estivessem fazendo. 

Os cangaceiros fitaram cada pessoa visível e se dirigiram para uma mesa vazia. Para o povo de Barra dos Mendes, a presença dos cangaceiros ali não era novidade, todos sabiam que o bando de Corisco estava pela vizinhança, mas isso não queria dizer que os tratariam com menos cerimônia ou deferência.

 Ocorreu que numa mesa onde dois caboclos bebiam, um deles não conhecia as regras de boa educação para com os guerreiros insurgentes, ou estava bêbado demais para lembrar-se. Fato é que o homem os ignorou e deu um gole na sua pinga. Porém, quando desceu o copo de volta à mesa, ouviu-se um estampido alto e o copo em sua mão explodiu em mil estilhaços, espirrando álcool pra todo lado.

O cangaceiro que parecia o líder apontava a pistola ainda fumegante para o homem. 

– Tu tá doido, Homi? Não sabe que na presença de um cangaceiro, tu tens que baixar a cabeça e esperar o cabra se sentar?

– Me desculpa, seu Zepelim, me desculpa! – o homem instantaneamente ficara sóbrio.

– Oxe! Que falta de educação! Mas hoje passa.

 Os cangaceiros exclamaram indignados, mas seguiram seu chefe sem fazer mal ao homem. O grupo seguiu até sua mesa, quando o cangaceiro nomeado como Zepelim bateu os olhos na menina, estática no balcão. Ele se aproximou dela, avaliando-a de cima a baixo. Seus seios eram minúsculos, de infante, mas já se atreviam a se pronunciar sob o tecido. O cangaceiro ergueu uma das madeixas da menina para cheirar-lhe o pescoço, ao que a menina virou o rosto, aterrorizada.

– Quantos anos tem sua neta, Dona Laurinda? 

A dona do bar respondeu gaguejando: – Treze anos, seu Zepelim.

– E ela trabalha bem?

A velha engoliu em seco:

– Q… Que nada, meu sinhô … essa aí é mole demais.

O cangaceiro lhe deu um sorriso maroto e apalpou as nádegas da jovem, fazendo-a pular num grito. Seus comparsas gargalharam.

– Pois tá decidido! Vou levar essa menina, dona Laurinda! Qual o nome dela?

– Pelo amor de Deus, meu sinhô…., ela é só uma criança, a única neta que eu tenho. Ela me ajuda! Num faz isso não…

– O nome? – repetiu Zepelim em tom ameaçador.

A velha respondeu.

– Pois muito bem, tu vens comigo. Ando precisado de uma esposa – Zepelim a segurou pelo braço com firmeza.

– E pode descer uma branquinha aí, dona Laurinda! – Berrou outro cangaceiro.

Nesse instante, uma tosse rouca e contínua encheu o ar do local. A tosse sobrepujou a risadaria dos cangaceiros, chamando sua atenção, enquanto os poucos clientes arregalavam os olhos de medo pelo homem que interrompia a festa dos cabras.

Zepelim se virou e viu o homem que tossia. Era um rapaz de não mais de 25 anos. A barba por fazer era a única coisa que se divisava por baixo do chapéu de aba larga, sua vestimenta era toda cor de areia e um par de luvas de couro repousava em sua mesa, junto à garrafa de aguardente.

– Algum problema aí, ô mal-educado?

– Tenho sim… – respondeu o homem erguendo o rosto para encarar os cangaceiros – as vezes essa branquinha não me desce bem pela garganta, sabe? Deve ser a secura do ar, mas a gente bebe mesmo assim né… – Os cangaceiros olhavam o estranho tentando acompanhar sua fala. Ele continuou:

– Além disso, eu acho que vocês estão quebrando as regras deste estabelecimento. Seria de bom tom que pagassem uma cachaça nova pro homi ali – e apontou com o queixo para o caboclo que teve o copo alvejado – pedissem desculpas à dona Laurinda e à neta dela, fossem embora e não voltassem mais.  

O silêncio no bar agora tornou-se absoluto e envolto a uma atmosfera de tensão ante a arrogância e loucura do homem. Os cangaceiros estavam perplexos diante de tanta ousadia. Após alguns segundos de espanto, Zepelim colocou o demônio na cara e foi até o sujeito, seguido dos seus:

– Mas que cabra folgado!!  Tá querendo morrer, rapaz? Quem tu pensas que é? Corisco? O diabo do Onça Parda, ou talvez Lampião em pessoa?

Interpelado, o homem ignorou o cangaceiro e, sem pressa, sorveu mais um gole de sua aguardente. Em seguida, repousou o copo na mesa, deixando os bandidos ainda mais furiosos.

Zepelim puxou o enorme facão da bainha – Pois vou cortar tua mão fora, pra tu aprender boas maneiras. 

O cangaceiro desceu o facão velozmente contra o pulso do homem, estendido na mesa, mas o alvo se moveu alguns centímetros, suficiente apenas para deixar a lâmina cravar-se na a madeira crua. Um movimento claramente calculado. 

Naquele momento, despercebida pelos cangaceiros, a mão esquerda do sujeito subiu segurando seu próprio facão e, num golpe veloz como um relâmpago, amputou a mão de Zepelim, que ainda segurava seu facão fincado na mesa.

Foi uma confusão. Zepelim berrou agarrando o coto sangrento, assustando seus cabras por alguns segundos dando tempo ao estranho, pois quando levaram as mãos às armas, este já empunhava seu revólver e, com quatro tiros precisos, derrubou os quatro cangaceiros.

A pessoas no bar ainda permaneciam estarrecidas, enquanto o único cangaceiro sobrevivente se arrastava pra fora.

O executor se levantou e, tranquilamente, o seguiu. 

– Parece que não acertei nada vital nesse aqui… má pontaria da minha parte.

Já na entrada do bar, o sujeito se agachou ao lado do cangaceiro ferido, um rapaz de no máximo dezessete anos.

– Garoto, tu vais me fazer dois favores: Tu vais juntar tuas coisas, abandonar o cangaço e voltar pra casa da tua família.

 O rapaz segurava o ombro, que sangrava, e chorou:

– Eu não posso! Capitão Corisco me mata se eu fugir.

– Isso me leva ao outro favor: Antes tu vais até Corisco e vai dizer a ele o que aconteceu aqui.

– Po.. pode deixar! E não vou dar um pio sobre quem fez!

O homem colocou seu revólver no queixo do garoto: – Se tu não disser quem fez, ainda hoje te mando pro colo do diabo!

 –  Mas eu nem sei seu nome, meu sinhô! – suplicou o garoto.

O homem colocou o revólver no coldre e respondeu: – Eu tenho muitos nomes, mas tu podes me chamar de Tião Onça Parda.

Ante aquele nome, o garoto arregalou os olhos, aterrorizado.

– O Suçuarana?!

– Esse também serve. Agora vai.

O garoto se levantou como pôde, e partiu o mais rápido que seu ferimento permitia enquanto Tião Onça Parda voltou pra dentro do bar.

Os homens remanescentes, se encolheram quando ele passou ignorando os corpos, e falaram baixo:

– Tu ouviu o nome dele? É o Suçuarana! A Onça do sertão!

–  Tião Onça Parda, o matador de cangaceiros? Eu achava que ele estava pelas bandas do Sergipe!

– Eu também, mas olha o facão dele ali na mesa. Dizem que o cabo é feito do osso do primeiro cangaceiro que matou…

Enquanto os homens cochichavam, o pistoleiro colocou mais aguardente no copo e bebeu de um gole só, como um prêmio pelo trabalho feito, ou talvez, como penitência. Os homens no canto continuavam a cochichar: 

– Será que o coronel contratou ele pra acabar com o bando de Corisco?

– Que nada! O coronel tá bancando Corisco. Tá dando comida, água e munição pro bando. O Onça vai é matar ele também.

Enquanto isso, dona Laurinda, a proprietária do bar, choramingava:

– O que tu fez, homi? O que tu fez?  Agora o bando de Corisco todo vai vir pra cá!

– Eu tô contando com isso – respondeu o pistoleiro – E acho melhor todo mundo ir embora, antes que eles cheguem.

Ninguém esperou segundo aviso, e quando Laurinda partia com sua neta, a menina deu um beijo na bochecha do pistoleiro. Ele acariciou o local, olhando no fundo dos olhos castanhos da jovem. A garota logo correu para a avó e, juntas, partiram.  O Onça quedou-se estático por mais alguns instantes no meio do bar, talvez lembrando de amores, amizades ou bons momentos há muito perdidos no passado. Ele olhou para o cabo de sua faca e o apertou com firmeza. Seus lábios tremeram e ele fechou os olhos, agradecendo não haver testemunha da lágrima que vertera. Porém, em alguns segundos se recompôs e seguiu para seu cavalo, que estava arreado próximo dali, precisava se preparar.

 

A tarde caiu sobre a pequena cidade, deserta como um cemitério. O vento uivava por entre as paredes sem ter a quem fustigar. O previsto ataque do bando de Corisco parecera afugentar até os cães vadios, pois não se via vivalma nos arredores do bar de dona Laurinda, que assomava da pequena escadaria com as portas escancaradas, prontas a receber os invasores, que não tardaram.

De uma esquina próxima, a ponta de um cano metálico brotou. O cano foi surgindo até revelar o portador do fuzil, um cangaceiro mal-encarado, mirando a arma para a entrada do bar. Atrás dele, outro apontava um fuzil semelhante. Pé-ante-pé, ambos chegaram à esquina onde tinham cobertura segura para fazer fogo contra a pequena construção.

Da rua adiante, outros cabras surgiram armados até os dentes, cautelosos como gato-do-mato. Em alguns instantes, o perímetro ao redor do Bar da Laurinda estava apinhado de cangaceiros sedentos por vingança.

Após alguns momentos de tenso silêncio, um mais corajoso gritou:

 –  Suçuarana! Saí daí, seu desgraçado! 

Logo, foi acompanhado por outro, encorajado pelo colega: – Se escondendo feito coruja do mato! Sai daí!

– Covarde! – emendou mais um.

Do bar nenhuma resposta veio, aumentando a moral dos homens, que fizeram coro às bravatas. Em pouco tempo, dispararam o primeiro tiro, acertando uma parede do estabelecimento.  Logo outros seguiram a esteira e uma saraivada de balas assolou o bar de Laurinda. Ante a ausência de contra-ataque, confiantes, os cangaceiros iam aos poucos se expondo, enquanto ainda atiravam contra o bar. Havia regozijo e soberba entre eles, gargalhavam e xingavam praguejando contra o Suçuarana que assassinara seus compadres e fugira covardemente.

As bravatas emudeceram quando um silvo baixo foi ouvido, seguido de um grito. Os cangaceiros, desordenados em frente ao bar, assistiram um de seus colegas largar o fuzil e levar as mãos ao peito, que sangrou copiosamente.  Tumulto e horror se instauraram. Os homens debandaram como baratas voando, enquanto ouviam mais tiros às costas.

Quando alcançaram seus abrigos, chocaram-se ao ver os corpos de dois companheiros estirados no chão. A fúria tomou conta. Uma verdadeira chuva de balas assolou o estabelecimento abrigo do pistoleiro. Após alguns minutos de tiroteio acirrado, os cangaceiros pararam para ver o estrago. Na pausa, de dentro do bar, Onça Parda respondeu, atingindo mais um dos bandidos no pescoço, dando-lhe uma morte terrível enquanto se engasgava com o próprio sangue em busca de ar, à plena vista dos colegas.

Desta vez, foi o medo que tomou conta. O maldito já havia matado três dos seus em poucos minutos de combate. De frente para o bar, eles não conseguiam enxergar o assassino lá dentro, muito menos atingi-lo, mas se animaram ao ver dois dos seus flanqueando o estabelecimento, buscando invadi-lo por uma janela lateral. Mas esta esperança foi varrida quando os dois atacantes foram alvejados pela janela que tencionavam entrar. O homem era o demônio!

– Fogo! Fogo! – gritou um deles, atirando contra a entrada escura do bar, seguido por todos os outros. Enquanto uns atiravam, outros recarregavam, de forma a jamais interromper o ataque. Assim, eles iam abandonando seus esconderijos e se aproximando da entrada do bar, de forma a não dar brecha para o Suçuarana responder. Uma vez que conseguissem invadir o local, ele estaria acabado.

O plano vinha dando certo, o tiroteio infernal prosseguia e o pistoleiro, acuado, não tinha espaço para responder e evitar a aproximação dos agressores. Isso lhes deu confiança e prosseguiram avançando. Quando os atacantes que iam na vanguarda chegaram aos pés da escada que dava para bar, percebendo uma pequena sombra na chapada luz do sol, um bem-aventurado entre eles ergueu os olhos. A visão o aterrorizou.

Sorrateiro, o Onça Parda estava no telhado e apontava num tripé uma temível metralhadora Hotchkiss contra os resolutos cangaceiros que estavam prestes a invadir seu refúgio.

O cangaceiro gritou alertando os outros e foi o primeiro alvejado, tendo o ombro direito explodido em sangue e carne. Terror! Chovia balas do céu, e o som era sinistro, como centenas de trovões ensurdecedores. Soavam como uma verdadeira praga de Deus punindo-os por seus pecados. O pistoleiro não conseguia ser tão preciso com a metralhadora quanto era com o fuzil e o revólver, mas o que perdia em precisão, ganhava em destruição. Não importava onde atingisse, o alvo era automaticamente eliminado. E assim, quando os cangaceiros conseguiram se abrigar e responder ao fogo, o assassino já havia se evadido do terraço, abandonando a metralhadora, não sem antes deixar uma trilha de onze cadáveres, prostrados aos pés do Bar da Laurinda.

Um clima de derrota desmoronou sobre os homens do cangaço. Alguns ainda ousava atirar a esmo contra o bar, mas sua coragem havia sido drenada ante o estrago feito pela Onça do Sertão.

– Num é a gente que tá caçando ele, é ele que tá caçando nós! – gritou um dos cabras.

– Ouvi dizer que ele já matou mais de cem cangaceiros, é o diabo em pessoa! – outro respondeu.

– Parece que ele mata cangaceiro até de graça – disse um terceiro – a gente devia é escapulir daqui porque os mocas também estão vindo aí. Ficar entre os macacos e o Onça Parda é pedir pra ver Jesus mais cedo!

Súbito, um tropel se ouviu à distância. Os cangaceiros viram um cavalo se aproximando pela rua. O cavaleiro estacou na frente do bar, entre o bando e o pistoleiro, ignorando o perigo. Era um homem alto, o chapéu-meia-lua de couro trazia a estrela de Israel e fazia sombra ao sol, uma figura imponente. Os cabelos, antes loiros, agora eram cor de bronze, dada a constante exposição ao sol. O olhar impiedoso somava-se à boca retorcida, num esgar de raiva. Nas mãos, ornadas por incontáveis anéis, o fuzil descansava, ansioso para matar.

– Capitão Corisco! – Todo o seu bando murmurou em uníssono e baixou as armas.

O famoso cangaceiro viu os corpos ao redor e, enfurecido, voltou-se para o bar gritando com voz braba:

 – Onça Parda! Sai daí seu filho de uma égua! Vem ver os cabra que vão te mandar pro inferno!  – o brado inspirou os seus.

De dentro do bar, como um trovão, a voz do Suçuarana se sobrepôs à do cangaceiro, respondendo pela primeira vez às bravatas:

– Cabra? Num tô vendo cabra nenhum. Só vejo um monte de corpos! VOCÊS JÁ ESTÃO TODOS MORTOS!

Os corações dos cangaceiros, aquecidos pela chegada do líder, agora mergulharam no mais genuíno pavor. A onça do sertão estava ali, e mataria a todos num golpe só, sem que eles sequer vissem o que os atingiu, exatamente como fazia o animal que lhe inspirou o nome.

Mas Corisco não chegara só, trouxera a neta de dona Laurinda na garupa. Ele apeou e colocou o facão na garganta da menina, que chorava copiosamente.

– Eu ouvi dizer que tu queres a mim! – pois eu vou até aí, e se tu te atrever a dar um tiro, eu mato essa menina.

Nenhum som se ouviu em resposta, e era a resposta esperada pelo cangaceiro. 

– Vocês – ele se voltou para os remanescentes de seu bando – vão embora daqui que os mocas tão chegando. Eu me acerto com esse desgraçado.

Os mais corajosos lamentaram e protestaram, os menos, se aliviaram, o fato é que dos vinte e nove pertencentes ao bando, apenas onze fugiram com vida, enquanto Corisco adentrava o bar mantendo a menina refém.

Tião Onça Parda se erguia detrás do balção, mantendo o cangaceiro na mira de seu fuzil.

– Agora tu jogas tuas armas fora e vem pra cá – ordenou Corisco.

O pistoleiro ainda o manteve na mira por um tempo, talvez cogitando mandar o cabra para o inferno junto com a garota, mas acabou obedecendo. Largou o fuzil e deixou para trás o rifle, a submetralhadora e os três revólveres que estavam ao redor, um verdadeiro arsenal, montado com um único objetivo.

Onça Parda foi até a frente do cangaceiro e este jogou a menina no chão, mantendo o facão na mão esquerda.

 – Agora nós vâmo resolver isso na faca!

Sacando também o seu facão na mão esquerda, Tião Onça Parda se colocou em guarda. O Diabo Loiro era perigoso com a faca. Os dois se espreitavam, escolhendo o melhor momento para o bote. Trocaram alguns ataques rápidos onde o clangor do metal assustou a menina, encolhida no canto do bar onde trabalhava.

O primeiro sangue verteu do pistoleiro, que recebeu um corte no braço, e ante o sorriso debochado de Corisco, contra-atacou, impingindo ao cangaceiro um corte nas costelas. O combate prosseguiu no bar destruído pelo tiroteio, cada golpe era dado com precisão e cautela por dois adversários que se odiavam, mas se respeitavam.

Cansados e feridos, os dois homens fizeram uma pausa, esperando o melhor momento para o golpe fatal. Corisco via o ódio nos olhos do adversário, como se matá-lo fosse seu objetivo de vida. Talvez fosse mesmo. Lentamente, ele abaixou o facão, mostrando ao inimigo sua intenção, que foi imitada por Onça Parda.

– Ouvi dizer que tu mata cangaceiro até de graça. Por que nos odeia tanto? Por que tu quer tanto me matar? 

Tião Onça Parda sequer piscava, não deixaria seu alvo escapar vivo dali, mas respondeu:

– E por acaso saber o motivo vai fazer alguma diferença?

O Diabo loiro pensou alguns instantes e concluiu:

– Não… Não vai não.

E os dois se encararam prontos para o golpe final, que ambos sabiam estar preparando. Olhos nos olhos, os corpos, estáticos, aquele seria o ato final.

Corisco se moveu primeiro, levando a mão direita às costas, mas mesmo perdendo na iniciativa, Onça Parda foi mais veloz, e ao puxar seu revólver, preso às costas assim como o de Corisco, foi mais rápido que o cangaceiro e alvejou seu coração. 

O Diabo Loiro pareceu não acreditar. Só havia conseguido atingir a coxa do Suçuarana e em contrapartida, seu peito sangrava. Estava derrotado.

 Foi quando ouviram um brado lá fora.

-Se entrega Corisco! Venha pra fora devagar, tu na nossa mira, seu demônio! – Era Zé Rufino, o capitão da Volante, acompanhado de seus macacos.

Corisco ergueu seu facão, mas deixou o revólver cair: – Eu não sou homem de me entregar não, Rufino! – e em seu último suspiro avançou contra os policiais, mas foi alvejado pelas metralhadoras, caindo morto na entrada do bar de dona Laurinda.

O Capitão Zé Rufino se aproximou do corpo do cangaceiro, conferindo sua morte e olhou o local, destruído à bala. Sangue e corpos estavam pelo chão e uma menina, encolhida num canto, olhava para os fundos do bar, como se procurasse alguém. 

Um soldado raso se aproximou, também vendo o pandemônio dentro do bar: – Finalmente matamo esse desgraçado, meu capitão.

Mas Zé Rufino apertou os olhos: – Acho que aqui tinha dois diabo em guerra… e parece que um escapou…

Tião Onça Parda estava no lombo de seu ginete, cavalgando calmamente pela planície deserta do sertão. Seu olhar, agora manso, divisava o sol poente. Lembrava de muita gente que lhe dissera quando garoto que a vingança não lhe traria bem-estar nenhum. Ele olhou para seu revólver e sorriu; eles estavam errados. E seu cavalo prosseguiu, sem pressa, rumo ao horizonte.

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Informação

Publicado às 19 de fevereiro de 2020 por em Contos Off-Desafio e marcado .