EntreContos

Detox Literário.

Entre as Estrelas do Céu (Kristen)

 

O céu aquela noite estava forrado de estrelas e Leon o contemplava com o fascínio de sempre. Desde muito pequeno, Serena já percebia sua conexão com o cosmo:

– Quando morrer serei mais uma estrela no céu, mamãe! Ela apenas observava.

A maturidade do filho apesar da idade a comovia. Cerrou os olhos vencida pela exaustão enquanto sussurrava quase num gemido que aquele momento durasse pela eternidade. Amava-o desesperadamente.

Há um ano atrás…

– Bom dia, doutor Alberto! O senhor já tem os resultados dos exames? Perguntou Serena ansiosa ao se deparar com a expressão fria do médico.

– Bom dia, senhora! Os exames acusaram que seu filho é portador de um linfoma em estágio avançado. O tratamento é evasivo e as chances de desfragmentação de sua resistência não é descartada. – – – Mas, Leon tem chances com ele. Disse categoricamente a mãe.

Por um longo momento Serena o fitou. Era um estranho. Mas precisava confiar o filho aos seus cuidados. Ele e a equipe médica eram referências na área de oncologia. No fundo ela sabia dos riscos do tratamento. Tudo era incerto. O medo misturado à possível perda do filho tumultuavam suas emocões. Somente uma vez se sentiu assim. Estava grávida e feliz com a novidade. E logo em seguida o namorado a abandonou. Ele não queria criar vínculos, era imaturo e egocêntrico. Mas isso não a intimidou a seguir em frente e recomeçar sua vida em outro lugar.Longe de tudo.
Talvez se ele tivesse conhecido o filho estaria orgulhoso dele que, apesar da deficiência auditiva tinha talento para a escultura. O talento certamente que havia herdado dele.

-Senhora! A voz do médico tirou Serena dos pensamentos.

– Não é justo! Desabafou Serena em prantos. Ele tem atravessado todos esses anos aprendendo a lidar com suas limitações, não sei se está pronto para enfrentar mais isso.

– Eu acompanho crianças há quase duas décadas nesse hospital. E posso assegurar que tanto a equipe médica quanto a multidisciplinar são de grande valia. Mas o suporte familiar sempre contou muito no processo de recuperação e cura.

Seu filho precisa desse apoio. E quando digo família, não específico a padrão, mas aquela parte que irá fazer toda a diferença enquanto ele estiver se tratando.

– Eu confio em você, mãe!

Por um longo instante serena se calou. Gostaria que aquilo tudo fosse um pesadelo e pudesse acordar. Mas não era. O filho estava doente.Muito doente. Leon mal suportava as dores e estender seu sofrimento seria deixá-lo morrer à própria sorte. E, assim deram inicio ao tratamento.

A unidade de internação pediátrica se resumia a um enorme prédio que ainda mantilha resquícios de antiguidade. Mas seu espaço físico como infraestrutura não deixavam nada a desejar.

Aquele lugar passou a ser extensão de casa onde Leon permanecia dias a fio. As sessões de quimioterapia eram devastadoras e penalizantes, mas ele em momento algum deixava transparecer o medo e a tristeza que sentia. O quarto do hospital que comportava um número pequeno de crianças tinha como os demais suas paredes brancas com largas janelas e cortinas de algodão que remetiam a um ambiente familiar. Com o passar do tempo Leon se acostumou com o lugar bem como com a entrada e saída das crianças . Algumas retornavam e por outras não ousava perguntar.

A enfermeira chefe encarregada do andar não ajudava muito. Era ranzinza e nunca sorria .

Numa manhã, enquanto se retirava da sala dos exames periódicos, Leon se deparou com uma nova paciente à espera da vez. Por um momento se entreolharam e ele pode notar o quanto era linda. Os longos cabelos dourados reluzentes em pequeninos cachos que caiam sobre os ombros formando uma cascata mais lembravam um anjo. Era como se a conhecesse de longa data. Leon sentiu seu coração pulsar com mais intensidade. Estava fascinado. Era o amor na estação do seu tempo acontecendo. Mas, em seguida, suas feições se fecharam. Ela estava doente. Sua tristeza era profunda. E quase podia senti-la. Enquanto caminhava pelo extenso corredor em direção ao quarto chorou.

Os dias se passaram e Leon não conseguia se aproximar daquela menina que passou a alegrar sua vida. A sua timidez o embaraçava.
Uma noite caminhou até à porta do seu quarto e pela penumbra a viu sentada na beira da cama com as mãos entrelaçadas no colo, cabisbaixa. Então, se aproximou e alguns minutos depois estavam a olhar pela imensa janela próxima ao leito de Pamela, o céu da noite forrado com suas milhares de estrelas até onde os olhos podiam alcançar. Por um instante eles eram simples crianças deslumbradas com o céu da noite. Esquecidos momentaneamente da realidade que massacrava o curso natural da infância. Tem coisas que somente Deus explica. A doença os uniu. A cumplicidade os amparava. Pam, como assim carinhosamente a chamava, em pouco tempo já começava a dominar a linguagem dos sinais. Leon a ensinava. Eles se entendiam em silêncio. Era mágico.

Os longos e exaustivos dias naquele ambiente hospitalar começaram a entendiar Leon. A argila foi suspensa temporariamente sob recomendação médica e então ele pediu à mãe material para desenhar. Também tinha desenvoltura com os desenhos. Serena sabia que Leon acabaria usando os desenhos para transformar aquele lugar. Conhecia o filho.

Numa manhã ensolarada, Pamela acordou com um envelope embaixo do seu travesseiro. Nele havia um lindo desenho, quase real, onde seus cabelos que haviam caído em razão da quimioterapia, estavam caprichosamente esmiuçados nos detalhes: compridos e com várias mechas azuis adornadas com estrelas por toda a extensão. Eram tantas que pareciam saltar da folha. O que mais chamou sua atenção foram as sardas que marcavam seu rosto e o seu sorriso que havia se apagado de suas feições. E pela primeira vez desde que chegou aquele lugar, ela sorriu.

E assim outros desenhos passaram a ser deixados a outras crianças.Como fez a Thiago, companheiro de quarto, que voltou a cantar depois de se ver no desenho abraçado ao pai, músico numa banda até bem requisitada, mas que se encontrava ausente, alegando estar trabalhando dobrado para suprir os gastos da doença do filho. Na verdade, ele não conseguia enfrentar a doenca do filho. Alguns familiares, infelizmente, se afastam. O desenho foi parar nas mãos daquele pai. Serena se encarregou. Alguns dias depois, o músico visitou o filho. Decorrido o encontro a enfermeira chefe não dava mais conta do menino e suas cantorias.

Helena, interna no quarto de Pamela também foi surpreendida com um lindo desenho no qual ela estava abraçada a seu cãozinho de estimação. Não se viam há meses. Ela sempre encontrava dificuldades para demonstrar seus sentimentos. Alvoroçava a todos inclusive a enfermeira chefe para que permitisse a visita do pequeno animal, até que numa manhã ele saltou para sua cama. Serena também havia convencido o diretor daquele hospital.

Theo, o menino do quarto ao lado chorou de emoção ao se ver beijado no desenho pela avó que falecera anteriormente à descoberta da doença dele. Resistia em chorar. Nem mesmo pela doença. A mãe trabalhava muito. Estava residindo em outro estado. Até que um dia entrou pelo quarto do filho e de lá não mais saiu. Serena nao mediu esforços para encontrar e leva-la a presença do filho.

Ivys era um pré adolescente com o qual Leon se identificou pelo histórico de vida. Para Leon foi muito simples retratar o amor de filho. O desenho encheu Ivys de gratidão pela mãe. Mas Serena nao se daria por satisfeita.

– Bom dia, você é Juan? Perguntou Serena ajoelhada próximo a um mecânico de uma oficina localizada numa cidadezinha vizinha. No momento ele se encontrava debaixo de um carro, tentando concertá- lo e pelo visto à distância disso. Os chingamentos dele falavam por si.

– Sim, sou eu? O que deseja? Perguntou ele ao se levantar rispidamente à aproximacao de Serena que sem hesitar entregou-lhe o desenho.Foi uma longa conversa.

– Eu a magoei e ela nunca me perdoou. Um dia cheguei em casa e encontrei uma carta. Nunca mais a vi. Eu não sabia dele!

-Ela está pronta para te perdoar. E Ivys para conhecer o pai. Serena se sentia aliviada.

Dois dias se passaram e aquele menino foi surpreendido com um homem de quase dois metros de altura ao adentrar o quarto segurando um carrinho de madeira nas mãos. Enfim se abraçaram. Serenou sentiu um nó na garganta.

– É você, não é? Tentava perguntar em sinais a enfermeira chefe da unidade a Leon enquanto segurava numa das mãos seu desenho. Ela já nem se lembrava mais da ultima vez que sorrira. Perdera o marido para o câncer, com quem se casou apaixonada. A doença repentina seguida do óbito haviam lhe endurecido. O desenho onde ela estava rodeada pelas crianças na sua maioria daquele pavilhão haviam mexido com ela. Leon havia caprichado mas a mudança real nao fluiu até Serena se trancar na sua sala e quase aos gritos repetir o juramento da profissional. Em um dado momento ela se lembrou dele. Por sorte dela.

Com o tempo surgiu um boato que um anjo percorria os corredores daquele hospital à noite visitando as crianças enquanto dormiam e em seguida as presenteava com desenhos deixados debaixo dos travesseiros. Eles caíam como bálsamo a tantas dores e sofrimentos. Algumas eram privilegiadas. Serena que o diga. Mas Pam também tinha uma participação significativa, afinal acabou se tornando os ouvidos de Leon. E juntos faziam daquele pavilhão um encontro de almas, amores e sentimentos. A doença geralmente não só adoece o corpo, mas as emoções também. Eles juntos insistiam em acreditar no contrário. Bendita a insistência das criancas.

Após meses de tratamento, Leon ao contrário do esperado se mostrava muito enfraquecido e também era notório o desgaste físico e emocional de Serena, que se esforçava para que o filho não percebesse. O médico o liberou para as festividades de natal. Ele sabia o que fazia.

Uma tarde em casa Leon pediu a mãe para que o levasse até o atelier. Mal se aguentava em pé e suas mãos trêmulas deixavam em evidência as sequelas do tratamento prolongado. Afinal um ano já havia se passado depois da descoberta da doença. Mas, algo ainda havia a ser feito. Ele tinha pressa.

Por aqueles dias Leon precisou retornar às pressas para o hospital. Seu estado havia piorado deveras. Estava muito debilitado e o médico não era mensageiro de boas notícias. Em seus últimos momentos, respirava com muita dificuldade e Serena o abraçava numa ânsia desenfreada de mantê-lo vivo. Inutilmente. Leon sorriu para a mãe e em seguida cerrou seus olhos lacrimejantes com um último suspiro. E ali ela permanecera, numa infinidade de minutos, abraçada a seu bem mais precioso, que enfim descansava, isento de todo o sofrimento acarretado em seu castigado corpo.

Duas semanas após , numa manhã gelada, a campainha da porta tocava e por ela adentrava uma senhora perplexa ao chamado de Serena.

– Bom dia! – Cumprimentou a recém chegada. Rebekah, uma mulher aparentemente nova, embora apoiada em sua bengala, adentrava a sala aquecida pela lareira. Não fazia menção do que se tratava aquele convite. Havia conhecido Leon ainda no hospital através da filha. A desolação em seus rosto ainda era muito nítida.

Por um momento, Serena se afastou e logo voltou com um embrulho nas mãos, apressando-se a entregá-lo à recém chegada.

– Leon, meu filho, antes de falecer, pediu-me para te entregar um presente!

Ainda acomoda no sofá, passou a abrir a caixa envolta em um papel e laço grande. Seus olhos mal podiam conter as lágrimas que passaram a escorrer furtivamente pelo rosto, enquanto deslizava a sua delicada mão sobre o presente de Leon.

– Olhe! Um cartão! – Disse Serena. – É para você!

– Leia, por favor! – Pediu Rebekah emotiva.

E, após Serena ler com a voz embargada o bilhete redigido pelo filho em seus últimos momentos de vida, um grande silêncio se instalou naquele ambiente aconchegante.
Ela não podia enxergar, assim nascera, mas pelos seus dias, poderia através daquele lindo presente continuar a afagar a face da sua doce e eterna filha, Pamela, esculpida em argila.

– Seu filho não somente tinha a arte de criar com as mãos. Acima de tudo, de cuidar com os olhos. Eu sinto que eles continuam cuidando um do outro.

-Também sinto a mesma coisa e, se quer saber mais, eu os encontro sempre que olho para o céu da noite.Entre as estrelas.

…” A vida aproxima os encontros, a morte, os enlaces.”

Alguns anos mais tarde…

– Dra. Serena! O menino do quarto 302, internado hoje de manhã não quer se alimentar! Poderia examiná lo por favor? Pediu a enfermeira do pavilhão.
– Enquanto se dirigia até o quarto da criança , Serena ia examinando seu prontuário quando algo a paralisou.
Sorriu.
– Tenha fé pequena criança! Tudo vai acabar bem! Disse Serena com os olhos marejados para a criança.

Dados de identificação:
Nome: Leon Sanchez, 10 anos, órfão e à espera da adoção.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série C.