EntreContos

Detox Literário.

O Soldado sem Nome (Jozefel Zanatas)

 

Soldado José ouviu o zumbido do projétil rasgando o ar, sua única reação foi fechar os olhos e aguardar o impacto, além de torcer para que o ferimento não o matasse de primeira, nem de segunda. Na verdade, não pensava em morrer, mas sabia que naquela guerra, assim como em qualquer outra, as pessoas morriam. Felizmente, tudo que ele sentiu foi uma salpicada de estilhaços de tijolo na cara, o pó penetrou na sua boca e narinas. Respirou aliviado enquanto espanava a poeira.

_Ufa. Essa não era pra mim! Pensou ele. Que acabara de vivenciar um daqueles momentos em que a vida inteira passa diante dos olhos. Só conseguiu lembrar de sua noiva que o esperava em casa, do outro lado do oceano, no Brasil. Desde que desembarcou na Itália, em outubro, percebeu o quanto os amigos, os familiares e sua noiva se tornaram importantes, de repente, tudo que mais queria era vê-los de novo. A melancolia da distância, enquanto se vive na iminência da morte, pode rasgar a alma de um homem e deixar uma cicatriz enorme.

 _Será que alguém pode morrer de saudade? Pensava. Tanta coisa fazia sentido agora. Tirou do bolso um relicário com uma foto, amarelada e pálida, era Angélica, sua amada. Perdeu a conta de quantas vezes prometeu a si mesmo que, se novamente na presença daquele anjo, iria valorizar cada sorriso, cada palavra, cada detalhe e se embriagar com o perfume daqueles cabelos, nem longos, nem curtos, mas o suficiente para enroscar neles os seus dedos, como gostava de fazer. Perdeu a conta também de quantas vezes abriu aquele relicário.

O estampido de uma granada trouxe o Soldado José de volta para a realidade. Ouviu gritos, “parece que alguém não teve a mesma sorte que eu”, pensou. Em seguida o silêncio tomou o campo íngreme onde estava. Dos vinte e cinco soldados que faziam a ronda nas proximidades de Monte Castelo, apenas cinco “irmãos” haviam sobrado ali. A maioria recuou, alguns caíram inertes, provavelmente mortos.

A tropa inimiga, com a qual trocaram tiros, surgiu de forma inesperada, era em maior número, mas eles pareciam tão surpresos quanto os praças brasileiros. A surpresa foi tanta que, na primeira troca de tiros, a maior quantidade de baixas foi de soldados nazistas. A reação foi rápida e os inimigos buscaram abrigo em um barranco que ficava poucos metros do local.

A fuligem levantada pela granada, junto com poeira e terra, dificultou a visão de ambas as tropas e os tiros cessaram momentaneamente. O Soldado José, escondido atrás de uma mureta, que em tempos de paz, provavelmente, servira para apartar ovelhas ou terrenos, ou algo do tipo, olhou ao redor. Viu o Sargento Braga gesticular na direção de dois homens, que se abrigaram atrás de uma sebe, mais afastados e, consequentemente, mais expostos, dizendo que deveriam reagrupar, que ele daria cobertura.

A sua direita estava o Sargento Braga e os dois homens da sebe. A esquerda, bem mais afastado do grupo estava o Cabo Luís, um homem de pele negra e olhar frio. Luís desembarcou junto com José na Itália, fizeram amizade a bordo do General Meigs*, ainda não era Cabo e sorria um sorriso gentil. Ambos se perderam no desembarque e só voltaram a se reencontrar dois dias atrás, quase cinco meses após o início da “grande aventura”.

O Cabo Luís era o que estava melhor posicionado, era o mais distante de todos, em um local um pouco mais alto, tinha uma visão melhor do campo de batalha. Seu posicionamento também indicava outra coisa, que tentara fugir, mas por alguma razão não o fez. A opção de fuga ainda era válida, no entanto, lá estava ele, sem sorriso gentil, mas pronto para o combate.

Quando o Sargento Braga sinalizou que cobriria a retaguarda dos dois soldados da sebe, Cabo Luís estava atento. José ficou observando a comunicação sem palavras dos dois homens. Podia entender. Luís apontou para os próprios olhos e em seguida fez o número nove com as mãos, indicando a quantidade de soldados alemães logo a frente. Aparentemente, os nazistas desconheciam o número dos praças, por isso, o Sgt. Braga logo percebeu que deveria haver uma reação rápida, antes que os inimigos percebessem a vantagem.

Os dois soldados detrás da sebe receberam a informação. Algo que provavelmente salvaria suas vidas. O soldado José, que ainda segurava nas mãos o relicário, também observava e copiou a mensagem. O plano ficou evidente para todos e seria executado da seguinte forma: O Sargento Braga atrairia a atenção do inimigo como se fosse cobrir a retaguarda dos irmãos, mas era apenas um embuste, uma finta, para forçar os alemães a se exporem durante a segunda carga, assim o Cabo Luís, que era um dos melhores atiradores daquela divisão, diminuiria a vantagem numérica dos adversários, os dois soldados sairiam atirando, cobrindo o Cabo Luís e buscariam cobertura na mureta do Soldado José. Em seguida, os três juntos, dariam cobertura ao recuo do Sargento Braga. O objetivo final do plano era um reagrupamento da tropa com um atirador flanqueando o inimigo, assim, um cobriria o outro. Um plano brilhante, para não dizer desesperado.

Com a mão esquerda erguida no ar, punho fechado, o Sargento Braga iniciou uma contagem enquanto revelava os dedos. No último número deu um grito e saiu atirando na direção dos alemães, mesmo ser ter nenhum deles na mira. Enquanto atirava amaldiçoava suas gerações passadas, inclusive suas mães, que nada tinham a ver com aquela guerra, aprendeu a xingar em alemão especialmente para esse tipo de situação, era a primeira vez que incluía as novas palavras ao seu vocabulário de guerra. A munição acabou e o Sargento se preparou para a segunda carga

No alto de sua posição privilegiada, o Cabo Luís disparou cinco vezes, em intervalos curtos, mas precisos. Soldado José, inerte por detrás da mureta, perdeu a conta de quantos tiros vieram do outro lado. Gritos de dor revelavam que o plano funcionou, embora com alto preço. Esticando a cabeça por cima da mureta, viu os coturnos do Sargento Braga inertes na relva. A poucos metros de distância um dos soldados da sebe também jazia estendido, mal chegou a metade do caminho. Encostado na mureta do Soldado José, botando os bofes pra fora, o outro soldado da sebe chegou incólume.

Em seguida uma saraivada de tiros foi disparada contra a posição do Cabo Luís. Não houve tiro de volta. José e o outro soldado se entreolharam, um pensamento em comum ecoava em suas mentes. O número de inimigos era maior, a morte era certa. O que restava fazer, então, era vingar os companheiros mortos. O Soldado José só se lembrou do anjo que o esperava em casa. Pediu a Deus e a seu santo padroeiro que o tirasse dessa com vida, se o fizesse…

José olhou para o relicário, segurou bem forte em suas mãos. Beijou-as. Lágrimas desceram pela sua face. O outro soldado beijava uma foto amassada que trazia no bolso, sim… ele também tinha um anjo. Secaram as lágrimas. Juntos, conferiram a carga de suas armas. Se levantaram e partiram com tudo para cima dos inimigos. Dessa vez tiros voaram com mais precisão e pareciam vir de todos os lados. O outro soldado viu o momento em que José ficava pelo caminho, nesse meio tempo já sabia que também morreria, mas não se entregaria para a escória alemã. Viu que acertou dois soldados e podia jurar que José também havia alvejado outros dois antes de tombar.

Um tiro o pegou bem na perna e bufando de ódio e dor se arrastou até o ponto culminante onde seu algoz deveria estar se protegendo, mas tudo que viu foi as costas do soldado alemão que, distante mais de trinta metros, continuava a correr. Com muita dor, levantou o rifle e fez a mira, mas antes, seus olhos esquadrinharam o ambiente, contou oito soldados mortos, um deles, o mais próximo, segurava a foto de uma menina de maria-chiquinhas. Abaixou o rifle e percebeu que todos ali deveriam ter um anjo esperando o fim dessa guerra, assim como ele tinha.

Ficou olhando o soldado alemão sumir no horizonte. Não teve coragem de atirar. Percebeu que os homens que lutavam aquela guerra eram mais parecidos que diferentes e por isso podia enxergava a imensa cicatriz que aquele soldado carregava na alma. E, assim como a dele, não sabia quando ia se curar.

 

*Um dos dois navios estadunidenses que conduziu os soldados brasileiros para combater na Itália. Partiu no dia 22 de setembro de 1944, com 5,239 homens.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série C.