EntreContos

Detox Literário.

Muito Mais que Palavras (Chico Spirro)

Sempre gostei de palavras desde pequeno, segundo relatos de minha mãe. Do pouco que me lembro da minha infância, recordo que gostava de brincar com os sons das palavras, não me conformava com os nomes das coisas. Por que cavalo tinha que se chamar cavalo? Eu pensava em tantos outros nomes mais legais. Aquilo me incomodava, olhava para uma cadeira de madeira e via a matéria, via a alma do objeto. Esse nome lhe fora dado, mas eu me recusava a achar que estava sentado numa “cadeira.” Lembro-me que gostava de ler bastante e gostava de inventar estórias, mas grandes estórias mesmo ─ daquelas que todo mundo gosta de ouvir ─ nunca fui capaz de produzir. Sempre tive muitas ideias de estórias que seriam best sellers sobre os mais variados temas, todavia essas obras primas da Literatura universal nunca saíram da minha cabeça para tornarem-se textos vivos. Ah! Como eu queria escrever um livro onde estivessem todas as verdades da vida, um livro com todas as respostas e que mudasse não o mundo, mas as pessoas.

Crescido, o trabalho, as emergências e as contingências da vida me inibiram as possibilidades de tentar colocar para fora todos aqueles personagens do mundo das ideias com seus sonhos, suas dores e suas alegrias. Perseguido fui durante parte da minha vida por essas estórias que povoavam minha mente. Hoje, depois de muitos anos de espera, posso dedicar um tempo à criação e ao prazer que é produzido ao fim do parto de uma estória qualquer.  

Não é fácil escrever uma boa estória. Quando a ideia chega, tenho que escrever, anotar. Não importa a hora, o lugar ou o momento. A memória é traidora, se descuido por um segundo, ela se ocupa com coisas que pra ela são mais urgentes: a água, a luz, o telefone… 

Durante algum tempo, tenho que prender a ideia cuidadosamente na mente, se vacilo, o personagem que outrora se apresentava imponente, resoluto se esvai por entre tantos pensamentos. Os mundos criados a partir da ideia são rapidamente destruídos e desaparecem, o que era uma grande aventura some tão rápido quanto chegou. 

O papel em branco em frente a mim é um universo de possibilidades, espero preenchê-lo com um mundo que sairá de dentro da minha cabeça. Onde está a inspiração? Pergunto a mim mesmo, mas não encontro resposta, talvez ela esteja guardada lá no fundo do meu cérebro. Passo as noites em meu quarto riscando e rabiscando frases, busco as palavras certas, porém como saber se serão as certas para aqueles que as lerão?  Esse pensamento corrói meu ser, às vezes, escrevo várias páginas rapidamente, e mais rapidamente ainda as destruo; volto à página em branco. 

Estou no meu quarto mais uma vez, fechei a porta para não ouvir o barulho da rua, estou trancado. Em minha frente, uma cadeira de madeira me espera, a escrivaninha com algumas canetas e lápis exige minha presença; sobre ela um abajur. Este me deu a luz necessária para atravessar noites a fio em busca das melhores palavras. Às vezes me pergunto por que estou escrevendo isso? Por que deixei todo aquele entretenimento para trás para ficar aqui sentado durante tantas horas, maquinando, catando palavras nos dicionários e lançando-as depois de polidas num papel? A palavra me persegue, a estória me vem de algum lugar e fica pendurada no trapézio de minha mente, insistente, ela não me dá sossego até que saia de mim em forma de arte. As estórias estão por toda parte. 

Até que ponto fui fundo em mim mesmo para acessar uma ideia? De onde ela veio? Por que hoje ela apareceu pra mim? Chamou-me para o seu mundo? Perguntas sem respostas inundam meu pensamento. Estou só, procuro palavras em meio a um imenso jardim, mergulhado num infinito de possibilidades me desespero tentando colher as melhores flores para formar o meu buquê-estória.  

Sentado, a simbiose entre mim e a cadeira começa. A caneta torna-se a extensão de minha mão, as palavras vão sendo transportadas lentamente através dela para o papel. Muito de mim agora tinge a folha com símbolos que, antes de serem estória, para muitos não valem nada. Tento construir algo sólido.

Estou tateando no escuro. Procuro agradar alguém que não conheço, alguém que talvez nunca conhecerei, mas sei que está em algum lugar, em todo lugar. Por que penso tanto nessa gente sem rosto e que comanda, de certa forma, minhas palavras? Por que essa ideia me sufoca se é pra mim que escrevo? Posso guardar todas essas páginas, todas essas pessoas, seres e mundos fictícios em minha gaveta, deixá-los apodrecer pouco a pouco tendo apenas a visita de ratos e baratas que habitam toda escrivaninha guardada naquele nosso quarto em que se guardam coisas que amamos e guardamos só para nós. Mas uma estória que ninguém lê é como um passarinho que passa a vida cantando para alegrar uma pessoa só.

O prólogo é apenas o início da jornada, é a ponta de um iceberg que se esconde. Quanto mais escrevo mais ele parece insuficiente e fraco e tênue. Por incrível que pareça ainda não decidi em minha cabeça se ele vai ser o início, o fim ou o meio. Ah! O tempo passa e o tormento aumenta. Na ânsia de escrever uma grande aventura o quanto antes, peço inspiração aos grandes mestres. Sei que tenho todos eles em mim, mas tenho a certeza de que não sou igual a eles e eles nunca serão iguais a mim. 

Depois de muitos dias sentando e levantando da cadeira silenciosa, domino finalmente a estória começada. O papel agora não mais em branco exige mais palavras. Os personagens que criei, ainda sem formas concluídas, pedem um rumo para suas vidas. Indeciso, sem saber direito qual direção tomará a minha estória procuro, entre as muitas que já li, pessoas e lugares que jamais existiram, na tentativa de agradar ao “outro”. Esse “outro” que anseia por novas aventuras a cada dia. 

  Ponho os personagens no papel finalmente, se falta mais algum, não sei. Tenho um esqueleto, uma espinha dorsal de uma estória que vai me guiar pelo resto do meu caminho. Tenho a vida de pessoas em minhas mãos, tudo o que elas farão depende de mim, de minha vontade. Aos poucos vou construindo o mundo ao redor delas. Nessa hora pensamentos, os mais diversos, me vêm à cabeça: afinal, eu estou construindo o mundo para os personagens, mas até que ponto o ambiente define os personagens e os personagens definem o ambiente?  

Simplesmente não posso fugir do meu destino, cartas na mesa e jogo começado preciso dar vasão às coisas que estão em minha mente. Personagens pululam pedindo um destino. Depois que a gente cria alguma coisa é responsável por ela, não posso por meus personagens em qualquer lugar, de qualquer jeito. Começo pelo mundo: era uma terra muito distante… não, não, não! Era uma vez, num planeta muito distante…

Quantas questões sobre a terra e sobre o universo me afligem? São as mesmas que incomodam meus personagens. Agora que eles têm um lugar posso descansar um pouco minha mente. Tomo um café ou um copo de vinho e, nesse momento, tento vagar sem rumo por terras distantes e mares nunca d’antes navegados. Deixo-me levar pela imaginação até onde Deus duvida, vejo mundos que criei outrora e me lanço em outros tantos que me foram mostrados pelas infinitas palavras que li. O café acaba. Agora de pé estico os braços e pernas, saio de perto da janela e volto à cadeira, volto a suar. 

Ao iniciar cada parágrafo uma infinidade de ideias e rumos e desfechos e novidades e termos invadem minha cabeça. Arrumar e controlar o turbilhão que se forma nessa hora não é fácil, é preciso cortar aqui, aparar ali e tentar manter a ordem. 

Definidos o tempo, o lugar e as pessoas, posso deixar os personagens caminhar. Algumas pessoas dizem que alguns personagens caminham com suas próprias pernas, outros dizem que eles têm que fazer sombra; outros ainda, que são eles que, em algum momento, fogem do controle do seu criador e tomam um rumo inesperado. Fugindo ou não, sou eu que estou no comando desse barco, e sendo assim, eles vão para onde eu os mandar ir. É certo que assim como a estória está presa a mim, eu também estou preso a ela. No comando ou não, não me sentiria feliz se a estória não conseguisse emocionar as pessoas, alegrar as pessoas, marcar as pessoas por minha causa, por culpa do meu egoísmo. 

Depois de muitas horas de reclusão, depois de criar, organizar e montar tudo deixando todos os personagens em seus devidos lugares é chegada a hora do fim. Definitivamente, acho que ainda não sei qual a melhor maneira de terminar essa estória. Qual final eu devo usar? Seria melhor um final feliz ou triste?  Enquanto a noite passa a dúvida persiste. Pergunto aos personagens, mas não obtenho resposta. Se algum deles tivesse vontade própria certamente me diria: eu quero ir por ali ou eu quero acabar assim… O tempo passa e as respostas não vêm, minha cabeça dói. Mas eu não paro, porque sem a arte não há vida.

Eu deveria estar alegre por ter terminado essa estória, mas um pouco de tristeza me acomete, talvez um misto de saudade e satisfação. Depois de muito suor gasto e de milhares de palavras desenhadas no papel, posso sentir aquela sensação de dever cumprido. 

É uma parte de mim que foi criada, entrego-a nas mãos de todos. Não sei o quão longe ela vai chegar. Toda vez que uma estória chega ao fim eu me renovo. Amanhã, porém, devo iniciar uma outra.

Já tentei parar inúmeras vezes, me escondi atrás do trabalho e de outros afazeres tentando negar minha verdadeira natureza. É difícil viver com tantos mundos estranhos e tantos personagens diferentes andando de um lado para outro em sua mente pedindo para se libertar, pedindo para deixar de ser ideia e passar a ser coisa. Eu nasci assim, não posso mudar mais, mesmo que queira. É a palavra o que me mantém vivo, sou um artista da palavra, é assim que vivo. 

Verter palavras é a minha sina. Só me reconheço por causa da palavra, acho que escrevo para curar as feridas, faço isso para aliviar a dor da dúvida. A dúvida de não saber quem sou, de onde venho ou para onde vou, espero encontrar a resposta em algum desses mundos que criei ou que algum personagem, de alguma forma, possa me mostrar como continuar vivendo de cabeça erguida até a hora de encarar o fim de toda criatura. 

Quando escrevo não me preocupo muito com o final da estória: se o mocinho morre no fim ou se foram felizes para sempre; se foi comprida ou se foi curta, ou ainda, se agradou a dez ou a dez milhões. Para mim, isso pouco importa, porque o mais valioso, no fim de tudo, é o caminho. Pois é durante a construção da estória que eu me reconheço, é nessa hora que olho para dentro de mim mesmo e para dentro do Outro. É quando minha alegria aumenta, pois enfrento e destruo meus medos, meus fantasmas. Digo o que eu quero, e não o que querem que eu diga. Digo o que precisa ser dito, ainda que seja dito por alguém que só existe como palavra.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série B.