EntreContos

Detox Literário.

Suplica do Sertão (Rosa do Deserto)

Ele tem poucos minutos para compor o cardápio com o que tem na despensa. Afinal, hoje é um dia muito especial na vida dos meninos. Não demora muito e fica decidido o que seus três filhos terão para o desjejum. Ovos mexidos misturados a farinha de milho socada e um delicioso cozido de raízes nordestinas. Itens especialmente reservados para o primeiro dia dos pequenos na lida. Rapidamente ele acende o fogo, usando restos de madeira deixadas ao lado do fogão a lenha improvisado. A água, retirada do fosso na noite anterior, começa a ser fervida. Emiliano, o caçula do grupo, ajuda o pai mantendo o lampião aceso. De vez em quando, ele se esquece da sua importante função e brinca de prender mariposas que insistem em rodear sua luz. O pai, curvado sob sua muleta, o repreende. Ele deve aprender desde cedo que sua existência depende do seu aprendizado sobre responsabilidade. Emídio, o mais velho, parece não se importar. Ele vê a movimentação, vira do lado e, põe se a dormir novamente. Sabe que precisara de forças para dar conta do pesado cabo da enxada, até então, usada pelo pai. Minutos depois, o cardápio está sendo servido. Louças antigas encontradas na última roçada compõem a mesa. Eduardo, o filho do meio, se farta. Agradece o pai com os olhos marejados, pois, há dias, não comia com tanto prazer. Não há como não se emocionar. 

Lá vão eles, oito, nove e dez anos. Tentam suprir a deficiência do pai, rememorando a gentileza da mãe que, há dois anos, foi de encontro ao Senhor. O dia amanheceu acinzentado e úmido, difícil para a lida. Eduardo parece não se importar, ele segura firme o cabo da enxada que insiste em escorregar das suas mãos. Emídio sempre foi um preguiçoso, ele senta para descansar antes mesmo de começar. Tem a mesma personalidade geniosa do pai, demonstrando ser o líder nas atividades. Apesar de não ser nenhum exemplo, ele chama a atenção do irmão caçula uma, duas, três vezes. O menino parou o que fazia para caçar insetos. Sem que se dessem conta, Eduardo já preparou quase 1/3 do terreno. Obstinado, ele quer que até o final do dia as sementes de milho que tem nas mãos tenham sido plantadas. Pela primeira vez depois de mais de duzentos dias o sol resolveu não aparecer. Seu João, agradece pela chance que a mãe terra deu aos seus meninos. Eles podem cumprir com a sua missão não precisando sofrer com o intenso calor que costuma fazer na região.

A vida no sertão é relativamente simples, eles moram em uma pequena casa feita de pau-a-pique, em dois cômodos médios divididos entre quarto e cozinha. O lugar onde depositam suas necessidades fica há trinta metros da casa principal. Um pequeno barracão feito de madeira do cerrado, coberto com folhas de palmeiras ressequidas. Próximo, existem dois estábulos vazios. Os cavalos morreram por causa da seca.

De longe, o pai os observa com semblante triste. Sabe que o destino é impiedoso com aqueles que nascem em terras que não comportam vida. De-repente, ele sente a perna direita. Ela vem praticamente sustentando todo o peso do seu corpo, desde que, a esquerda, começou a aumentar de tamanho. Ele não sabe exatamente o que tem. Faz uma semana que os dedos do pé esquerdo começaram a ficar enegrecidos. Não há médico nas proximidades, motivo pelo qual, teve de enterrar sua esposa antes mesmo dela receber qualquer atendimento de saúde.  Subitamente ela deixou de respirar. No ano que ela os deixou, eles tiveram a mais intensa seca de todas as que já viveram. 

Maria tinha 36 anos quando partiu, mas, aparentava ter cinquenta pela lida. A pele enrugada pelo sol e pela fuligem do fogão a lenha fizeram com que ela perdesse qualquer tipo de vaidade pela sua pessoa. Escondia na leveza de seus olhos claros a tristeza que carregava pela falta de recursos. Teve dois, dos seus três filhos em casa, apenas com a ajuda do marido, nunca reclamou do tipo de mulher que se tornou. Embora pobre, é descrita pelos seus como sendo uma mulher feliz, quando ainda estava com vida. 

João, herdou dos pais as terras onde mora. Conheceu Maria quando foi tentar a vida na cidade de São Paulo. Infelizmente, não fora bem acolhido na grande metrópole. Analfabeto e inexperiente, ele teve de voltar para sobreviver, mas, trouxe consigo o seu grande amor. Ele tinha dezessete e ela quinze quando se casaram numa singela cerimonia feita na cidade de Marajá do Sena, no estado do Maranhão.

“Parece que vai chover”, ele diz. Faziam seis meses que aquelas terras não eram umedecidas pelas lágrimas do nosso senhor. Ele se lembra que, toda vez que chovia, Maria dizia que Deus chorava em meio a sua pobreza. Neste dia, ele derrama sobre o solo as lágrimas de dor de João. Ele está inconformado por não conseguir se movimentar como sempre fizera. Teve de pôr na lida seus filhos que não tiveram a chance de ter uma infância feliz. 

Assim que os primeiros pingos de chuva intensificam, os meninos retornam correndo para casa. Rapidamente eles colocam os vasilhames para encher com as águas formadas das lágrimas do senhor. 

Eduardo não se contenta, ele quer que hoje mesmo as sementes de milho estejam plantadas. Ele volta sozinho para o terreno e dedilha sobre a terra pequenos buracos que ganham forma pelo chão umedecido. Depois de duas horas pontilhando, ele completa a sua missão, não restando um só grão esquecido. Depois que termina, ele se senta de onde Emídio o observava. Pensa numa forma de levar felicidade ao pai que hoje lhe preparou a mais maravilhosa de todas as refeições. 

Os dias seguem e os meninos dão continuidade as suas vidas. Caminham por cerca de duas horas para chegar no local onde recebem instruções básicas de matemática e português. Eduardo é o mais esforçado. Ele diz ao professor que seu desejo é o de se tornar o cozinheiro mais famoso do Brasil. Seus colegas riem, afinal, ele sequer tem o que comer, com o que vai aprender a cozinhar?

Quando menos se espera, uma briga foi começada. Emídio fora quem a começou. Ele está irritado com os comentários do colega sobre o sonho do seu irmão. O professor os repreende e acaba expulsando o justiceiro Emídio da sala de aula. O menino sai todo nervoso, chutando o pequeno cãozinho que dorme recostado na entrada. Eduardo pede ao professor que reconsidere. Emídio tem bom coração, mas, está muito triste desde a partida de sua mãe. 

O tempo, impiedoso, faz os dias virarem semanas, meses, anos. Eles continuam com o plantio do milho, fazendo valer todo aprendizado que tiveram com o pai. Produzem mensalmente o básico para o seu sustento. Infelizmente, o pai também se foi deixando os filhos sob os cuidados da terra onde moram.  Eduardo, agora com dezoito, decide que nunca mais se permitirá levar uma vida assim. Ele viu a mãe falecer subitamente. Viu o pai definhar sem receber ajuda. Vê os irmãos passar fome sem que ninguém pareça se importar. A mesma escora de madeira que servira de muleta para o pai, agora lhe serve como apoio para sua pequena trouxa de roupas despejada sobre os ombros. Ele decide arriscar e conquistar o mundo que seu pai não fora capaz de fazê-lo. Os irmãos lhe desejam sorte, sabem que não podem fazer nada para impedi-lo. Emiliano, todo emotivo, entrega para o irmão o mais belo de todos os seus tesouros. Um pequeno colar feito das pequenas ramas de uma roseira plantada pela sua mãe. A única que floresceu antes dela subitamente deixar este mundo. Ele lhe diz que o objeto lhe trará sorte e proteção. Mas, Eduardo parece não se importar. Não acredita muito em sorte dadas as condições que sua família tem de viver.

La vai ele, o garoto que leva na alma todo peso do sofrimento de sua família. Este, não se permitirá perder. Enquanto isso, Emídio prepara o seu pequeno barracão esperando poder receber sua amada.  A partida do irmão parece ter lhe servido de ajuda. Ele faz ajustes para que todos possam viver em harmonia. Emiliano também se prepara para trazer sua nova namoradinha até sua casa. Todas as noites eles caminham sertão adentro, buscando nas cidades vizinhas suas almas gêmeas.

Quanto ao pobre Eduardo, por quanto tempo deverá caminhar? Ele pegou a estrada rumo ao oceano, carregando na bagagem um sonho. Quem sabe um dia poder preparar uma refeição tão deliciosa quanto a que lhe preparou seu pai. Sobre a extensa estrada de terra a sorte começa a lhe guiar. Um caminhoneiro que por ali passa lhe estende sua mão. Na boleia ele se lembra. Tanta dor e tantos sofrimentos foram deixados para trás. Depois de dias viajando, ele parece sentir pela primeira vez o cheiro da maresia. O ar salgado, rodeado pelas águas de areias brancas o convidam a ficar. Ele desce agradecendo o caminhoneiro que fora o primeiro deste novo mundo que se propôs a lhe ajudar. 

Emídio sente a falta do irmão. Apesar de bem acompanhado ele sabe que talvez nunca mais o reveja. Há seis meses ele não tem nenhuma notícia. Emiliano, agora casado com Cacilda, divide com o irmão as responsabilidades do lar. Os tempos são outros, as terras prosperam. As raízes de mandioca recém-plantadas começam a brotar. Eles se assustam com a rapidez com que suas terram germinam. 

Nas primeiras noites vividas na Paraíba, Eduardo dorme sob a luz das estrelas. Ele não se importa muito por não ter onde ficar. O medo, também não parece que possa lhe importunar de qualquer forma. Quem tudo perdeu não tem muito com o que se preocupar. Ele segue com o seu plano de arrumar um bom emprego e se tornar o mais famoso cozinheiro que já existiu. Por sorte, e ele está tendo muita desde que saiu do sertão, o famoso “NAU FRUTOS DO MAR” procede com a sua contratação. Com a ajuda de um amigo que recém fizera, ele consegue lugar para ficar, trabalhar, se vestir e logo, custear suas poucas despesas. 

Sete anos já se passaram e, Eduardo, agora com pouco mais de vinte e seis, aprendeu as mais avançadas técnicas usadas no cozimento de peixes e frutos do mar. Seu risoto de camarão cremoso acompanhado do saboroso vinho “Château Haut Brion” se tornou uma especialidade oferecida pela casa, estando no rank dos pratos mais sofisticados servidos na região. No início das temporadas, o NAU recebe mais de três mil visitantes numa única semana. 

No dia 23 de dezembro do ano que completara seis anos trabalhando como ajudante no maior restaurante da cidade da Paraíba, Eduardo recebe uma carta dos seus irmãos.

A/C EDUARDO

Eduardo! É com muita satisfação que comunico a você que o seu terceiro sobrinho está a caminho. Eu vou dar a ele o seu nome, acrescentando o júnior ao final. Mesmo sabendo que você ainda não se casou e não tem filhos, eu te cumprimento pelos seus esforços. Sei que você está em busca da realização dos seus sonhos e, com certeza, vai conseguir meu irmão. A vida no sertão não é mais como era antes. A sorte, nos sorriu, conseguimos mudar nossa pequena casa, fazendo dela um sitio de médio porte. Terras que, como dizia nosso pai, um dia iriam jorrar leite e mel. Produzimos leite e queijo, frutas e hortaliças para a cidade. Não faz muito tempo, fiz um curso do SEBRAE, onde aprendi sobre a importância de distribuir parte do que não usamos para as famílias mais carentes. Nós sabemos como a vida no campo pode ser dolorosa quando os recursos são poucos. Emiliano está bem e lhe manda um abraço. Cacilda está ansiosa para vê-lo. Vimos no jornal que o restaurante onde você trabalha possui a melhor refeição de toda região. Espere um pouco e chegaremos até você para comemorar todos os nossos esforços. Estive revendo as escrituras que estão no nome do nosso pai. Temos mais terras do que um dia sonhamos ter. Estou cuidando da sua parte. Felizmente, a vida sorriu para nós. De vez em quando, vejo nosso pai, sentado embaixo da grande árvore onde sempre brincamos. Eu sei, parece loucura, mas, tenho certeza de que ele olha por mim, assim como olha por você. Mamãe também aparece nos sonhos do Emiliano. Ele sempre diz que ela o protege através do colar que ele lhe deu. Por favor, use-o sempre. Fique em paz meu querido irmão. Breve nos reencontramos. Até lá se torne o mais famoso chefe de cozinha que um dia este país já conheceu. PS: Emídio e família. Nós te amamos muito.

 

Deste dia em diante, Eduardo nunca mais foi o mesmo. Abrir as portas para um jovem sem referências foi a melhor de todas as apostas feitas pelo NAU desde que o restaurante foi inaugurado. Os clientes vêm de longe para experimentar as refeições preparadas pelo, agora conhecido, Subchefe Eduardo Freitas que compõe graça e leveza a cada um dos pratos que prepara. 

Seus títulos crescem, assim como, a sua fama. Os críticos se perguntam: Como é possível que um garoto do sertão que nunca havia experimentado pratos sofisticados, consiga combinar iguarias com tamanho requinte? 

Os jornais locais queriam conhecer os segredos que levaram o restaurante aos mais elevados índices de aceitação. Em entrevista Eduardo lhes conta sobre quem foi, suas perdas e sobre a importância da realização do seu sonho. Enquanto responde às perguntas para três dos mais importantes jornalistas do país, ele lhes prepara a mais formosa de todas as surpresas culinárias. O cardápio básico composto de leite de coco, farinha de milho e um delicioso preparo com raízes nobres, deu origem ao famoso cuscuz nordestino, predominantemente feito de iguarias simples. Eduardo lhes fala sobre a sofisticação de seu prato, mas, reserva para si os seus segredos, mantendo vivo dentro de si o desejo de um dia poder reencontrar aquele que mais amou na sua vida.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série B.