EntreContos

Detox Literário.

Na Casa da Mamãe (Nilo)

 

Voltar a morar na casa da minha mãe me pareceu uma péssima ideia a princípio. No entanto, eu não tinha o que fazer, já que eu havia abandonado o meu lar para ficar com uma mulher mais nova que minha esposa e acabei sendo abandonado por esta mulher por conta de outro cara. Um cara mais novo do que eu e com um futuro promissor, como a própria Helena me falou. 

— Mas, Helena, eu larguei minhas filhas e minha mulher para ficar com você! — Eu falei entre indignado e incrédulo. 

— Eu nunca te pedi para sair de casa, Nilo, e não sei de onde você tirou que eu queria casar com você. Você é charmoso, gostosinho, sabe o que fazer na cama, mas, meu querido, você tem quarenta anos e dirigi um Palio dois mil e um, tem um empreguinho numa prefeitura de uma cidade do interior, ganha menos de cinco mil reais por mês, e, para piorar, tem filhos, que vão lhe tirar uma boa porcentagem desta merreca depois do divórcio. Não sou mulher para isso. O Felipe tem um futuro promissor, o pai dele é dono do maior escritório de advogados aqui do estado. E também eu cansei de fingir que gostava de ler e não aguentava mais você me emprestando ou indicando livros. Esse seu papo de intelectual me cansa.  Está comigo sim aquele livro chatíssimo de um escritor francês de nome complicado, como é mesmo o nome do livro? Os Irmãos não sei o quê. Não é isso? Não precisava se preocupar em buscá-lo, aliás, eu não sei como você teve a cara de pau de vir aqui, depois daquele papelão que aprontou. Pode deixar que eu vou procurá-lo, só não vai ser hoje, muito menos agora, e o envio para a casa de sua mamãe. Não é lá que você está morando? Ela perguntou com o tom mais zombeteiro que sua voz poderia soar. — Fiquei sem ação e olhando para ela com uma cara de bunda igual à do Renato Gaúcho depois que levou o quinto gol do Flamengo. Após um silêncio constrangedor de alguns segundos, me vinguei como pude. 

— O nome do livro é Os Irmãos Karamazov e quem o escreveu não era francês, era russo, Fiódor Dostoiévski, somente o melhor escritor de todos os tempos! Falei com ar superior. — Ela sorriu debochada, deu de ombros e bateu a porta do apartamento na minha cara. Ah, as Helenas! Suspirei.

Esta foi a última conversa que tivemos naqueles tempos sombrios que me rondaram. Antes disso, logo depois de eu sair de casa, ela me enrolou por quase um mês. Não atendia as ligações, quando atendia me tratava mal e era fria nos encontros. Até que um dia, puto da vida, fui até o apartamento que ela morava e a encontrei com o filho da puta do novinho promissor.  Eu quis dar uma de corno valente, invadi o ap e caí pra dentro do fulano. Mandei um direto de direita na direção da fuça dele, ele defendeu e contra golpeou com um cruzado de esquerda bem no meio do meu nariz, que se espatifou na hora, a última coisa que eu ouvi foi o barulho de osso quebrando. Acordei dentro de um carro do SAMU. 

Humilhado e precisando de cuidados, me instalei de mala, cuia e galhas na casa de minha mãe por tempo indeterminado. Até então, eu estava hospedado num hotelzinho barato na orla da cidade. Não tive coragem de voltar para minha família. A dor e o ódio que eu vi nos olhos da Juliana, minha ex, quando eu disse que ia embora porque estava apaixonado por outra mulher, me impediram de tentar retornar. Ela não parecia desconfiar de nada. Fiquei bastante arrependido de tê-la magoado daquela forma, mas, esse arrependimento não durou muito. Em menos de três meses eu soube que ela estava namorando com um colega do trabalho dela. Aquilo me inquietou e fiquei com a suspeita que o romance já estaria rolando antes mesmo de eu sair de casa. E a sensação de ser galhudo tanto da amante quanto da esposa me aporrinhou por um longo tempo.  

Passei algumas semanas enfurnado na casa da minha velha, remoendo os infortúnios, lustrando os possíveis chifres, enquanto minha mãe lambia minhas feridas. Até que resolvi voltar a sair.

— Mamãe, estou saindo, não sei que horas eu volto. Bença? Falei da porta da frente da casa. 

— Deus lhe abençoe, meu filho! Vai sair com quem? — Ela perguntou num tom curioso.

— Vou encontrar com o pessoal da universidade, que não vejo há uns dez anos. 

— Vai beber? — Ela indagou levantando-se do sofá e indo em minha direção. — Com certeza! Respondi. 

— Cuidado com o bafômetro! — Ela disse me dando um beijo na testa. Fui de Uber. 

Reencontrar a galera das antigas foi a melhor coisa que eu fiz. Principalmente rever a Sueli. Ela continuava gata como sempre. Durante a faculdade a gente era bem próximo, tínhamos um lance, um chamego, mas, nunca aconteceu nada. Ficou mesmo só na troca de olhares, nos elogios mútuos, nos abraços um pouco mais demorados quando nos despedíamos. Eu já namorava a Juliana e a Sueli era noiva e casou-se assim que se formou. Ela só tinha vinte e um anos e pouco depois sua primeira filha nasceu. E em menos de um ano ela engravidou de novo e teve mais uma menina. Ela também estava separada, há mais tempo do que eu, e a eletricidade e o carinho que nos envolvia durante os tempos de faculdade voltaram com tudo. Passei a noite toda ao lado dela. Conversamos e rimos muito. Na hora de irmos embora, trocamos os números de nossos telefones.

Quando cheguei em casa, quase duas da manhã, tinha um caldinho de peixe esperando por mim em cima da mesinha da cozinha. Coisas da dona Eulália. Ela gostava destes paparicos e eu estava precisando muito deles.

O tempo foi passando e minha rotina não era nada entediante. Saia às seis da matina e ia de carro para a prefeitura da cidade que eu trabalhava, que ficava distante trinta quilômetros de onde eu morava, na capital. Meu expediente era de sete da manhã a uma da tarde. Eu era o contador. As tardes eu almoçava, tirava um cochilo de meia-hora, lia alguma coisa, assistia programas de esporte e saia com minha mãe para caminhar no calçadão da Treze. Depois a levava para onde ela quisesse. Nos fins de semana eu saia para beber umas cervejas com os amigos, algumas vezes encontrava com a Sueli, estávamos meio que nos estudando, parecendo dois adolescentes, éramos ficantes, trocávamos beijos e carícias, embora nada de mais sério acontecesse. Ela ainda não sentia confiança em mim, por conta do pouco tempo que eu havia me separado. 

Acabei vendendo meu carro velho e fiquei usando o carrão da minha mãe. Ela tinha uma baita de uma aposentadoria, muito merecida, pelos anos trabalhados como Analista da Receita Federal. Meu pai havia morrido quando eu e meu irmão mais velho, que morava na Itália há mais de dez anos, ainda éramos crianças. Minha mãe ralou bastante. Era uma guerreira. 

Pouco depois de um ano de que me separei, recebi uma ligação da Helena.

— Oi, Nilinho, é a Helena, preciso falar com você. — Ela disse cheia de dengo. 

Fiquei desconfiado. A sacana se casou com o filho da puta promissor, já tinha até um filho pelo que eu soube e nunca mais falou comigo, além de desviar de caminho quando me avistava, e agora ligava me chamando de Nilinho? Coisa boa não era. 

— Pode falar Helena, o que manda? 

— Tem que ser pessoalmente, Nilinho — O que é que essa égua tá querendo comigo, pensei. 

— Que dia? — Perguntei. 

— Hoje, às oito, naquele barzinho que a gente costumava ir, pode ser? 

— Não poderei ir, Helena, tô cheio de coisa pra fazer, fica para outra hora, outro dia — eu disse friamente. 

— Nilo, o assunto é sério, diria mesmo grave, você tem que ir. — A meiguice da voz desaparecera, foi trocada por um som agudo, meio desesperado. Contrariado, concordei. 

Assim que ela desligou eu liguei para a Sueli, nós finalmente havíamos engatado um namoro. 

— Oi, Su, tudo bem? 

— Tudo bem, meu amor! 

— Você não vai acreditar em quem acabou de ligar para mim. A Helena — Eu disse sem fazer suspense. 

— A Helena, é aquela Helena? — Ela perguntou desconfiada. 

— Ela mesma. 

— E o que aquela vaca quer com você? 

— Não faço a mínima ideia, ela disse que era um assunto sério e que só falaria pessoalmente. 

— E você concordou em encontrá-la? — Concordei, respondi e emendei. — Você não quer ir comigo? 

— Deus me livre, ela respondeu divertida. 

Cheguei as oito da noite no bar, sempre fui um cara pontual. Ela já estava sentada à mesa que nós sempre usávamos. Ela estava bebendo uma vodca com gelo e suco de laranja, seu drink predileto. Percebi que mesmo depois de ter um bebê a poucos meses, seu corpo continuava estonteante. Filha da puta! Pensei. Ela se levantou quando me viu e veio me beijar no rosto, eu me afastei um pouco e apenas estiquei minha mão. Ela a apertou meio constrangida com minha atitude. Pedi uma água. 

— Nilinho, você sabe que casei com o Felipe, não sabe, lembra do Felipe? — Como é que eu poderia esquecer, eu e meu nariz lembramos dele toda vez que estamos diante do espelho.  Num ato-reflexo levei minha mão para o meu nariz. Ela fez menção de rir, mas, controlou-se. 

— Então, Nilo, e você soube que eu tive um filho? 

— Fiquei sabendo sim — falei tentando não transparecer tensão. A sacana ainda mexia comigo. 

— Pois, então… — ela parou de falar, tentou reiniciar a frase, mas, não conseguiu e começou a chorar. Eu fiquei sem saber o que fazer com aquela mulher linda chorando na minha frente, fiz menção de passar a mão no cabelo dela para consolá-la, mas, me contive a tempo, respirei fundo e disse: 

— Desembucha, Helena, não tenho tempo para isso; — Ela fungou, limpou os olhos e começou a falar: 

— É que… é que….  

— Fala logo, Helena! 

— É que meu filho é branco, Nilinho, branquinho como eu, tão branco quanto um boneco de neve assim como você. — Falou e se esvaiu em lágrimas mais uma vez. Comecei a rir, não conseguia me conter, e quanto mais eu ria, mais ela chorava. 

— Você tá querendo dizer que seu filho não é do filho da puta do novinho promissor? É isso que você está me dizendo, Helena? 

— Sim, é isso — ela falou em prantos e continuou — o filho não é dele, o filho é seu! — Aquela porrada me deixou mais sem sentidos do que o soco que levei do corno filho da puta novinho promissor do caralho!

Levantei da cadeira puto da vida, dizendo que o filho não era meu nem a pau, que todas as vezes que nós transamos usamos proteção, não tinha como a criança ser meu filho. E que eu não assumiria porra de filho de ninguém. Discutimos feio e ela disse que entraria na justiça para que eu fizesse o teste de DNA, assim como o Felipe fizera. No entanto, não precisou de justiça, Sueli me convenceu a fazer o teste de paternidade. E, para surpresa de todos e desespero da Helena, o resultado deu negativo, o filho não era meu. Meses depois fiquei sabendo que o menino era de seu Heitor, um coroa de uns sessenta e cinco anos, altão, de olhos azuis, com pinta de galã de filme roliudiano. Seu Heitor era um empresário muito rico no ramo imobiliário, que tinha vários imóveis no prédio que Helena morava. Inclusive, o apartamento em que ela vivia era dele também.  No fim das contas, a sacana acabou se dando bem na vida. O coroa assumiu o filho e Helena agora vive dando uma de dondoca pelos shoppings da cidade. Ah, as Helenas!

Acabei virando um pequeno empresário. Como dona Eulália não deixava que eu pagasse nada em casa, meu salário ficava praticamente intocável, de despesa fixa só havia mesmo os vinte por cento que eu tirava para as meninas. O relacionamento com elas havia melhorado bastante com o decorrer dos anos. No início foi bem complicado, a mais velha, de doze anos, ficou arredia, não queria me ver, estava com raiva de mim. Com a pequena, de seis anos, nada mudou. Ela até disse que gostava da situação, porque ela estava indo todo fim de semana para a casa da avó, coisa que eu não fazia quando estava casado, e ganhava mais presentes. Investi a grana que eu não gastava numa lanchonete que construí acoplada à casa de minha mãe. Eu sempre gostei de cozinhar e todo mundo elogiava meus hambúrgueres. Comecei eu mesmo fazendo tudo, com ajuda apenas de minha mãe, da Sueli e das minhas filhas. O negócio prosperou e estive pensando em lançar franquias do Hambúrguer Gourmet do Nilo. 

Estou bem feliz, apesar de hoje a relação com a Sueli ter estremecido um pouco. Ela quer casar e morar num apartamento. Disse a ela que casaria sem nenhum problema, ela era o amor da minha vida, entretanto, eu não me mudaria de jeito nenhum. Estou tentando convencê-la que podemos muito bem termos um casamento feliz, honesto e com fidelidade, cada um morando em sua própria casa. Ela na dela e eu na casa da mamãe.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série B.