EntreContos

Detox Literário.

A Canção de Laura (Alceu)

Inspirado em Safo de Lesbos, poetisa

grega do século VII a.c.

 

Segurando a mão de Ismênia, Laura a guiou pela trilha ascendente.

– Onde me levas?

– O dia está magnífico, minha querida Ismênia! Vamos desfrutar a brisa do mar e os aromas dos lírios no campo. 

A jovem parou sobre o topo da elevação e abriu os braços, olhando ao redor. Para o norte via-se o perfil escuro do Pão de Açúcar para oeste, a Urca, leste o Atlântico.

– Vamos aproveitar esse último dia! –disse Laura, deitando-se com ela na grama.

 – Por que último dia? – indagou Ismênia, confusa.

– Para estarmos juntas – respondeu, beijando-a na boca. Era a primeira vez que fazia tal coisa com uma menina. Por sua vez, Ismênia ficou surpresa com a atitude impetuosa da amiga. Sempre pensou que seu primeiro beijo seria com um rapaz, imaginava o que sentiria. O beijo de Laura lhe despertava novas sensações a tal ponto que ela não conseguiu rejeitar suas carícias.

Laura afastou-se o suficiente para despi-la. – Como sabes, meu pai é comerciante e ele decidiu se mudar para São Paulo. Não posso ir sem confessar meu amor por você.  – ela inclinou-se e sussurrou em seu ouvido – Quero matar o desejo que corrói minh’alma, quero explorar teu corpo, escalar esses montes, sonhar nesses vales, beber nessas fontes…

***

Cleis, a mãe, vomitou a tarde toda, depois, melhorando um pouco, meteu-se na cabine do navio e não saiu mais. Fernando o pai, passou o dia conversando com os passageiros. Alheia a tudo, Laura mantinha-se na amurada, observando Copacabana desaparecer aos poucos no horizonte. Havia se despedido de Ismênia às pressas, não dando tempo para choros.  Prometeu escrever cartas para ela e disse que um dia voltaria ao Rio. 

***

Na nova casa em São Bernardo, São Paulo, preocupada com o futuro de Laura, Cleis a matriculou no colégio de boas maneiras de madame Leopoldina Duarte. Queria que ela fosse uma pessoa fina, requintada. Que se casasse com um homem rico e fosse uma dama da alta sociedade. Coisa que Laura achava ridículo, porém, não falava nada, não queria conflitos com a mãe. O que queria mesmo era arranjar um emprego, ganhar um salário, ser independente. Nas horas vagas escrevia suas poesias e cartas para Ismênia.

“ Aqui em São Bernardo, há prados onde cavalos pastam a relva coberta de flores. A brisa sopra um gosto de mel doce e suave. Diante da imagem de Nossa Senhora, junto a esse gracioso bosque de macieiras e altares de incenso fumegante, mirra e cássia, peço bênçãos sobre nós. A água da fonte é límpida e fria e o som cálido me deixa sonolenta. Me deito sobre essas folhas macias e penso em ti, minha querida Ismênia. Espero sonhar contigo“.

***

O pátio da casa do coronel Lourenço Cícero, produtor de café, estava enfeitado com flores, cortinas coloridas, tapetes do Oriente, estatuetas, guirlandas púrpuras pendiam das colunas da varanda, tapetes de pele de onça enfeitavam as paredes. Junto a fonte, uma mesa comprida estava coberta de pratos com comidas diversas, ânforas com vinho, pratos com carnes, frutas e doces. Num tablado de madeira, uma bandinha entretinha os convidados com suas músicas.

No colégio, Laura havia conhecido Aimée, filha do anfitrião, que a convidou para a festa. Elas se reuniram a outros jovens, Pedro, Adriana e Adélio, irmão de Aimée. Pedro ficou encantado com a beleza de Laura e tentou de todas as maneiras conquistá-la, fazendo pose de aristocrata, tecendo elogios elaborados. Laura se divertia com as atitudes dele. Enquanto o rapaz não ultrapassasse os limites da educação, tudo bem.

– Laura escreve poesias – disse Aimée.

– Verdade? –perguntou Pedro, apoiando-se no ombro de Adélio.

– Gosto de escrever- respondeu a jovem. Ela mantinha uma atitude reservada e tímida porque não gostava de se exibir. Adélio aproveitou para dizer;

– Nós temos um grupo que promove concursos de canto e poesias no ginásio. O evento chama-se, Entrecantos. Se você quiser participar, falarei com os organizadores para incluir você no grupo.

– Claro! –respondeu Laura. Adriana tocou no braço dela, dizendo;

– Amanhã nós vamos fazer um piquenique. Você não quer participar?

– Gostaríamos de sua companhia – disse Adélio.

– Certamente. Vou, sim.

A voz do dono da festa elevou-se, pedindo silêncio.

– Amigos! Por gentileza, façam silêncio e ouçam o que tenho a dizer. Em primeiro lugar, quero agradecer a todos pela presença. Não vou falar de política, embora minha língua esteja coçando para dizer certas verdades sobre esse regime ditatorial do governo Vargas. – Lourenço fez uma pausa para que os murmúrios cessassem e continuou- Fiquei sabendo que entre nós se encontra alguém que escreve poesias e canta. Alguém que acabou de chegar a nossa comuna. Estou falando de Laura Coutinho de Menezes. Dito isso, convido a poeta a subir ao palco para nos proporcionar uma amostra de sua arte. Venha senhorita, cante algo para nós.

Surpresa, Laura olhou para Aimée e a garota abriu as mãos e ergueu os ombros como quem diz, não tenho nada com isso. Colocando a timidez de lado, Lura subiu ao palco. Um dos músicos trocou o acordeão pelo violão e esperou pelo tom. Laura encarou a plateia, dizendo; – Vou recitar o poema intitulado, Canção do Amanhecer.

– O sol nasce, brilha, resplandece.

Na beira das fontes, na copa das árvores

Soam cantos, estridentes sibilos

Melodiosos gorjeios

Zumbidos, murmúrios

Sons graves, vagos

Das flores fluem fluidos

Odores suaves…

(…)

 

***

Os rapazes limparam o chão, tirando pedras e galhos para as garotas estenderam a toalha e depositarem a cesta com doces e salgadinhos. Todos se sentaram na borda da tolha. Laura sentou-se ao lado de Aimée, com os pés para o lado, puxando o vestido e deixando as pernas à mostra, para o deleite de Pedro. Ele era o mais velho do grupo, devia ter uns 20 anos. Laura gostava de provocar o rapaz, mas o que que a atraia era o pescoço e parte do busto que as roupas de Aimée revelavam.

– É a primeira vez que faço piquenique- comentou ela. Adriana tirou o chapéu capeline e colocou ao lado. 

– Você já beijou alguém?  Ou alguém já te beijou? – perguntou, esboçando um sorriso provocativo.

Aimée ralhou com ela.

– Adriana! Isso é pergunta que se faça? .

– Ué! Não é nada demais!

– Claro que já fui beijada – respondeu Laura com desenvoltura. – Deixei um amor no Rio.

Adriana perguntou – Como ele é? Baixo, alto, gordo, magro. Atlético e bonito, ou feio como o Pedro?

– Feia és tu! – replicou o rapaz.

– Não sejas indiscreta –reclamou Aimée. – Deixe Laura nos cantar um poema. 

– Isso! Um poema erótico.- pediu Pedro, excitado.

– Nos encante com teu canto- pediu Aimée.

Ela assentiu e recitou;

– Esse sentimento implacável, desejo que queima como brasa.

Afoga a razão nos confusos meandros das incertezas.

Agita a alma.

Esquecer, fugir, é impossível.

A ânsia do querer. No enlevo das carícias, nas curvas, cantos e recantos e o coração pulsa, a paixão aflora pelos poros. O desejo por ti me alucina…

Aimée olhava nos olhos de Laura. A mão dela na sua, podia sentir na pele a energia, uma chama furtiva percorrendo seu braço até as profundezas de seu ser. Ela ergueu-se rápido.

– Já volto – disse, e saiu correndo entrando na mata. Pedro exclamou; 

 – O que deu nela? Dor de barriga? Nem comemos ainda!

Laura também se ergueu e a seguiu. – Vou ver o que houve.

Entrou na mata, caminhou alguns metros e encontrou Aimée encostada a uma árvore, de olhos fechados. Ao ouvir ruído de passou, abriu os olhos. Ficou aliviada ao ver que era Laura.

– Ouvindo a tua canção, bebi a poção do amor.

Laura aproximou-se, a beijou e com mãos hábeis, começou a abrir os botões da blusa dela. Logo as duas estavam nuas. Dois corpos alvos no meio do verde. A folhagem sussurrava, cantando com suas línguas verdes. Uma voz destruiu o encanto.

– O que é isso? Não posso acreditar! – era Adélio, pasmo com a cena.- Minha própria irmã! Isso é pecado mortal.

Envergonhadas, as duas se vestiram rapidamente. 

– Meu irmão, ela me forçou. Laura é uma feiticeira. – Aimée se afastou correndo, passando por Pedro e Adriana que chegavam naquele instante.

– O que aconteceu?

– Elas estavam nuas, se beijando e se esfregando uma na outra. A culpa é dela – disse Adélio, referindo-se a Laura e saiu atrás da irmã. Laura começou a ir embora, mas Pedro segurou-a por um braço. O rapaz sentia-se decepcionado e de certa forma, traído.

– Vagabunda! – disse, cerrando os dentes.

Adriana pegou uma pedra e com uma expressão de raiva e nojo, desferiu uma pancada na cabeça de Laura.

***

Escurecia. Cleis estava preocupada com a demora de Laura. Ela tinha saído com os amigos e não voltou. Falou com Fernando e ele decidiu ir à casa de Aimée. A jovem disse que, depois do piquenique no Morro do Sabiá, tinha se separado de Laura no caminho de volta para casa.

Depois que deixou o morro com Adélio a agredindo com palavras insultuosas, Aimée decidiu desafiá-lo. Acusou o irmão de ter queda por rapazes, de ser afeminado e ameaçou contar aos pais caso ele falasse coisa sobre o que viu na mata. Adélio percebeu que era melhor ficar calado. Assim, os irmãos selaram um acordo, guardando segredo.

Munindo-se de lampiões, Fernando e Cleis foram a procura da filha. Primeiro indagaram nas casas vizinhas se alguém a tinha visto, depois subiram a trilha que levava ao morro. Em todo o trajeto a chamavam pelo nome. Andaram pela clareira, iluminando o caminho, chamando, até que ouviram uma voz angustiada pedindo socorro. Ultrapassando a barreira de arbustos, Fernando foi o primeiro a se espantar com aquela visão.  Cleis se desesperou ao ver a filha naquele estado. Laura estava deitada num buraco, sem roupas, o corpo lambuzado de mel, coberta de formigas vorazes. Os insetos, além de comer o mel, arrancavam pedaços da pele. Ela não tinha forças para se levantar, estava gelada. Uma macha de sangue coagulado marcava a têmpora esquerda.

Com um lenço, Fernando limpou como pode o corpo da filha, depois despiu o jaquetão, a enrolou nele e a carregou para o hospital. Desidratada e com uma crise de hipotermia, Laura ficou internada. 

Cinco dias depois, ela já estava em casa. Um tratamento com pomadas cicatrizantes e antibióticos, amenizaram a dor e as feridas. Com a cabeça enfaixada, permaneceu alguns dias na cama, se recuperando. Fernando queria saber quem eram os culpados para denunciá-los à polícia. Ela disse que voltava para casa quando dois homens a atacaram e a levaram para a mata para que as formigas a comessem. A acusaram de pecadora, de feiticeira.

 Laura achou que era hora de revelar.

– Me acusaram de ser lésbica. Só por isso…

– Lésbica?  O que significa isso? –perguntou a mãe, ignorando o significado do termo. Fernando pensou alguns instantes, procurando a melhor maneira para explicar a uma pessoa tão apegada a moral e os bons costumes como Cleis.

– Bem, existem algumas mulheres que sofrem de uma forte febre nos lábios, e para aliviar o calor elas esfregam na…- fez uma pausa e tentou de novo – Existem algumas mulheres que gostam de outras…

– E o que tem isso? Eu gosto da comadre Ondina…

– Vem comigo. 

Ele pegou a esposa delicadamente pelo braço e a conduziu para o corredor. Alguns minutos depois, Laura ouviu o choro dela. Era natural a decepção de Cleis. Os planos e sonhos que a mãe tinha por ela, caiam por terra.

O pai voltou e parou ao lado da cama. Laura temia que ele ficasse furioso, porém, Fernando limitou-se a mirá-la por alguns instantes e depois sentenciou:

– Acho melhor você ir morar com sua tia no Rio de Janeiro. Por algum tempo. Para evitar falatórios. Um escândalo agora pode prejudicar meus negócios.

Laura não disse nada. Era o que ela desejava. Não queria acusar aqueles que se diziam seus amigos, se bem que os conhecia há pouco tempo, nem poderiam ser chamados de amigos. Para evitar problemas maiores, decidiu esquecer o ocorrido e ir embora da cidade. Era hora de deixar o ninho, ser independente. Tinha planos para o futuro no Rio, abrir uma escola de etiqueta social para moças, trabalhar como colunista em algum jornal.

Enquanto se recuperava para a viagem, escreveu uma carta para Ismênia. Pagou a um menino da rua para que a levasse ao posto dos correios.

Querida Ismênia

Estou voltando. Me espere naquele mesmo lugar…

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B.