EntreContos

Detox Literário.

O Auto do (In)feliz Natal (Leila Carmelita)

 

Há alguns anos, nos festejos natalinos, o senhor Agnaldo saía às ruas vestido de Papai Noel. Fazia mágicas no intuito de arrecadar dinheiro para comprar brinquedos, que depois seriam distribuídos no orfanato Cosme & Damião. Gerido pela igreja local, contando com um pequeno convênio com o município e doações esporádicas, o lugar era humilde. Os diretores não podiam gastar dinheiro com brinquedos, caso contrário, não sobraria para pagar as contas.

O idoso, gostando de crianças e não tendo mais apoio da sua família, se pôs como voluntário da instituição. Doava todo o seu tempo e amor àquelas crianças. O número de adoções entre eles era muito baixo, a não ser quando eram bebês de zero a dois anos, brancos e sem irmãos mais velhos.

Naquela semana, acordou cedo, fez um café ralo e o bebericou de uma vez só. Vestiu-se como Papai Noel, colocou creme dental no rosto, para que o tom de pele ficasse mais próxima à do bom velhinho. Guardou também os utensílios numa sacola de nylon e saiu depois de uma oração fervorosa ao bom Deus.

Pegou duas conduções para chegar à Praça da Matriz, no centro comercial.  O lugar possuía inúmeras lojas instaladas. Muitas de marcas famosas, onde artistas e modelos internacionais posavam com sorrisos artificiais para fotos cheias de efeitos gráficos.

Embora não soubesse, não poderia permanecer ali. O Sindicato dos Comerciários locais, através de seu braço político na Câmara Municipal, por meio de Lei Orgânica, tomou resolução de que na semana do Natal, mendigos, pessoas em estado de drogadição, alcoolismo ou artistas de rua não poderiam permanecer no Calçadão em horário de funcionamento das lojas. De acordo com os bons homens que propuseram a lei, o objetivo era criar um clima de segurança e aumentar o fluxo de clientes e a receita municipal com os tributos das vendas no feriado.

Agnaldo não sabia que o direito à liberdade de expressão estava cerceado. Ao menos, não havia placa ou manifesto que indicasse o ato de inconstitucionalidade explicitamente. Por isso, chegou à Praça da Matriz em plena manhã e pousou seus objetos na rua. O local estava cheio e as pessoas dispersas.

Eram crianças espevitadas comendo algodão doce e mães apressadas teclando frenéticas em seus smartphones. O homem continuou tentando atrair a atenção do público. E após muito tentar, conseguiu. Estava tão entretido com sua mímica que não percebeu estar sendo vigiado por dois seguranças da loja em frente, uma grife conceituada. Eles vinham se aproximando com seus cassetetes na mão.

O público se divertia e depositava moedas na sacolinha, que ia se enchendo de esperança e sonhos.

De súbito, o senhor Agnaldo foi interpelado por um dos seguranças. Como não desejava sair do personagem, gesticulou freneticamente. Um dos leões de chácara entendeu aquilo como uma tentativa de agressão e deu-lhe um safanão. O idoso se ergueu do chão enraivecido, empurrou o atacante, que caiu ao chão. O outro segurança deu um golpe em sua têmpora, e antes que pudesse queixar-se da dor, foi envolvido com um mata-leão.

Por mais que tentasse falar, não podia. Sua garganta era apertada pelos braços do brutamontes. O fôlego da juventude e a resistência já não mais existiam no seu velho corpo. Alguns dos expectadores pediram para que a violência gratuita terminasse, mas temeram se envolver além das palavras. O outro segurança manejava um taser. Alguns transeuntes paravam para gravar o ato de violência, outros até mesmo tiraram selfies, postando as fotos nas redes sociais com legendas pouco lisonjeiras sobre o senhor Agnaldo. Num intuito altruísta, alguns dos expectadores ligaram para a polícia ao invés da SAMU. 

Por fim, o agredido saiu num rabecão. Durante cinco minutos inteiros, ficou sem respirar, teve uma parada cardíaca três minutos antes de morrer.

Os seguranças foram chamados a depor, mas como haviam evadido antes da guarnição policial chegar e, se apresentaram por livre e espontânea vontade no dia seguinte com bons advogados, foram acusados de homicídio culposo, sem intenção de matar. O julgamento foi procrastinado durante uma década inteira. As testemunhas arroladas pelo Ministério Público não compareceram. As câmeras de segurança do local do crime, por coincidência, “estavam em manutenção.” Os vídeos e fotos postados na internet foram considerados inconclusivos e os seguranças foram absolvidos por falta de provas. A bolsa de dinheiro nunca foi encontrada, por isso o homem não foi considerado um artista de rua ou coisa parecida, tido como um louco ou militante político radical. O corpo de Agnaldo não foi identificado ou procurado por parentes e amigos. Foi enterrado como indigente.

No orfanato Cosme & Damião, as crianças deram sua falta. O lugar nunca mais foi o mesmo. Embora os diretores tenham se empenhado em encontrar o seu mais dedicado voluntário, ele nunca foi encontrado. Os registros de Agnaldo em ONGs de desaparecidos nunca surtiram efeito, as campanhas nas redes sociais também não. Mas mesmo assim, até hoje, toda a instituição espera pelo seu retorno.

Para marcar essa esperança, e as crianças são as melhores em exercitar tal espírito, todas escreveram para o projeto Adote uma Cartinha, programa de doação voluntária dos Correios. Pessoas escolhem cartas deixadas por crianças da comunidade carente e compram os seus presentes. Para evitar fraudes, as cartas são lidas por uma coordenadora e depositadas numa cesta na recepção em envelopes especiais.

Quando os funcionários foram pegar os envelopes, viram a mulher regar a mesa de trabalho com lágrimas. Cem cartas de crianças e adolescentes do orfanato Cosme & Damião foram recebidas. Todas pediam uma única e mesma coisa: “Querido Papai Noel. Agnaldo, o nosso amigão, está desaparecido. Por favor, traga ele de volta nesse Natal, nós o amamos muito”.

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A.