EntreContos

Detox Literário.

Uma História de Amor Caipira (Jeca Tatua)

 

A melhor lembrança que tenho da infância foi de quando conheci o Pig. Meu pai comprava porcos para vender a carne. Quando avisavam que havia uma vara para negociar, meu pai sempre me levava. Dizia que era para ajudá-lo a escolher, mas eu sabia que era pela companhia e para eu ter a oportunidade de ver e conversar com as pessoas, aprender a negociar e substituí-lo quando chegasse a hora.

Em uma ocasião um porquinho foi posto à venda. Pedi a meu pai para ficar com ele. Meu pai deixou, mas avisou para eu não me apegar, pois o comeríamos no Natal, à pururuca.

De volta à fazenda seguimos com nossa rotina. O porco mais gordo era sacrificado e no dia seguinte a carne alimentava os churrascos e as famílias da região.

Pig foi uma exceção, pois meu pai não comprava filhotes, ainda mais de raça desconhecida. Um biólogo amigo nosso sugeriu que o Pig era um híbrido.

Pig foi o nome que escolhi para meu porquinho. Curiosamente ele conseguia andar sobre as duas patas traseiras. De tanto o exibirmos para os visitantes, ele pareceu esquecer que era um quadrúpede.

Com a repercussão de que ele podia andar em pé, feito gente, o movimento na fazenda aumentou e ninguém mais pensou em pururucar o Pig no Natal. Passamos foi a ter mais cuidado. Era tanta gente querendo comprar o Pig que, com medo de o roubarem, passou a dormir comigo no quarto.

Eu costumava brincar com as outras crianças da fazenda. Apesar de sermos só eu, minha mãe, meu pai e agora o Pig, sempre recebíamos visitas de comerciantes e familiares e as crianças se juntavam para brincarmos no imenso quintal.

Certa vez, quando brincávamos de roda, o Pig se aproximou, entrou entre mim e o Taquara, um garoto de quem eu gostava, nos deu as patinhas e fez sinal com a cabeça para que continuássemos a roda. As outras crianças já estavam acostumadas com o porquinho-que-anda-igual-gente, que era como se referiam ao Pig.

Nesse mesmo dia fizemos uma brincadeira chamada Pera, Uva, Maçã, Salada Mista. Era uma forma de experimentarmos a sexualidade. De olhos fechados escolhíamos uma fruta e cada fruta nos obrigava a fazer alguma coisa como, por exemplo, dar um beijo no rosto ou aperto de mão. Já quem escolhia salada mista tinha que fazer tudo, incluindo um beijo na boca. Só não sabíamos em quem, pois a escolha era feita de olhos vendados. O beijo poderia ser em um dos meninos insuportáveis ou até mesmo em uma menina.

Nesse dia parece que esquecemos a presença do Pig e brincamos normalmente. Eu tinha esperança de beijar o Taquara e tive a sensação de que nesse dia o beijaria. 

— Salada Mista — falei bem alto e qual não foi minha surpresa ao ver que o escolhido foi o Pig.

A criançada não fez por menos: beija, beija, beija. Acabei beijando. Foi uma sensação estranha. Nunca havia beijado na boca, só mesmo no rosto e em família. Foi meu primeiro beijo e a primeira vez que beijei um porco. Isso parece ter excitado o Pig justamente na hora em que minha mãe trouxe uma bandeja com biscoitos e limonada para a gente lanchar.

Ela não gostou nem um pouco do que viu e desse dia em diante decidimos que Pig passaria a usar roupas, igual gente. E como o sol era forte na região Pig ganhou também um chapéu para se proteger. Quem o olhasse a partir de uma certa distância jamais imaginaria que não se tratava de uma pessoa e sim de um porco.

Após a conclusão dos primeiros anos na escola minha família me enviou para morar com minha tia. Era para eu terminar o Ginásio. Passei alguns meses sem ir em casa e estranhamente sempre pensava no Pig, no beijo que dei nele.

Após a conclusão do curso ginasial saí da companhia da minha tia e voltei a morar na fazenda. Estava curiosa para ver o Pig, saber do Taquara e morrendo de saudade de todos.

Na porteira me aguardava um rapaz bonito. Quando olhei com mais atenção reconheci o Pig. Nossa, como ele cresceu. E se antes parecia gente, agora estava ainda mais parecido.

Com meu retorno a relação com o Pig se estreitou. Passamos a caminhar de mãos dadas e, apesar de ele não falar, só grunhir, suas delicadas patas apontando para as estrelas era como poesia. Em poucos dias minha ligação com o Pig era tão forte que resolvi contar ao meu pai sobre a nossa intenção de ficarmos juntos e iniciar um namoro.

Ele e o Pig desenvolveram uma relação de amizade muito especial. O Pig ajudava com as coisas da fazenda, bebia e jogava truco com os rapazes. Era um porco muito querido por todos. O tratavam como membro da família e isso me encorajou a ter essa conversa.

Meu pai gostava de ficar embaixo de uma jaqueira que havia nos fundos do quintal. Aproveitei o momento de aparente tranquilidade e expliquei sobre meus sentimentos em relação ao Pig. Falei da minha vontade de ficar com ele mais do que como amigo.

Infelizmente a ideia de ver a filha namorando um porco não foi bem aceita como eu esperava. A amizade ruiu e em um acesso de fúria meu pai foi até a horta onde o Pig estava, arrancou-lhe as roupas e, se não bastasse aquela humilhação, mandou os funcionários prenderem-no a um poste. Desde o dia do beijo ninguém mais vira o Pig nu.

Em seguida, da forma mais desumana que eu já vi alguém fazer, meu pai tirou o cinto e destilou seu ódio na tenra carne do nosso querido porquinho, deixando marcas. Uma para cada açoitada.

Sem entender o que acontecia e sem soltar um só grunhido, Pig suportou tudo calado, revelando a dor por uma única lágrima que lhe escorreu pelos olhos.

Tentei intervir, mas minha mãe sugeriu que seria melhor eu entrar, me poupando de ver a cena terrífica que meu pai criou. Aceitei para não envergonhar o Pig que, a essa altura, já estava encharcado com o próprio sangue e perdendo as forças que o mantinham de pé.

Satisfeito com as chibatadas, meu pai trancou-o no chiqueiro junto com outros porcos, um local em que o Pig nunca estivera e sempre evitara, certamente para não ver como tratávamos os da sua raça.

No dia seguinte meu pai mandou tirar o Pig do chiqueiro, entregou-lhe roupas limpas e algum dinheiro e o mandou embora com gestos, sem dizer uma só palavra.

Desse dia em diante a tristeza abateu-se sobre a nossa família. Meu pai, que já estava com certa idade e a saúde não muito boa, faleceu alguns meses depois levando minha mãe em seguida, provavelmente por não aguentar viver sem o marido. E eu, de uma hora para outra, me vi órfã e dona de fazenda.

Os parentes chegaram à conclusão de que eu não poderia ficar sozinha. Apesar de termos bons funcionários eles não eram da família. Não sabíamos se continuariam a me respeitar após a morte dos meus pais.

O melhor a fazer seria aceitar o pedido de casamento do Taquara, meu namoradinho de infância. E logo marcamos a data do casamento. Eu ainda virgem, sem nunca ter tido namorado, agora estava noiva e de casamento marcado.

No dia, uns poucos parentes, meus e do Taquara, as famílias dos funcionários e alguns clientes antigos que compravam carne de porco, nos reunimos embaixo de um gazebo construído e decorado especialmente para a ocasião.

Tudo parecia perfeito. Pensei em meus pais, no Pig e nem percebi quando o padre perguntou se eu aceitava o Taquara como legítimo esposo.

Olhei para os convidados procurando coragem e foi quando vi o Pig com lágrimas nos olhos misturado a pequena multidão.

A notícia foi dada até nas cidades vizinhas. O Taquara virou motivo de piada por ter sido trocado por um porco. Não houve casamento. E de esse dia em diante o Pig voltou a morar na fazenda. Tornou-se meu companheiro. Encerramos o negócio da venda de carne de porco e nos dedicamos a agricultura orgânica. Vivíamos em paz.

Uma paz que durou até o dia em que souberam que eu estava grávida. Corria o boato de que viriam para nos pegar, mas nunca acreditamos nisso. Nossa rotina transcorria normalmente e toda noite eu tentava ensinar o Pig a falar. Certo dia, com muito esforço, ele conseguiu pronunciar sua primeira frase: 

—Eu-u-u-u-u te-e-e-e-e amo-o-o-o-o-o..

— Eu também, Pig.

Abraçamo-nos e choramos juntos, mas eu sabia que nosso sonho não seria realizado.

Ao longe, carregando trabucos, enxadas e facões, um grupo se aproximava da casa liderados pelo Taquara.

Finalmente ele teria a sua vingança.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série B.