EntreContos

Detox Literário.

Manhã de Sábado (Pitú Andradas)

O dia ainda estava por raiar e Paula me beijava para que eu acordasse, fazia assim para nossos momentos de amor. 

Contei-lhe meu sonho, ela sorria, sabia que sonhara justamente coisas absurdas, como sempre. O que ela queria mesmo era ser amada e depois cair no sono novamente. A pequena luz do abajur clareava o ambiente romântico.

Um trovão soou rasgando o silêncio no mesmo instante em que o quarto foi iluminado. Depois ficou tudo escuro.

Coloquei a mão direita ao lado para confirmar se Paula ainda estava ali.

Toquei-a entre as pernas. Minutos dos dois em silêncio, beijamos e fizemos amor.

– Fique mais um pouco na cama, hoje é sábado e as horas não passam das seis. Ainda está muito escuro.

-Vou pegar um café e ler o jornal. Logo em seguida lhe trago uma xícara.

Paula virou-se de lado e dormiu antes que eu chegasse na porta do banheiro.

O dia chuvoso e preguiçoso ainda mais depois daquele raio que devia ter caído bem próximo dali, choveu forte e parou. Outros estrondos se ouvia de longe, a chuva devia estar indo embora.

Olhei pelo vão do banheiro que dava para um bonito jardim interno. A vela quadrada da decoração estava cheia de água. Devia ter chovido muito.

Fui até a cozinha, tomei um gole de café e no alpendre colhi o jornal que estava sobre a pequena mesa de entrada.

O galho de uma das árvores do outro lado da rua havia se desprendido e caído com o vento. A iluminação ainda estava acesa. Dei uma guinada no pescoço e percebi que parte da cobertura do alpendre havia se danificado. O muro do vizinho do lado direito não havia suportado o acúmulo das águas e foi para o meio da rua juntamente com seu carro.

Voltei o mais rápido possível para dentro para observar que mais estrago a chuva poderia ter feito. Rapidamente passei por toda a sala e tudo estava em ordem, mas senti meus pés molhados, as alpargatas estavam encharcadas. De onde havia entrado aquela água?

Voltei para o quarto e me deitei lentamente para que a Paula não acordasse. Fiquei ali de olhos estatelados pensando como como seria aquele dia.

Paula se mexeu e voltou-se para mim colocando o braço sobre meu peito, ainda dormia. Coloquei a mão sobre suas costas e num suave vai e vem fiz que a acordasse. Já passava das oito. 

Me olhou com ar sonolento. Eu disse:

– Que chuva hein! Deve ter feito muito estrago por aí.

– Você ouviu chuva? Indagou Paula.

– Ouvi.

– Que horas?

– Logo que deitamos. Depois de ter passado por um sono leve levantei para terminar de escrever mais um capítulo do livro e quando voltei pra cama já passava das três da madrugada.

– Será? Perguntou Paula.

– É e acordei agora cedo com o raio e o estrondo do trovão.

– E você me acordou com essa mão pesada.

Sorri e dei-lhe um beijo na nuca. Ela arrepiou-se todinha. Deitei sobre suas coxas e encaixei o membro entre suas nádegas. Ela gemeu. Foram cinco minutos de muita paixão.

Relaxamos e dormimos um breve sono!

– Quero um café! Disse de sobressalto.

Trouxe-lhe o café, quando entrei no quarto estava nua e sentada meditando no Yoga. 

– Ponha a roupa que está esfriando. Essa chuva veio para iniciar o inverno. 

– Que chuva? Você disse que não choveu?

– Disse que não choveu logo que deitamos, mas depois choveu.

– Não acredito?

– Como não! Vai lá e veja o estrago que a chuva fez!

– Então, foi o que eu disse! A chuva deve ter feito o maior estrago, mas não no horário que você falou.

– Ah! Se tá me confundindo! Vai ver então?  

– Já vou.

– Põe roupa primeiro que tá frio, pode se resfriar.

– Vou vestir, mas antes me dá um beijo.

– Outro?

– Outro e outro e outro!

– Assim não vou aguentar, vou ter que tomar gemada de ovos de pata!

– Depois eu faço gemada pra você, agora quero muitos beijos.

Passava das dez quando acordamos.

Ela apareceu com o celular na mão dizendo:

– É seu primo está nos convidando par almoçarmos lá.

– Será que vamos? Tenho que ir atrás de alguém para arrumar o telhado pelo estrago que a chuva fez.

– Que chuva? Tá um sol maravilhoso.

– Sol?

– Venha ver então! Vou até levar meu biquíni, assim não chego tão branca na praia.

– Que praia? Estamos em junho. Praia é só nas férias de dezembro.

– Junho? Acho que é bom você levantar e ir preparando as malas, viajaremos amanhã bem cedo.

– Paula se tá me tirando do sério. Tenho que acabar de escrever esse livro, para o lançamento na Bienal.

– Vê se acorda! A Bienal foi o ano passado, agora só no ano que vem.

Deitei de braços abertos feito um crucificado, ela virou-se e foi para a cozinha. Do quarto dei-lhe um berro.

– Não se esqueça da minha gemada de ovos de pata.

Antes que eu pensasse em outra coisa lá estava ela de xícara na mão. 

– A sua gemada. Senão você vai passar raiva na praia. Sorriu.

Tomei o último gole e ela pulou em cima de mim. A xícara voou para o chão.

Ela sorria e se movia sobre minhas coxas. 

– Vamos ver se essa gemada é boa mesmo!

Mais uma vez o telefone tocou. Outra vez meu primo chamando para o almoço. Olhei no relógio, já passava das onze.

Dei um pulo e fui direto para a sala ver como iniciaria a limpeza. Paula ainda não devia ter estado ali, se não tudo teria sido diferente.

Chequei e vi que tudo estava em ordem. Ainda pelado, fui direto para a varanda, o dia estava azul, no céu nenhuma nuvem, só o azul refletido no vidro da janela.

A árvore do outro lado da rua estava com seu verde como nunca a tinha visto. O beiral estava intacto. O carro do meu vizinho estacionado na frente do muro.

Corri até o escritório no mezanino e meu computador não estava sobre a mesa. Liguei-o e o capítulo do livro não tinha sido escrito.

Desci correndo. No quarto Paula acabava de se vestir.

– Onde você vai? Perguntei abestalhado.

– Vou até a costureira combinei de experimentar meu vestido antes do meio dia. Põe a roupa que iremos até a casa do seu primo. A Flávia nos convidou para almoçarmos lá.

– É eu sei.

– Sabe? Como? Combinei com ela agora pelo celular.

– Ela ligou? Eu não ouvi o som do celular!

– Não. Eu que liguei pra combinarmos algo, e nos convidou para irmos até lá. Eu achei ótima a ideia, pois assim pego uma cor e não chego tão branca na praia.

– Pera aí! Deve estar havendo algum engano. Meu primo não ligou nos convidando para almoçarmos lá.

– Não!

– Nós fizemos amor essa noite?

– Fizemos! Por que essa pergunta agora?

– Quantas vezes?

– Ora! Quantas vezes? Uma só!

– Você fez gemada de ovos de pata pra mim?

– Gemadas de ovos de pata? Se tá brincando? Faz muito tempo que não compro ovos de pata.

– Você tem certeza que nós transamos só uma vez e você não fez gemada de ovos de pata?

– Claro que tenho! Por que? quantas vezes você acha que transamos?

– Umas cinco. Respondi

– O que? Se não tá com essa bola toda não homem! Vai, coloque sua roupa que assim que eu chegar da costureira a gente já vai.

– Pera aí!

– Acho que sonhei muito essa noite.

– Estou vendo mesmo! Aqueles seus sonhos estranhos! Eu também sonhei!

– Você! O que você sonhou?

– Depois eu lhe conto, agora tenho que ir se não vou me atrasar, e aquela baiana não espera. Ainda mais que está com parentes.

Assim que ela saiu eu voltei a dormir.

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série C.