EntreContos

Detox Literário.

A Bruxa (Jan Dawngarde)

Alguns diziam que seu semblante remetia às criaturas divinas que habitavam o inconsciente coletivo. As linhas de seu rosto formavam uma escultura adornada por cabelos louros que desciam encaracolados sobre os ombros. Sua pele era como seda branca cobrindo um corpo esbelto e desprovido de imperfeições.

Ângela trabalhava em um bordel agradando tantos homens quanto cabiam nas horas de um dia. Era o que fazia de melhor; era a única coisa que sabia fazer. Não tinha ideia de há quanto tempo vivia daquela forma. Sua vida era ali; seu tempo era o presente.

Os serviços de Ângela eram os mais caros e seu quarto era o mais luxuoso. Ela mal saía de lá. Passava os dias deliciando seus clientes e desafiando suas imaginações. Cavalgava; beijava; possuía. Quando queria, deixava que acreditassem que a usavam como bem entendiam. Ângela manipulava os membros de seus clientes tão seguramente quanto manipulava seus prazeres. Ditava – muitas vezes com um sorriso matreiro – quando gozariam ou deixariam de gozar. 

Alguns gostavam de conversar após o sexo. Acendiam cigarros ou serviam bebidas e derramavam sobre ela seus corações. Era assim que aprendia sobre os tempos difíceis do mundo lá fora. Os homens falavam sobre guerras e sobre medo. Tornavam-se constantes as visitas de soldados à sua cama; homens que esqueciam dentro dela as memórias das mortes, mesmo que por apenas alguns minutos. Ela sabia conversar também; confortava-os com mentiras doces e fantasias. Muitos acreditavam. Muitos queriam acreditar.

Ao fim do dia, quando se retirava para dormir, era comum ter sonhos estranhos. Quase sempre sonhava com mãos. Algumas seguravam panos úmidos que passeavam em sua pele, outras seguravam seringas que invadiam suas veias. 

Nenhuma a acariciava. 

Algumas vezes, quando acordava, passeava o dedo pelo braço em busca dos locais onde as seringas a perfuravam, mas nunca os encontrava.

————

Em uma noite como outra qualquer, Ângela foi dormir e, pela primeira vez em sua vida, teve sonhos diferentes. Sonhou com as guerras que seus clientes descreviam; com explosões e gritos de agonia; com uma cidade em caos e com a degradação da espécie humana. No sonho, dentre a decadência, uma mão surgiu e a tocou. Ângela sentiu a pele áspera tracejar um carinho em seu rosto, mais gentil do que qualquer toque que jamais sentira. A sensação inédita despertou-a do sono profundo.

Diante dela havia um cliente. 

Como pude perder a hora? Ela pensou, confusa. 

Ângela dormia nua. O homem a encarava com olhos primitivos. A língua passeava inconstante pelos lábios. Encontrava-se quase tão nu quanto ela, usando apenas trapos sujos para cobrir as pernas. Seu peito era apinhado de pelos que escondiam os músculos endurecidos. A ereção pulsante – sincera e faminta – fugia da calça improvisada.

Ângela se levantou e envolveu a cintura do homem com as pernas, trazendo-o ao chão. Não demorou para senti-lo dentro de si. Tentou controlá-lo, mas o homem a devorou em movimentos fortes e incessantes até gozar, dois minutos depois. Quando terminou deixou-a deslizar para fora, preocupado em recuperar o próprio fôlego.

Só então – após o dever cumprido – foi que Ângela notou a condição em que se encontrava. Estava cercada de ruínas. Dormira no chão; sua cama era uma pilha de ferros retorcidos. Uma das paredes do quarto deslizara para fora, revelando uma cidade aplanada, pontilhada pelos esqueletos do que uma vez foram edifícios. Levou as mãos aos seus cachos e sentiu-os arenosos. Sua pele estava suja de poeira e sangue seco. Não estava pronta para trabalhar. 

Não sabia o que fazer. 

Então sentiu a mão do homem fechar-se ao redor de seu braço e trazê-la para fora, pela parede desabada. As pedras irregulares machucaram seus pés. Foi assim que, em poucos segundos, Ângela partiu de seu quarto e ganhou o mundo.

Não se lembrava da última vez que vira o Sol. A luz incomodou seus olhos.

————

O homem levou-a em uma viagem até encontrarem o que parecia um acampamento improvisado entre as ruínas de uma daquelas cidades que já não eram mais. Havia cinquenta pessoas, todos vestindo trapos e mal escondendo suas peles. O homem atravessou o povoado segurando-a pelo pulso. Alguns o cumprimentavam com sorrisos e gargalhadas, como se Ângela fosse uma mercadoria recém-adquirida. Por fim encontraram uma grande tenda, para dentro da qual ele a trouxe.

Ângela descobriu que o homem se chamava Saozi.

As paredes da tenda eram os tijolos de cômodos sem nome. O teto consistia em uma grande lona drapejante. Seus primeiros dias no povoado se passaram ali, longe da luz solar, escondida entre aquelas paredes antigas. Era o que mais se aproximava de seu antigo quarto. A nova rotina de Ângela não se diferenciava muito de sua antiga: ela ainda fazia o que sabia fazer de melhor, satisfazendo todas as ânsias de seu agora único cliente. Saozi montava-a cada vez mais e por mais tempo. Em troca ele, durante o dia, ensinava-a o próprio idioma, além de outras habilidades inestimáveis. Ângela – que se julgava incapaz de aprender algo novo – ficou impressionada com a própria versatilidade. Aprendeu a cozinhar, a limpar e preparar a carne de um animal abatido e a se defender de animais e de pessoas que agiam como animais.

Após dias sem sair da tenda, Saozi começou a tentar fazê-la misturar-se ao povo. A temporada das grandes caçadas se aproximava e ele era um dos homens que lideravam o grupo. Ela preferia ficar ali e servi-lo, mas acatou seus conselhos e saiu para conhecer o povo primitivo e sem nome ao qual agora pertencia.

Lá fora havia uma comunidade simples, onde cada um ajudava no que sabia fazer. Ângela não sabia fazer muita coisa. Notava como as mulheres caçoavam dela em silêncio – apenas com o olhar. Sua pele era clara demais. Ela não servia para caçar, nem para portar ferramentas de arado. Não tinha os braços fortes para ajudar na cura de couros ou no transporte de materiais pesados. Era uma boneca de porcelana que, quando andava pelas ruas quebradas daquela cidade, despertava o desejo dos homens e o desprezo de suas mulheres.

Ângela passou algum tempo sofrendo em agonia silenciosa enquanto Saozi estava longe liderando as caçadas. Algo havia mudado dentro dela no dia em que o homem a tomou pela mão e a levou consigo. Algo pequeno a princípio, mas que crescia e a confundia cada vez mais. Ela sofria ao notar o desprezo com que era tratada pelos outros. Sofria – algo que julgava impossível. Um senso de urgência a dominou e ela procurou com afinco até finalmente encontrar um lugar entre as mulheres mais velhas, onde não era tratada com rancor. 

As Sábias eram mulheres de idade avançada que curavam a mente e o corpo dos enfermos. Por sua energia e por seu aprendizado rápido, Ângela conquistou o coração daquelas senhoras que, em troca, a acolheram e ensinaram muito mais do que Saozi poderia ensinar.

Ângela aprendeu os segredos das ervas; a fechar uma ferida aberta; a ajeitar um osso quebrado; a realizar um parto. Após algum tempo ela mesma conquistou o título de Sábia, o que soava estranho para alguém com aparência tão jovem. Mesmo assim todos passaram a respeitá-la, e ela passou a acordar esperançosa não apenas por satisfazer Saozi, mas também por exercer uma segunda função. Pela primeira vez em sua vida ela sorria sem ter que fingir que sorria, e dormia – só agora notava – sem sonhar com mãos que maculavam sua pele.

————

Assim que sua nova vida começou, iniciaram-se também os problemas. Como Sábia ela tratava dos homens e mulheres enfermos, mas eram os homens que a preocupavam. Eles vinham até ela feridos, mas seus olhos não a miravam com dor, e sim com desejo. Não demorou até que um desenvolvesse a coragem de puxá-la pelos cabelos e penetrá-la ali mesmo, na tenda de cura, em movimentos urgentes como os de quem sabe que comete um pecado. 

Todos eles sabiam que aquilo era errado, mas o que ela poderia fazer? Eram apenas animais vestidos de homens. Ao invés de protestar, simplesmente os recebia em silêncio. Era para aquilo que existia. Ângela deixava que a dominassem e tivessem com ela alguns minutos de prazer. Com a certeza de que ela abriria as pernas, as visitas à sua tenda tornaram-se cada vez mais constantes. Alguns sequer esperavam ficar feridos para visitá-la. Porém algo a incomodava. Cada vez que um novo homem a penetrava, ela se lembrava de sua antiga vida – a vida antes de Saozi. Aqueles homens que entravam em sua tenda para consumi-la: eles eram seus reais clientes. Tratavam-na como um produto. Seus toques não eram carícias. Ela não sentia nada ao deixá-los invadi-la. Acima de tudo, não sentia com eles o que sentia com Saozi. Não era venerada com seus olhos, nem acariciada após o coito. Por isso fez o que nunca imaginou que faria – o que nem sequer sabia ser possível: passou a negá-los. 

Eles não aceitaram, mas ela insistiu. Eles a forçaram, mas ela lutou como Saozi a ensinou a lutar e, em pouco tempo, nenhum homem a tocava que não o seu homem, e nenhum homem se deitava com ela que não o líder dos caçadores. Os olhos cheios de volúpia continuavam, mas eles aprenderam a observá-la a uma distância segura.

 

As mulheres, por outro lado, tinham suas próprias armas. Sabiam, sem precisar saber, o que acontecera sob as lonas da tenda de cura. Sem provas tudo não se passava de suspeitas, mas não precisavam de provas para agir.

Uma delas se aproximou de Ângela certo dia, falando nos grunhidos que formavam o estranho idioma daquele povo.

— É um dia quente. O sol está alto no céu e a noite demora a chegar. Mas sua pele continua branca.

— É verdade – uma outra se juntou à primeira – esses cabelos amarelos sempre dançando no vento. Essa pele tão lisa. O tempo não te afeta, menina.

Ângela não tinha resposta para aquelas acusações. Sem saber o que vinha pela frente, simplesmente fugiu, mas aquelas eram apenas as primeiras acusações do que seria uma eternidade de blasfêmias. Mesmo que continuasse a curar os enfermos e a realizar o parto dos bebês das mesmas mulheres que a acusavam, as superstições falavam alto demais. Antes mesmo de ela ter colocado o primeiro pé dentro daquele povoado, havia lendas de bruxas – mulheres que teciam pactos com criaturas ocultas para adquirir imortalidade. 

Saozi, achando tudo aquilo um absurdo, usou de sua influência o quanto pôde. Mas os anos se passaram e Ângela não envelhecia ou adoecia. Suas aliadas nas Sábias faleciam, novas ascendiam ao cargo e, com o tempo, ninguém mais a procurava. Ela se viu de volta à tenda de Saozi com o único propósito de servi-lo, como no início. Sabia que deveria estar contente em fazer a única coisa que deveria fazer, então passou a dedicar-se exclusivamente a Saozi, a mantê-lo saciado e feliz. No fundo, porém, a tristeza mal disfarçava sua presença.

Saozi abandonou as caçadas para manter-se ao seu lado. Perdeu prestígio até o ponto de ser confrontado por outros homens do povoado – os mesmos que, anos antes, a violentavam como trogloditas. Ela observou quando estes expulsaram Saozi do povoado por deitar-se com uma bruxa – e quando olharam para ela uma última vez, tentando ensaiar desaprovação, notou que ainda a desejavam tanto quanto no início.

 

Saozi e Ângela estabeleceram-se sob o que fora um viaduto, não muito longe do povoado. Dividiram entre si os trabalhos e viveram em paz. Durante a noite o casal se aventurava nas profundezas um do outro. Em momento algum Saozi deixou de admirá-la, mas, aos poucos, passou a demonstrar tristeza. Ângela sabia quando um homem não estava feliz. Mesmo quando ela o levava às alturas do firmamento durante o sexo, ele logo passou a desabar nas profundezas de uma tristeza irritadiça.

Certa noite, enquanto comiam em silêncio, alguém do povoado os encontrou e pediu ajuda. Tornara-se comum aquele acordo taciturno, onde iam até A Bruxa buscando usufruir dos segredos que as antigas Sábias não passaram a ninguém senão ela. Ângela atendia seus chamados, resolvia seus problemas e voltava para casa, deixando-os manter viva a própria hipocrisia. Naquela noite o problema era um parto complicado. Saozi não se opôs, então ela foi até lá cumprir seu dever.

Quando retornou encontrou Saozi sentado ao chão, o semblante sério.

— Como foi?

—Bem. Nasceu um menino saudável.

No mesmo instante ele socou a parede, irritado. O coração de Ângela disparou. Súbito, soube o motivo da tristeza de Saozi. Em um rompante – uma reação tão encrustada em seu ínterim que ela sequer pôde impedi-la – falou:

— Eu não posso ter filhos.

Ele a encarou, estupefato, os olhos vítreos. Temendo chorar diante dela, o homem se levantou e saiu. 

Um erro. O sentimento era de fracasso. Um erro. Na única resposta possível em seus pensamentos, Ângela correu na direção oposta.

————

Saozi nunca mais a viu.

Eventualmente o homem voltou para o abrigo sob o viaduto e o encontrou vazio. Ele a procurou por toda parte; em lugares prováveis e improváveis. Buscou-a até entender que a havia perdido.

Não teve forças para voltar ao povoado, mesmo que agora, sozinho, talvez o acolhessem de volta. Preferiu vagar pelo mundo – pelas carcaças de um passado longínquo – até encontrar seu lugar em outro povoado, onde uniu-se a outra mulher e, com ela, teve muitos filhos. 

Viveu lá até o fim de seus dias, sempre com a incômoda certeza escondida em um canto escuro da alma, que dizia que, apesar de ter amado muitas pessoas em vida, jamais voltou a amar como um dia amou Ângela.

————

A Bruxa caminhou pelo mundo como luz em tempos de trevas. A princípio seus pensamentos eram caóticos, mas de dentro do turbilhão de erros ela teceu para si um novo propósito.

Tornou-se um mito; a mulher que andava pela terra, dona de uma beleza única e incomparável. A Bruxa era temida tanto quanto era aguardada. Ela curava mente e alma; trazia ao mundo vidas novas; ajudava a levar embora vidas antigas. Ao partir de um lugar, a sensação que ficava era a de que tinham encontrado uma espécie de deusa. Para muitos, não passava de um sonho.  Para outros, uma memória guardada com carinho.

 

Certo dia, enquanto visitava um povoado, um casal de irmãos a procurou pedindo ajuda. Seu pai, um senhor de idade, não estava bem de saúde. A Bruxa os seguiu até sua morada, analisou o homem deitado sobre a cama e levantou-se, anunciando que o ajudaria a passar para o outro lado sem dor; sem sofrimento. 

Os filhos do homem choraram, mas não havia o que fazer. Ninguém contestava o que a Bruxa dizia.

Saozi sorriu em seu último momento de vida ao sentir o toque de seda no rosto e ser invadido por um turbilhão de emoções que achou ter esquecido. Antes que fechasse os olhos uma última vez, vislumbrou-a perfeita, inalterada; o anjo que um dia encontrou nos escombros o escoltava para um novo lar.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série A.