EntreContos

Detox Literário.

Engrenagens Inversivas (Lorenz)

 

Quando a sineta da porta anunciou a chegada de alguém eu estava de cabeça baixa, concentrado no mecanismo de um relógio suíço um tanto antigo. Não queria interromper o conserto, mas a tosse fabricada do outro lado do balcão me arrancou irresistivelmente da segurança de meu mundo miniaturizado.

Lá estava um sujeito velho, arqueado, segurando com mãos trêmulas um relógio de bolso, como um chocalho. “Preciso que conserte isso”, disse sem cerimônia. Analisei a peça, um belo savonette dourado com os ponteiros no estilo catedral. Não pude evitar um sorriso no canto dos lábios, provocado por um rasgo de memória. Era idêntico a um modelo que eu vira quando criança. O primeiro de minha coleção há muito desaparecida. 

“O que há com ele?”, perguntei, espantando as lembranças.

“Não consegue ver? Está andando para o lado contrário”, disse o velho entre dentes amarelos.

Olhei o relógio com mais atenção.

“Como assim, senhor? Está tudo…”

“Você é idiota ou o quê?”, atravessou ele, soltando uma risada esbaforida, quase indignada. “Os ponteiros estão se mexendo para o lado errado.”

Eu poderia ter me sentido ofendido, mas o homem era frágil demais para provocar outra reação que não fosse um longo suspiro.

“Não, não estão, senhor… Veja aqui… está tudo correto.”

“Chama a si mesmo de relojoeiro?”

“Sim… Há quarenta anos.”

“Pois para mim, não parece ter aprendido muita coisa.”

Mirei o homem com mais atenção. Baixo, magro, o rosto castigado por ravinas. Cabelos brancos e rebeldes que se desprendiam do chapéu de feltro. Sobrancelhas compridas, como que amotinadas, lançando-se sobre os olhos vívidos e azuis.

“Muito bem… O senhor quer que eu faça com que os ponteiros andem para o lado reverso. Quer dizer, ao contrário ao que estão agora. É isso?”

“Finalmente entendeu. Quer uma medalha, garoto?”

“Não, não precisa. O senhor pode passar aqui amanhã, neste mesmo horário. Estará pronto.”

Não disse mais nada. Simplesmente virou as costas e foi embora, mancando da perna esquerda.

֍

Naquela noite trabalhei com atenção redobrada. Não só porque o relógio me trazia lembranças de um momento marcante da infância, mas porque me tirava da cabeça imagem de Eliza.

Minha esposa havia falecido uma semana antes e eu recordava dia a dia, numa espécie de auto tortura cíclica, seus últimos momentos: a ligação que recebi no trabalho dizendo que ela estava mal; o táxi que tomei na rua, apressado; minha chegada em casa, com Judite, nossa vizinha, abrindo a porta para mim enquanto eu me desfazia de meu chapéu; a maneira como subi as escadas, pulando os degraus; minha entrada no quarto; a imagem de Eliza deitada, tão doente, os olhos perdidos numa névoa de solidão; ao seu lado a enfermeira, dispondo-se a chamar mais uma vez o médico enquanto eu a ignorava, voltando-me para minha mulher, antecipando aquela cena de despedida inevitável. Eliza, Eliza… Quando deu-se conta de que eu estava ali, segurando sua mão, fitou-me com olhos embaçados, a última centelha escapando-lhes, até o suspiro final.

Voltei-me para o relógio e desmontei-o sem dificuldade. Se o velho queria que os ponteiros girassem ao contrário, então era isso que teria. Era um relógio mecânico formidável. No dial lia-se “Russel & Son – Liverpool”. Anos 1920, provavelmente. Lá estavam as entranhas: rodas, pinhão, molas, balanço, coroa… Tudo o que eu precisava fazer era inverter o sistema, modificar o giro da engrenagem central e reequilibrar a mola principal com o escape.

Todos os dias. As cenas vinham e voltavam sem que eu pudesse afastá-las. Eliza me deixando, soltando minha mão. O velório, o enterro. As noites em claro que me acompanhavam desde então. Os remédios que comecei a tomar. Eu precisava ocupar a cabeça, esquecer ou ao menos cicatrizar a perda. O ocaso da vida poderia ter-se demorado mais um tanto, mas preferiu adiantar-se e sepultar-me vivo, junto de minha Eliza, deixando apenas uma casca de mim mesmo, um arremedo de homem.

Eis que o savonette do velho de sobrancelhas grossas estava pronto, do jeito que ele queria, com os braços se movimentando para o lado inverso. Podia imaginar o homem satisfeito, jogando uma moeda pesada sobre o balcão como pagamento. A reencarnação de Ebenezer Srooge, antes dos espíritos, naturalmente. Ou talvez um reflexo de meu futuro próximo.

Não consegui dormir. Revirei-me na cama, lutando com os lençóis, em meio a lembranças e imagens recentes. Eliza. O velho Scrooge. A doença. Os ponteiros. Quantas horas? Quantos dias? Tique-taque… Taque-tique. Taque-tique…

֍

Quando dei por mim, segurava a mão de Eliza. Como se o ar lhe insuflasse os pulmões, voltou a respirar e olhou-me com os olhos enevoados. Sem perceber, levantei-me e mais uma vez ignorei a enfermeira que dizia chamar o médico. Cumprimentei apressadamente nossa vizinha Judite e saí de costas pela porta, recolocando o chapéu. Entrei no táxi e regressei ao trabalho, onde apanhei o telefone, para ouvir a voz de nossa vizinha dizendo que eu deveria vir para casa porque Eliza havia piorado.

Poderia ser um sonho, mas era tudo vívido demais. Real, palpável, perfeito. Eu tinha consciência absoluta do que acontecia, mas mesmo assim não conseguia evitar o retroceder dos fatos da maneira exata como tinham acontecido. Num misto de espanto e excitação, via a mim mesmo dizendo as mesmas palavras, realizando mesmos atos. Primeiro, a morte – ou a volta à vida – de Eliza. Depois o dia anterior, e depois o outro antes dele, e assim por diante, para trás e para trás.

Não, a ideia não me atraiu. Claro que eu estava contente por ter minha esposa de volta, mas fiquei imaginando se tudo aquilo não seria um tipo de castigo, uma punição por alguma coisa que eu havia feito, algo que me daria um gostinho de nostalgia mas que, de repente, terminaria sem o menor aviso. A qualquer momento, eu tinha certeza, o velho Scrooge irromperia em altos brados em minha relojoaria gargalhando, quebrando o encanto. Mas isso nunca aconteceu.

De todo modo, fui me acostumando à ideia. O estranhamento inicial desapareceu assim que mergulhei alguns meses no passado. Sim, lá estavam os carros andando em marcha à ré, os pássaros no céu parecendo voar em formação de A – e não de V –, as palavras pronunciadas ao contrário… Não me sentia confuso, porém. Tudo fazia sentido, ainda que ao contrário. Livros eram deslidos, relógios eram desconsertados, filmes era desassistidos sem qualquer desconforto. 

Isso porque lá estava Eliza, cada dia mais saudável. Todas as manhãs, desejava-me bom dia de trabalho, antes de eu entrar em casa, tomar café com ela, acordar ao seu lado, admirar-lhe o sono antes que ela despertasse. Desdar-lhe flores, desescrever-lhe poemas… Apesar de tudo funcionar ao reverso, eu na verdade reexperimentava todos aqueles sentimentos de surpresa, de cumplicidade, de companheirismo. De amor. 

Acordava às vezes em plena madrugada. Nesses momentos o tempo parecia suspenso e eu me via convencido de que sofria algum tipo de alucinação. Contudo, não conseguia me levantar da cama.  Estava realmente preso àquela ordem, ou desordem, dos fatos. Claro que a essa altura eu já não desejava mais despertar, recuperar o juízo o que quer que fosse. Queria reviver minha história. Nossa história. 

Certa noite, percebi Eliza mais alegre do que de costume, a excitação crescendo à medida que ao por do sol se sucedia a tarde, quando regressávamos a uma viagem. Demorei a reconhecer a ocasião, mas logo percebi: a primeira vez que visitáramos o litoral, a primeira vez que Eliza entrara no mar. O deslumbramento seguido do nervosismo pelo desconhecido, a agitação, o medo, a falatório logo que acordamos, as conversas que tivemos nos dias que sucessivamente se seguiam para o passado.

No entanto, algumas semanas para trás notei-a deprimida, como se gotas pulverizadas fossem se unindo para formar um rio de desânimo e frustração, que logo se transformaria numa torrente de tristeza com a notícia de que ela jamais poderia dar à luz. Por mais que eu soubesse disso, por mais que minha onisciência me lembrasse do médico dando a ela a notícia que provocaria sua demolição como mulher, jamais saberia como agir – como não soube. 

Experimentar impotente a dor que sentem aqueles que amamos é o pior dos castigos. O choro compulsivo que Eliza vertia já antes da confirmação, a desconfiança dos meses anteriores, as tentativas malogradas, a inveja educada que sentíamos dos amigos que surgiam orgulhosos com seus filhos, os primeiros desejos de nos tornarmos pais. Ao menos, à medida que retrocedíamos, reconquistávamos a alegria por estarmos juntos, pelas expectativas que criávamos. No início tudo ficaria bem.

De fato, com os meses retrocedendo, eu encontrava Eliza mais e mais alegre, cada dia mais cheia de vida, a juventude crescente reconquistando suas feições, eliminando até mesmo os defeitos mais tênues. O rosto redondo, os olhos lânguidos, a boca perfeita. Os cabelos cacheados ao vento antecipando o perfume que deles se desprendia. Eu mesmo, ao me mirar no espelho todas as manhãs, me surpreendia com a recuperação de minha melhor versão. Músculos, força, disposição. Se a vida pudesse ser comparada à duração de um dia, nós regressávamos à aurora, ao momento em que o sol tinge o horizonte de dourado, à hora mais bela e efêmera de qualquer existência.

Deixamos a casa confortável que seria nossa morada por quatro décadas e regressamos ao porão alugado, que nos serviria como refúgio nos primeiros anos de casamento. Em cima ficava a loja do Sr. Aristides, o homem que me ensinou as primeiras lições de relojoaria. As partes do relógio, o mecanismo, a maneira como a mola movimentava os ponteiros; o sistema de freio, a diferença entre a corda e a automação, o contrapeso… De repente eu me via desaprendendo como funcionavam os relógios, esquecendo os diferentes tipos. Evaporava-se o conhecimento de algo em que eu me tornaria mestre, substituído pelo desejo de aprender, pelo maravilhamento, pelo mistério, algo que se refletia em minha coleção particular, uma maleta com relógios que, dia atrás de dia, tinha menos exemplares.

Num fim de tarde, enquanto regressava ao mercado, entre as pessoas que cruzavam as avenidas, saltavam de costas para dentro dos ônibus ou voltavam às calçadas, notei uma figura singular, um homem que parecia ter sido pinçado de um romance de Dickens. Ele mancava da perna esquerda. Da cabeça, um chapéu de feltro pendia vertiginosamente revelando a vasta cabeleira grisalha. Um arrepio me desceu pela espinha. Parecia alguém que conheci em outra vida, mas àquela altura não conseguia precisar.

Sensações de deja vu agora surgiam aqui e ali. Rostos que eu involuntariamente afogara no esquecimento voltavam à tona. O dono da mercearia, o farmacêutico, os doces do parque, o futebol pelo rádio, as apostas. Amigos de quem tanto gostava reapareciam. O bonde que desatropelou o cachorro de nosso vizinho, o jornaleiro que descaiu da bicicleta. As conversas de ocasião com desconhecidos, o trânsito que diminuía ano a ano… A vida voltava a ficar deliciosamente mais lenta.

Chegava o tempo de nosso primeiro aniversário de casamento. E nesse instante me dei conta de que meus dias com Eliza se aproximavam do fim uma vez mais. A imagem dela, restituindo ao jardim as flores que usava para enfeitar a mesa em que jantávamos, se traduzia como uma metáfora perfeita desse instante. Pouco antes fazíamos planos, imaginávamos como seria nossa vida juntos, como estaríamos quando ficássemos velhos, prometendo cuidar um do outro. Os beijos, os abraços, o carinho, o calor, a presença dela, seus braços em volta de mim.

Certa noite tive um sonho em que tentava consertar um relógio cujos ponteiros marchavam para trás. Era impossível porque eu não sabia como fazê-lo. Olhava o mecanismo e não o compreendia. Erguia as peças contra a luz, estudava a maneira como se conectavam, mas de modo nenhum sabia como restabelecer o movimento correto. Ao fundo alguém perguntava: “chama a si mesmo de relojoeiro?”

Como um vagalhão, eis que ressurgiu o casamento, o noivado, o primeiro beijo, o pedido de namoro. E logo Eliza era apenas uma amiga, uma conhecida, alguém que me tratava com indiferença entre colegas de ocasião. Vê-la tão perto e não poder me aproximar era torturante. O sorriso que não dirigia a mim, as conversas que tinha com as amigas que a rodeavam, pouco interessada na minha presença. O contato que ia desaparecendo rumo à raridade. 

Cheguei ao momento em que a vi pela primeira vez: aquela garota, pouco mais do que uma adolescente. Ah, o enlevo, a flecha que um dia me sangrara o peito, o arrebatamento, a certeza abismal de que ela era a pessoa que mudaria minha vida. Como já ali ela me parecia familiar… Mesmo na primeira vez eu tive a impressão de que a conhecia desde sempre.

Mas também isso se foi, com o recuo insensível das horas. O redemoinho que me sugava para dias mais e mais remotos, porém, trouxe de volta os amigos da adolescência, as cantigas de roda, os jogos de bola, os joelhos ralados, as árvores que nos desafiavam, o cheiro de café, a bermuda xadrez de que eu tanto gostava de usar. A casa antiga em que eu, órfão, havia crescido. Todos os cenários que se haviam apagado das minhas lembranças reapareciam em cores vibrantes, como uma provocação, uma fenda encantadora na alma.

Certa manhã me vi apoiado sobre um muro de tijolos. Estava com nove anos e observava furtivamente a casa ao lado do orfanato. Na janela, uma menina de cabelos cacheados dançava diante de um espelho, rodopiando, rindo sozinha. Apostei que ela, assim como eu, se considerava invisível. E que poderia voar se quisesse.

Numa tarde qualquer, eu estava à porta do orfanato. Segurava a mão de um sujeito que me parecia vagamente familiar, com seus olhos azuis afiados como navalhas sob grossas sobrancelhas. Acabava de me despedir dele. Até então, ele conversava com uma mulher muito alta, a diretora. Antes do adeus, o homem entregou-me um relógio bonito, dourado e sorriu, dizendo: “É para a sua coleção.”

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A.