EntreContos

Detox Literário.

Matéria Escura (Bernard Lowe)

– E agora vamos para as notícias de ciência e tecnologia com Lucas Prado. É com você, Lucas!

 A imagem mudou do estúdio televisivo para uma moderna sala, onde numa poltrona se via o repórter e, num grande sofá branco, dois homens.

– É isso aí, William! Depois dessa semana controversa, onde os cientistas deram mais um passo na  investigação sobre a natureza da Matéria Escura, que é um dos maiores mistérios científicos, hoje estou aqui para um rápido bate-papo com Victor Guerra e Arthur Grinapel, para falarmos sobre “Life Beyond”, o game mais esperado da década, que segundo os especuladores, trará diversas inovações e até aplicações de altos conceitos científicos, não é Victor?

Victor Guerra aparentava pouco menos de 40 anos. Trajava um blazer branco sobre uma camisa preta e usava jeans. Os cabelos, lisos e bem alinhados. Sua voz denotava entusiasmo:

– Sim, Lucas, Life Beyond está para ser lançado e nós estamos bastante orgulhosos. O game realmente apresenta conceitos similares aos observados no estudo da Matéria Escura, e nossos Protagonistas vão encará-los como verdadeiros enigmas, assim como nós aqui. Acredito que Life Beyond vai nos influenciar e até ajudar a entender como nosso universo funciona.

O repórter sorriu, incrédulo:  – É mesmo? Arthur, vocês não estão superestimando Life Beyond?

O segundo homem, tinha uma postura praticamente oposta à do colega. Ombros caídos, pálido e magro. Arthur vestia uma camisa branca e jeans. O olhar parecia evitar confrontos.

– Bem…de fato… Life Beyond vai trazer grandes inovações na área da inteligência artificial… – Arthur hesitou, sem saber como continuar –̶ … é… algo assim… nunca foi utilizado num game, mas…

– Life Beyond está longe de ser só um game – interrompeu Victor– Será um novo mundo, onde as pessoas poderão viver outras vidas! Você, Lucas, já pensou em ser jogador de futebol? Pois é, você poderá viver a vida de um jogador, desde a infância até a velhice! Ou poderá ser astronauta, médico, sargento, limpador de piscinas… o que quiser!

– Então vocês farão uma espécie de mundo virtual? Mas no nosso planeta temos bilhões de pessoas. Por mais que a indústria de jogos hoje seja mais lucrativa que todos os outros entretenimentos juntos, será que vai haver jogadores suficientes para tornar esse mundo parecido com o real?

Arthur abriu a boca para responder, mas Victor foi mais rápido: – Aí que está nosso trunfo! Nossos protagonistas serão a maior parte dos habitantes, e neles está a grande inovação. Eles agirão como pessoas reais! Eu garanto que no jogo que ninguém saberá diferenciar um protagonista de um player humano. 

– Mas me conte mais, a interface visual… – a voz do repórter foi ficando distante à medida que Arthur parou de dar atenção à sua própria entrevista na TV.

A entrevista gravada para o programa da madrugada seria um sucesso, mas ele agora se debruçava sobre seu Laptop. Finalmente, todos os setores concluíram suas atribuições e ele terminara as últimas linhas de código da inteligência artificial. Testes foram feitos separadamente em cada aspecto do game e agora, era a hora de rodar o jogo completo pela primeira vez. O jogo que iria revolucionar a indústria.

Na tela, a mensagem:

APLICAR ATUALIZAÇÃO VERSÃO ALFA?

Y/N

 

Tremendo de emoção, apertou YES. Uma barra de progresso foi exibida em 0%, provavelmente ficaria a noite inteira atualizando nos potentes mainframes da empresa, a quilômetros dali.

Um peso parecia ter saído de suas costas. Finalmente, Arthur poderia descansar, talvez até voltar a se alimentar e dormir apropriadamente. Seguiu até o banheiro, apesar da excitação, o cansaço mental era enorme, mal mantinha os olhos abertos. Foram mais de dez anos de dedicação para aquele momento, mas seu principal trabalho estava concluído. 

Arthur atravessou a bagunça de seu enorme apartamento até a cozinha. Não sentia sede, mas um copo d’água cairia bem. Foi para a cama, mas antes olhou pela grande janela de sua varanda, a noite já virava manhã. De seu prédio, via as milhares de luzes da cidade. Voltou para o quarto, se jogando na cama. Enfim, o sono dos justos!

No dia seguinte, despertou-se de sobressalto e viu que a manhã já ia alta. Ato contínuo, voou até o computador e a tela ainda mostrava a barra de progresso em 99%, quando chegasse ao trabalho a atualização estaria concluída.

A bordo de um dos carros autônomos, Arthur consultava seus e-mails e via notícias. Uma centena de empresas e instituições se ofereciam para ser patrocinadores e parceiros para o lançamento de Life Beyond. Maravilha! Uma notícia lhe chamou a atenção: pesquisadores de psicologia cognitiva descobriram que o cérebro humano processa a vontade antes do pensamento. Ao que parece, as pessoas primeiro têm vontade de fazer algo e só depois pensam em fazê-lo. Interessante, talvez eu possa usar isso no jogo.

Ao chegar à sede da empresa, diversos funcionários lhe estendiam sorrisos e cumprimentos. Victor surge, lhe dá um abraço e mantém seu braço envolvido no pescoço do amigo. Eles continuam andando pelos amplos corredores.

– E aí? Conseguimos?

– Er.. eu deixei atualizando, assim que… chegar na minha sala já deve estar concluído. Acho… que sim!

Victor agarrou Arthur pelos ombros e lhe deu um beijo na testa – Perfeito, perfeito! Nós vamos destruir na reunião daqui a pouco! – o sócio deixou Arthur na porta de sua sala e seguiu com passos dançantes.

Arthur se sentou em sua mesa, vendo a atualização completa. Iniciou o jogo e imediatamente algo o intrigou: Ivo, seu principal protagonista de testes, um programador de softwares assim como ele, estava em sua casa parado no meio da sala, com o olhar fixo em Arthur, era como se ele olhasse para fora da tela do jogo, chegava a ser assustador.

– Por que ele não foi ao trabalho hoje? – Arthur falou consigo em voz alta. O personagem estava pré-programado para ir trabalhar, sem precisar de comandos. Checando suas necessidades físicas, Ivo estava sem fome ou sede, mas estressado.  Arthur o fez ir à geladeira beber água, obrigando-o a sair daquela enigmática posição e abriu sua caixa de pensamentos para checar o motivo da falta.

Naquele momento, seu telefone tocou e automaticamente a voz de sua secretária soou informando-o da reunião com o conselho diretor em quinze minutos. Arthur agradeceu enquanto, espantado, ia lendo os pensamentos registrados de Ivo. A nova atualização se fazia notada ali, a cadeia de pensamentos de Ivo estava incomparavelmente mais complexa, e mais: ideias totalmente inéditas estavam sendo concebidas pelo protagonista. Ele questionava sua realidade e consciência.

Arthur franzia as sobrancelhas e abria mais a boca à medida que continuava a ler as centenas de linhas de pensamento de Ivo. O protagonista estava chegando à conclusão de que ele era apenas uma inteligência artificial e que seu mundo era simulado, um jogo. Essa ideia fazia seu estresse aumentar exponencialmente, chegando ao nível de agonia. Atônito, Arthur assistiu seu protagonista caminhar sozinho até seu sofá e se sentar em prantos, enquanto continuava a desenvolver sua teoria em seus pensamentos.

– De onde ele está simulando estes pensamentos? Como chegou à essa conclusão? – Arthur se recostou na cadeira, perplexo – Não é possível!

O rapaz entrou no modo de programação do game, enquanto olhava as linhas de código recém implantadas, esperava encontrar ali a causa da anomalia, mas com a olhada rápida pelo código não foi capaz de discernir nada de anormal. 

Neste momento, alguém bateu na porta, fazendo-o pular na cadeira. Sua secretária surgiu avisando-o da reunião. Arthur assentiu, e quando ela deixou a sala, voltou à tela de jogo e, novamente, Ivo estava de pé no canto da sala, olhando diretamente para ele. Um arrepio gélido lhe desceu pela espinha. O protagonista voltou o olhar para outros lugares, era como se olhasse para o alto aleatoriamente, a procura de algo invisível. Na caixa de pensamentos, a ideia de que era apenas uma vida simulada ia tomando mais forma. Arthur fechou o laptop num rompante e se levantou, olhando-o, embasbacado, estava suando. Coçou o queixo enquanto sua mente tentava conceber aquilo, mas sacudiu a cabeça e saiu da sala, rumo à reunião.

Arthur ficou livre apenas no início da noite, após a exaustiva bateria de reuniões, finalmente voltou ao seu escritório, ainda estava intrigado com a atitude de Ivo. Ao rodar o jogo, viu Ivo usando seu computador. A caixa de pensamentos estava ainda mais frenética do que na manhã. Não só textos, mas equações matemáticas e cálculos físicos povoavam as ideias do Protagonista. Fascinado, Arthur o acompanhou.

Ele compilava dados obtidos da internet e formava teorias e certezas. Agora questionava a estranheza da força gravitacional em seu universo, pois não havia corpos celestes suficientes para gerar tamanha força e ainda assim era muito mais forte do que deveria ser. Questionava a estranheza da física quântica, que só mostrava resultados quando o pesquisador olhava diretamente para eles. Se fossem observados, os fenômenos davam resultados diferentes do que se não fossem, algo incompreensível. 

Arthur passou horas olhando os pensamentos de Ivo e no início do dia, viu que ele entrara em contato com um pesquisador do mundo de Life Beyond e ambos demonstraram ter os mesmos pensamentos. Inclusive, o pesquisador parecia estar num estado de consciência muito mais avançado que Ivo, e o fizera se questionar ainda mais.

Rapidamente, Arthur digitou o código equivalente ao protagonista-pesquisador para encontrá-lo. O planeta virtual se afastou da tela, girou para outro país e ampliou o zoom, indo até o interior de uma casa. Arthur arregalou os olhos, que imediatamente ficaram marejados, enquanto suas mãos gelaram.

O corpo do pesquisador pendia de uma corda amarrada numa das vigas do porão de sua casa. Aos seus pés, sua mulher e filhos choravam.

Um arrepio atravessou o corpo de Arthur. Não era possível um protagonista se matar, aquilo jamais fora programado. Abriu as linhas de código novamente, obstinado a descobrir o problema.                                                               

Depois de dois dias trabalhando, Arthur começava a se desesperar:  – Não é possível, não é possível! – Ele caminhava pela sala com as mãos na cabeça, incrédulo. Passara todo esse tempo em casa revirando as linhas de código.

Já tentara retomar atualizações antigas; versões menos inteligentes do jogo; já tentara baixar o nível do intelecto dos protagonistas; nada funcionara. Ivo continuava a pensar como um ser humano, e pior, outros protagonistas também estavam se questionando e espalhando tais rumores entre si – Seriam eles reais consciências? –  O sofrimento da família do pesquisador após sua morte, era algo que também não havia sido programado. Seria uma forma inconsciente de consciência? Aquilo estava saindo de seu controle, não havia criado bonequinhos de um jogo, aquilo pareciam vidas. Vidas como as dele e como as das milhões de pessoas que jogariam aquele jogo.

Enquanto parte cada vez mais crescente dos protagonistas se digladiava com a dúvida existencial, pesquisadores do mundo de Life Beyond vinham desmascarando os atalhos de programação que ele implantara, a exemplo do elemento programado que gerava uma gravidade muito maior do que a soma de todos os planetas e estrelas simulados no game. Os pesquisadores descobriram sua reles imitação da matéria escura existente no mundo real.

Não havia dúvida que as inteligências artificiais estavam evoluindo para consciências complexas, e talvez até se tornando… mentes.

Naquele meio tempo, as consciências evoluíram rapidamente, criaram religiões e seitas. Amor e ódio brotavam entre os protagonistas. Havia os que aceitavam e os que negavam. Antes mesmo do game ser lançado, o caos estava instaurado.

“Com o lançamento do jogo, aqueles personagens que pensam e sofrem como humanos estarão nas mãos de qualquer pessoa. Desde crianças e pessoas inofensivas até pessoas mal-intencionadas e sádicos, qualquer um poderia fazer o que quisesse com as vidas daqueles… seres. Seria o sofrimento deles apenas uma simulação? Algo que não precisasse se preocupar?” Gostaria de pensar assim, mas não achou nada na linha de códigos que sustentasse essa afirmação.

Uma saída seria apagar Life Beyond. Era o mais fácil e impediria que milhões de pessoas fizessem bilhões de… pessoas… sofrerem. Arthur se deitou no sofá de sua sala, seus pensamentos explodiam, como os de Ivo.

Se destruísse aquele jogo, aquele mundo, sua carreira estaria acabada. Dezenas de processos judiciais, falência de sua empresa, demissões… todo o mercado, mídia e patrocinadores estavam ávidos pelo lançamento do jogo.

Por outro lado, agora que seus protagonistas tinham “consciência”, seria certo simplesmente apagá-los? Findar sua existência? Destruí-los? Agora, Arthur caminhava de um lado para o outro na sala de sua casa. Num canto, seu celular exibia dezenas de chamadas não atendidas de seu sócio e membros da empresa. Ele se jogou novamente sofá, enquanto estas dúvidas o engolfavam e a exaustão psicológica e mental o fez caiu num sono inquieto, assolado pelos mesmos questionamentos.

“Já que os criei, será que tenho o direito de destruí-los?”

Na manhã seguinte, acordou decidido. Não deixaria aquelas criaturas sofrerem nas mãos de pessoas apenas pelo lucro da empresa. Não era a melhor opção, mas era a única aceitável. Iria destruir Life Beyond. Sentiu pena pelos diversos avanços científicos que sua obra proporcionaria, mas era a atitude mais humana que poderia tomar.  Sentou- se em seu laptop e iniciou o procedimento, até chegar à tela:

 

APAGAR ATUALIZAÇÕES PERMANENTEMENTE?

Y/N

 

Ele tremeu, hesitou. Abriu o jogo para ver Ivo uma última vez e, agora, as centenas de outros Protagonistas que estavam conscientes ou questionando sua realidade. Ivo estava de pé de costas para a tela. Na sua caixa de pensamentos, lia-se apenas:

 

“Existe alguém real?”

 

Arthur sorriu, cabisbaixo, mas em seguida, sua face começou a se anuviar e seu corpo congelou. Ele se afastou da tela, atônito. Naquele momento, palavras familiares lhe assombraram sua mente, numa terrífica comunhão com a dúvida final de Ivo: “Acredito que Life Beyond pode nos influenciar e até ajudar a entender como nosso universo funciona”. Seus olhos marejaram.

Lentamente, Arthur afastou o cursor do mouse do “Y” que apagaria o jogo, à medida que completava o pensamento de Ivo. Levantou-se da cadeira deixando o Protagonista na tela, sem responder à ambas perguntas exibidas, e caminhou lentamente, até a varanda que era banhada pela tênue luz crepuscular. Seus olhos perdiam -se no horizonte, entre prédios e nuvens.

O sol se erguia, preguiçoso, no firmamento, suspenso por uma energia obscura que ninguém entendia e que parecia ser impossível até para os cientistas. Enquanto isso, lá embaixo, mesmo cedo a vida já caminhava rumo a seus afazeres. Devido à distância, não via as rodas dos carros girando, apenas os veículos se movimentando.  Dúvida e certeza.

Arthur respirou fundo e ergueu os olhos para um ponto fixo no céu, ficou assim por alguns instantes, até que sentiu uma forte vontade de beber água.

 

FIM

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série C.