EntreContos

Detox Literário.

Rato Rei (Ricardo A.)

O beco constituía um festival de aromas. O calçamento, arruinado, entrecortado por gramíneas e lama, era também pontuado por poças de água cinzenta e malcheirosa. À porta da pizzaria que emparedava um dos lados daquele corredor imundo, uma lata de lixo contribuía para o fedor do espaço. Apesar de tudo, seus focinhos encontraram o perfume do jantar. Um dos humanos o despejou no latão de alumínio e, por debaixo do papelão, eles divisaram o queijo, o trigo, a carne e os legumes. Salivaram ao mesmo tempo e, na mesma simultaneidade, moveram-se. Os quatro, dezesseis patas articulando saltinhos como se constituíssem um único ser, o que talvez fosse verdade.

Na mesma sincronia, apoiaram-se nas patas traseiras de modo a ficar um sobre as patas dianteiras do outro, altos o suficiente para alcançarem a borda da lata. Puxaram ao mesmo tempo e acompanharam a queda. Em nenhum momento deixaram de seguir o odor da refeição, facilitando para que achassem seu banquete entre o plástico e os outros trapos que, olhassem bem, guardavam outros restos que os humanos tomavam por lixo e a eles enchia a barriga.

Peludo, apressado de sempre, já lambia um restinho de molho que achara nas dobras de uma embalagem amassada, ignorante da implicância de Patinhas, que o repreendia pela falta de paciência. Dentes, por outro lado, já achara a caixa que resguardava a janta. Focinho era o único parado. Não inerte, só parado. Os irmãos sabiam bem que sua atenção não era para ser desprezada e, por isso, tanto Peludo como Patinhas se viraram para ele. Dentes só lhe deu atenção ao roer um rombo suficientemente grande no papelão para que vissem os restos de comida lá dentro. Focinho não esperou que o questionassem.

─ Cheiro outra coisa que não o nosso jantar, irmãos.

Peludo avançou dois passos em sua direção, a pelagem arrepiada, os olhinhos esbugalhados. Antecipado em tudo, sempre.

─ O que há?

Patinhas demonstrou a mesma falta de paciência quando o avistara lambendo molho.

─ Você é burro mesmo, né?

Os dois ratos teriam se atracado não tivesse Dentes se antecipado, parando entre eles. Era o maior dos quatro, grande que não tinha como nenhum dos dois irmãos se verem. O que foi melhor. Os três se voltaram para Focinho, mas foi Dentes que falou.

─ Quantos?

Focinho se afastou, escalou a bagunça que a empreitada deles causara e chegou ao ponto mais alto, esticando o corpo, empinando o focinho. Fungou. Tinha os olhos fechados, não precisava deles.

─ Três.

Peludo rolou sobre si mesmo, displicente.

─ Rá! Pois nós temos mais!

Dessa vez, Patinhas só suspirou, foi Focinho que retrucou.

─ São ratos maiores, mais velhos.

─ E você sabe isso só na fungada, meu irmão?

─ Sei.

─ Você é estranho pra caramba, sabia?

Os quatro riram, Focinho deslizou pelo lixo até estar próximo deles. Cutucou o irmão na barriga com uma das dianteiras, agitando-o em cócegas.

─ Essas minhas bizarrices podem salvar nossas vidas, ora.

Dentes se aproximou.

─ Se nós sentimos o cheiro da pizza, eles também sentiram.

O silêncio dos outros três expressara uma resposta por si só. A seriedade, substituta fatal da brincadeira de antes, também denotava uma percepção simultânea do perigo e trazia à vista dos quatro a necessidade de uma decisão. Peludo foi o primeiro a se pronunciar. Jogou a cabecinha para trás, caminhou num círculo, impaciente.

─ Vamos, colegas, três ratões não podem com a gente! Nós temos o Dentes que sozinho dá conta de uns dois.

O maior dos quatro riu, negando com a cabeça.

─ Sabe que não é bem assim.

Peludo assentiu.

─ Tá bem, tá bem ─ caminhou, os três sabendo até onde ele ia… atrás do seu clássico argumento. ─ Mas eles não têm isso daqui.

Patinhas escondeu a cabeça entre as patas dianteiras, nem um pouco surpreso, mas ainda com a mesma irritação que só Peludo sabia lhe provocar. Com a pata dianteira, o mais sossegado dos irmãos apontava para o ponto de encontro dos seus quatro corpos. Era uma massa esbranquiçada, dura como pedra, disforme. As extremidades de suas longas caudas, rosadas e fibrosas, encontravam-se ali. Talvez em seus tempos de filhotes tivesse sido um nó, mas agora era mais do que isso, e não só na estranha forma que havia tomado. Tampouco aquele enlaçamento simplesmente os atava. Era uma conexão maior do que física. Pensavam juntos, moviam-se juntos. Os quatro eram como se fossem um.

─ Nenhum rato nunca foi capaz contra a gente! Nós sempre fomos mais rápidos: ─ apontava o focinho quando falava, dessa vez para Patinhas ─ fortes: ─ Dentes ─ e inteligentes: ─ Focinho ─ Não é dessa vez que vamos perder na patada!

Patinhas não se segurou:

─ Ora, cale essa matraca! Nós só tivemos que lutar uma única vezinha e você nem fez nada.

A resposta já estava na ponta da língua. Peludo saltou para perto do irmão, que de imediato se afastou, temeroso de perder a cabeça e partir para cima do mais insensato do quarteto. Peludo não se acanhava nem um pouco, expondo seus argumentos sem o menor sinal de dúvida.

─ Mas veja, meu caro, isto é não por causa da minha inexistente covardia, mas tão somente porque quase nunca precisamos brigar! Não vê? Por onde passamos, os ratos nos admiram, nos temem, querem ser como nós. ─ com os mesmos saltinhos, retornou ao nó que os unia, tomando-o entre as patas dianteiras. O mero toque arrepiou os irmãos. ─ Vocês sentiram? Eu também. Meus irmãos, nós somos os únicos que têm esse dom. Sabe como chamavam os outros que eram como nós?

Patinhas levou a dianteira à testa.

─ Ai, vai começar…

Rato Rei! Ó, chamavam de Rato Rei!

Uma avaliação mais atenta encontraria a admiração que Focinho guardava para a verborragia do irmão. Os quatro, de mesma idade, às vezes viam o animado Peludo como o caçula. O tom de Focinho foi moderado.

─ Mas veja, Pê, aqueles que chamavam de Rato Rei eram dezenas de roedores. Coisa grande. Nós somos apenas quatro e quando fomos chamados assim, eram filhotes que não sabiam tão bem das coisas.

Peludo lhe apontou a pata.

─ Chegaste onde eu queria!

─ Cheguei?

─ Claro!

Focinho quase riu.

─ Claro.

─ É o seguinte, irmãos. Nós nunca abraçamos quem somos! Somos um rato rei, mas não nos encaramos como se fossemos. Focinho, convenhamos, o crânio de todos nós, apontou para um problema. Somos só quatro? Precisamos de mais! ─ escalou o mesmo monte de lixo que minutos antes seu irmão mais ponderado escalara, ficando alto diante dos outros três ─ Entraremos nos esgotos, resgataremos os ratinhos da escuridão, eles verão Dentes e não pensarão duas vezes! E, se pensarem, Focinho tratará de convencê-los a pensar uma terceira!

Focinho caiu na risada, fracassado em esconder que cedera.

─ Acho que a lábia é mais sua, meu querido caçula!

─ E você, Patinhas! Se não for a força de Dentes ou a sabedoria de Focinho, será a sua agilidade que nos salvará! ─ baixou um pouco a cabeça, falou baixo, tom conspiratório ─ Quem sabe não achamos umas ratazanas e o senhor, velocidade em pessoa, nos faz uns filhotinhos-soldados. ─ até mesmo o aborrecido Patinhas achara graça e, assim, os três riram. Em cima do monte de plástico, focinho erguido, pose altiva, Peludo elevou sua voz às alturas ─ Seremos não só generais, meus queridos irmãos! Ó, seremos o que somos: o Rato Rei!

─ Generais?

A voz não era de nenhum dos três. A surpresa fez Peludo se desequilibrar e escorregar, rolando desajeitadamente até chegar até onde estavam os irmãos. Dentes já estava em posição, pelagem arrepiada, dentes à mostra, olhos fixos no rato recém-chegado. O dom de Focinho não mentira, tratava-se de um rato maior. Seu pelo era manchado, encardido, e uma cicatriz marcava o rosto, deformando o focinho. Um dente estava intacto, mas o outro quebrara e agora despontava numa perigosa lasca amarelada. Sorria de um modo estranho, debochado. Dentes sabia com o que tinha que se preocupar.

─ Focinho?

O irmão inspirou, olhos fechados.

─ Os outros dois estão atrás de nós, escondidos, um na água e o outro no meio da grama.

Distante demais para escutá-lo, o rato encardido pareceu ao menos perceber do que se tratara aquela conversa.

─ Tem um especial consigo, não é, grandão?

Dentes não se moveu um centímetro, limitou-se à questão:

─ O que vocês querem?

A pergunta divertiu o recém-chegado.

─ O que todos queremos? ─ apoiou-se nas traseiras, alisou a barriga, grande, redonda, cinzenta ─ Quero comer, vocês não?

─ Tem outros restos nesse lixo. ─ Dentes dissimulava conciliação.

─ Não me ofenda, moleque. Vocês não estão aí para se alimentar de restos, estão?

─ Mas fomos nós que viramos a lata.

─ Eu e meus amigos agradecemos.

Peludo mostrou hesitação pela primeira vez naquela noite.

─ Dentes, ele é grande… ─

Patinhas o interrompeu, tocou-lhe a barriga, também pela primeira vez naquela noite um gesto que não era repreensão. Era apenas um conforto, um irmão lembrando ao outro que não estavam sozinhos. Dentes não pestanejou.

─ Não há pelo que agradecer, velhote. Estivemos neste beco durante a noite, viramos a lata e essa refeição é nossa.

─ Ora, és filhote pra imaginar que os becos pertencem a alguém? Um beco é do último rato que dele sair vivo, fico feliz em poder te ensinar… mesmo que talvez seja a sua última lição.

O rato encardido começou a caminhar, sem pressa, na direção dos quatro irmãos. Peludo se agitou, Patinhas se interpôs ao seu lado e Focinho cheirou. Aproximou-se de Dentes.

─ Os outros dois também estão saindo de onde estão.

Dentes assentiu.

Focinho! Patinhas! Vocês dois ficam na retaguarda. Peludo, quero você entre nós três, ajude aqueles de nós que mais precisar de você.

Mas Peludo não se moveu, limitado a espasmos. Tentou murmurar um pedido de desculpas, mas se calou quando Dentes se virou para ele. Imaginava que talvez fosse levar uma bronca, mas o olhar que o irmão o dirigia, fundo em seus olhos, representava o mesmo toque gentil que Patinhas lhe dera um minuto antes. A confiança que Dentes demonstrava fazia parecer que esquecera do rato imenso que avançava em sua direção.

─ Veja, caçula, nós somos o Rato Rei, não somos? Que mal esses velhos nos farão?

Peludo sorriu, esquecido de alguma vez na vida ter sentido medo. Sua imensa pelagem se eriçou e ele flexionou as quatro patas, pronto para saltar à direita ou à esquerda.

Os quatro irmãos. Os quatro ratos, que eram como um só, prepararam-se para lutar.

***

Peludo era quem lambia as feridas dos irmãos. Metade da orelha e mais o olho esquerdo de Focinho tinham ido embora, deixando para trás uma ruína de sangue, pelos e sujeira. Ainda assim, o mais sábio dos irmãos se mantinha imóvel, salvo alguns tremeliques que não conseguia evitar ao contato da língua do caçula. Patinhas, mesmo que não muito machucado, só tremia, recolhido na parede, a barriga subindo e descendo ao ritmo dos espasmos. Mantinha a boca aberta, em constante falta de fôlego, os olhos tão esbugalhados quanto estiveram durante a batalha. Dentes havia sido deitado entre eles, respiração lenta, pequenos movimentos de heroica resiliência.

Minucioso em seu serviço, Peludo não conseguia evitar de olhar de relance para Patinhas, sentindo-se não muito distante da catatonia do irmão. A pata de Focinho o impediu de prosseguir nos cuidados. Os dois irmãos se surpreenderam com a dificuldade que Focinho teve para falar. Sua voz pareceu distante, como se saída dos fundos de um bueiro. Os ferimentos tinham o consumido muito, afinal, mas não era só isso. O peso de suas palavras também o atrapalhava.

─ Dentes… ─

Peludo se afastou, desentendido. Olhou para o irmão deitado, depois se voltou para Focinho. Uma segunda olhada confirmara: Dentes havia parado de respirar.

─ Seu cheiro mudou. ─ Explicou Focinho, enfim.

Patinhas foi o último a perceber e também o mais chocado. Gritou, cutucou o irmão como se estivesse apenas dormindo. Pedia para que se levantasse, que deixasse de brincadeira, tamanha insistência em seus cutucões revirou o cadáver, o movimento brusco abrindo a boca, a língua de Dentes meio para fora. Patinhas recuou, horrorizado, dando com os quartos na parede. Balbuciava alguma coisa. Peludo não se moveu, nem mesmo para impedir Focinho, que a passos vacilantes se dirigiu ao corpo do irmão. Com um gesto – delicado se considerar os movimentos erráticos de alguém que mancava – Focinho ajeitou Dentes de modo a devolver sua língua para dentro da boca. O fim da noite se anunciava no esplendor esverdeado que pouco a pouco tingia o céu.

Focinho preferiu ajudar Peludo a carregar o irmão morto do que deixar Patinhas ainda mais nervoso em ter que tocá-lo. Boa escolha. Apesar do assombro, Patinhas os seguiu, andando dois passos atrás dos irmãos. Na viela mais escura que encontraram, por debaixo de uma lixeira, aninharam-se em torno de Dentes e assim dormiram. Nenhum dos três escapou dos pesadelos.

***

Patinhas não o atingiu com força, mas fraco como estava, Focinho tombou mesmo assim.

─ Não ouse.

Era uma coisa de cada vez para o rato moribundo. Levantou-se e só depois respondeu.

─ Você não sente como eu, irmão… o odor em seu corpo já é diferente. Logo, logo apodrecerá, trará bichos que nem nós poderemos comer. Temos que…

─ Não! ─ Patinhas se decidira, interposto entre o cadáver e o ferido.

─ É necessário. ─ dessa vez foi Peludo.

Patinhas não se mostrou mais compreensivo com o outro irmão e se preparava para gritar mais uma vez, mas Peludo não deixou. Não precisou gritar, a simples dureza em sua voz bastando.

─ Dentes ordenou que você e Focinho se mantivessem de um lado. Eu, entre vocês e ele, para ajudar quaisquer um dos dois lados… eu ajudei vocês e ele lidou com o rato encardido sozinho… por minha causa, ele foi ferido… tão ferido que…

─ O que você quer dizer com isso, idiota?

─ Que ele sabia o que poderia acontecer quando me deixou entre vocês e não ao lado dele.

A sensatez atravessou as expressões de Patinhas pela primeira vez desde a batalha. E também as de Peludo pela primeira vez em sua vida.

─ Nós somos irmãos. Nós não somos como qualquer rato, somos mais de um, mas somos um só. Dentes não morreu. Vive, pois vivemos somente por sua causa. Dentes também não quis morrer, só contou com essa possibilidade… pela gente.

Peludo caminhou até a cauda de Dentes, parando no ponto mais próximo do nó que os unia. Olhou para os dois irmãos, encontrando a aprovação de Focinho e a hesitação de Patinhas. Mas o irmão mais implicante assentiu. Peludo roeu a cauda até que os separasse.

Os três irmãos. Os três ratos, que tinham sido e ainda se sentiam como se fossem quatro, mas eram um só, seguiram adiante. A noite se iniciava, mas os becos logo estariam cheios novamente.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série A.