EntreContos

Detox Literário.

Rolê no Inferno (Valentin Strada)

 

A única coisa de que me lembrava era da luz intensa que me cegou. Minha cabeça doía tão forte que pensei que iria vomitar umas duas vezes antes de tentar me levantar. Passei a mão por meus cabelos que quase tocavam meu ombro e pela minha barba comprida. Senti tudo sujo por algo húmido e pegajoso. Era sangue.

Procurei pela minha moto – só os motociclistas irão entender que a minha maior preocupação não estava no sangue que escorria pelo meu rosto e amargava a minha boca. Eu precisava conferir se a minha única companheira de estrada estava com as rodas em seu devido lugar.

Não sei que horas eram. Não sei por quanto tempo fiquei ali, inconsciente. Só sei que estava tudo muito escuro. As nuvens do tempo chuvoso tampavam qualquer iluminação possível que o céu poderia proporcionar. Céu… Nunca me senti tão distante da ideia de céu como naquele momento.

Chovia há algum tempo na estrada daquele interior inóspito. A lama havia sujado a minha calça jeans, rasgada devido à queda. A jaqueta de couro estava completamente marcada pelo barro. Olhei para meus pés que calçavam meu par de coturno predileto. Próximo a eles, o capacete era um prelúdio do que eu iria descobrir no que a minha cabeça se transformara. O abismo artificial que separa o lado A do B do cérebro humano havia se materializado. Eu me dei conta disso ao passar os meus dedos – quebrados – pelo topo da minha cabeça, percebendo que meu crânio havia se separado em duas partes. Senti as gotas da chuva regarem com delicadeza a superfície mole daquele corte medonho na cabeça de um homem de quarenta anos.

Como eu poderia estar vivo com o crânio dividido em dois como o cérebro de um típico alien de um filme hollywoodiano? Havia dias que eu me encontrava no vício de assistir filmes que não tivessem saído da fábrica da mesmice de Hollywood. Senti uma irritação irradiar meu corpo: se existia vida após a morte, coisa que nunca acreditei, e se eu estivesse mesmo morto, o estado em que eu me encontrava era tão clichê quanto um filme sem graça de um roteiro de terror em que o homem de vida frustrada dá de cara com a morte fatídica no meio do nada. Era o momento do ator mal pago procurar pelo próprio corpo morto caído no meio daquele mato alto. Chegara a hora do ator novato encontrar com o ator fim de carreira que encenava a personificação da morte: maquiagem plagiando uma olheira funda, unhas grandes, capuz negro e foice comprida. Ou seria o próprio Satã que estaria ali me esperando? Eu devia ter levado uma vida muito desregrada para não pensar em nenhum anjo, santo, nossas senhoras de não sei quantas…

Mas não tinha corpo algum ali. Nem a dona morte, nem santo ou demônio. Eu, ali, em pé, era o único corpo.

E a minha moto? Cambaleei na direção de algumas árvores da marginal daquela estrada pavimentada cheia de buracos. Segui a marca de crosta de lama arrancada no chão. Estava um breu, não conseguia enxergar meio palmo à frente. Foi quando um relâmpago iluminou o céu e tudo à minha volta por um segundo.

Foi quando eu vi. A moto e ela. Meus olhos se acostumaram aos poucos com a escuridão e à medida que eu me aproximava a imagem ficava cada vez mais nítida.

A motocicleta estava tombada, e sentada por cima dela, estava uma bela mulher. Seus cabelos, muito loiros, batiam na cintura. Usava um vestido curto de couro preto envernizado. Botas negras, também de couro, cobriam parte da pele clara de suas pernas, as quais estavam abertas e distanciadas. Ela segurava um pequeno guarda-chuva preto, que a protegia parcialmente dos incômodos pingos de chuva. Sua boca abriu-se em um sorriso expressivo. Consegui ver os piercings que enfeitavam seu nariz, orelha, boca e sobrancelhas. Seus dentes, de um branco invejável, reluziram à minha vista quando um outro relâmpago a iluminou. Ao longo dos braços, pernas e pescoço ela ostentava tatuagens – algumas semelhantes às minhas.

— Humberto… — chamou pelo meu nome, fazendo meu corpo receber um arrepio estranho. — Enfim, a sós.

— Quem é você? — indaguei, sentindo-me uma espécie de junção de Frankenstein com zumbi.

— Quem eu sou? — levantou-se, começando a caminhar em minha direção, colocando-se bem na minha frente como uma daquelas modelos que seguram uma sombrinha ao lado dos pilotos do Moto GP antes do início da corrida. — Eu que te pergunto: no que você se tornou, Humberto?

— No que me tornei? Então estou mesmo morto?

— Morto? E os mortos conversam por acaso? — disse ela, colocando a mão por baixo da minha camiseta preta, cuja estampa trazia a cara clichê de uma caveira. — Eu te fiz uma pergunta, Humberto.

— Eu não sei. — respondi, confuso. — Até onde eu tenho conhecimento eu nunca estive morto para saber.

Ela riu. De novo pude ver os seus dentes brancos, perfeitos. Pude notar que tinha um piercing de uma bola prata na língua. Ela levantou, devagar, parte da minha camiseta, revelando o osso exposto da minha costela, tocando-o com a ponta dos dedos. Suas unhas – não tão longas assim – estavam pintadas com um esmalte vermelho desgastado.

— Quem é você? — indaguei novamente, sem forças para distanciá-la de mim.

— Sou uma colecionadora.

— De ossos? De corpos? De almas? — questionei, lembrando-me de quantos nomes de filmes clichês me era possível trazer à memória.

— De motos. — disse ela, quase com a boca encostando na minha. — Eu gostei da sua. Vou ficar com ela.

Um frio tomou conta de mim. Não era possível. Eu estava vivo com o crânio rachado conversando com uma mulher escandalosamente linda no meio do nada? Passei as mãos novamente no corte da cabeça, senti a carne do couro aberta, o sangue ainda escorria sobre minha pele. Então eu não estava morto. Não estava sonhando. Eu não estava drogado. Eu estava drogado? Eu nunca pilotava sob efeitos de drogas. Estranhamente não consegui me lembrar de muita coisa. Não lembrava de praticamente nada.

— O que você fez comigo?

— Eu? — sua voz denotava indignação. — Era eu que estava dirigindo o caminhão por acaso? Aliás, aquele lá já deve estar bem longe… Nem para prestar socorro.

— O que aconteceu comigo? — joguei a pergunta no ar enquanto dirigia o olhar para meu joelho, vendo a rótula exposta apontar do jeans rasgado.

— O que acha que aconteceu com você, Humberto? Você caiu da moto, claro. — falou, aproximando-se ainda mais, abraçando-me pela cintura, enquanto segurava sobre nós o pequeno guarda-chuva. — Mas não se preocupe, não foi uma queda comum de dublê de filme de corrida. Foi uma senhora queda. Você sofreu, ao total, trinta e duas lesões, onze ossos quebrados, o crânio trincado e já perdeu por volta de… cinquenta por cento do sangue do seu corpo.

— Como você pode saber isso tudo?

— Como posso saber disso tudo? — perguntou ela com o tom mais irônico possível.

— Você falou sobre queda comum, dublê de filme… Como sabe que me importo com…

— Viver uma vida comum? Sempre foi a sua maior preocupação. Não trabalhar em um escritório, viajar pelo mundo sob duas rodas. Ser um homem livre de paradigmas e comparações… Ah… Tudo isso é tão banal e inútil. Pensou que seria livre de algum parâmetro ao tentar escapar de algum deles? Como era mesmo aquela frase pichada no muro que vi em um dos meus encontros? Lembrei: a vida é clichê, o resto é plágio!

— Quem é você? Você é a morte?

— Como seria a morte para você, Humberto?

— Bem diferente de você.

— Diferente como? — ela sorria.

— Você é a mulher mais gostosa que eu já vi na vida… Ou na morte. Sei lá. — dessa vez foi eu que ri.

Engasguei com a minha própria risada. Cuspi sangue que parecia ter vindo do fundo do estômago. Levei meus dedos quebrados de encontro ao nariz, tentando, em vão, estagnar o sangue grosso que saía pelas minhas narinas.

— Por que não aproveitamos este momento para nos conhecermos melhor?

— Desculpe, moça… Mas eu acho que não tenho muito tempo. — eu disse, enquanto olhava para o céu, avistando voar não muito longe um bando de urubus. — Abutres… Abutres no asfalto…

Ela levou a mão até um pouco abaixo do meu queixo e puxou com violência uma ferragem que havia atravessado a minha jugular. O sangue saia num ritmo frenético como o solo daquela guitarra no show de rock do último festival de motos que eu havia ido naquele ano. Ela enterrou o objeto cortante no mesmo lugar, estancando o ferimento mortal. Fitei o rosto dela, tão perto do meu, agora com pintinhas vermelhas do sangue respingado.

— Você tem o tempo que eu quiser que tenha, Humberto.

— Já sei, você vai me perguntar coisas do tipo: o que eu mais temo? O que eu gostaria de ter feito e não fiz?

— Não! Muito clichê para nós dois, não acha?

— É verdade… Você me conhece bem demais…

Ela gargalhou alto, jogando a cabeça para trás e se livrando do guarda-chuva. Em seguida, colou seu corpo no meu, passando as mãos pelos meus cabelos molhados de sangue, entrelaçando seus dedos pelos fios encharcados.

— Eu gosto de saber coisas simples como: o que você costuma fazer quando acorda?

— O meu próprio café.

— Você gosta de café? Que coincidência. Eu também. Como você gosta do seu café?

— Com pouco açúcar.

— Açúcar? Eu não tomo café com açúcar.

— Adoçante?

— Também não, Humberto. Café adoçado é para os fracos. Eu gosto de café puro e amargo.

— Você é uma mulher interessante pra caralho…

— Gosto quando você me chama assim… De mulher.

— Já que descobrimos um pouco sobre nós, de como gostamos de tomar café, posso te fazer uma pergunta?

— Claro. É a sua vez.

— Você é realmente uma colecionadora de motos?

— Está com medo de que eu leve a sua moto embora, não é mesmo, Humberto? Vocês motociclistas são todos iguais…

— Se eu vou mesmo morrer… Pode ficar com ela, de herança.

— Você está me dando a sua moto? — ela sorriu novamente. — Você é um cara de sorte, Humberto. Tem algo que eu gostei mais do que a sua moto.

— De quê?

— De você, idiota. Quer vir comigo?

— Vai me levar para o inferno?

— Inferno? E onde fica o inferno senão aqui? Entre nós dois? Entre nosso beijo?

— Beijo?

— Sim. Esse que você vai me dar agora.

Eu não resisti. Rendi-me a um beijo naquela boca vermelha, passei a língua entre os lábios dela. Fiz com que sentisse o sabor amargo do meu sangue. Fiz com que bebesse o sangue quente que insistia em sair da minha boca.

Assim que nos distanciamos, rimos juntos. A essa altura eu quase não conseguia ficar mais em pé. Cuspi dois dentes no chão.

— Normalmente eu tenho apenas um encontro com meus escolhidos. Mas se você fizer uma coisa por mim, eu permitirei que você siga viagem… Me deixa subir na sua moto?

Eu balancei afirmativamente com a cabeça. Senti meu cérebro chacoalhar. Ela caminhou até a minha moto custom, e a levantou em um só impulso, sem dificuldade. Ela montou na moto de uma forma tão sexy que poderia ter assoviado se não sentisse que minha língua estava cortada quase até a metade. Ela me indicou a garupa com aquele sorriso arrebatador. Caminhei até ela, subi na moto, e envolvi a minha mão com os dedos estranhamente tortos em sua cintura.

— Você foi para a direita, Humberto… — falou, indicando o pneu dianteiro da moto para o lado esquerdo. — Vá para a esquerda. Para a esquerda, está me ouvindo?

Meu peito pesou ainda mais sobre ela, até eu não sentir mais seu corpo junto ao meu. Agora era eu mesmo que segurava o guidom da moto. Ouvi o motor roncar alto. Acelerei mais. Entrei em uma curva, deitei o corpo para o lado, aproveitando o ângulo que a estrada me oferecia. Antes mesmo de voltar ao posicionamento correto, senti uma luz me cegar por alguns segundos. Meu instinto me mandava jogar a moto para a direita. Mas eu só conseguia me lembrar daquela voz rouca me indicar a esquerda. Não segui o meu instinto: resolvi obedecer a voz daquela mulher irresistível.

Lancei a direção da moto e o meu corpo para a esquerda. Senti o vento do caminhão fazer cócegas na minha perna. Ouvi os freios do grande veículo tomar conta da estrada. Senti a moto derrapar, mas não virar. Fui parar na encosta da estrada. Respirei fundo. A adrenalina era tanta que podia jurar que estava ouvindo o barulho de um salto alto caminhar por sobre o asfalto esburacado.

Tirei o capacete e olhei para trás. Vi uma silhueta feminina com um vestido preto de couro envernizado, cujo cabelo de um loiro intenso tocava a sua cintura. Caminhava de encontro à cabine do caminhão, fazendo o sinal típico de pedido de carona com uma das mãos. Antes de subir a escada da cabine, ela olhou para mim. Mas estava tão escuro que não pude enxergar quase nada do seu rosto. Pareceu que ela me fez algum tipo de careta, porque pude ver, brilhando no escuro, uma bola prata que enfeitava sua língua.

Era ela. Era a mulher com a qual eu estava conversando segundos atrás. Meu corpo recebeu um arrepio sinistro quando a vi entrar na cabine do caminhão e vê-lo sumir na curva da estrada. A imagem de uma santa enorme, pintada na traseira do caminhão, juntamente com uma frase de esperança me tranquilizaram. Pelo menos o caminhoneiro tinha alguma espécie de proteção.

Voltei a pilotar por aquela estrada com uma sensação de medo estranha me alfinetando a cada quilômetro. Lembro-me de não ter parado mais. Pilotei por horas.

O dia já amanhecia quando me deparei com um restaurante na beira da estrada. Estava aberto. Resolvi fazer parada.

Sentei em uma mesa num canto. Pedi um pão de queijo. Um rapaz, possivelmente o filho do dono daquele estabelecimento modesto, tentava sintonizar a TV precária do lugar. Lembro-me perfeitamente de ver uma repórter do jornal local anunciar uma tragédia com um caminhão. A câmera focalizou a traseira do veículo. Era exatamente a mesma imagem da santa que eu havia visto mais cedo. A mesma frase batida de esperança. Ri de mim mesmo. Qual caminhão não tem a imagem de uma nossa senhora? Mas meu riso emudeceu quando a repórter passou as informações do corpo: a vítima sofreu um total de trinta e duas lesões, teve onze ossos quebrados, e o crânio trincado. Quando a equipe de resgate chegou ao local, o caminhoneiro, que se encontrava sozinho, já tinha perdido cerca de cinquenta por cento do sangue do seu corpo, morrendo ali mesmo entre as ferragens…

Fui despertado com o dono do estabelecimento ao meu lado. Ele segurava uma garrafa térmica.

— Como vai querer seu café, senhor?

Olhei para ele com os olhos assustados. Meu semblante estava fechado e não tinha forças para reclamar do pão de queijo dormido.

— Sem açúcar… — respondi. — Quero café sem açúcar.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C - Final, Série C3.