EntreContos

Detox Literário.

Escrever Ficção – Luiz Antonio de Assis Brasil – Resenha (Angelo Rodrigues)

Em algumas oportunidades aqui no EntreContos, tenho falado do livro Escrever Ficção, do professor Luiz Antonio de Assis Brasil.

Comprei-o sem muita esperança de que ele viesse a se diferenciar de outros livros que já havia lido [veja abaixo] e tinham o mesmo propósito, ou seja, ensinar ou melhorar a escrita de ávidos ficcionistas.

Logo nas primeiras páginas comecei a me surpreender com o que era apresentado. Sensato, despretensioso, não tinha o jeito comum a muitos livros sobre o assunto, ou seja, o autor não se colocava como um elevado que ensinava algo a neófitos, futuros desistentes diante de tamanha complexidade que é escrever. 

Escrever Ficção tem um tom leve, conectado à competência do leitor. Não usa qualquer vocábulo ou construção lógica que possa criar um hiato entre o escritor e o leitor, levando-o a se remexer sobre a cadeira, desconfortado, ou, pior, humilhado pelo autor ao jogá-lo no vazio do desconhecimento de conceitos. “Mas como?, isso é complexo demais…”, ele diz, lá no íntimo, quase largando o livro e ligando a televisão.

Então, peguei meu lápis, meu marcador de referências e comecei a ler, e fiz algo que não costumo fazer por respeito às páginas do livro que leio: risquei-as, marquei-as, criei minhas próprias lembranças, transformando o livro num anexo à minha compreensão pessoal do que venha ser considerado a boa escrita. E está aqui comigo o livro do professor Luiz Antonio, que mais parece uma rua enfeitada em dia de São João, completamente tomado por bandeirinhas coloridas, que são lembranças de como eu venho errando (ou acertando, também) com os textos que escrevo.

E como é simples escrever; e como é complexo escrever com um bom nível de assertividade. Sim, porque, como em toda arte ou todo ofício, há segredos, e esse livro, como um walkthrough bem estruturado, tem essa capacidade de revelar um caminho menos árduo em direção a um texto que faça gosto de ser escrito e ser lido posteriormente por alguém.

Tomando de muitas das marcas que fiz no livro, trago abaixo algumas delas, que, se podem ser superadas ou banais para alguns, não o será para outros:

“[…] a missão do ficcionista é fazer com que ela pareça natural. Para isso, existem técnicas e procedimentos interessantes de se conhecer. (E nesse sentido espero que este livro lhe seja útil).”

“Você já deve ter ouvido em algum lugar que toda história precisa de um conflito, e está correto. Do que talvez não se tenha dado conta é que, para que esse conflito seja verossímil e sustente o enredo, ele deve estar interligado à questão essencial do personagem.”

“Se você não criar um objetivo para o seu personagem, ele não irá inventar um por si próprio.”

“Caso você tenha extrema competência em escrever diálogos, ótimo, pois isto é raro, mas pergunte a si mesmo se, por acaso, e sem o saber, você não está evitando narrar. Lembre-se: é na narração que se prova a competência do ficcionista.”

“Diálogo não existe para ‘fazer andar’ a narrativa, nem passar informações ao leitor. Usar o diálogo para isso parece, no mínimo, uma impropriedade.”

“Quanto maior o número de sensações físicas experimentadas pelo personagem, mais o leitor acreditará nele.”

“Quaisquer variações de estilo que você experimentar, serão menos relevantes do que o conteúdo dos seus livros.”

“Você pode ser generoso com o leitor, acostumando-o aos poucos à sua narrativa. Se possível, no parágrafo inicial apresente apenas um personagem ou dois que venham a ser relevantes e, nas páginas seguintes, os outros, num ritmo em que seja possível assimilá-los pausadamente, com segurança. Isso propicia a fruição e a compreensão da narrativa que apenas começa.”

“Se você deseja que as pessoas se abandonem à leitura – ao invés de a abandonarem -, apresente o conflito no início.”

Eis aqui uma lição que redime escritores desanimados com várias críticas:

“Nenhum final agrada o leitor.” 

“Se tiver de ficar obcecado por algum aspecto do livro, escolha o personagem. Quanto ao final, saiba que, mesmo que goste ou desgoste, o leitor logo acabará se esquecendo dele.” [para se fixar no personagem que atravessou o livro e na trama por ele vivida].

“Termine [seu texto] com uma cena. Não quero lhe negar o direito de concluir com um sumário. Mas pense; é muito mais forte terminar com uma cena. Lembre-se dos finais [aqui ele cita exemplo]”.

O livro aborda métodos e caminhos centrados na experiência de quem se dedica há 34 anos a lidar com o tema Literatura, e não bastasse apenas isso, o professor fundamenta suas postulações em formas e maneiras comprovadamente vitoriosas, e o faz nos trazendo mais de uma centena de exemplos através dos séculos de textos que marcaram gerações, um acréscimo, quando nos dá a conhecer experiências literárias vitoriosas de grandes autores.

Tópicos abordados pelo livro:

  1. Ser ficcionista é exercer nossa humanidade;
  2. O personagem, o poderoso da história: O personagem como irradiador da narrativa;
  3. Temos muito em comum com Hamlet: A questão essencial do personagem e o conflito da narrativa;
  4. Escrever ficção é tramar: O enredo e a estrutura;
  5. Aplainando um terreno de intenso trânsito: A focalização;
  6. Onde aconteceu isso tudo?: O espaço;
  7. Personagens desdenham seus relógios de pulso: O tempo;
  8. Pequeno tratado de liberdade: O estilo;
  9. Um guia para conduzir você em meio à selva: Roteiro para a escrita de um romance linear.

Um ficcionista que busque mais acertar que errar, não deve caminhar às cegas, tentando, inventando e experimentando aquilo que muitas vezes se sabe não irá funcionar satisfatoriamente. Esse livro traz esse roteiro que induz ao acerto sem tolher experiências que por ventura sejam de desejo do escritor. Tudo é possível, desde que encante o leitor, e o livro do professor Luiz Antonio, com certeza, é um bom companheiro nessa tarefa de escrever e ser lido.

Talvez o único e grande erro do livro se resuma ao seu último parágrafo, que diz assim:

“Caso você tenha aprendido alguma coisa de útil neste livro, você só será ficcionista por inteiro no dia em que o tiver apagado da memória.”

Não é verdade. Não acredite nisso. Escrever Ficção é um livro que um escritor ficcionista que não se queira pretensioso além da conta [porque todos o são, ao menos um pouco, vá lá…], sempre o trará consigo e o consultará em algum momento.

 

Sinopse do site de vendas (Amazon):

O criador da mais célebre oficina de escrita literária no Brasil transformou em livro o curso que formou muitos dos grandes escritores brasileiros contemporâneos. 

“Este é um livro imaginado para auxiliar quem deseja escrever textos de ficção.” O escritor e professor Luiz Antonio de Assis Brasil registrou aqui sua experiência ao longo de 34 anos ininterruptos de trabalho com a Oficina de Criação Literária da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e também no programa de pós-graduação em escrita criativa na mesma universidade.

Com a perspectiva de um ficcionista dialogando com outros ficcionistas, ele apresenta ferramentas indispensáveis para a formação de um escritor. Avesso a fórmulas, Assis ressalta o papel da leitura constante de obras literárias para quem ser se tornar autor de ficção ― e são essas obras as grandes referências de seus cursos e deste manual indispensável, que contou com a colaboração do escritor e ex-aluno Luís Roberto Amabile. 

  • Capa comum: 400 páginas
  • Editora: Companhia das Letras (21 de março de 2019)
  • Dimensões do produto: 22,9 x 16 x 1,8 cm
  • Preço: variável [R$65 até R$80,00] no tempo.

 

Outros livros, entre muitos que li, com o mesmo – ou próximos – propósito:

(Coloco-os aqui porque essa não é uma resenha profissional que objetive dar a conhecer apenas um livro, mas ajudar e incentivar aqueles do grupo EntreContosque desejem melhorar a sua escrita.)

 

  • Como escrever bem: O clássico manual americano de escrita jornalística e de não ficção – William Zinsser; (de todos desse grupo, talvez o melhor, ainda que longe do Escrever Ficção, do prof. Luiz Antonio)
  • Como funciona a ficção – James Wood (ótimo livro);
  • Guia de escrita: Como conceber um texto com clareza, precisão e elegância – Steven Pinker (um ótimo livro, embora desça a fragmentos da escrita por demais específicos, como o caráter da construção linguística do texto, caráter estrutural etc);
  • Truques da escrita: Para começar e terminar teses, livros e artigos – Howard S. Becker;
  • Sobre a escrita: A arte em memórias – Stephen King (um bom livro, embora de caráter bastante pessoal);
  • Teoria do romance I A estilística – Mikhail Bakhtin (excelente, mas possuído de uma caráter muito técnico, talvez deva ser lido mais adiante).
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Um comentário em “Escrever Ficção – Luiz Antonio de Assis Brasil – Resenha (Angelo Rodrigues)

  1. Fil Felix
    7 de julho de 2019

    Boa noite, Angelo! Interessante esse livro, gostei de algumas citações que colocou. Eu perdi esse medo de anotações e passei a grifar e anotar em todos os livros que comecei a ler ultimamente, acho que ajuda no entendimento e também na hora de reescrever ou criar algum artigo. Em relação ao texto, interessante como ele dá valor ao personagem e à trama em si, independente do estilo adotado. Gostei da dica em iniciar com o conflito, ou indicando este conflito, para atrair a atenção do leitor, além de evitar apresentar 10 personagens de uma vez. Claro que há casos e casos mas, como diz ele, é sempre melhor apostar pelo caminho que dá certo (se essa for a escolha do escritor). Falando por mim, tenho dificuldade em focar no personagem, gosto muito mais de tratar sobre o ambiente ou o evento da trama, gerando um conto mais descritivo ou sensorial. Algo que preciso trabalhar um pouco.

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Informação

Publicado às 29 de junho de 2019 por em Resenhas e marcado , .