EntreContos

Detox Literário.

O Dia em que a Terra Não Parou (Short Version)

 

O famoso jornalista britânico Francis Cockburn certa vez disse; “não acredite em nada até que tenha sido oficialmente negado”, por minha vez, vos digo, “acredite em apenas 80% do que a cultura popular costuma contar, porque os outros 20% são puro invencionismo”. Norteado por isso, não me causou qualquer surpresa ou estranhamento o fato dos alienígenas, batizados por mim de “Claytorgs”, serem verdes fluorescentes e pequeninos. Na verdade, o termo “pequenino” pode ser considerado um eufemismo elegante, e obviamente impreciso. Os sujeitos mediam entre dois e três centímetros, contando com as antenas quando completamente eretas. Em uma descrição mais visual e comparativa, é possível dizer que pareciam grilos vindos do espaço. O que nesse exato momento me faz pensar porque diabos não os denominei de “grilos do espaço”? Certamente mais interessante, menos pomposo e muito mais divertido que o ‘viralatismo” descarado de “Claytorgs”. Em minha defesa, excetuado o famigerado caso do E.T de Varginha, é fato conhecido que extraterrestes com esse biotipo preferem o solo americano para suas empreitadas. Do mesmo jeito que “chupa-cabras’ tem predileção por animais mexicanos, Vampiros por pescoços Romenos e Sacis por bundas brasileiras. Enfim, se o tom esverdeado e radioativo possivelmente era fruto de uma dieta rica em legumes no estilo da “Monsanto”, restava claro que o tamanho do corpo era uma necessidade espacial. Afinal, “mais é menos”, “Cuanto más grande eres, más grande será tu caída”[1] e todas as outras frases de sabedoria duvidosa validadas pelo fato dos dinossauros não estarem mais “ai para comprovar”.

É de conhecimento geral[2] que durante 3.000 anos os “Claytorgs” tentaram sem sucesso invadir o planeta terra. Em uma escala de constrangimento cósmico – inúmeras foram as batalhas – poderíamos citar em terceiro lugar a vexatória retirada dos “verdinhos’ em 06/06/1944. Após tensos e intensos 15 minutos sendo bombardeados por uma força mundial que atirava por todos os lados em uma localidade chamada de Normandia, o Supremo Comandante da força “claytorguiana” não girou nos calcanhares, mas engatou a marcha ré do que sobrou de sua esquadra[3] e saiu com as anteninhas entre as pernas.

O segundo maior embate da tropa espacial ocorreu quando resolveram chegar no meio de um grande êxodo. Durante o imbróglio entre um Faraó e os Hebreus, nossos amigos optaram por uma maciça visita de reconhecimento sobre o Delta do Nilo. Entretanto, antes que pudessem coletar os dados necessários para o ataque, 30.000 naves foram surpreendidas por uma improvável chuva de rãs. Laicos por excelência, os visitantes não contavam em seus arquivos com a notícia de uma força aérea de batráquios kamikazes. Destroçados pelo assalto brutal e repentino, os “Claytorgs” sobreviventes abandonaram os seus discos voadores em busca de salvação, mas encontraram apenas uma nuvem de gafanhotos intolerantes, sectários e especistas.

Há quem diga que a maior a batalha da história dos esverdeados diminutos aconteceu em Yunnan no festival de 212, passagem do novo ano do rato, onde milhares de “lanternas de kongming”[4] acertaram em cheio a maior ofensiva já projetada. Queimados pelos notórios balões Chineses, os soldados esmeraldinos lançaram-se num terrível mergulho, um salto mais ou menos no escuro. Todavia, jamais havia passado pelas suas cabeças antenadas que aquilo se tratava de uma tradicional manifestação que clamava aos céus uma solução para a maldita fome. Seus corpos torrados foram empalados e devorados por uma turba ensandecida que vibrava com a entrada do novo ano do boi.

Sim, há quem diga. Eu não! Em minha humilde e definitiva opinião, o maior combate dos insistentes e maduros forasteiros desenrolou-se perto daqui, em meados da semana passada. Os reflexos estão por toda parte. Portanto, assim que sair desta loja de espelhos, contarei os detalhes desconhecidos para deslumbramento universal.

 


[1] O autor optou pelo espanhol simplesmente porque estava com uma vontade louca de escrever “mais grande”.

[2] Entenda-se por “geral” o universo incrível e incontável de leitores do autor.

[3] O Segundo Sargento Douglas Cooper ao fazer seu relatório de batalha jurou por todos os deuses astronautas que durante a invasão do dia D viu milhares de discos se espatifando na praia francesa. 15 anos depois em South Beach ele inventou o “frisbee”

[4] Uma espécie de balãozinho de São João.

 

XXX

 

Adilson, de sobrenome “Atirador” por uma predestinação sem precedentes, era presidente do Clube de Caça e Pesca de Hollywoodnópolis. Uma estranha e não tão pacata cidade de 35.000 habitantes e 17 anos de fundação.  No gabinete de honra da presidência da Agremiação, que dividia espaço com o depósito de raquetes de ping-pong e tabuleiros de xadrez, o sujeito sorria por baixo dos bigodes esticados e batia continência para o retrato do seu finado pai. Finalmente a comunidade adolescente, conhecida como a prima pobre do Triângulo Novamericano, um pouco abaixo de Califórnia do Oeste e muito aquém de Chicagolândia, receberia um evento portentoso da região. Ele, enquanto idealizador, organizador e competidor, não se continha de entusiasmo, replicando a mesma postagem em todas as vias digitais que tinha acesso. O panfleto, cuidadosamente elaborado em um aplicativo apelidado de “peidebrux”[5], trazia as informações do campeonato, os três patrocinadores – que por incrível coincidência e mérito eram justamente as prefeituras da região – e a foto da Vaca Monroe, prêmio exclusivo para o vencedor. Em um atilamento típico das grandes figuras, Adilson Atirador aparecia em forma de marca d’água por baixo da “arte gráfica” numa engenhosidade moderna que remetia as primeiras cédulas do império romano.

Salivou só de imaginar a cara dos seus adversários; Coronel Franco-Franco, patrono de Chicagolândia, e Mister Teófilo Patriota, prefeito de Califórnia do Oeste. Inimigos mortais que não podiam se ver, exceto nas quintas-feiras no rendevouz de Socorro Prazeres. O trio cativava uma espécie de disputa lendária. As figuras capitaneavam as torcidas dos seus respectivos concidadãos nos mais variados embates; da montaria ao videokê, do carteado ao leilão de galinhas.

Em instantes, duelariam por honra, prestígio e a pela Vaca Monroe.

Coronel Franco-Franco jamais havia vestido uma farda e herdara a patente do seu avô [6]. Sem nunca ter passado sequer na frente de um quartel, andava marchando com os olhos no horizonte dando comandos em voz de trovão para seus funcionários do petshop. A redundância, primordialmente onomástica, era um traço característico que alcançava fala e gestual. Não por outra razão recebera dos detratores a alcunha de “Coroné Replay Legendado”.  Era notadamente descrito como um homem justo, probo, duro e leal – ou seja, sem defeitos de caráter – por nove entre dez das suas amantes. Longe de casa, seria a primeira vez que disputaria o torneio sem a ajuda de metade de sua imensa claque.  Ainda assim, alugara duas Vans e uma charrete para os seguidores bem-dispostos (pagos) e aventurados (consanguíneos).

O líder Californiano Mister Teófilo Patriota distinguia-se dos demais por sua classe e educação. Anglô-francofilo de nascimento, fruto do casamento de um Ciclista Francês e uma Professora de Governador Valadares, embaralhava os idiomas em um dialeto inconfundível. Considerado por todos os professores, mestres, explicadores e auxiliares de monografia como um exímio autodidata – fazia de tudo um pouco – aprendeu a andar com três anos e tornou-se aos dezoito e dois dias o vereador mais novo do país. Teopato[7], homenagem justa e carinhosa conferida pelo partido de oposição, só tinha um desgosto na vida; a ausência de um filho varão. Catherine Patriota tentava ocupar essa lacuna, inutilmente, apesar de pescar com maestria, correr como uma gazela, boxear como um canguru e atirar como uma Carabinieri. “Last but not least”[8] vivia para honrar a memória da esposa, que morrera em um estranho acidente de carro na fronteira da Bolívia e ressuscitara três dias depois em um veleiro em Cancun.

No mês anterior, Adilson convocou uma reunião de cúpula para tratar dos detalhes da disputa. Reuniram-se em um lugar neutro chancelado por Socorro dos Prazeres, colombiana muito acostumada a se fazer de Suíça.

– Propomos que nós três estejamos nas finais antecipadamente? – Adilson lançou na primeira pessoa do plural, pois acreditava que possuía a procuração do mundo.

–  Think is justo e démocratique – ponderou Teófilo.

– De acordo, concordo – arrematou o Coronel.

– Vamos ao que interessa! Sugerimos uma pequena aposta em espécie.

– Animais não são moeda! – vociferou o dono da Petshop

– Pardon, acho que ele estava falando sobre “cash”.

– Por que não algo definitivo, peremptório, conclusivo, irrevogável…

– É de conhecimento público que o Coronel tem vocação para criar palavras-cruzadas…

– My dieu, homi!

– Ao vencedor ganhador primeiríssimo a honra de apadrinhar definitivamente a incrível Vaca Monroe!

Vaca Monroe, por causa do James e não da Marilyn, era uma espécie holandesa de cerâmica “esquecida” por um artista plástico pernambucano, que ia para uma exposição no Rio de Janeiro, mas teve seu carro abalroado por um cavalo apátrida. Tendo o sinistro acontecido exatamente na divisa do triângulo Novamericano, a apuração das responsabilidades durou mais tempo que o tal artista podia esperar. O animal de tamanho real, pintado com bolinhas vermelhas e amarelas, tornou-se imediatamente objeto de cobiça por parte dos moradores da localidade.

 


[5] Do inglês “Pei” – varinha, “debrux” – do bruxo/que faz mágica, é um aplicativo que já vem no computador e serve para desenhar boneco de pauzinho. Ah, e também para recortar foto e pintar uns trem.

[6] que também nunca tinha servido ao exército, mas que durante a Guerra do Paraguai havia perdido uma perna mal tratada após uma dividida pouco calculada com um zagueiro nascido em Assunção.

[7] É sabido que o Pato nada, corre e voa, embora não faça nenhum dos três direito.

[8] Que em uma tradução livre feita por Teófilo Patriota significava “os últimos serão os primeiros”.

 

XXX

No dia em que a Terra não Parou, os figurões estavam em formação na linha de tiro da Pedana [9]. Iriam abrir o torneio já com a final da Fossa Olímpica, cada um com a certeza de que ganharia a Grande Bolada, outro apelido da Vaca Monroe. Adilson havia memorizado a ordem de lançamento dos pratos e combinado com o árbitro da prova um certo retardo para acionar a máquina. Coronel Franco-Franco colocara o triplo de chumbo permitido em seus cartuchos para que quando atirasse não sobrasse nada pela frente. Já Mister Teófilo Patriota, após muita discussão e cara feia, concordou com o plano da filha Catherine, campeã nacional da modalidade, para sagrar-se vencedor do desafio.

Gabriel Garcia Márquez disse que todas as coisas possuem vida própria. Eu digo que todas as coisas possuem um propósito e uma vida, não necessariamente própria. Os pratos surgiram para salvar milhares de pombos e patos que serviam de alvo para caçadores entediados. Sua existência está condicionada a natureza quebradiça, onde a sina é espatifar. Portanto, ainda que não tenham sido utilizados no fatídico dia, vã é a esperança de quem nasceu para ser estilhaçado.

Quando o primeiro “alvo” surgiu no horizonte bem antes do previsto e permaneceu imóvel no ar como um beija-flor preguiçoso. Os atiradores se entreolharam desconfiados. Diante da oportunidade sem precedentes Adilson ergueu a espingarda e acertou em cheio o disco voador alaranjado, que deixou para trás uma nuvem de poeira verde[10]. Antes que Coronel Franco-Franco colocasse em cheque a integridade do certame com alguma bravata repetitiva, outro “prato” parou desafiadoramente na linha de tiro. Sem titubear, Mister Teófilo Patriota apontou o cano de sua escopeta e assoviou. Escondida nas moitas Catherine soltou um “tirambaço” certeiro que arrancou suspiros do pai, que ainda ousou fazer um “cataplum” de canto de boca. Diante do insólito e do absurdo, havia a sensação de que muita coisa estava errada, todavia ninguém percebeu o teatro bem sincronizado entre os Patriotas.

– Algo de errado não está certo! – Gritou Franco-Franco.

– Nós chamamos isso de “choro de loser” – emendou Teófilo, ainda empolgado com “seu” grande tiro.

Antes que pudesse retrucar, uma dupla de pratos despontou no céu. O Coronel não se fez de rogado, mirou duas vezes e disparou o projetil turbinado. Os objetos se desintegraram em um vapor esmeraldino que coloriu o fundo azul.

– Toma, toma – ele provocou descansando a arma no ombro – 2 x 1, senhores.

– Concordamos que não seria “double trap”, bien? – Teopato questionou, duvidando da capacidade de sua filha Cat.

– Sim, mas também nunca tínhamos atirado em pratos que ficam parados.

– Sabia que Hollywoodnóplis não estava preparada, capacitada, habilitada para uma competição deste porte.

– Agree! Califórnia do Oeste é a unique com “infraestruture” para receber um “event” desta “nature”

– Não, não. Em Chicagolândia jamais aconteceria esse tipo de coisa, nossos níveis de gravidade são os melhores do país como um todo. Nacionalmente.

– A Terra é Plana lá também? – Adilson inquiriu, com os olhos rubros de raiva.

Numa intervenção cósmica oportuna, mais sete discos laranja vindos direto da atmosfera cessaram o rumo da prosa politico-moral-religiosa. Tal qual uma comédia muda, a tríade se apressou em carregar as espingardas e disparar em frenesi. Coronel Franco arrematou quatro de uma vez só, Catherine acertou dois, para felicidade do papai, e Adilson apenas um. Confuso, o garoto do placar tentava marcar as pedras, quando uma nova linha de oito alvos irrompeu na frente da trinca de fanfarrões. Acontece que em razão da prática, Catherine recarregava sua espingarda bem mais rápido que seu pai conseguia simular. Não por outra razão, contagiada pela empolgação, desembestou em derrubar os discos para desespero de seu parceiro que não conseguia acompanhar os movimentos. Perplexos diante do insólito, Adilson e Franco largaram seus postos e suas respectivas técnicas para atirar a esmo. Naquele momento estava claro que as regras já não valiam de nada e triunfaria quem quebrasse mais pratos independente de qualquer coisa.

Não é preciso mencionar, se o faço é por obrigação de registro, que o campeonato tornou-se um verdadeiro “bang-bang”. Os discos voadores continuaram chegando em intervalos cada vez menores. Mister Teófilo Patriota exausto em empunhar o armamento, cansou-se do teatro e abraçou o descaramento. Enquanto sua filha fazia todo o trabalho, Teopato disparava com a mão e gritava “cataplum” cada vez que algo se partia.  Adilson mandou trazer mais três espingardas que o garoto do placar recarregava nos ínterins. Coronel Franco-Franco convocou sua “entourage”, que formou linha ao seu lado e começou arremessar tudo que estivesse disponível. As garotas invadiram o campo de prova com seus estilingues enquanto os garotos lançavam suas bolinhas de gude.

O Supremo Comandante dos “claytorgs”, responsável militar pela invasão, frustrado com a técnica aprendida com o Arcade Space Invaders, optou mais uma vez pela retirada desonrosa. Porém, não sem antes repetir o imenso clichê de capturar uma vaca com seu campo de força.

Ao avistar a Vaca Monroe subir aos céus como uma divindade Hindu, os três atiradores caíram sobre os joelhos e começaram a rezar. Nesse dia, a terra não parou graças aos “três” heróis improváveis. Surgia ali um novo credo e um novo grupo de defesa: Vigilantes Novamericanos de Gados Raptados por Extraterrestres, os famigerados – VINGADOREX!

 


[9] Uma espécie de amarelinha marcada no chão donde o povo tem que atirar.

[10] Os alvos do tiro ao prato usualmente são laranjas e carregam um pó verde na parte de baixo, quando acertados deixam uma nuvem esverdeada que facilita a visualização dos espectadores e árbitros.

 

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série A.