EntreContos

Detox Literário.

Neo (Sal Paradise)

Por que os homens bebem vinho e as mulheres, água?

Por que um sexo é tão próspero e o outro tão pobre?

Virginia Woolf

 

…lembro de ver Edgar Allan Poe e de ter conversado com ele brevemente (deve ter sido entre 1845 e 1846) em seu escritório, no segundo andar de um prédio de esquina (Duane ou Pearl Street). Ele era editor e proprietário, total ou parcial, do The Broadway Journal…. 

 

Eu lia Whitman quando ela entrou na sala da Redação. Estaria lendo Whitman ou qualquer outra coisa porque naqueles dias não havia muito o que fazer, ou melhor, havia, mas no Correio ninguém ligava a isso, salvo pelos cretinos que aqui e ali plagiavam matérias de outros jornais passando-as adiante como se fossem suas. Então eu preferia ficar lendo Whitman, ou cuidando da minha Coluna de Cinema, Literatura e Arte. O que me cabia naquele remanso de mentecaptos.

— Neo — ela disse, me estendendo a mão.

— Neo não é um nome — disse, puxando-a até mim.

— Neo! — ela disse peremptória, se afastando.

— Neo? Neon? Neoza? Neomedes? Neomásia? Neófita?

— Neo, de Neolinda… — disse um tanto triste.

— Neolinda?! Nossa! Neo é realmente melhor.

Não havíamos começado bem. 

Ela se afastou na direção da sua mesa e começou a se ocupar, atenta aos arquivos em que trabalhava. 

Neo tinha controle absoluto do olhar, e querendo descansar da papelada que remexia, fazia um arco com a cabeça em torno da minha mesa passando os olhos por sobre mim, contornando-me para que eu não ficasse em sua linha de visão.

Ela sabia que eu a observava e fugia de um confronto, de entregar-se confirmando o que eu sabia desde o dia em que toquei sua mão ao conhecê-la. E sempre que eu levava até ela alguma papelada inútil tudo era inútil no Correio , sentia que ela tremia de desejo, exalava uma contida permissão para que eu tocasse seu rosto, cabelos, seu corpo todo, que beijasse a dália rubra de batom que trazia pregada à boca. 

Esse jogo sutil de desejos velados durou cerca de uma semana, quando ficamos lado a lado deixando o Correio, uma oportunidade que fabriquei ao final de um tedioso dia de trabalho. 

Caminhando ao meu lado ela sabia que seu jogo de silêncios sujos se havia avolumado de forma insuportável, e ficamos tão próximos um do outro que o ar à nossa volta condensava todas as frases não ditas, desejos não revelados, e o que exalava de nós era a louca fome de nossos sexos.

Seus olhares furtivos eram revelações pedindo uma solução para o desespero que nela se havia instalado, pois eu ainda podia ouvir a sua voz naquele primeiro dia gritando para que não perdêssemos tempo com nomes idiotas e tolos cumprimentos. Ela queria sexo, e que fosse logo, urgente.

Passando diante do Royal, um hotel vagabundo que escolhi, olhei-a malicioso e sutilmente inclinei-a na direção da porta que sempre estaria aberta. Ela assentiu com um sorriso triste, como se desvelasse nela um segredo malquerido, certamente clandestino. Eu a revelava às suas próprias tentações. Seu estranho jogo de sedução havia finalmente terminado. 

Quando me tocou senti que sua mão estava morna, úmida como imaginei que estaria a sua boca, tomada de desejos, pedindo minhas providências. A dália rubra desenhada por aquele batom se abria e se revelava a mim.

 

Entramos no Royal e começamos a subir por uma escada bêbada de madeira gasta, negra, polida por mãos ansiosas, conduzindo-nos na direção do que sempre quisemos. Ao chegar ao topo, no segundo andar, nos recebeu um rapaz cínico de unhas sujas, um miserável magricelo. Ele sorria por trás de um balcão imundo, forrado por uma fórmica azul e gasta, e parecia nos dizer que antevia o movimento dos nossos corpos e os consentiria em sigilo mediante o dinheiro que logo passaria às suas mãos.

Empurrou-nos um livro de hóspedes que parecia um caderno imundo de contabilidade e pediu que nos identificássemos. ‘É a lei’, ele disse, sorrindo com seus dentes acavalados sob um bigodinho ridículo de Erroll Flynn. Olhei-o com dureza querendo que compreendesse a singularidade daquele momento, e adiantei-me escrevendo em itálicos um bonito Humphrey Bogart. Neo me seguiu com suas letras redondas e infantis de bibliotecária, desenhando um bonito Lauren Bacall, embora tímido, nascido ali e sem qualquer experiência no mundo dos segredos, do sexo em camas que não fossem as suas.

Após o pagamento o senhor Magricelo me passou uma chave presa por um barbante a um pênis esculpido em madeira, tomado pela gordura de centenas de mãos aflitas.

Lauren Bacall? perguntei enquanto caminhávamos na direção do quarto designado pelo senhor Bigodinho.

Ingrid Bergman soaria falso. Não gosto de Casablanca disse-me, triste, rouca, suplicante a que eu não exigisse dela nada além do que seria capaz de pensar naquele momento.

Achei graça do seu humor quando imaginei que acreditasse naquele ardil insano que construímos ao escrever nomes falsos no livro do senhor Sujinho. Aproveitei seu silêncio para recorrer à lista de mulheres que filmaram com Bogart: Ingrid Bergman, Audrey e Katharine Hepburn, Mary Astor, Beth Davis, Ava Gardner, Gloria Grahame, Lauren Bacall. Desconfortei-me ao lembrar que Bogart e Lauren haviam filmado Paixões em Fúria e À Beira do Abismo. Para onde eu e Neo caminhávamos a partir daquele momento?

Bogart e Lauren: algo deslumbrante e trágico que começava a me incomodar. No que ela pensava quando escreveu o nome de Lauren? Pensaria em paixões, fúrias ou em abismos profundos? Ao abrir a porta com aquela chave ensebada, escolhi que Neo pensava em abismos de paixões em fúria. Soava melhor.

 

Só a toquei quando já estava sobre ela, sobre seu corpo nu e exuberante, um gigante sobre o qual, como louco, me imaginei deitado por uma semana inteira. Agora Neo estava ali e arfava em meus ouvidos, quase em silêncio,  com sua boca vermelha arredondada reclamando incertos desejos. 

Ela se deitara de costas com as pernas unidas como se protegesse de mim seu sexo intumescido, sob vergonhas. Pus meus joelhos sobre a cama, como se a fosse montar, tocando levemente suas pernas, seu ventre, seus seios, então deitei-me sobre ela. Algo repugnante me possuiu, algo que nunca experimentara com uma mulher numa cama. Neo era macia como uma maldita esponja; sem tonicidade. Nada me fazia acreditar que naquele corpo maravilhoso houvesse carnes, músculos, tendões e ossos. 

Tomado por algum insabido desespero, amei-a com ódio, desprezo e nojo, como se houvesse mergulhado numa bacia acolhedora e morna de uma doce gelatina. Não tive qualquer preocupação com o que transferia a ela, se gostava ou odiava o que eu fazia com seu corpo, e o fazia com violência, de forma cruel e intensa… e tão demoradamente quanto podia. 

Com os olhos fechados como se expiasse pecados, ela gemia como um gato que acabara de nascer no fundo de um esquecido sofá abandonado num quarto. Quando finalmente franziu a boca e seus olhos se apertaram como se eu houvesse perfurado seu coração com um punhal, deixei-a quieta, ao meu lado, silenciosos ambos, alheios um ao outro e ao longo tempo que passamos nos amando.

Neo permaneceu imóvel e serena como se avaliasse algo ou nada, insatisfeita ou saciada, perdida em si, eu não sabia, talvez culpada, em prantos secos. Acendi um cigarro enquanto observava o cotão que adornava o umbral da porta e procurava fazer sumir os miados de Neo que ainda ecoavam em meus ouvidos. Não sei se o cotão ou o umbral — ou o que lera de Whitman — me fez lembrar de Poe:

 

Como a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo 

Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais! 

Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,

“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;

Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

É só isso, e nada mais”.

 

Dei-me conta de que em Neo também haveria terrores, terrores nunca antes tais!, e tentava abandonar a ideia de que ela fosse um maldito saco de algodão. Creio que tenha começado a odiá-la naquele dia. Não suportava a ideia de tocá-la, de ter seu corpo junto ao meu, de a amar novamente como acabara de fazer e o faria ainda mil vezes, e nada mais.

Após terminar o cigarro senti que não poderia voltar a vê-la, tocá-la, estar sobre ela numa cama. Voltei a montar sobre seu corpo, de joelhos, e dei uma forte bofetada em seu rosto. Esperei que reagisse, mas Neo apenas me olhou impassível, quase indiferente. Sorri enquanto batia com fúria em sua outra face. 

Ela me olhou por instantes, débil, ainda dormente pelo gozo que experimentara e pelas bofetadas que recebera; então esticou os braços enlaçando meu pescoço e me puxando até me derramar sobre seu corpo, amassando seus seios.

Meu marido nunca me bateu disse-me, enigmática.

Lacrimejava enquanto beijava meu rosto com fúria e baba. Voltamos a nos amar e permanecemos assim até que amanhecesse. 

 

E seu marido?

Alguém que me aborrece, e creio que eu também o aborreça. Tem sua vida; vive bem com a vida que tem. 

Não se importa?

Apenas não me ouve quando peço a ele o que não consegue me dar. Agora tenho o que quero de você. Me basta. 

― Não o ama? ― insisti.

― Eu deveria ter outra vida, a minha própria vida.

― Tão cruel…

― Não seja idiota.

 

Numa das vezes em que voltei com ela ao Hotel Royal, passei a lhe dar algum dinheiro, como se a comprasse num bordel. E tão cruel quanto eu, Neo deixava que eu me exilasse da minha própria alma mostrando-me que eu era a péssima consequência do meu próprio ato ao transformá-la na puta que ela nunca fora, dizendo-me, silenciosa, que eu era tolo por não compreender a enorme aventura que vivíamos juntos. 

Ela guardava com displicência aquelas poucas notas em seu sutiã, erguia os seios com as mãos, vestia lentamente a blusa e ajeitava a saia para logo deixar o hotel. Eu seguia seus movimentos, observava seus olhos, buscava saber o que pensava ao ser tão duramente humilhada, saber se ela compreendia aquela minha provocante tolice. 

Esperava ver em seus olhos o ódio que eu merecia pela paga inútil que fazia a ela, saber se percebia a vulgaridade que era apenas minha. Mas Neo não se deixava afetar. Então eu a tomava nos braços, despia novamente suas roupas e recomeçava uma entrega ao desejo e ao sexo por horas a fio. 

Não estávamos ali para pagar ou receber dinheiro, mas para um prazer que se mostrava cada dia mais estranho e doloroso. 

— Os homens pensam que tudo na mulher é parte do seu sexo —, ela disse. — Pés, mãos, lábios, boca, cabelos, seios…

Acariciei seus seios vendo como minhas mãos ficavam pequenas quando tentavam tomá-los por inteiro.

— Acho que tenho mãos pequenas —, disse a ela.

— Não seja idiota; ou continue sendo, não me importo… 

Deitei sobre ela, que me apertou contra o seu corpo por um longo tempo.

 

— Por que você me paga? —, disse-me, observando sua perna nua apontada ao teto.

— Por que você recebe?

— Poucas mulheres se abandonam ao prazer —, ela disse. — Ouvem uma mentira há tantos séculos que a veem como verdade. Muitas mulheres renunciam ao prazer ao torná-lo irrelevante em suas vidas. Cumprem um acordo que nunca fizeram. Um acordo destituído de desejo e saciedade. Para muitas mulheres o prazer e o sexo são uma porta entreaberta, ou que se abre em frestas para levá-las a um quarto escuro, desconhecido e assustador. É doloroso e inseguro permanecer nele, suja por tantas vergonhas e vulneráveis a tantos pecados. Muitas mulheres sequer entram nesse quarto, e as que ousam entrar, temem, e poucas veem uma luz nele se acender. Amam o pudor quando deveriam amar a vida, a saciedade.

— Que acordo

— Tenho meu destino, minha vida, minha moral, o desejo de ver saciado o meu prazer, minha libido, meu sexo. Contigo tenho desejo e saciedade; isto me basta. Ao me dar esse dinheiro você se mostra apenas um tolo.

— Um tolo…

— Sei de uma anã que tinha pés perfeitos. Ela tinha pernas tortas, curvadas, embora seus pés fossem lindos, como se apenas eles tivessem crescido corretamente, alheios às deformidades do resto do seu corpo. Ela tinha orgulho dos seus pés, gostava de mostrá-los, e sempre comprava novos sapatos: vermelhos, azuis, amarelos… Amava seus pés. Resumira seu corpo aos pés bonitos. Caminhando pela loja de sapatos ela via apenas seus pés, escondendo de si o próprio corpo naqueles espelhos pequeninos. Mas os sapatos que davam beleza aos seus pés também os escondiam, pondo-a como realmente ela era: uma mulher deformada com sapatos bonitos.

— E…

— Que simplório…

— Simplório?

— Não percebe? Nós, mulheres, somos anãs… tornaram-nos anãs ao longo dos séculos: pudicas, envergonhadas com a nossa libido e felizes com sapatos bonitos nos pés.

Quando ela terminou aquela lengalenga eu estava pondo a roupa para deixar o hotel. 

 

Viver os dias ao lado de Neo nos revelava um ao outro. Havia laços, afetos, e isso seria o fim de tudo. Tê-la revelada seria o fim. Sabia que se perdêssemos nossas fantasias, mistérios, surpresas, agressões, tudo se romperia, sem nada para descobrir, nela ou em mim: seríamos pessoas solitárias, prontas para novos amantes e fantasias que preenchessem nossa imensa solidão. 

Eu imaginava estender nossos limites impondo a ela um horizonte intangível todos os dias; humilhá-la com sexo pago era uma forma absurda de estender esses limites… ou obter dela alguma estranha reação, que ela exercesse alguma fúria em minha direção. Estenderia seus limites levando-os para mais distante: eu a odiaria, seria indiferente, me incendiaria de amor se isso nos afastasse da borda de uma revelação que anunciasse o nosso fim, mesmo sabendo que esse fim seria inevitável e para breve.

Sentia-me um homem ridículo ao lado de uma mulher que tinha o que queria e se dava ao homem que escolhera. Dizia-me que eu era ridículo embora quisesse de mim o sexo que desejava. Eu era simplório, mas tinha dela o que queria. Seríamos felizes enquanto pudéssemos separar a dor que nos causávamos do prazer que obtínhamos dessa dor. E ela se deliciava com isso, livre e saciada.

 

Não tinha certeza do que queria da vida quando resolvi deixá-la, quando deixaria também o Correio. Qualquer futuro diferente daquele ao qual a inércia me levava me parecia fácil de enfrentar. Disse a ela que a deixaria, que tudo entre nós estava acabado, e para sempre.

— Acho que isso resolve tudo —, disse-me enquanto trocava de lugar um camafeu que usava, da lapela do tailleur em direção à gola da blusa.

— Deixo também o Correio — falei.

— Duas agonias que terminam, a minha e a sua. Outras virão; outros homens como você virão com suas perpétuas agonias —, falou enquanto me olhava com sua dália rubra presa à boca.

Eu continuava a olhar seus quadris, sua morna e deliciosa flacidez, seus seios — que eu não conseguia deixar de querer. Então ela pegou uma pasta com papéis e caminhou na direção da sala onde ficavam seus arquivos.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série A.