EntreContos

Detox Literário.

O Círculo dos Ciclos (Christina Rocha)

 

Brasília – DF

Inalou o ar até que não fosse mais possível e então relaxou. Ficou pensativo por alguns instantes, fez anotações mentais, mas não encontrou suspeitos. O semblante era de quem levantava a tampa da panela para sentir o aroma da comida recém-preparada pela mãe, mas o cheiro não era nada agradável.

— Devia se apresentar ao entrar em um local privado, com duas pessoas que não podem te ver chegar — disse, sem se virar para a porta.

De repente lembrou-se dos gritos incompreensíveis do lado de fora.

— A festinha ainda está boa — balbuciou.

— O que foi que me entregou?

— Seu perfume.

A análise que fazia da mulher podia ser julgada por qualquer conservador, mas para ele não se passava de trabalho (com algumas ressalvas).

— Meu Deus! — Ela levou a mão até a boca, sendo impedida por Raul de se aproximar. — Então é verdade?

— Verdade? — Ele questionou. — A notícia já foi além do Alvorada?

— Ainda não, mas não deve demorar muito. — Retirou o crachá do pescoço e entregou a ele, rompendo a barreira entre ela e o corpo estendido.

Anthonia, ele leu. Jornalista. Sem descrição do veículo. Um objeto de fácil acesso.

— Os seguranças estão mais preocupados com os que estão do lado de fora do que com os que estão do lado de dentro. — Ela agachou-se para observar os detalhes e as pistas deixadas pelo assassino

Musculatura rígida, olhos abertos. No braço esquerdo uma gota de sangue coagulada. Um hematoma ao redor.  

— Morte por envenenamento.

— Imaginei — Anthonia apontou para o pulso do homem.

— Para qual jornal você disse que trabalhava mesmo? 

— Eu não disse.

Batidas na porta. Alguém interrompeu a conversa.

— O corpo será retirado agora, senhor. Por favor, me acompanhe.

Anthonia deixava a sala ao lado de Raul, contemplando pela última vez o local, mas foi barrada na porta pelo homem fardado.

— Preciso que se identifique.

— Ela está comigo — disse Raul, colocando o crachá dentro do bolso. 

Do lado de fora, ainda sem saber do ocorrido, as pessoas continuavam com as manifestações.

 

Algumas horas antes…  

 

Três chamadas perdidas. Apenas na terceira compreendeu que não era o despertador. Esticou o braço, tateou a cômoda e ouviu o barulho de algum objeto caindo no chão. Rezou para que o celular não quebrasse, mas pelo menos assim não tocaria. 

Uma nova chamada. Levantou-se, resignado. O som era abafado, o quarto estava escuro. Olhou para o espelho, sobre o armário e esfregou os olhos.

— Alô.

— Preciso de você.

— Se precisasse de mim, não teria me indicado para um novo emprego.

— Precisamos de você.

Raul acordou. 

— Do que se trata? 

— Assassinaram o presidente. 

 

Brasília – DF

 

— Por que fez aquilo? — referia-se ao seu salvamento.

— Gostei de você.

Raul procurava Arthur entre os convidados. 

— Preciso sair e precisa me informar como, sem chamar a atenção.

— Ninguém está autorizado a sair — disse o amigo. — Nem você.

— Minha preocupação é que vocês não encontrarão nada aqui — respondeu olhando ao redor. 

— O suspeito está aqui — sussurrou.

— Não me preocupo com os suspeitos, Artur. Investigo acontecimentos. 

A saída do Palácio do Alvorada não foi muito diferente de quanto Raul entrou. Os gritos eram incompreensíveis.

— E agora?

— E agora seguimos.

— Como alguém da sua idade pode ter tanta disposição?

— Pratico yoga — ele seguia na frente. — Vamos, retire os sapatos.

— Estou bem com eles — tentou mostrar disposição. — Você deve conseguir um quarto no hotel que estou hospedada.

— Fica longe daqui? 

— Perdeu a disposição? — Anthonia tomou a dianteira.

 

Quando chegaram ao hotel, Raul passou por burocracias para as quais não tinha paciência.

— Vamos, preciso que me empreste seu computador.

Entrou no apartamento e foi direto para o banheiro. Agora sim conseguiria se concentrar em algo que não fosse controlar a própria urina. Enquanto se aliviava, percebeu que não estava apenas com uma mulher estranha, mas com sua primeira suspeita.

Felizmente, nada revela mais sobre alguém do que o próprio banheiro. Escovas e pasta de dente, sabonete. Na primeira gaveta um estojo, absorventes e uma cartela de anticoncepcionais que há dias não eram ingeridos. Na segunda gaveta, duas seringas vazias e novas. Voltou para o quarto.

— Agora entendi o desespero na recepção.

— Você não vai tomar banho? — Estava impaciente para ficar sozinho.

— Você tomou?

— Preciso da senha — apontou para o monitor.

— Então, não vai me interrogar sobre o ocorrido?

— Ainda não… Amanhã, talvez.

Anthonia deitou-se e adormeceu. Raul acompanhou as horas passarem pelo relógio do computador. Lia as últimas notícias publicadas nos jornais. De direita, esquerda e os ditos imparciais. Acordou com o telefone tocando. Olhou ao redor e não encontrou Anthonia. Havia uma maçã ao seu lado. Lembrou-se imediatamente do conto de Branca de Neve e jogou a fruta no lixo. Uma chamada perdida.

— Já me sinto arrependido de tê-lo chamado.

— Passei a noite em um hotel, me inteirando sobre os últimos acontecimentos. Ainda não consegui dormir direito.

— Azar teu, vou te enviar um endereço.

Endereço e o motivo da ligação logo cedo: uma professora de ensino infantil foi assassinada. 

As peças não se encaixavam. O caso da professora podia não ter associação nenhuma com o assassinato do presidente. Anthonia não estava em casa e era tudo o que ele pensava.

— Pode me chamar um taxi, por favor? — recebeu um sinal positivo da moça na recepção. Na televisão, informações sobre a morte do presidente e notas sobre a manifestação. 

Viaturas da polícia estavam paradas em frete à escola. Uma ambulância chamava a atenção dos pedestres. Raul foi recebido por Artur.

— Desculpe meu mau humor. Começaram as especulações da mídia sobre o caso do presidente.

— Compreendo — Raul sentia a barriga reclamar de fome.

— A professora foi encontrada na sala pelos estudantes. Os pais já foram informados e aos poucos estamos liberando os alunos. O crime aconteceu antes das sete, horário que as crianças entram nas salas.

— A mídia, onde está?

— Até onde sei, com a primeira dama viúva.

— Melhor assim, vamos trabalhar.

— O Duarte vai te acompanhar. 

Raul lembrou-se de Duarte da noite anterior. Foi o responsável por escoltá-lo para dentro e fora do Palácio do Alvorada.

— Ontem um dos manifestantes puxou meu uniforme e rasgou a manga da blusa — disse ele, apontando para o rasgão. 

— Está trabalhando direto desde ontem?

— Não senhor, hoje era minha folga.

— Bonita tatuagem, apontou para o braço aparente.

— Obrigado. Símbolo da família. 

Duarte indicou a sala e retirou-se. O corpo estava estendido no chão, assim como o do presidente. A primeira reação de Raul foi olhar o pulso da vítima. Sinal de injeção mal aplicada no pulso direito. Na sala não havia cheiro, mas a morte também aparentava envenenamento.

— O que perdi? — Anthonia invadiu a sala.

— Lugar certo, na hora certa?

— Não. O guarda bonito da blusa rasgada lembrou de mim na noite anterior. Desci para te buscar, após tomar meu café da manhã, mas você já havia saído.

— Porque não me esperou?

— Minha dieta. Você estava dormindo. — Apontou para a marca no braço da professora. — Qual a relação dos crimes?

— Era tudo que eu queria saber.

Raul aproveitou o momento longe de Anthonia para conversar com Artur.

— Perderemos um grande tempo por se tratar de crianças.

— Já estamos perdendo por estarmos no Brasil — Artur afirmou. — Interpretações?

— O assassino é o mesmo.

— Sim. Mas qual a ligação?

— Não consigo dizer. Laudo médico. Cadê?

— Não me enviaram ainda. 

Acenou de forma afirmativa.

— O essa moça quer com você? Por que autoriza o acesso dela? — Artur observava Anthonia se aproximando. 

— Tenho meus motivos.

— Bonitinha.

— Não reparei. 

 

Subiu para o quarto mastigando um biscoito industrializado. Sentia a necessidade de tomar um banho. Queria os laudos médicos. Despiu as roupas e entrou debaixo do chuveiro. 

A cerimônia que ocorria no Palácio do Alvorada recepcionava o presidente norte-americano no país. Uma visita considerada apenas cordial por alguns jornais, enquanto outros manifestavam desaprovação. 

Assim como não fazia a associação entre as duas mortes, não encontrava motivos cabíveis para as manifestações terem alguma associação com o ocorrido. A verdade é que enquanto pensasse em Anthonia como a primeira suspeita outros suspeitos não apareceriam.

Precisava de um lugar no qual pudesse escrever. Saiu debaixo do chuveiro e foi até o quarto. Roupas, carteira, o batom da moça que se encontrou duas noites atrás serviria. Voltou para o banheiro e passou a toalha no azulejo.

Havia duas possibilidades visíveis: Anthonia ou algum manifestante justiceiro. Adicionou uma terceira opção, pois nenhuma das primeiras confirmava com certeza o que teria acontecido. Descartou os manifestantes. A própria morte do presidente apresentava certo grau de loucura.

Anthonia. Ainda se recusava crer que ela estava envolvida. Tentou não acusá-la na primeira vez que a viu, mas as seringas encontradas no banheiro de seu quarto…

Raul saiu do banheiro e fechou a porta. Alinhou-se junto dos travesseiros da cama e dormiu. 

 

— Raul… — alguém chamou de dentro do quarto. Ele havia se esquecido de trancar a porta. — É muito importante, preciso lhe contar algo.

A visão não era completamente ruim. Entrou no banheiro e lavou o rosto. Mesmo lembrando o que deveria fazer, levantou os olhos para o espelho e sorriu. Porém, o sorriso não durou muito tempo e percebeu o gráfico que Raul havia deixado na parede.

A primeira sensação foi de medo e a segunda sensação foi de raiva. Nada que ela fez indicava que era uma suspeita. Estava nos locais do crime, conforme descrevia o gráfico, mas para ela isso não bastava. 

Raul acordou com o barulho da porta batendo. Sentou-se na cama e viu a porta do banheiro aberta. Aquilo era tudo que ele não queria que tivesse acontecido naquele momento. Vestiu as roupas e estava decidido a ir até o quarto de Anthonia quando recebeu uma ligação do hotel. Artur gostaria de vê-lo.

 Anthonia teria que esperar, ele não queria, mas estava ali a pedido do amigo. Quando a campainha tocou, Raul já estava na porta, pronto para atender.

— Eu mesmo resolvi trazer os laudos — Artur jogou os documentos sobre a cama de Raul. 

— Não fui além do que já analisamos — recolheu os papeis e começou a folheá-los. — Já leu?

— Diversas vezes. A morte por envenenamento foi confirmada. 

Artur segurou os ombros de Raul, para que pudesse coagi-lo. 

— Se tiver alguma suspeita, preciso que divida comigo. Isso abafaria a imprensa, pelo menos por um tempo.

— Ainda não tenho nenhum suspeito — Raul olhou para o banheiro, preocupado. 

Artur o soltou, dirigindo-se à porta, insatisfeito. 

Raul analisou o laudo do presidente. Morte por envenenamento de barbitúrico. O assassino não tinha conhecimento para aplicar a injeção. O laudo indicava hematomas em dois lugares, nas costas e no pulso. Gravou essas informações. O laudo da professora era um pouco maior. Morte por envenenamento outra vez, mesma substância. Hematomas em dois locais, costas e pulso. Fibras de roupa foram encontradas debaixo das unhas da mão esquerda.

— Fibras de roupa… 

Raul foi até o banheiro e procurou o batom. Agora tinha mais um suspeito. Aparentemente os crimes não tinham nenhuma ligação. Lembrou-se da tatuagem. Já tinha visto aquele símbolo em algum lugar. Curso, internet. Um livro. 

 

 

Antes de sair do hotel, contaria para a Anthonia sobre sua nova suspeita. Bateu na porta do algumas vezes. Ninguém atendeu. Foi até a portaria.

— A moça do apartamento 401?

— O apartamento 401 está vazio, foi desocupado hoje, mais cedo.

— Posso usar seu computador alguns instantes? 

Círculos, eram círculos, mas o que pesquisaria? Círculos, meio círculos, círculos dentro de círculos… encontrou: círculos e ciclos.

“Um círculo dos ciclos só é fechado quando cada uma das gerações de uma família cumpre com a lei. Se uma geração falha é carregada pelas demais gerações, como um símbolo de vergonha. Pois assim diz a lei: a geração de sua cria só será próspera, caso seu sangue seja também o sangue do poder, da sabedoria e da lealdade”. O sangue do poder, da sabedoria e da lealdade”.

Quem representaria a lealdade?

Quando adolescente, sua avó vivia pedindo que fosse menos festeiro: “Se você se vê como um homem infiel, é melhor que vire padre!”, ela dizia. Raul nunca havia percebido o quanto aquelas palavras eram importantes.

— Quantos padres existem em Brasília? — perguntou à recepcionista.

— Muitos — ela riu.

— Hierarquicamente, quantos superiores? — precisava ser mais especifíco. 

— Um arcebispo, se é o que você está me perguntando.

— Preciso me encontrar com ele.

— Aeroporto.

Raul pediu que o taxista o levasse para o Aeroporto Internacional de Brasília. Pelo que entendeu, o esposo da recepcionista auxiliava na organização das celebrações religiosas. 

Hora certa, local certo. Onde estaria Anthonia?

Ainda no caminho, ligou para Artur, mas o telefone estava desligado. Deixou uma mensagem, informando o que havia encontrado. Quem acreditaria? Não sabia por onde começar sua busca.

— Vem, não temos muito tempo.

Raul sentiu um puxão no braço e estremeceu. Era Anthonia. Provavelmente seguindo mais uma pista.

— Conseguimos localizar o arcebispo através das câmeras de segurança.

— Conseguimos?

Anthonia andava cada vez mais depressa. O fluxo de pessoas no aeroporto não era grande, o que facilitava o acesso e dificultava a descrição. 

— Ele estava aqui – ela apontou para uma cadeira.

— Onde está Artur?

— Atrasando o embarque.

— Vocês estão procurando o homem sentado ali? — uma mulher de meia idade perguntou. — Ele foi até o banheiro. 

Os dois correram na direção indicada pela mulher e entraram no banheiro mais próximo. Sem sinal do arcebispo ou do policial.

Havia apenas uma cabine trancada. Raul respirou o mais fundo e chutou a fechadura da porta. Duarte se desiquilibrou e caiu ao lado do corpo do arcebispo, posicionado sobre o vaso sanitário, sem reações. No chão havia uma seringa vazia. Na mão do policial uma outra, com a qual colhia o sangue da vítima.

Ao vê-lo, Duarte resgatou a seringa do chão e avançou sobre ele. O corpo do policial preendia-o no chão, com o apoio da mão esquerda. Com a direita, Duarte forçava a seringa contra a jugular de Raul, que tentava impedir.

O barulho do lado de fora do banheiro foi abafado por dois tiros. 

Raul lavou o rosto, sentia a roupa pegajosa e a boca amarga.

— Você está bem? — Anthonia entrou no banheiro, seguida por Artur.

— São coisas que acontecem todos dias — Raul tentou ser engraçado, mas ninguém riu. — Como descobriu e o que eles fazem com o sangue?

— Dão para o recém nascido beber. — Anthonia apontou para o símbolo no braço de Duarte. — Pelo que indica a tatuagem, ele bebeu, mas os avós não concluíram o ritual.

— A mulher de Duarte deu à luz há quatro dias — Artur completou, entrando no local. 

— Anthonia, como explica as seringas que encontrei no seu banheiro?

— Sou diabética — explicou. — Faço aplicações de insulina quatro vezes por dia.

— Jornalista?

— Não — respondeu Arthur. — Uma das minhas poucas pessoas de confiança. Vou me aposentar e cogitei colocá-lo no meu lugar.

— Um teste. Bom, um teste. Eu passei?

Anthonia riu.

— Existe uma superstição que diz que beber sangue de assassino te torna mais capaz de solucionar os próximos casos.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série C.