EntreContos

Detox Literário.

O Jardim das Memórias Vivas (Adaga)

 

Há um desejo que move todo o universo, uma energia multicolorida que vive sob as estruturas que interliga os seres vivos e não vivos, formando um só organismo composto pelo Todo, conhecido por diversos nomes: Deus, Brahman, Mãe Natureza ou o Absoluto. Mas que podemos chamar de Nós. Há muitos pontos desconhecidos em Nós, difíceis de desatar e revelar seus mistérios, um deles é o que determina as impressões. Como um sistema nervoso, cada parte da energia do desejo é conectada ciclicamente a outra, seja ela próxima ou em extremidades diferentes, mas não se trata de uma conexão simples, está mais para um rio de tinta que cruza com dezenas de outros rios, desaguando num mar de aquarela, cor sobre cor. Uma mistura por vezes clara, mas que no acúmulo se torna escura, densa e pouco decifrável. Assim se dá as emoções e sentimentos, impressões que se desenvolvem com o amadurecimento do ser, interno e externamente, a exploração de cada sentido em um dos muitos pontos de Nós. De todos nós.

 

Uma Fábula de Nós

 

O jovem Timothy não nasceu exatamente de uma virgem, mas certamente era a promessa de um rico casal provinciano. Após anos tentando engravidar e entre calorosas brigas e discussões, a mãe recebeu com entusiasmo a notícia de que esperava um filho. O próprio pai pensou que não escutaria mais as chacotas dos amigos no bar, que diziam ser incapaz e impotente. Mas como um Big Bang, o nascimento de Timothy foi desordenado e gerou algo totalmente imprevisível. A sorte não sorriu para a promessa de salvação de uma família já desgastada pelo tempo. O parto longo e difícil entregou a Timothy suas primeiras sensações e, mais importante, o primeiro presente da vida em Nós: o tato. Deixar o líquido amniótico de sua mãe, escorregar (com certa dificuldade, sim), vagina afora e sentir na pele o ar frio dos hospitais, sem discernimento se dádiva ou maldição ter recebido o sopro da vida, descobrindo pelo toque, pelo tapa, o poder do choro. E chorou por horas a fio, para piorar sua situação. Com deformações nos pés e nas mãos, os órgãos comprimidos, a boca torcida e os dentes apontando, o pequeno Timothy foi tudo o que seus pais não sonharam. E assim como o tato afaga, cuida e protege, ele também bate, afasta e abandona. Defeituoso, como os médicos o chamaram, em seu terceiro dia de vida foi deixado ao relento num terreno baldio distante o suficiente para que ninguém escutasse seu choro, sua súplica por um colo. Os pais de Timothy criaram um novo nó ao abandoná-lo, mas como numa linha, ao torcer uma parte ela certamente encurtará e aproximará tantas outras. E foi assim que três moradores de rua ouviram o choro incessante que vinha do outro lado da calçada. 

Entre as ruas e uma comunidade hippie, Timothy encontrou seu lar sob as tendas do Circo Prisma. Sim, o destino clássico para todos os diferentes e excêntricos. Mas por mais que fosse anormal demais para a sociedade, fora dos padrões ou do perfil desejado pelos próprios pais, que certamente espelharam no filho sequer nascido muito dos seus sonhos e frustrações, ele tampouco era interessante demais para as apresentações circences. Era a criança feia, como o público o chamava, que ajudava a entregar os tickets. Mas apesar da timidez, do medo até mesmo de dirigir o olhar às pessoas, dos pés tortos escondidos em botas gastas e as mãos tortas sob grossas luvas, que vez ou outra arriscava pegar um saquinho de pipoca, Timothy explorou bem o ouvir, o segundo presente que é dado ao ser criança. Escutou incansáveis “respeitável público”, as ordens do Senhor Trutão ou as conversas às escondidas de Maria e Joaquina, as misteriosas gêmeas siamesas. Gostava de imitar os trejeitos de Sebastian, o Mágico, e aprendia através da imitação. Poderia não ter lugar de fala em nenhum dos dois mundos, ninguém ouve os choros de uma criança mesmo, mas Timothy nutria a vontade de conhecer seus verdadeiros pais e poder escutar deles uma palavra que fosse. Sempre fingia, como Sebastian, retirar de uma cartola um cartão com o endereço deles, dizendo ao público imaginário que pegaria um Trem Expresso e Mágico rumo ao antigo lar.

Sua infância se deu em meio aos trailers improvisados e sob as tendas do Circo Prisma, viajando de cidade em cidade, conhecendo os mais diversos tipos de gente, dos mais exigentes da cidade grande aos mais simples dos confins desse mundo, geralmente os que ficavam mais deslumbrados pela magia do circo e do desconhecido. Deixou de ser a criança feia da bilheteria e se tornou o jovem faz tudo. Certo dia viu entrar no estacionamento, logo após uma apresentação, um burguês engravatado, o tipo que pensa conhecer tudo e a todos, com sua equipe de fotógrafos, roteiristas e assistentes, avisando com pompa que faria um filme. Ou, melhor dizendo, uma espécie de falso documentário, retratando aqueles à margem da sociedade. Em seu olhar, as aberrações do circo viviam à parte da civilização. Não passava por sua cabeça, muito menos na de Timothy, que sociedade pode ser um termo bastante abstrato. E por mais que tenha enxergado toda sua vida, a visão na juventude é um tanto diferente. O convite para participar de um filme, praticamente uma releitura qualquer trash, foi a chance de se tornar dono de si e fugir daqueles que o criou, a rebeldia adolescente de mostrar ao mundo do que é capaz, independente de suas deformações ou de sua timidez. Superaria tudo isso pelo sonho, pelo desejo de um futuro diferente. A juventude, recheada de desejos, da visão e a sensação de existir um mundo de possibilidades pela frente. E nada como a ficção para mostrar as alternativas e oportunidades que existem em Nós.

Há um período, dito pela sociedade, em que os indivíduos se tornam adultos. Mas a realidade é que em Nós a maturidade vem de maneiras e em tempos diferentes para cada um. Timothy nao estrelou o filme trash, foi apenas uma das diversas pessoas que apareceram no pseudo-documentário. Nem tão próximo ou tão distante da margem estabelecida pelo diretor dessa mesma sociedade. E a vida não guarda lugar para os intermediários, os que ficam no meio. Quem senta nos bancos da frente e próximos ao motorista ganha visão privilegiada da pista e de onde se quer chegar, como também quem senta nos bancos de trás, destinados aos solitários ou aos baderneiros, que seguem o fluxo da viagem e só levantam chegando ao destino. Os bancos do meio, esses sobram para os que chegaram atrasado. Entretanto, Timothy ganhou certo apreço por uma parcela pequena da audiência, digamos que… por suas pequenas deformidades nas mãos, pés e boca. Não demorou a ser convidado para encontros com pessoas cujos fetiches eram tão diferentes quanto o próprio garoto, mas que davam o acolhimento que sempre sonhou receber. Com a chegada da maioridade, o quarto e penúltimo presente lhe fora dado. Além do dito normal, Timothy era como uma prostituta, um artista ou um escritor, vendendo suas ideias e se entregando aos outros de corpo e mente abertos, em busca de certo afeto e prestígio. A lembrança de quando era criança, a vontade de encontrar os verdadeiros pais, os sonhos da juventude, nada disso fazia diferença para a vida longe do Circo, que foi seu verdadeiro lar. As contas, as responsabilidades que vieram com a vida adulta, o aluguel vencido, tudo se misturou ao paladar de poder dizer o que se quer, de não mais experimentar, mas sim de saber o que precisa ser feito, a experiência dada em Nós.

 

O Jardim das Memórias Vivas

 

A velhice também tem seu tempo certo de vir e independe de idade. No caso de Timothy, devido suas complicações, ela chegou um tanto cedo. O mal funcionamento de suas células causaram, perto dos 30 anos, uma doença autoimune que prejudicou o funcionamento de seus órgãos sensíveis. É na velhice, também, que os quatro presentes de Nós para a vida são tomados: a visão não é a mesma e o futuro não parece tão distante; o ouvir se transforma no contar; o paladar já não aceita todos os gostos como antes; e o corpo trêmulo, rugoso e delicado não suporta mais o toque e a descoberta da infância. Timothy não chegou a enrugar, mas sentiu tudo falhar, entrando em colapso. E ao mesmo tempo em que são tomados, há o derradeiro presente, o quinto sentido das impressões que também é ponte: o olfato.

Timothy, velho não em idade, mas como indivíduo chegando ao fim de sua vida, se viu preso à uma cama de hospital, sem tantas possibilidades ou coisas a se fazer. Sua mente iniciou um lento processo de caminhar rumo ao Jardim das Memórias Vivas, visualizando um infinito jardim de lembranças, cada flor emanando sua fragrância de um momento especial. Sentiu o perfume adocicado das mulheres com quem dividiu a cama, de uma época de experiências e serenidade. O cheiro das pipocas doces vendidas na garagem do Circo Prisma dominaram seu nariz, a nostalgia de uma época onde a inocência e a ingenuidade eram tão perigosas quanto gostosas de se viver. E assim, de flor em flor, sua mente passeou por inúmeras memórias, se distanciado cada vez mais do seu corpo físico e se aproximando de uma eterna bruma que cobria o restante do jardim. O conglomerado de nós formados por Timothy foram desatados do universo, fazendo com que sua linha fosse esticada novamente, surgindo quase como nova. E antes de adentrar por completo na bruma, pôde sentir um último aroma… dessa vez bastante distinto, gelando suas narinas. Um cheiro novo, mas ao mesmo tempo familiar, que remetia aos seus primeiros dias, ao abraço carinhoso que ansiava. Um cheiro de hospital, como no dia em que nasceu. E assim retornou ao verdadeiro lar e novamente abriu seus braços para receber o primeiro presente, dando seu primeiro passo e sua primeira impressão de todos Nós.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A.