EntreContos

Detox Literário.

Rosas Roubadas (Clyde)

Ela, no mundo da lua, como sempre. Ele, bêbado pela manhã como há muito tempo não ficava. Encontraram-se no pior lugar de Boa Vista. Sujo, feio, a cracolândia daquela cidade distante onde ele vivia, não por escolha, mas por contingência da vida que levava.

Ela chegara na véspera, à noite, para um trabalho no dia seguinte. A vida andava vazia.  Planejara flanar sem compromisso pelos pontos turísticos da cidade onde nunca havia estado.  

Enquanto o voo dela taxiava após o pouso, ele recebia em casa a visita de um amigo. Beberam juntos além do que deviam e saíram para encontrar, rio adentro, um sujeito dono de uma pedra enorme encontrada em um garimpo ilegal. A madrugada com o garimpeiro e o amigo policial não teve fim. As onze, o sol alto, sozinho, ainda bebia. Voltava para casa quando a viu.

— Está perdida, turista?

Estivesse sóbrio, não teria puxado assunto, tampouco se dirigido a uma estranha com tal simpatia e cordialidade.  

 — Sim! Procurando a Orla… — conferiu no celular o nome do lugar — …Tau-ma-nan.  Pelo jeito, estou no lugar errado…

A voz era suave; o sotaque, macio; a pele, lisa; a idade, indeterminada.  

— Só seguir em frente.

— Por ali? — ela apontou com a mão a rua deserta, ninguém caminhando sob o sol àquela hora — Quanto tempo, mais ou menos? 

— Uns quinze a vinte minutos. Estou indo pra lá, se quiser pode vir comigo.

A intuição lhe soprou que havia um homem confiável por trás do boné virado para trás, da camisa meio puída, da calça de moletom manchada, do chinelo que deixava ver os pés bem conformados, as unhas limpas e aparadas. É certo que a mesma intuição minutos antes a conduzira àquele beco sórdido. Talvez para encontrá-lo, apaziguou-a o proveito em seguir o passeio em sua companhia máscula. 

*

Ela, Marcela. Ele, Alexandre. Ambos eram cariocas, por isso a empatia — os sotaques macios, catalizadores da química imediata. Ele vivia em Roraima há alguns anos. Ela, em Goiânia quase pelo mesmo tempo. Não tinham a mesma idade, mas Marcela fingiu-se mais nova, criando uma coincidência adicional, só que, nesse caso, falsa.  

Não faltou assunto durante o caminho e, depois, no passeio rápido pelas plataformas quase desertas da Orla. Fazia calor apesar da brisa tímida que a presença do rio implicava. Para fugir um pouco do sol, pararam em uma barraca de artesanato indígena, e, diante do mostruário de brincos, ele comentou sobre o tempo que vivera entre os Yanomani, explicando como eram bonitos os brincos que os índios faziam, em um minuto, com flores e frutos recolhidos da mata, e em seguida descartavam, ainda mais rápido, assim que perdiam o viço. Foi então que ela soube que ele era militar reformado e que complementava a renda fazendo alguns trabalhos esporádicos.

— Que interessante! — fez Marcela, a voz desmentindo o desapontamento. Ela própria uma ex-professora que trocara o ofício digno por pequenos e bem remunerados serviços eventuais, havia imaginado uma profissão mais glamorosa para aquele homem alto, forte e dono de expressivos olhos acinzentados.   

Deu-se conta, Alexandre, e emendou comentando sobre seus amigos influentes e, imprudente, ainda sob o efeito do álcool, sobre a pedra gigante que alisara naquela noite entre as mãos de dedos longos e grossos.    

Marcela disfarçou a surpresa, sabia que garimpos ilegais e pedras gigantes não eram só ficção por ali, mas fato.  Já a dona da barraca, interessou-se pelo tema sem disfarce. Aproximou-se, toda solícita, falando orgulhosa da sua etnia Mapuche e explicando a procedência de cada uma das peças expostas, até dar um jeito de perguntar onde o homem havia visto a tal gema.  Ele respondeu qualquer coisa, já dando as costas, e puxou Marcela de volta à plataforma para continuar o passeio pela Orla. 

*

— Tem que ser de carro, fica longe daqui.

Foi o que Alexandre respondeu quando Marcela perguntou de onde se tomava o barco para ir até a Praia Grande, do outro lado do rio, na margem oposta. 

Ele já estava há mais do que vinte e quatro horas acordado, mas a companhia de Marcela lhe agradava e um mergulho nas águas do rio seria uma aspirina para a dor de cabeça de ressaca que, pelas têmporas, se lhe acercava.   

— Vamos lá em casa pegar o carro, eu te levo.

O certo seria não ir até a casa daquele homem maltrapilho, ex-militar, reformado sabe-se lá por qual motivo, e amigo de traficantes de ouro, talvez pedras preciosas. 

— Não precisa. Vou pedir um taxi no aplicativo. 

— Não tem cabimento. É gastar dinheiro à toa. Minha casa fica a menos de quinhentos metros daqui.

Marcela imaginou-se estuprada e esquartejada, tornada estatística antes do final da tarde. Mas em sua imaginação reles, não encontrou desculpa cabível. Tampouco procurou com afinco. Assim como ele se agradara dela, ela também dele se agradara. Além de que não era mulher de se intimidar fácil.

*

A casa dele, um barraco. As paredes externas sujas e com o reboco descascado. Ao fundo do terreno, uma mansão sendo erguida, sacos e caixas de material de construção amontoados. Na sala, jogada nas costas de uma cadeira, a parte de cima de uma farda camuflada, o nome Souza grafado.

Marcela desistiu de pedir para usar o banheiro, ficou aguardando no alpendre, do lado de fora. Ao se abaixar para arrumar o laço desamarrado do tênis, deu com uma pilha de revistas escritas em outra língua. Examinava-as, intrigada, no que Alexandre saiu de casa trazendo às mãos a chave do carro. 

— É russo. Fiz um treinamento lá, na Rússia, faz pouco tempo — esboçou um sorriso, encarando-a — Inteligência… Entre outras coisas, consigo estimar a idade de uma pessoa pela textura da pele nas costas das mãos e nos antebraços.  

Na expressão de Marcela, por um milissegundo, surpresa e cumplicidade. Deu-lhe as costas, olhando discretamente as próprias mãos e os braços.

— Podemos ir? — perguntou, movendo-se sem demora em direção à porta do carona do carro.  

*

Alexandre contratou no mesmo lugar o barco e o almoço simples. Um peixe fresco assado acompanhado de arroz e salada.  

Ela quis vestir o biquíni que trazia na mochila, mas ele sugeriu que não. Havia uns peixes pequenos que mordiscavam os banhistas, explicou, melhor mergulhar protegida pela calça e a blusa finas de dry-fit que trajava. Entraram n´água, os dois, vestidos como estavam, deixando só a cabeça para fora e bebendo devagar — ele, guaraná agora; ela, água com gás e uma única cerveja que não estava gelada.  

A conversa escorregou sem silêncios. Os ombros quase encostados, as pernas roçando às vezes, ao sabor da correnteza. Descobriram gostos compartilhados na juventude por filmes e discos e riram-se muito do passado comum no Rio, frequentando os mesmos muquifos para beber e azarar. Ele contou sobre a filha que não via há sete anos, desde que se mudara para Boa Vista. Ela, sobre o filho que escolhera viver em Madri com o pai. 

Até que a refeição chegou e os dois almoçaram devagar, a conversa competindo com a comida, como se o apetite faltasse. Depois passearam fora d´água intentando que as roupas secassem antes que aparecesse o barco agendado para recolhê-los de volta à outra margem. 

Ele a deixou no hotel somente após concluir um tour generoso e paciente pelos principais pontos de interesse da cidade. Na despedida, trocaram telefones, mas nada falaram sobre se encontrarem mais tarde. Ao abraçá-la para um beijo tímido na bochecha, Alexandre sentiu exalar de Marcela um cheiro bom que fez seu sangue trincar nas veias e, mesmo estando muito cansado, tentou pensar rapidamente em algum lugar onde pudesse levá-la para um último café rápido. Mas ela já saia toda atrapalhada do carro, uma febre ao redor do pescoço descendo em direção ao peito e subindo, ameaçando avermelhar-lhe a face. 

Marcela jantou sozinha à beira da piscina. Depois da terceira caipirinha, encontrou as palavras certas e a coragem de digitá-las. Um poema, a verve antiga despertada pelo desejo suspenso, a distância segura e a bebida copiosa. Só enviou, entretanto, quando já estava deitada, num impulso, pensando que apenas no dia seguinte, ela talvez longe, a mensagem fosse acessada. Dormiu um sono inquieto. Não só o álcool, nem tanto Alexandre a tirar-lhe o sossego, mas ansiedade com a tarefa que enfrentaria no dia seguinte ao despertar. 

Alexandre tomou um comprimido para dormir, talvez nem precisasse, mas ao deitar percebeu-se agitado. Além de toda a excitação do dia e do estresse pela noite anterior passada em claro, a necessidade de despertar cedo e bem descansado o inquietavam. Havia sido contratado para um trabalho simples, porém arriscado. Mais um bebê indígena seria retirado de sua aldeia para ser entregue a um casal de estrangeiros bem-intencionados. A seu cargo, a incumbência de conduzir uma mulher, provavelmente travestida, como das vezes anteriores, de ativista humanitária, até a aldeia e, em seguida, com os dois — ela e o bebê — cruzar ilegalmente a fronteira até a Venezuela.

*

Antes das seis, Marcela deixou o hotel. Tomou o rumo da rodoviária, o mesmo caminho que na véspera a levara ao beco sórdido onde se perdera.  No banheiro, trocou o jeans por um vestido florido na altura da metade da canela. Enxertou um aplique que tornou seus cabelos compridos, passou no rosto e pescoço uma base mais morena e, sobre o nariz, pôs uns óculos de aro fino antiquados. No espelho, a imagem refletida sugeria a que constava na foto do passaporte falso com o nome de Valéria Alves da Costa.

Faltavam quinze minutos para a hora combinada. Enquanto esperava o café com leite e o pão na chapa, checou novamente no celular a mensagem que informava a placa do carro e o nome do condutor que viria buscá-la. Souza, era como ele se chamava. 

Alexandre acabou acordando um pouco mais tarde do que devia e teve que fazer tudo correndo. Ainda precisou caminhar até o local ermo onde o amigo policial que lhe havia arranjado o serviço deixara a pick-up de vidros escuros e placa falsificada. Mesmo assim, conseguiu chegar à rodoviária alguns minutos antes do horário marcado. Mexeu no celular, o tempo foi suficiente para ler, e reler, a mensagem que Marcela havia enviado.  

 

Ao fim da manhã vazia
por um acaso e um descuido
o que sempre foi paralelo
de repente, fez-se encontro

Na tarde morna,
imersos no escuro do rio
a cada toque um aceno
nossos desejos se cruzam

Na noite quente e sem lua
meu corpo te imagina
— pernas, mãos, boca, língua —
um poema me desnuda

Serás meu? Já sou tua.

 

*

Marcela entrou no carro afobada. Jogou a mochila no piso e bateu a porta com força. Só percebeu que era Alexandre ao volante depois de sentada ao seu lado.

— Você? 

Por baixo do cabelo longo e cheio, da pele morena e dos óculos fora de moda, ele a reconheceu pelo veludo da voz — o timbre — e pelo cheiro. Calou-a com um beijo, a mão direita enlaçando-a pela nuca, a esquerda puxando-a firme pelo braço. 

Ela estremeceu da ponta do pé ao cabelo falso. Para além do desejo, a tensão e a descoberta de mais aquela coincidência inesperada. Amaram-se ali mesmo, dentro do carro, a rodoviária a menos de cem metros de onde estavam parados.  

Àquela hora, era pouco o movimento e, por trás da película, seria muito difícil enxergá-los.  Entretanto, a sensação de estarem sendo observados constrangeu-os, comedindo-lhes os movimentos, resultando em um êxtase denso e prolongado. Morreram e renasceram duas vezes, embalados por sussurros cadenciados e ondulações profundas e sincronizadas, antes de descansarem numa espécie de satisfação calma. Em silêncio e ainda grudados, sentiram como se o mesmo sangue circulasse em seus corpos quentes e suados. Ficariam assim pelo resto da vida que lhes restava. 

— Temos que ir… — foi Alexandre quem quebrou o encantamento — … até a aldeia, são quase três horas. O mesmo tempo depois, até cruzar a fronteira. 

— É… — fez Marcela, suspirando e se afastando, resignada. 

Alexandre observou-a se recompondo. As pernas e o colo liso e claro sob o vestido estampado.  

— Que história a nossa, hein? —  gracejou, quebrando o gelo.

— Rendia um filme… — Marcela sorriu de volta ajeitando o aplique na cabeça —  um Bonnie e Clyde tropicalizado…

— Acho que prefiro um livro de poemas… — Alexandre segurou-a pelas mandíbulas e envolveu os lábios dela com os seus, grossos e molhados. Mas foi um beijo ligeiro.  Precisavam partir. Estavam, de fato, bem atrasados. 

*

Não foi apenas um bebê, mas um casal de gêmeos Mapuche que Marcela e Alexandre levaram para a Venezuela. Cruzada a fronteira, outro carro a levou e às crianças até um lodge em Canaima onde um casal suíço de meia idade os aguardava. Marcela tremeu a cada uma das inúmeras barreiras pelas quais passaram, mas o motorista venezuelano era safo e os militares, quase meninos de tão jovens, não pareciam interessados nela ou nos bebês, mas na hipótese de mercadorias — drogas — escondidas dentro no carro. 

Marcela assistiu de longe, no lobby do hotel, a emoção do casal ao ter as crianças nos braços. Uma lágrima discreta umedeceu-lhe os olhos. O homem e a mulher pareciam felizes, as crianças cresceriam na Europa ao invés de em um povoado indígena no meio do nada e ela, de volta à Goiânia, receberia a segunda parte do pagamento gordo pelo serviço prestado.

Menos de três meses depois, mudou-se para Boa Vista, o que fez Alexandre instantaneamente passar a gostar da cidade. O projeto dele de construir uma mansão tornou-se mais modesto, porém exequível em um prazo razoável. Os dois começaram a mexer com exportação de ouro, embora proveniente de minas que não existem legalmente no Estado, e planejam um filho para quando os negócios prosperarem. 

Marcela voltou a escrever poemas ruins com certa regularidade.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série A.