EntreContos

Detox Literário.

Ô Bira! (Goiaba)

 

— Ô Bira, essa cômoda aí amarrada no fusquinha é pra quê?

— Fusquinha não, o nome dele é Goiaba. Ele não gosta de ser chamado desse nome aí. O móvel eu tô vendendo. Uma belezura no verniz. Pra senhora é cem pratas.

— Tá de onda comigo? Te conheço desde que tu fazia frete de entulho no burro sem rabo.

— Sessenta e não se fala mais no passado que dá azar.

— Cinquenta, entrega lá em casa e assunto encerrado. 

— Fechou. Se fui pobre não me lembro, se fui rico me roubaram.

 

O valente biscateiro subiu a ladeira íngreme no maior medo do fusquinha não aguentar o tranco e descer de ré. Suspirou aliviado quando estacionou em frente ao prédio da cliente. O pior tinha passado. Quando percebeu os quatro lances de escadas, para subir com a cômoda na corcunda, comentou com o fusquinha:

— Olha pra isso Goiaba, rico não tem motivo pra sofrer então arranja. Artista é que gosta de morar em escadaria, todo castigo é pouco, como já dizia meu cunhado toda vez que me via. Se Jesus aguentou a cruz o que ele faria com uma caixinha de oito gavetas? Molinho, levaria pendurada nos beiços. Eita, esse troço tá parecendo queijo suíço. Vou meter querosene que os bichos morrem doidões e a dona nem repara. 

— … 

— É por isso que eu gosto de você, Goiaba, não fica por aí falando besteira. 

Encheu o móvel de querosene, botou a carga nas costas e foi vencendo degrau por degrau. A cada passo uma via crucis com o querosene escorrendo pelo lombo, junto com o pó de cupim. Quando chegou ao destino e a mulher abriu a porta encontrou um Bira à milanesa,  preparado sem nenhum capricho. 

— Taí, doutora, missão dada é missão cumprida.

— Ué, Bira, o que é esse pó amarelo fedendo grudado no teu corpo?

— É um tratamento francês a base de pó de fada para amaciar pele de burro. 

— Sei… Coloca a cômoda aqui do lado da janela. Espera aí, essa coisa tá parecendo um pombal de cupim. Sacanagem comigo. Tira isso da minha casa já. Perda total que nem minha confiança em você.

— E eu tenho que entender  de bicho escondido nos intestinos da madeira? Só falo do que entendo. Por exemplo, eu não sei nadar no mar, só entendo de coisa seca. Lá no sertão os peixes nadam na poeira e eu aprendi com eles. Agora bota uma farinha aqui na minha frente pra senhora ver se eu não domino a danada?

— Tá querendo me enrolar com essa besteira de peixe e poeira. Eu quero o meu dinheiro de volta. 

— Quando eu cheguei aqui no Brasil, porque sou estrangeiro lá da Paraíba, fiquei maluco. Não podia cometer um pecadinho porque todo lado que eu virava o Cristo tava lá em cima do morro de olho em mim. Desde lá, e isso já tem mais de légua de vento, só faço e falo a verdade, com Jesus no meu cangote direto. Quero morrer com um raio agora na fuça se estiver mentindo, ou eu não me chamo Jeovane, com “J”.

— teu nome é Geovane, com “G”, né?

— Jeovane,  com “J”. Tem gente que escreve errado, daí eu ensino. Os moleques lá na roça não sabiam falar o meu nome e eu também não sabia explicar e nem soletrar. Então pra encurtar a prosa, que eu não sou de falar muito, eu adotei o nome Bira, que era um cachorro que eu gostava muito, Ele rodava que nem um peão atrás do próprio rabo e morreu de tanto comer xiquexique. Eu chorei muito quando ele fechou os olhinhos,  e também teve um jegue chamado Nestor que…

— Tá bom, tá bom, já entendi, Jeovane com “J”.

— Pode me chamar de Bira…

— Chega! Quero saber como é que a gente fica. Cadê o meu dinheiro?

— A senhora eu não sei, mas tem dias em que fico muito ruim, mas na maioria dos horários eu sou muito gente boa, principalmente quando eu durmo. E esse negócio de devolver dinheiro é muito complicado, não estudei tanto assim. Qual o time da senhora mesmo, que eu já ia me esquecendo?

— Esquecendo do que, Bira?

— ????

— Tá, tá, meu time é Botafogo e eu estou sem um pingo de paciência com você. Mas o que isso tem a ver com nossa transação aqui?

— É que, por obra e graça de meu padim padre Cícero, e do Cristo que não me desgruda das costas, tenho aqui, no meu veículo de frete, uma encomendada especial para a senhora, diretamente da central administrativa das nuvens celestiais. 

— Caramba, Bira, que mosaico lindo com o escudo da estrela solitária. Amei. 

— É da madame, ordem divina, eu só obedeço. 

— Tudo bem, homem de Deus, mas você ainda me deve um frete. E tira essa mansão de cupim daqui.

— Não quero nem saber quem morreu, eu só quero é chorar. 

— E vê se não vende essa cômoda de novo para outro otário.

— Claro que não. Vou fazer um criadouro desses bichos lá em casa para alimentar o meu tamanduá de estimação. 

— Kkkk… Tu não toma jeito mesmo. Toma cá mais uns trocados para a cerveja.

— Sorte de paraíba na chuva é goteira na sala. É por isso que lá em casa tem um monte de balde. A senhora não está precisando de um balde?

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A.