EntreContos

Detox Literário.

Madalena Eterna (Major Matoko)

Carpe diem, quam minimum credula postero. A frase do filósofo Horácio Flaco é uma máxima que, se eu voltasse no tempo, tatuaria no pulso da criança que fui. Uma tatuagem com letras garrafais, para aprender logo e jamais esquecer. Não precisaria, evidentemente, ser em latim. Poderia ser “aproveite o dia de hoje, confie o mínimo no amanhã”. Sem a tatuagem, precisei aprender na prática. Um aprendizado um tanto doloroso.

As primeiras lembranças que tenho de mim são de expectativa. Eu, um pequeno de três anos, de pijama e banho tomado, tentando domar o implacável sono. Mamãe tentava, com suas histórias, me fazer adormecer. Eu, valente, fazia um esforço hercúleo contra a queda das pálpebras. Até que, finalmente, podíamos ouvir o carro estacionando na garagem. Quando a porta se abria, papai me encontrava na sala, olhos brilhantes, sedento por atenção.

Ele mal tinha tempo de deixar a maleta no sofá e eu estava em seus braços. Meu pai me erguia, eu sentia que estava na altura dos aviões. Ele me rodava, me lançava para mais alto. Eu ria, todos ríamos. Minha mãe assistia a tudo com satisfação. Então, eu corria até meu quarto e voltava com a bola e os carrinhos. Ensinava papai como brincar, ele aprendia rápido.

Não sei o quanto duravam aqueles momentos. Provavelmente, algo em torno de cinco minutos. Era tarde para uma criança ficar acordada, minha mãe dizia, fazendo com que eu desacelerasse o ritmo e fosse para a cama. Obediente, eu aceitava a sentença. Ansioso para, na noite seguinte, continuar a brincadeira.

Então, entrei na escola e, como precisava acordar cedo, mamãe não me deixava esperar até tarde. Papai, em contrapartida, demorava cada vez mais para chegar. Passavam-se dias sem que nos víssemos. E, quando acontecia, não era como antes. Eu estava crescido, ele não me levantava mais tão alto. Meu pai chegava cansado e eu precisava aprender matemática.

Então, papai se foi. Vítima de um enfarto fulminante no trabalho. Um divisor de águas na minha vida. Ainda que aqueles momentos de brincadeira já não ocorressem mais, havia esperanças de que, assim que eu decorasse a tabuada, voltaríamos a viver aquela alegria intensa. Agora, estava acabado. Eu sentiria falta daqueles momentos por toda a minha vida.

Ainda que fosse um menino, passei a ser preparado para assumir a empresa da família. Fui para escolas exigentes, comecei a frequentar o local de trabalho do meu pai. De forma nada sutil, meu destino estava traçado. A empresa, legado milionário que papai deixou, precisava de um presidente e minha infância estava acabada.

Demorou um pouco até eu assumir o posto. Formei em administração, fiz cursos na área de economia no exterior. Nossa empresa lida com soluções em tecnologia e exigia que eu estivesse em constante processo de atualização. Não era uma vida ruim. Há prazer quando você fecha um contrato lucrativo, quando aumenta as receitas. Claro que há. Mas não era como driblar meu pai com uma pequena bola, ainda que ele claramente ficasse parado de propósito.

Alegria nesse nível eu só viveria com Madalena. Estatura mediana, porte esguio, as curvas na medida certa. Seus cabelos encaracolados, castanhos escuros, contrastavam com olhos de um verde absurdo.

Nós nos conhecemos em um jantar na casa de amigos em comum. Madalena estudava biologia, mas não sabia o que queria fazer da vida. Era tímida, com movimentos contidos e boa ouvinte. Enquanto eu falava de minha rotina enfadonha no trabalho, ela mantinha um sorriso. Ninguém sorria como ela, de forma tão doce. Em poucos minutos, soube que precisava me casar com ela.

E nos casamos. Uma cerimônia pomposa, igreja lotada e com uma recepção cujo preço faria corar o maior dos perdulários. Eu estava feliz, sentia finalmente que aqueles anos de dedicação aos negócios seriam recompensados com a satisfação pessoal. E, de certa forma, voltei a ser aquele menino esperando ansioso a chegada do pai. Só que, dessa vez, era eu que vinha do trabalho tarde da noite e Madalena quem me aguardava.

Valia a pena. Tínhamos uma sintonia. Ficar em silêncio ao lado dela era excelente; conversar, melhor ainda. Qualquer jantar, uma omelete que fosse, se compartilhada com ela, era especial. Os beijos de Madá eram suficientes para me lançar a uma altura superior à do voo dos aviões. 

Eu continuava trabalhando muito. A empresa passava por um momento turbulento, o mercado estava inconstante e minha presença era muito exigida. Sobrava pouco tempo para o casamento. 

Nossa primeira viagem foi para Portugal. Após passar por Lisboa e Porto, descemos para o sul do país e ficamos na praia de Zavial. A água do mar tinha um azul bem claro, era fria como o sol, que não agredia nossa pele. Ali, sem muitos turistas por perto, éramos exclusivos um do outro, sem obrigação alguma. Minha única função era admirar Madalena serpenteando pelas areias grossas da praia.

Encantado com minha bela esposa, banhando-se naquele mar gigantesco, pensei no quão frágeis nós somos. Minúsculos, até. Foi quando entrei em pânico. E se Madalena se afogasse? Ou bandidos aparecessem e, de forma precipitada, alvejassem minha mulher? Ou se ela adoecesse com aquela brisa? O medo se instalou em mim e acabou com a minha tarde.

No quarto do hotel, naquela noite, Madá foi especialmente voraz. A forma como ela me olhava, o desejo transbordando por aqueles grandes olhos verdes, me fazia perder os cinco, dez quilos do sedentarismo. Eu me sentia poderoso, capaz de fazê-la plena. Isso só acentuou o temor. Definitivamente, eu não poderia perdê-la.

Voltamos ao Brasil, para nossa rotina. Madalena era uma mulher muito simples, não inventava desejos, pedidos ousados. Ela só queria minha companhia, que fizéssemos coisas juntos. Podia ser uma ida ao cinema, um sorvete em dia quente. 

Passaram-se anos e eu garanto que nada me deixava mais feliz do que meu casamento. Claro, tínhamos fases de instabilidade. Todo relacionamento tem. Mas nada que não pudesse ser contornado. Madalena nunca se encontrou profissionalmente, era uma infelicidade que a acompanhava. Em compensação, minha esposa era uma excelente anfitriã, organizava recepções impecáveis, que me ajudavam nas relações de trabalho. A decoração de nossa casa e, sobretudo, nosso jardim, eram impecáveis, mérito dela.

Não tivemos filhos. Não era algo que desejássemos. O amor entre nós bastava. Não posso mentir, eu me ausentava demais da casa, privilegiei o trabalho em muitos momentos. Um erro, admito. O conforto que Madalena me proporcionava valia muito mais do que qualquer ganho profissional.

Custei a aprender a máxima de Horácio Flaco. O medo de perder minha esposa, como havia ocorrido com meu pai, me assombrava diariamente. Só consegui me livrar desse terror quando recebi, por e-mail, um anúncio do projeto Eternize. Uma empresa japonesa, a MK2, especializada em construir ciborgues, prometia, por meio de alta tecnologia, produzir “clones” robóticos de pessoas.

Achei curioso. Um clone androide? A MK2 afirmava que a construção do corpo era a parte mais simples. Através de moldes, a empresa reproduzia em minúsculos detalhes a pessoa clonada. O backup da personalidade era a etapa mais complexa, já que a empresa prometia a experiência de ter a pessoa duplicada no ciborgue. Para isso, eram realizados inúmeros mapeamentos neurológicos, entrevistas e exames. Esse era o motivo de só ser possível ter androides do projeto Eternize baseados em pessoas vivas.

Na época, ciborgues ainda estavam sendo assimilados pela sociedade. Havia um alto custo que inibia pessoas de adquirirem androides para cumprir tarefas que não queriam fazer, por exemplo – para isso, era mais barato contratar pobres. Mas, para quem o dinheiro não fosse obstáculo, a tecnologia era uma possibilidade.

Era uma ideia polêmica. Li muitos comentários dizendo se tratar de um projeto pretensioso, que colocava em risco a humanidade como a conhecemos. Ler sobre o Eternize, porém, me deixou inquieto. De fato, Madá e eu éramos tão felizes que eu gostaria de congelar nossas vidas naquele momento. Como isso era impossível, garantir a presença dela, independente de qualquer adversidade, poderia ser uma solução.

Apresentei para minha esposa o material sobre o Eternize. Pedi que ela avaliasse participar do projeto não só por mim, mas como uma contribuição para a ciência. Não colou. Madalena achava a ideia ridícula, substituir pessoas por androides. Era cética, disse que eu gastaria dinheiro e, no fim, receberia uma boneca falante.

Tentei argumentar, disse que era uma empresa séria, com anos de mercado. Valia a aposta. Mas, por fim, o que convenceu Madá foi meu choro. Sim, chorei como uma criança. Um choro sincero, incontrolável. Era a única forma de demonstrar que eu não suportaria viver sem ela.

O pranto foi convincente. Madalena concordou em participar, mas me garantiu que era desperdício de dinheiro, afinal ela sobreviveria a mim.

Consegui uma rara licença na empresa e fomos para Tóquio. Passamos um mês lá, com Madalena sendo examinada, medida e entrevistada por uma equipe multidisciplinar da MK2. Nunca havíamos passado tanto tempo juntos. Voltamos ainda mais conectados.

Ao fim dos testes, os cientistas me garantiram que, com os dados obtidos, estavam aptos a produzir uma versão androide de minha esposa. Segundo palavras deles, ela estaria eternizada a partir de então.

O medo de perder minha mulher passou. Finalmente, aproveitei o momento. Vivemos contentes por mais quinze anos. Então, em um dia nublado, Madalena se foi. Tudo aconteceu muito rápido, não tive tempo de fazer nada por ela. Repentinamente, ela ficou abatida, desleixada, sem interesse pelas atividades que costumavam motivá-la. Seus olhos, tão expressivos, tornaram-se opacos, com olheiras profundas. Minha esposa estava afligida por um mal da alma, e eu, imerso em outros problemas, não percebi. Sem me dar conta do que se passava, perdi minha Madalena.

O abatimento no qual submergi foi estrondoso. É um milagre eu ter sobrevivido. Vivi nove meses de um luto austero, amargo. Havia semanas em que era um workaholic, trabalhando dois, três dias sem interrupção. Sobrevivia do pão-de-queijo e do café da empresa, sem dormir nem tomar banho. Em outros períodos, não saía da cama, bebia garrafas de uísque, tinha alucinações com Madá.

Até o dia em que, finalmente, o luto passou. Era preciso seguir em frente.

 

***

 

Quando fui à sede da MK2 buscar o ciborgue encomendado, não fazia ideia do que encontraria. Poderia, como Madalena havia dito, ser uma boneca falante. Mas eu tinha esperanças na ciência, acreditava que receberia algo melhor.

Estava certo, mas não podia imaginar o quanto. Era perfeito. Os cabelos, a boca, os olhos. Até a voz, o jeito de falar. Toquei em sua pele, com medo de sentir uma textura de tecido, mas não: eu podia jurar que tocava minha esposa. Mesmo o cheiro era idêntico ao de Madá. Era o clone exato de minha esposa de 15 anos atrás, quando os moldes haviam sido feitos. A personalidade era idêntica. A nova Madalena seguia com seus gestos cuidadosos, ar decidido e a postura carinhosa.

De volta ao Brasil, vivemos uma situação interessante. Ela era idêntica à Madá, mas era uma nova esposa. Eu a conhecia muito bem, mas ela ainda estava se acostumando a mim. A adaptação, entretanto, foi rápida. A inteligência artificial baseada em minha ex-esposa fez Madá reconhecer em mim as qualidades que haviam encantado sua antecessora. Em poucos dias, ela estava apaixonada.

Sofremos preconceito. Amigos e vizinhos rechaçavam a convivência conosco. Para eles, minha Madalena era uma bizarrice, uma excentricidade que deveria ser guardada na intimidade. Eles até não se importavam que eu namorasse uma ciborgue comum. O extremo mal gosto, segundo eles, era ela ser uma réplica de minha ex-mulher.

A tecnologia havia avançado sensivelmente nos últimos anos. Ciborgues eram mais comuns do que quando o projeto Eternize fora lançado. Agora, eles estavam difundidos na sociedade, com utilizações variadas. Podíamos encontrá-los em atividades militares, praticando modalidades esportivas e como requintadas garotas de programa, por exemplo. Provavelmente por algum fetiche masculino, a utilização de androides para fins sexuais era a mais comum.

Não era isso que eu procurava com o clone de minha esposa. Para saciar uma possível curiosidade, sim, o comportamento sexual também estava reproduzido de forma exemplar. Ter aquela jovem Madá sobre mim, seus seios eretos, o corpo em ebulição, era uma verdadeira máquina do tempo. Eu perdia minhas varizes, a barriga, o princípio de calvície. Também rejuvenescia.

Nós nos mudamos para um condomínio afastado. Não precisávamos daqueles amigos antiquados. Tínhamos uma segunda chance. Ninguém se importava com o fato de Madá ser um ciborgue. Minha esposa participava de projetos sociais, clubes de leitura e estava empenhada em ter o jardim mais bonito do condomínio. Tudo estava bem. Eu era imensamente grato ao projeto Eternize. Graças a ele, seria feliz até o fim de minha vida, pois sempre haveria Madalena ao meu lado. Era o que importava.

 

***

 

Passaram-se anos. Até que, numa tarde de sexta-feira, senti uma imensa saudade de minha esposa. Havia sido uma semana com expediente até tarde da noite. Resolvi me dar meia folga de presente. Por isso, fui para casa sem avisar, pensando em beber um bom vinho com Madalena, relaxarmos à beira da piscina.

Mas minha esposa tinha outros planos. Ao entrar em nosso quarto, a vi na cama com nosso jardineiro. Fiquei sem reação diante da cena. Nunca gostara daquele homem, de seus modos arrogantes e do sotaque de imigrante. Tinha pele morena, queimada de sol, e corpo musculoso. Eles não perceberam minha presença imediatamente, de modo que fiquei ali, de forma patética, observando tudo. Foram segundos, talvez, mas pesaram como uma eternidade. Quando me viu, a nova Madalena, em um reflexo inútil, puxou o lençol para se cobrir, assustada. Em contrapartida, o homem não se importou, exibindo orgulhosamente sua nudez. Parecia querer que eu lhes desse privacidade.

Como isso não aconteceu, ele juntou suas roupas encardidas e se foi. Pediu licença, mas não ouvi desculpas.

Foi humilhante. Encontrar minha esposa copulando com um desqualificado. Ainda assim,  não podia perdê-la novamente. Implorei para Madalena não me deixar. Eu perdoaria a traição, fingiríamos que nada havia acontecido. Qualquer coisa, desde que ela ficasse. Não adiantou. Ignorando minhas súplicas, ela partiu.

Horas depois, liguei para a primeira Madalena. Apesar das circunstâncias traumáticas do divórcio, quando ela buscou judicialmente cortar todas as relações comigo enquanto eu surtava, não foi difícil obter seu contato. Ela agora vivia na Alemanha, havia se casado novamente. Contei a ela sobre como seu clone era perfeito, reproduzindo-a nos mínimos detalhes. Até na tendência à infidelidade e, sobretudo, na incapacidade de me suportar por toda a vida. No fim, eu havia sido abandonado por duas Madalenas. Do outro lado da linha, minha ex-esposa, constrangida, lamentou por mim. 

Não precisava. Como eu disse no começo dessa história, carpe diem, quam minimum credula postero. Eu nunca mais seria a criança que rodopiava nos braços de meu pai. Mas eu poderia viver feliz o momento de agora. Para isso, bastava uma rápida ligação internacional e a próxima Madalena estaria encomendada.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B.