EntreContos

Detox Literário.

Qualia (Aerith Gainsborough)

A manhã nascia de maneira lenta e arrebatadora. A caminhada imperial do Sol não se abalava com nada que ocorria abaixo de si, ele não poderia se comover com coisa alguma, nem mesmo com a morte. Mas os homens, esses por curiosidade mórbida ou por pura empatia — é difícil saber quem carrega qual —, param seus caminhos para saudar o morto. As palavras dos mais íntimos vinham embargadas com sentimento de perda e as frases se formavam com um teor de incerteza. Nessa manhã, e em muitas outras que se seguirão, nem a cantiga dos pássaros parecia alegre.

Julia, compelida pela multidão, caminhava descalça seguindo a direção em que todos os olhos se voltavam. Sentia o solo úmido da calçada e as falhas que o rebaixavam e subiam o relevo minusculamente; em nenhum de seus sonhos mais desgostosos imaginava-se nessa situação. Estaria enojada se não fosse a sombra que pousava sobre a sua consciência. Um frio trépido percorria sua nuca, esfregando sua pele como um verme asqueroso. Conseguia até mesmo ouvir o som gosmento que ora parecia ser produzido dentro de sua mente por pensamentos perversos, outra, sussurrado por um ser etéreo e maligno ressoando-lhe maldições futuras. Queria acreditar que era um engano e a nuvem negra seria expurgada ao compreender todo o alvoroço. Entretanto, cada vez que se aproximava da multidão, as expressões entristecidas dissipavam qualquer esperança que houvesse. O senhor Emanuel morreu.

Um peso terrível comprimia-lhe os ombros. “O velho foi encontrado morto” informou um homem ao ver Julia do seu lado, ela, porém, concentrou-se nos outros integrantes da multidão. Podia ouvir um pouco a frente, sentada em uma cadeira posta numa calçada arranjada por alguém, uma senhora que tentava falar entre lágrimas e soluços. Essa senhora encontrou o pobre homem caído na sala, estupefato com os olhos “sem luz” e focados despretensiosamente em um ponto qualquer. Todos as manhãs de domingo ela costumava visitá-lo, fazendo, sempre, um convite para a missa. Às vezes ele ia, outras não. Hoje nem ela fora.

— Se não fosse minha insistência em convertê-lo… só Deus sabe quando iriam encontrar o coitado! — logo em seguida caiu de novo em soluços.

Julia fechou um pouco mais o robe antes de adentrar a multidão. Empurrou algumas pessoas que faziam caretas, chegavam a cochichar. Ao pisar no primeiro azulejo da calçava que dava para a porta da casa, um policial a parou, alegando que não era permitido ultrapassar. Ali já era o suficiente. A porta estava escancarada e era possível ver o corpo ainda no chão da mesma forma que havia imaginado quando ouviu as lamúrias a pouco. Do corpo, seus olhos percorreram as superfícies que eram possíveis visualizar através da moldura da porta. “Um quadro trágico” pensou. Havia algumas coisas jogadas ao chão. Eram vestígios que lhe assustaram mais que o próprio corpo. Olhou para trás, procurando alguém que a observava.

Voltou para casa apressada, fechou a porta com um pouco mais de força do que esperava usar. Correu para o banheiro. Precisava lavar seus pés o mais rápido possível, a sola deles estavam negras pela sujeira da rua. O som do água descendo pelo ralo pareceu um gemido sofrido. Imediatamente, recordou da imagem de Emanuel. Seu corpo se estremeceu. Os olhos fixos no nada, a boca entreaberta parecia prestes dizer algum segredo, um segredo que ela temia.

Comentava-se, entre os vizinhos fugiam do tédio de uma vida amena, que o velho estava às portas de se tornar senil. Há pouco mais de dois meses alegava ser seguido por alguém, ou por algo. Os comentários variavam, ou o homem contava várias versões de uma mesma história. Certa vez a polícia foi acionada por ele. Investigaram toda a casa e, como era de se esperar, não encontraram vestígios de ninguém, ou de nada. “A próxima é você, Julia” disse Emanuel há dois dias na fila da padaria, após ser despachado. “Eu ainda não decidi o que vou querer” respondeu Julia sem entender. Ele sorriu meio triste e foi embora.

Fechou o chuveiro e caminhou até seu quarto. Deitou-se vagarosamente e observou seu marido que ainda dormia. Gostava de observá-lo dormir. Uma tranquilidade tomava conta de si em ver a calma no rosto do homem que amava. Porém, nem mesmo isso apaziguava seus pensamentos ruins. Ela sabia que fantasiar com os delírios de um senhor com idade avançada era apenas uma distração para uma explicação terrível. Passou a mão no rosto adormecido de seu marido. Nunca saberia o que realmente passava na mente dele — na verdade, nem de qualquer outra pessoa. Por mais que o amasse, por mais que soubesse todos seus hábitos e o que significava suas expressões faciais por mínimas que fossem, jamais saberia do que ele era realmente capaz. Os intentos obscuros escondem-se por traz das camadas da derme e do crânio duro, dentro de alguma parte cérebro. No fim das contas, aquele homem que tanto amava, ou os estranhos que cruzava todos os dias pela cidade, são capazes de qualquer coisa. Agora seus olhos abriam.

Julia sofria com insônia desde que entrara na vida adulta. Aprendera a viver com isso e não achava um incômodo insuportável. Depois que se casou, a insônia apresentou-se como uma vantagem, pois seu marido, quando em tempos de estresse no emprego, era sonâmbulo. À noite, ela lia livros esperando-o sair perambulando pelo quarto. Colocava o livro de lado e guiava-o cuidadosamente de volta para a cama, apagava a luz e deitava observando seus contornos no escuro. Poucos vezes ele movia-se de novo. Em uma dessas crises de sonambulismo, cansada pelo longo dia que teve, Julia resmungou em voz alta:

— Apague a luz e volte a dormir, por favor…

Ele apagou a luz e voltou para a cama. Em primeiro momento, ela pensou que se tratava de uma brincadeira. Ficou observando-o seu contorno no escuro, esperando alguma deformação provocada por um sorriso. Mas ele continuou imóvel. Percebeu, dessa forma, que seu marido tornava-se suscetível quando sonâmbulo. Desde então, quando ele iniciava um período de sonambulismo, ela apenas comandava-o e ele voltava para a cama. Havia mais de um ano que ele não apresentava nenhum desses episódios, até noite passada.

Julia dormira como nunca tinha dormido, tinha decidido tratar sua insônia, pois, apesar de não se incomodar, queria ser mais saudável. Tomara o primeiro comprimido da prescrição médica. Acordou junto com a alvorada e não encontrou seu marido ao lado esquerdo da cama. Estremeceu. Todas as portas da casa estavam abertas e ele dormia deitado no chão da sala, segurando uma faca. A culpa gritou nos seus ouvidos naquele instante. A sua bela noite de sono, poderia ter custado algo trágico. Levou-o até a cama e deitou ao seu lado após fechar todas as portas, questionando-se qual teria sido o sonho dessa noite. Então ouviu um grito. Então havia várias pessoas na rua. Então Emanuel havia morrido.

— Bom dia — disse seu marido ao acordar naquela manhã de domingo.

Não poderia contar para ele suas suspeitas. Seria cruel, seria admitir sua culpa. Mas talvez, houvesse outra explicação.

Na missa de sétimo dia, já se sabia que a causa da morte havia sido um ataque fulminante, mas que na casa havia sinais de briga. Sete dias que Julia não dormia. Não queria mais tomar os remédios enquanto não terminasse o período de sonambulismo de seu marido, entretanto, mais que dormir pouco, ela abdicou praticamente de todo seu sono para observá-lo. Entre uma oração e outra caia no sono por cansaço, encontrava outra vez Emanuel no chão da casa, com seus olhos fixos e com a boca entreaberta. Porém, seu braço se movia em um gesto que apontava para os pés de Julia, que estavam negros de sujeira. Ela acordava de um sobressalto.

Na primeira noite, no mesmo dia que Emanuel morreu, seu marido levantou-se da cama e ela o comandou. As luzes se apagaram e ele deitou de volta ao seu lado. Ela olhou para ele, assim como fazia sempre, contudo, dessa vez seus contornos se moveram. A silhueta escura de seu rosto contorceu-se lentamente e logo sentiu um bafo que trazia a voz “Você é a próxima”. As luzes se acenderam e Emanuel a olhava com seus olhos fixos nos dela. Julia tentou gritar, mas seus músculos não se moviam. Nem seus braços, nem suas pernas, nem mesmo sua pálpebra. Seus olhos corriam para todos os lados possíveis, procurando evitar o morto à sua frente. Olhando de canto de olho para a porta, conseguia ver um homem que parecia sorrir. Sua visão começou a borrar devido as lágrimas e um arrepio sinistro tomou-lhe quando uma mão fria passeava em seu corpo. Em determinado momento, ela conseguiu se mexer, erguendo-se aos prantos. Logo percebeu que estava sozinha no quarto com a luz acesa. Ficou ainda mais apavorada ao ouvir um barulho na cozinha. Tentou se recompor o máximo para trazer o sonâmbulo de volta para a cama.

Caminhou até a cozinha, ouvia um barulho nas panelas e pensou que seu marido iria cozinhar enquanto dormia. Ela quase sorriu. Podia ouvir através das paredes passos vindo em sua direção, mas ao chegar à cozinha, não havia ninguém além de uma faca no chão. Julia ficou atônita. Correu pela casa procurando seu marido e o encontrou no sofá da sala, dormindo alheio a tudo. Ela não quis acordá-lo, nem levá-lo para o quarto, nem dormir. Apenas chorou um pouco em silêncio.

As três noites que se passaram, ela trancou a porta do quarto e vigiava os sons da madrugada. Sons no telhado, rangidos, algum animal perambulava por cima da casa. Mas, às vezes, parecia que alguém estava dentro da casa, esperando um momento sorrateiro.

No final da missa de sétimo, Julia foi até o padre e pediu para fazer a confissão. Contou-lhe tudo o que tinha ocorrido desde que tomara o remédio para dormir. Em alguns momentos chorou em desespero sem saber ao certo o que realmente temia. Ao seu próprio ver, parecia a beira da loucura e, ouvindo as palavras que proferia, tinha ainda mais certeza que tudo não passava de paranoia. Seu marido não matou o Emanuel, muito menos havia alguém rondando sua sala à noite. A razão emergia de volta aos seus sentidos, enxugando as lágrimas podia sentir um peso saindo de suas costas. Por fim, o padre afirmou que ela estava enganada, nada de ruim havia ocorrido. Seu marido era um homem bom, nem mesmo quando sonâmbulo faria mal.

— Seu marido não matou Emanuel, minha filha. Eu posso lhe assegurar disso… — disse o padre.

Julia saiu da igreja mais tranquila, apesar da contradição de se sentir bem após uma missa de lamentações. Mas algo no fundo da sua mente começou a formigar. Pela segunda vez sentiu como se um verme caminhasse pela sua pele, contando-lhe um segredo entre o mexer gosmento. “Olhe para traz, Julia” dizia. Virou seu rosto lentamente e então pode ter certeza que alguém a seguia.

Um homem a um quarteirão de distância. Cobria-se com um terno negro e um chapéu da mesma cor, sua pele era demasiadamente branca. Sua cabeça inclinada para frente, mas ele olhava para baixo de modo que só era possível ver sua grande boca. Ela estava entreaberta e dobrava-se pelo rosto de uma forma incomum, ou, pelo menos, algo que parecia um sorriso. Mas, o que mais a assustava era a sensação angustiante que o conhecia sem saber de onde. Aquele homem lhe parecia tão familiar como um amigo de infância, nem precisaria ver seu rosto por completo para reconhecê-lo. Ele mantinha a mesma distância dela sem se aproximar, até que não estava mais lá.

Em casa, fechou todas as portas e janelas enquanto explicava para seu marido que estava sendo seguida e que alguém entrava todas as noites na casa. Ele, por sua vez, tentou explicá-la que isso era impossível ao mesmo tempo que se dava conta que ela não tomava os remédios para dormir. Insistiu dizendo que tudo que ela precisava era de uma boa noite de sono e tudo voltaria ao seu lugar. Ficara impressionada com o falecimento do Emanuel, precisava esquecer isso e dormir. Somente depois de jurar que ficaria acordado enquanto ela dormia, para não ter nenhum episódio de sonambulismo, ela aceitou tomar o comprimido.

Não houve qualquer sonho, apenas uma longa tela negra cobria seu sono. Inesperadamente, ela abriu os olhos e viu a mesma negritude no quarto. Tateou o lado esquerdo da cama e estava vazio. Ouviu um cochicho perto da porta do quarto, alguém dizia “puxe-a”. Ao concentrar ar nos pulmões para perguntar quem estava falando, sentiu uma mão pesada, puxando-a para fora da cama. Sua cabeça bateu no chão e ela ficou atordoada. “Enforque-a” disse a voz na escuridão. “Não, não, não!” tentou gritar, mas o som que produziu foi irreconhecível, já que sua garganta era pressionada com força. Julia se revirava o máximo que conseguia, tentando se desvencilhar. Uma gargalhada longe no escuro.

Então as mãos relaxaram e uma voz em cima dela disse “O que está acontecendo?”. A porta abriu e um som de passos correu toda a casa antes de sair. Julia tossia enquanto seu marido acendia a luz do quarto e implorava-lhe perdão.

A polícia chegou alguns poucos minutos depois. Verificaram tudo. Não havia arrombamento ou qualquer indício que uma terceira pessoa estivesse na casa. Julia descreveu o homem que tinha visto na rua mais cedo para um dos policiais. O oficial olhou para ela com um olhar severo. “Você tem certeza que essa era o homem?” perguntou. Julia assentiu.

— Emanuel descreveu esse mesmo homem antes de morrer — completou o policial com uma expressão sombria.

A viatura procurou no bairro alguém com as descrições, sem sucesso. Julia não queria passar nem mais um noite naquela casa. Seu marido concordou em dormir em algum hotel e pela manhã procurar um lugar novo para morar. Ele também estava assustado, quase assassinou sua mulher porque algum serial killer havia ordenado.

Julia não dormiu e seu marido continuava sonâmbulo. “Apague a luz e volte a dormir” disse para ele. A luz se apagou e, pouco depois, ele deitou na cama. No quarto, uma fraca luz lunar entrava pela janela. Um breu azulado. Ela olhava fixamente para ele. Ficou assim por tanto tempo que nem sabia mais se havia caído num sono rápido em algum momento, pois tudo tomou um tom assombroso subitamente. Mas agora não fazia diferença. Era o fim.

O dia nascia lento e aos poucos podia notar que os olhos adiante também a olhavam. Observava o vulto escuro a sua frente que tantas vezes antes olhara. Notaria a minúscula diferença que fosse e podia afirmar com toda certeza, a medida que a luz do Sol entrava imperialmente pela janela, que aquele na sua frente, com os lábios entreabertos e dobrados de uma maneira sinistra que, pelo menos, parecia um sorriso rasgado de uma orelha a outra, e a pupila completamente… Bem, aquele não era seu marido.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série B.