EntreContos

Detox Literário.

Salgadinho (Night Manager)

Beto coçou o nariz com o dedinho e lançou a meleca para longe. Depois, coçou as suas partes intimas e sentou como se fosse o rei da Inglaterra em uma cadeira giratória apodrecida.

Na sua frente, a TV de tubo estava a um metro de distância. O homem observava alguns pinguins se equilibrando em uma calota de gelo enquanto um locutor narrava a situação. Beto tinha um salgadinho de queijo e um refrigerante de dois litros prontos ao seu lado na bancada.

A noite ia ser boa. Só precisava ficar acordado durante todo o expediente. A loja de conveniência “Compre Mais” não recebia clientes suficientes durante a tarde, imagina na madrugada.

O chefe Tom vestiu seu sobretudo e olhou diretamente para Beto.

— Olha aqui, Beto, vê se não pega mais chocolate na merda da prateleira, senão vou começar a te cobrar… o salgadinho é por conta da casa, mas o chocolate não, ouviu?

Beto desviou os olhos da TV e estremeceu ao encarar seu patrão. Os olhos do chefe eram escuros e o cabelo estava penteado para trás, semelhante aos mafiosos antigos dos filmes do Martin Scorcese.

— Pode deixar chefe — gaguejou, se endireitando na cadeira como uma criança assustada. — Não vou pegar mais chocolate.

Tom manteve a face séria.

Luiza, a namorada de Beto, tinha lhe avisado bem cedo sobre os “negócios” obscuros do patrão, sua mercadoria ilegal e seu temperamento agressivo. Era melhor obedecer a ele sem reclamar.

— Outra coisa… eu já tranquei o congelador e a porta dos fundos, o seu trabalho está aqui na frente, entendeu?

— Sim senhor.

— Ótimo. Logo de manhã você tem um voo, lembra? Não se esquece, garotão!

— Ora se não me esqueci! Muito obrigado pela oportunidade, chefe Tom.

Se tinha uma pessoa que ajudou Beto a reestruturar a sua vida nos últimos tempos era o grande Tom.

A oportunidade era uma viagem até a Colômbia. Parece que o chefe planejava expandir os seus negócios para fora do Brasil, e quem ele decidiu contratar para ajudar ele? O bom e velho Beto do atendimento. Dois mil reais fácil no bolso, apenas para levar um carregamento. Moleza.

— Não há de quê — O dono da loja retirou um papel formal do bolso, balançou ele em frente a Beto. — Esse é o seu bilhete de embarque, não perca ele, ouviu?

— Mas nem ferrando! — Beto colocou o bilhete no bolso mais fundo de sua calça jeans suja.

— Bom trabalho, garotão! Nos vemos daqui alguns dias. — Ele deu um tapa amigável no ombro do atendente, assim como o dono de um cachorro faz carinho em seu animal de estimação. Mesmo Beto tendo trinta e poucos anos, ainda era chamado de “garotão”, e para falar a verdade, até que gostava.

— Boa noite, chefe.

Tom esbarrou na porta dupla e fez o sino tilintar.

Beto olhou em volta. O estabelecimento não era tão pequeno para sentir piedade. Havia meia dúzia de freezers guardando cervejas, refrigerantes e energéticos. Uma seção só de salgadinhos e outra de produtos matinais, como achocolatados, café e açúcar. Tinha até um açougue e um lugar para comprar pão. Uma porta levava para o banheiro e para um corredor em direção aos fundos: a área restrita. 

 Lá fora, alguns postes atacavam o asfalto com sua luz amarelada e o estacionamento estava vazio.

 O atendente da noite relaxou. Assistiu alguns documentários, ocupando uma hora e meia, depois trocou de canal para assistir algum filme de comédia besteirol. Riu quando um homem se vestia de mulher e fazia piadas machistas e impróprias. Devorou o salgadinho que o chefe Tom tinha separado para ele, achou o gosto meio estranho, mas comeu do mesmo jeito. Economizou o refrigerante de uva para durar a madrugada inteira.

Nesse período, também pensou em Luiza. No seu corpo, no seu amor, e nas suas promessas. Tinha vergonha de admitir, mas Beto estava apaixonado.

A primeira vez que se encontrou com ela foi durante um turno da tarde, quando trabalhava em outro estabelecimento, alguns meses atrás. Tinha saído para comer um lanche no horário de almoço e esbarrou com uma mulher de cabelos loiros e maquiagem detalhada. Vestia uma pequena jaqueta de couro e salto alto.

Por incrível que pareça, não demorou muito para eles se darem bem.

Saíram muitas e muitas vezes. Almoçando no shopping e devorando milk-shakes como se fosse água. Luiza comia como Beto, mas não engordava. Ela amava documentários com curiosidades irrelevantes e comédias idiotas. Foram ao cinema mais do que podia se contar nos dedos, e já se beijaram uma boa dezena de vezes. Ela era perfeita.

A mulher também apresentou ao Beto o seu atual patrão. Pagava bem, além de presentear seus funcionários com propostas únicas, como a viagem para a Colômbia. Foi um achado! E o melhor de tudo: ela trabalhava perto do Compre Mais, ou seja, costumavam se ver frequentemente no estacionamento.

Em poucos dias, Beto tinha certeza que iria se casar com Luiza, e já estava procurando dinheiro para poderem morar juntos.

A sua vida estava encaminhando como um trem bala! Não podia reclamar. 

Começou a assobiar de felicidade enquanto mudava de canal, perdido no mundo virtual da televisão.

Quando a sua garrafa de refrigerante estava pela metade e o relógio alcançava as duas horas, o sino da porta tocou.

Beto se virou para atender o cliente e só teve tempo de pensar: “Fodeu”.

Um soco na cabeça o fez perder o equilíbrio de sua cadeira. Meteu a testa na quina da bancada e o seu peso esmagou as suas costelas. Uma agonia crescente começou a produzir calafrios nas extremidades de seu corpo. Sentiu uma mão segurando o seu ombro e outra apertando o seu pescoço.

O atendente foi arrastado até um canto ao lado de umas latas de feijão, e foi pressionado contra a parede.

Sua visão estava turva, e a dor na cabeça começava a bagunçar a sua audição. Decidiu fechar os olhos e fingir a morte, mas um tapa o assustou para longe de sua atuação.

— Acorda, desgraçado — disse a voz rouca de uma mulher.

A primeira coisa que Beto viu foi os olhos verdes de uma figura mascarada: a sua torturadora. Notou que a bancada estava a alguns metros de distância, uma trilha de sangue se arrastava pelo chão sujo da loja. Havia refrigerante de uva se misturando com o liquido vermelho, e os farelos de salgadinho boiavam no meio daquela bagunça.

— É o seguinte porquinho, você vai cooperar comigo? Ou eu vou ter que arrancar um bacon de você? — Ela segurou uma faca na mão. Não era uma faca de cozinha, era aquele tipo de arma feita para espetar atendentes noturnos, curta e com uma serra discreta e enferrujada perto do punho.

— Eu… sou só o atendente… pode pegar tudo o que você quiser… por favor não me machuca mais — Beto começou a soluçar, com as suas lágrimas ofuscando sua visão. Não sabia se implorar era uma boa ideia, mas de uma coisa ele tinha certeza: queria viver, mais do que nunca queria viver. 

— Cala a boca porquinho, senão eu deixo a sua cabeça mais vermelha do que já está.

Beto levantou a mão e apalpou o seu crânio. Percebeu que sua cabeça estava menor, e imediatamente entrou em desespero. Ofegava como se fosse um ventilador quebrado.

— Cala a boca dele logo — disse uma voz masculina.

Beto olhou atrás da torturadora e viu duas outras figuras, altas e corpulentas.

A mulher se levantou muito rápido e o chutou no estomago. Beto se retorceu de dor e se calou, mordendo os beiços para não chorar mais.

— Procura lá nos fundos, deve estar no congelador, eu fico de olho nele.

Os dois outros homens desapareceram pela porta que levava aos fundos. Beto quase conseguia ver o sorriso por baixo da máscara da assaltante. Ela levou a faca até a orelha dele, e começou a enfiar ela fundo em seu ouvido.

— Se você gritar alguma coisa, corto o seu tímpano e arranco a sua orelha fora.

Beto começou a rever as suas decisões. Lembrou de seu pai e sua mãe, ambos mortos em um acidente de carro. Pensou em Luiza, a sua razão de viver. A sua viagem para a Colômbia ia salvar a sua situação financeira. Imaginou o seu casamento com o amor de sua vida: as flores, os convidados, uma praia com a areia quente. Talvez uma ilha, com muito camarão, refrigerante e salgadinho. Depois só conseguiu continuar a chorar baixo.

Ouviu vozes masculinas irritadas.

— Tem um congelador trancado.

A mulher levantou Beto, segurando ele pelo pescoço. Ambos cambalearam por um corredor escuro. O atendente não prestou muita atenção, as dores ainda o dominavam. Conseguiu ver a péssima iluminação de um banheiro, mas continuaram em frente. O armazém dos fundos estava cheio de caixas empilhadas e prateleiras vazias.

Foi jogado em cima de algumas caixas, quebrando elas. Ficou depositado lá, tonto e semiconsciente. 

Uma porta de ferro alta levava até o congelador, e lá dentro, o espaço era tão amplo quanto o de um pequeno banheiro. O grande Tom costumava guardar os grandes pedaços de carne para o açougue, além de outras coisas importantes para o seu “negócio”.

Um dos homens segurava um cortador pesado na mão, do tipo industrial e vermelho. O tipo que conseguia cortar cercas em um filme de assalto, ou até arrancar dedos do pé em uma cena de tortura. Forçou ele contra o cadeado, pressionando até começar a gemer de esforço.

Tink! O cadeado caiu no chão, despedaçado.

— Boa, vamos pegar logo o carregamento e ir embora — disse o outro homem, segurando as duas portas de ferro do congelador e abrindo elas como se fossem o portão do paraíso.

O frio invadiu o armazém.

— Merda… é só uma das prostitutas do Tom — disse a mulher, olhando em direção ao congelador.

Bastou Beto olhar de canto de olho para notar o cadáver congelado. A figura era conhecida: uma linda mulher que tinha o conquistado a alguns meses atrás.

Se arrastou em direção ao corpo de Luiza como um zumbi a procura de carne.

— Não… não pode ser… meu amor… — gemeu o atendente, estendendo a mão para tentar entrar no congelador. Os olhos escuros dela olhavam para o teto, os cabelos loiros congelados como espaguete duro. Estava até vestindo maquiagem e sua jaqueta chique. Beto queria salvar ela, talvez não fosse tarde demais para ir até o hospital. Talvez ela ainda estivesse respirando.

— Olha isso, que tristeza, o porquinho se apaixonou por uma das putas — a mulher chutou Beto para longe do caminho. Ele gemeu ainda mais alto, tentando protestar, tentando avisar para ela parar de chamar Luiza daquilo.

— Se liga — um dos assaltantes apanhou alguma coisa no chão: o bilhete de embarque tinha deslizado para o chão enquanto Beto estava se arrastando. — Ele ia viajar daqui a cinco horas para a Colômbia…

A mulher de olhos verdes fitou o corpo molenga de Beto com seus olhos verdes.

— É mesmo? Então era você que ia levar o carregamento…

Beto não respondeu, apenas continuou gemendo. A torturadora ajoelhou ao lado do atendente, seus rostos separados por alguns centímetros. Ela retirou a máscara, revelando uma face jovem de cabelos escuros e sardas na pele branca. Sua expressão estava fria como a de um réptil.

— Eu vou precisar das drogas, e vou precisar delas agora, preciso ferrar com os negócios do seu patrão — ela levou as mãos até a barriga de Beto, expressando um sorriso perturbador. — Você não carrega só gordura na sua barriga, não é porquinho?

Beto sabia o que se seguiria: suas tripas iriam rolar pelo chão, e o carregamento dentro dele seria perdido. Despertou de medo. 

Apanhou um pedaço de madeira que tinha se despedaçado de uma das caixas e golpeou a torturadora com ferocidade na cabeça. Ela rugiu de dor e caiu para o lado, xingando com todo o seu vocabulário.

Era gordo, mas também era forte.

Se levantou com dificuldade, os assaltantes o olhavam com um certo receio. Atacou um deles com o outro lado de sua arma: a parte que tinha pregos. O pedaço de madeira grudou na máscara do assaltante como Velcro, espalhando sangue pelo chão e amassando um de seus olhos. Ele morreu na hora.

Beto não parou para pensar no segundo homem. Apenas correu.

Esbarrou com uma das paredes e pegou impulso em direção ao corredor. Sua consciência ia embora com cada pontada. Não pensava em um plano, não pensava em seu futuro, só queria viver mais alguns minutos, só isso. Ouviu o som de passos rápidos o seguindo. Não havia jeito dele vencer os assaltantes na corrida.

No meio do corredor o segundo homem alcançou ele. Agarrou Beto pelo colarinho de sua camisa e o jogou em direção ao banheiro minúsculo da loja.

O atendente caiu sentado em cima do vaso sanitário. A iluminação do banheiro piscava, mostrando a forma do assaltante diante de Beto. “Por favor não me mata, por favor só me deixa ir, vai embora…” pensava ele, tremendo e levando a mão até a cabeça ensanguentada para conter a dor.

Decidiu chutar. Se encolheu em cima do vaso e chutou em direções aleatórias. Seus gritos eram agudos, parecendo mesmo com um porquinho. 

Quando acertou o assaltante no saco sem querer, Beto viu a sua oportunidade.

Correu e investiu contra o seu inimigo, jogando ele para o chão do corredor e fazendo sua cabeça quicar no chão.

Cambaleou em direção à loja, escorregando no sangue misturado com refrigerante e derrubando uma prateleira cheia de café e açúcar. Sem pensar direito, Beto pegou alguma coisa em cima do balcão e abriu as portas duplas.

Lá fora, os grilos dominavam a paisagem.

Tropeçou na calçada e caiu no meio do estacionamento. O rastro de sangue agora se estendia desde os fundos da loja, seguia até os alimentos à venda e terminava nas faixas amarelas que separavam as vagas dos carros.

— Seu porquinho desgraçado.

A louca surgiu de dentro da loja, tinha um rasgo gigante na testa. Olhava para Beto como uma predadora. A faca na mão, segurando com o punho fechado e rígido.

Ela enfiou a lâmina nas costas do atendente, fazendo ele rugir de dor.

Quando virou seu corpo e apontou a lâmina para a barriga do Beto, ele decidiu agir.

Usou a única coisa que tinha em suas mãos: um pacote de salgadinho. Enfiou a embalagem na cabeça da torturadora e sentou em cima dela, pressionando seu pequeno corpo com o seu peso.

Tomou uma facada profunda na perna, mas logo segurou o braço da mulher com o outro braço.

Apertou o pacote de salgadinho com força, prendendo a cabeça dela e vendo suas convulsões para tentar se libertar.

Pressionou com força, bateu com a cabeça dela no asfalto, depois com mais força… e mais força.

Levou um tempo para ela desistir e finalmente entregar a sua vida. 

A figura de um leão comendo queijo sorria para Beto na embalagem do salgadinho. Ele deitou de costas no estacionamento, respirando fundo, deixando o seu sangue pintar o asfalto. Depois enfiou a mão dentro do pacote, procurando pelas migalhas que sobraram.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série C.