EntreContos

Detox Literário.

Santa Gertrudes (Delegado Orestes)

 

Era sexta feira à tarde e eu andava meio preocupado com um caso recente de um tarado de bigode que vivia espiando as mulheres da cidade. O maluco encontrava um jeito de escalar até o segundo andar e ficava lá, olhando pela janela. Foi quando o Antunes e o Fagundes entraram na delegacia trazendo consigo um sujeito maltrapilho trajando farda. O cabelo desgrenhado passava a ideia de que talvez estivesse louco ou bêbado. Estava pálido e suava feito um desgraçado.

– Olha o que achamos, delegado. – disse o Antunes. – Tava lá na estrada vindo de Santa Gertrudes. Tava correndo que nem um maluco, não sei do quê.

– Qual é o seu nome, meu amigo? – eu perguntei pro sujeito que tinha o olhar fixo no chão como se com medo de ver alguma coisa. Enfim, se desvencilhou dos dois e veio em minha direção, mancando. O Fagundes fez alguma menção de segurá-lo, mas eu o impedi com um pequeno sinal com a cabeça.

– Você precisa ir pra Santa Gertrudes agora. – disse se tremelicando todo. – Manda todo o pessoal disponível. Tem alguma coisa naquele lugar.

– Espera aí, vamos nos acalmar. – puxei uma cadeira pra ele. Veio em minha direção com muita dificuldade. Favorecia uma das pernas claramente. Sentou-se. Servi-lhe um copo d’água e continuei. – Me diz quem é você e de onde vem.

– OK. – o sujeito secou o suor da testa e, já mais calmo, pôs-se a falar. – Eu sou o Pereira. Sou sargento. Vim transferido de São Paulo.

– Pra Guarita?

– Não, pra Santa Gertrudes. – e, vendo nosso olhar de incredulidade, continuou. – É, eu sei. Por que alguém ia querer vir pro cú do mundo? Mas, olha, eu sou um covardão. Nunca quis enfrentar traficante não. Me contento em prender um bêbado uma vez por mês e tá bom pra mim. Foi por isso que vim pra Santa Gertrudes.

– E era só você lá, campeão? – perguntou o Fagundes.

– Não. Tinha o delegado Braga também. E esse moleque, o Matias. Não era muito bom das ideias esse não. Mas todo mundo gostava dele, então deixavam ele lá, meio que de clandestino.

– Certo, então conta sua história. – eu pedi.

– Eu vim pra Santa Gertrudes um pouco antes do Natal. Olha, eu não tenho família nem nada, então resolvi adiantar a transferência, certo? Cheguei por volta do dia vinte, desci na rodoviária e olhei ao redor. Quem veio me buscar foi o Matias. Eu já de cara percebi que ele não era muito certo. Chegou já chamando ‘E aí, parceiro?’ e ‘Como vai, parceiro?’, mas eu nunca fui parceiro de ninguém e nem queria criar muita intimidade, sabe como é? A gente foi junto pra delegacia pra conhecer o Braga. Sujeito bacana esse. Policial das antigas, sabe? Bigodão tingido e tudo. A gente já abriu um uísque pra comemorar. Saí de lá já era umas oito, e fui pro hotel que eu ia ficar até achar um lugar melhor. No caminho, passei por esse sobrado bem alto. Tinha um moleque na janela dando um tchau. Eu meio que passei direto porque era novo e não queria que ninguém achasse nada de esquisito, sabe como é… – ele parou um pouco, tomou outro gole de água, e continuou.

“Foi no outro dia que voltei pra delegacia, já de farda, pronto pra ronda. Perguntei pro Braga de quem era o sobrado que era de longe o prédio mais alto de Santa Gertrudes. ‘Dos Faria’, ele disse, ‘família rica essa, cheia da grana. Você viu o Tiaguinho?’. Eu perguntei se era o moleque que tinha me dado tchau pela janela e ele disse que sim. ‘Único membro da família que presta. O pivete é um anjo. Nem parece que foi criado naquele lugar’. Saímos então pra ronda eu e o Matias que ficou naquela de ‘E aí, parceiro?’ e ‘Qual vai ser, parceiro?’, e eu já ia me irritando”.

“Passamos outra vez pelo sobrado e dessa vez eu acenei de volta. O moleque parecia gente fina. Era bem pequeno, sabe? Daquela idade que ainda é fofo mas já não se caga mais? Melhor idade, eu sempre achei. De qualquer jeito seguimos eu e o Matias na ronda que não durou mais de duas horas, e voltamos pra delegacia e ficamos jogando truco até terminar o turno”.

“Foi assim até o Natal. Todo dia era tranquilo. Não tinha nem briga de bêbado. No dia de festa tinha um pouco mais de movimento porque todo mundo se juntava na praça pros fogos e tal. Foi aí que veio o Tiaguinho até mim e perguntou ‘Você é puliça?’, e eu disse que era sim. ‘E você gosta de fogueto?’, e eu respondi que não gostava tanto e que era perigoso porque podia pegar fogo nas coisas. Foi aí que veio um sujeito mal encarado, mas todo engomado, daqueles que você tem vontade de socar a cara só de olhar. Puxou o Tiaguinho de lado e disse que não devia ficar conversando com os outros. Só lembro do menino falando ‘Pai, você sabia que o fogueto pega foigo?’, e aquilo foi tão fofo que meio que me acalmou.”

“A noite foi tranquila com o Braga dando aquela geral na turma de fora e o Matias me chamando de cinco em cinco minutos pra me mostrar alguma coisa. ‘Olha aquilo ali, parceiro’, ‘Esses fogos vão ser maneiros, hein parceiro?’. E foi naquela lenga até meia-noite quando estourou os fogos. Não passou muito tempo, cada um foi pro seu canto, e a festa foi diminuindo. Perguntei pro Braga se ele precisava mais de mim e ele disse que tava tudo tranquilo e que eu podia ir que ele dava conta do resto. Fui pra casa e dormi um sono daqueles.”

“No outro dia, eu meio que acordei atrasado. Corri pra delegacia e, logo na porta, trombei com o Matias. Perguntei pra ele o porquê da pressa e ele respondeu ‘Ferrou, parceiro’. Entrei na delegacia, então, e encontrei o sujeito mal encarado sentado e do lado dele uma loira bonita de um jeito que parecia até atriz de novela. O Braga tava lá de pé, com cara de quem tinha visto o diabo ou o pornô da Gretchen. Ele virou pra mim e disse ‘O Tiaguinho sumiu’, e eu fiquei com aquela cara de besta pensando onde eu tinha me metido.”

“No mesmo dia, a cidade inteira saiu procurando pelo moleque. Tinha, na saída da cidade, uma mata mais fechada que era o único lugar onde alguém podia se perder. A gente fez meio que um cordão daqueles que se vê em filme pra checar a área inteira. Eu fui do lado do Braga que bufava que nem um porco velho. Eu perguntei pra ele se fazia tempo que ele não fazia aquele tipo de caminhada e ele respondeu ‘Desde 83’.”

“A gente virou aquele lugar de ponta cabeça, procurou em cima de árvore e embaixo de folha e nem sinal do moleque. Teve uma hora que o Braga meio que deu sinal e apontou pro meio do mato onde alguma coisa mexia. Eu olhei assim meio de longe e na hora falei que era só o vento balançando árvore. Só que o Braga achou meio estranho ‘Que árvore esquisita, é fina demais’, mas não deu muita atenção e ninguém se preocupou em ir olhar mais de perto.”

“Anoiteceu e a gente deixou as buscas já achando que o moleque tinha era sido sequestrado e levado pra longe. Eu ouvi um sujeito dizer ‘Uma criança bonita daquela… É dessas que os maníacos gostam’, e eu fiquei com vontade de socar o tipo, mas, no fundo, sabia que ele tava certo”.

“A gente ainda procurou mais uns dois ou três dias, mas depois o Braga resolveu deixar pra Rodoviária. ‘Aqui esse menino não tá. Alguém pegou e levou pra longe’. E foi nessa hora que entrou uma gordinha correndo na delegacia e gritando pro Braga ‘Ajuda, ajuda!”, e ele perguntou o que que era e ela respondeu ‘A Lurdinha sumiu. Levaram ela’. E aí eu já paralisei achando que tinham levado outra criança até descobrir que a Lurdinha era irmã mais velha da gordinha e pesava o dobro dela.”

“Não demorou muito pra cidade toda parar na frente da delegacia, pedindo resposta que ninguém tinha. O Braga meio que se enervou e deu uns dois tiros pro alto pra espalhar a multidão. Depois virou pra mim e disse ‘Bora achar quem tá fazendo isso’, e entrou de volta na delegacia”.

“Eu sei que foi ronda atrás de ronda naquela cidade. Quando não era eu e o Braga, era eu e o Matias, o Matias e o Braga, e às vezes nós três. Mas nem sinal de Tiaguinho nem de Lurdinha. E nisso foi-se embora uma semana até que morreu num domingo um tal de Seu Carlos que parou a cidade pro enterro. E tudo ia passar tranquilo se ele não tivesse tido um ataque do coração e confessado, no leito de morte, pra filha mais velha, que tinha visto o rosto da Lurdinha na janela do seu quarto”.

“Sabendo disso, fomos eu e o Braga na casa do indivíduo, só pra descobrir que o quarto do homem era no terceiro andar e não tinha escada naquela cidade que ia fazer uma gorda daquele tamanho chegar naquela janela.”

“Foram noites e noites em claro, pensando no que a gente podia fazer. O Braga, de vez em quando, me ligava no meio da madrugada dizendo que tinha achado pista, mas a gente seguia e não encontrava nada.”

“Era uma segunda, e o ano novo já tinha passado faz tempo quando eu cheguei na delegacia de manhã e encontrei o Matias sentado na frente da porta fechada. Perguntei pelo Braga, e ele me disse que não tinha aparecido ainda. Fomos até a casa do delegado, batemos na porta e nada dele responder. A gente então rodou a cidade perguntando se alguém tinha visto ele, e ninguém tinha visto era nada”.

“Eu resolvi que não ia contar aquilo pra ninguém, que se alguém descobrisse que o delegado tinha sumido também, ia ser um tal desespero, que ninguém mais se achava naquela cidade. Foi aí que armei um plano com o Matias da gente ir procurar na mata pelo Braga. Só que o problema é que a gente não podia deixar a delegacia fechada de dia, senão alguém ia desconfiar. Então, a gente resolveu esperar anoitecer, fechamos o lugar e saímos correndo pra mata”.

“No escuro, a gente procurou que nem uns malucos, e nem sinal de Braga, de Lurdinha ou de Tiaguinho. Depois de umas três horas de busca, eu meio que achei uma trilha que desembocava na estrada pra Guarita. Saímos eu e o Matias por aquele trecho, pensando que o sujeito que devia ter sequestrado o Tiaguinho e a Lurdinha tinha saído por ali e o Braga provavelmente tinha seguido. Então a gente seguiu ali pela estrada, só que o lugar é bem fechado com árvore crescendo em tudo que é lugar e, ainda por cima, tá esperando um asfalto faz uns dez anos. Eu e o Matias caminhamos por uma hora mais ou menos quando a gente ouviu um barulho esquisito de um negócio estralando. A gente olhou pro meio do mato tentando achar alguma coisa, mas não viu foi nada.”

“Mais pra frente, a gente encontrou uma primeira pista no que parecia ser umas pegadas esquisitas na terra. Parecia mais que alguém tinha andado com umas muletas por ali. Eu perguntei pro Matias se ele conhecia algum bicho naquela região que podia ter deixado algo do tipo, e ele respondeu ‘Sei não, parceiro’.”

“A gente continuou investigando, e, de vez em quando, ouvia aquele barulho de estralo vindo da mata. Foi aí que o Matias se irritou e se aproximou do mato pra ver o que fazia aquele barulho. Eu sei que ele olhou e virou perguntando pra mim se naquela mata tinha bambu. Foi aí que alguma coisa puxou ele pra dentro do mato, e o Matias gritou ‘Ai, parceiro!’. Eu saí correndo atrás dele, mas só até ver aquela coisa esquisita. Era aquela árvore que o Braga tinha visto, e parecia que tinha dois troncos finos, só que um mais comprido que o outro.”

“Eu não sei por que, mas naquela hora, eu tive a ideia de olhar pra cima, pra ver o topo daquele negócio. Eu não sei se foi reflexo da luz ou o que, mas quando eu olhei lá pra cima, juro que vi o rosto do Tiaguinho sorrindo pra mim”.

“Foi aí que eu saí correndo, com o Matias gritando ‘Me ajuda, parceiro’, e eu tropeçando nas minhas próprias pernas. Eu corri sem parar, até que o seu pessoal me achou”.

Eu olhei pro sujeito que tremia como se tivesse gelando ali.

– E aí? – ele olhou pra mim. – Diz que você vai mandar alguém praquele lugar.

Eu olhei bem pra ele e respondi:

– Vou ver o que posso fazer. – E mandei o Antunes e o Fagundes levarem o sujeito dali.

Ele levantou meio torto, ainda mancando da perna. Eu dei uma boa olhada nele e falei pra mim mesmo.

– Porra, parece que uma perna é maior que a outra!

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série B.