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Detox Literário.

O Fim de Miss Bathory (Sam)

 

Houve um tempo em que o Teatro da Quimera apresentou as principais peças alternativas da capital paulista, recebendo estrelas e textos consagrados em seu palco giratório. Com o tempo, porém, sua fachada foi acumulando poeira e descaso tanto de público quanto da crítica. Tornou-se um fantasma de si mesmo. Mas um evento específico, quando estava prestes a iniciar uma nova temporada, manchou seu palco de sangue e mergulhou o edifício num misterioso massacre, deixando um último espetáculo inacabado ao teatro antes de fechar as portas.

 

*

 

Era noite quando Tereza Cristina caminhou para o centro do palco do antigo Teatro da Quimera, a fim de ensaiar suas falas da peça que iria estrear: Miss Bathory. Um único holofote sobre seu corpo, brilhando cada centímetro da sua roupa, um vestido de seda púrpura, e o grande elmo em sua cabeça, adornado de brilhantes. Sentia-se a própria Condessa Sangrenta ao citar suas falas. “Na fornalha da vida, forjo minha juventude eterna”. A última peça de Tereza Cristina, sua despedida dos palcos interpretando aquela que teria torturado e assassinado centenas de mulheres, banhando-se no sangue de virgens para manter a juventude, a famosa Elizabeth Bathory. E naquela noite o teatro era todo seu, reservado para um último ensaio intimista. O corpo, claro, não era o mesmo de quando tinha seus 20 anos e interpretou as musas de Nelson Rodrigues, ou quando chegou à casa dos 40 em papéis shakespearianos. O peso de 65 anos bem vividos fazia com que Tereza fosse a atriz ideal para interpretar os últimos anos de Bathory, até o momento de sua prisão e morte. A peça também era um desafio, já que a emergente atriz Erica Souza faria a versão jovem da Condessa, então ambas teriam que estar sincronizadas.

Aos fundos do palco giratório, seu fiel maquiador e capacho Cláudio a observava com esplendor. Nutria uma paixão platônica pela atriz, apaixonado por seus trabalhos, apesar das maneiras que Tereza possuía e como o tratava. Nesta mesma noite sua mãe completava anos e o convidou para um bolo, algo simples. Mas não pode ir, teve que se submeter aos caprichos da patroa, aos desejos de ensaiar sozinha, que dizia fazer parte do laboratório para a personagem. Todos sabiam, claro, que não passava de uma tentativa de emplacar algumas manchetes nos tabloides. A tão aguardada despedida de Tereza Cristina dos palcos, que já maquinava em sua mente um retorno para dois ou três anos, num discurso piegas de que não poderia ficar longe dos textos e da plateia.

Tereza posicionou a banheira cenográfica, feita especialmente para a peça, no centro do palco. No clímax da apresentação, entraria nela e mergulharia no sangue falso de uma virgem. E, como num truque de mágica, Erica surgiria em cena, saindo da mesma banheira, encharcada de sangue. O ato de transubstanciação de Elizabeth Bathory, a transformação e o rejuvenescimento do corpo através do sangue. A cena foi ensaiada à exaustão entre as duas, não poderia ter um erro de sincronia, o público não poderia notar o truque envolvendo a banheira, os dois compartimentos internos, onde uma atriz aguardaria a outra. “Cláudio, vamos… preciso tirar a maquiagem pra ensaiar a cena da banheira, você vai me ajudar”. Seu fiel escudeiro sempre a postos, olhou para a banheira uma última vez antes de ajudar Tereza a subir as escadas em direção ao camarim.

 

*

 

Um grande espelho com lâmpadas em sua moldura, coberto com fotos de época antigas, de Tereza no auge e seu rosto ainda jovem, contrastava com a face refletida nele. Cláudio tirou o excesso de maquiagem da atriz, a cena exigiria maior naturalidade. O público não poderia notar a transição. “Você continua maravilhosa, Tez”. Ela observava seu próprio reflexo, as rugas que não conseguia disfarçar, e comparou-se ao maquiador. “Você que é puxa-saco. O tempo já não me é tão doce há anos. Olhe pra você, ainda no auge da idade, a pele firme, o corpo forte. Por sorte, Deus me deu talento. E talento, meu caro, é eterno!”. Tereza sabia que o maior sonho de Cláudio era tornar-se um grande ator como ela, mas não deixava escapar nenhuma oportunidade de criticá-lo e desencorajá-lo. Não queria vê-lo nos palcos, não poderia suportar a ideia de um empregado crescer e, quem sabe, ultrapassá-la. “Você é a melhor de todas, Tez! E um dia serei como você, meu professor disse outro dia que para ser um…”, percebendo que entraria no assunto que mais detestava, foi logo cortando o rapaz, da maneira como conseguia para mantê-lo distante dos sonhos, mas ainda próximo de si. “Deixe disso, já te falei! Você não possui a menor vocação para atuar. Eu percebo! Noto um grande talento de longe! Você é ótimo como maquiador e já faz, quanto tempo mesmo? Uns dez anos que é responsável por manter meu rosto intacto, praticamente?”.

Sem a maquiagem, Tereza fitou uma última vez o próprio reflexo. “Erica Souza… outra que não deveria ter frequentado esses cursinhos mequetrefes…”. O silêncio do teatro chegava a ser constrangedor e obsceno, como uma plateia morta. O som de cada movimento parecia dez vezes mais alto: o arrastar de cadeiras, o apagar das luzes, até mesmo a respiração dos dois preenchia todo o lugar. Os pensamentos de Cláudio, se fossem vistos e ouvidos, poderiam inundar o prédio. Ele se sentia um entulho com as tratativas de Tereza, dia após dia. Sentia que perdia tempo frequentando as aulas de atuação, que de fato não possuía talento algum, invisível aos olhos de todos e até mesmo sem identidade, rebaixado a “maquiador da Tereza Cristina”. Sem nome, sem história.

Ambos retornaram ao palco para ensaiar a cena da banheira. Tereza entrou primeiro. “Vou dizer minha fala aqui, você precisa estar deste outro lado, escondido, quando eu deitar e sumir, você precisa levantar e empurrar a válvula, para que eu fique deste outro lado”. Cláudio havia visto o truque inúmeras vezes. A válvula permitia que as atrizes trocassem de posição e, no decorrer da cena, quando Erica andasse pelo palco, a cenografia fosse retirada, junto da atriz mais velha.

Minha pele, maculada pelo tempo…”, começou sua fala, simulando tomar um banho dentro da banheira, acariciando os braços. “Anseia pela vida e pelo gozo que o sangue me traz”. Cláudio estava a postos, deitado no outro compartimento, segurando a válvula. Sua mão tremia, estava nervoso e ansioso, para ele era como se estivesse de fato contracenando com a atriz. Click. O som agudo da porcelana partindo ecoou no silêncio do palco. “Não acredito que você quebrou a válvula!”, Tereza saiu da banheira e empurrou Cláudio para fora. “A peça é amanhã, seu idiota!” e como um animal feroz, acuou o funcionário. Sua despedida dos palcos era pra ser perfeita, icônica. Cláudio, por sua vez, acuado e protegendo o rosto dos tapas que vez e outra Tereza dava, escutava apenas as palavras que machucavam seus ouvidos: imbecil, inapto, babaca. E como qualquer animal acuado, também reagiu. A fim de parar as agressões, segurou com toda sua força o pedaço da válvula em suas mãos e atingiu Tereza Cristina, abrindo um rasgo em seu pescoço, fazendo jorrar um sangue escuro.

A banheira foi respingada de vermelho. Tereza apertou o ferimento com a mão, mas não aguentou e seu corpo cedeu, caindo no chão, morta. Cláudio tentou reanimá-la, sacudindo-a, mas foi em vão. Chorou por um instante, mas a adrenalina em sua mente sabia que o show precisava continuar. Levantou o corpo da mulher e colocou-o na banheira. “Vou terminar a cena por você, Tez. Eu prometo! E você vai ver, o público vai adorar!”. Cláudio subiu ao camarim e, num ecstasy de emoção, pranto e euforia, olhou seu reflexo no espelho e não reconheceu-se mais. Utilizou o talento como maquiador, que esculpiu o rosto de Tereza Cristina por tantos anos, e replicou em si mesmo. O batom, o blush, o contorno dos olhos, tudo. Trocou de roupa, vestiu o robe que a personagem usaria em cena. Seu semblante escureceu, como se a razão esvaísse do seu ser. O pequeno fio entre a realidade dos fatos com a interpretação do teatro havia sido rompido em sua mente.

No espelho viu suas mãos manchadas de vermelho e sentiu um amargor na boca. Passou a língua nos dentes e percebeu que algo não estava certo. Levou os dedos à boca e tirou um par de dentes que caiu, colocando-os lado a lado no balcão. O espelho não refletia sua imagem como antes. A boca, num meio sorriso, surgia como o fundo escuro de um poço. Era o momento de brilhar, não mais como o velho maquiador, mas como Cláudio… Cristina.

 

*

 

Cláudio entrou na banheira, competindo espaço com o corpo de Tereza, e molhou-se na pequena poça de sangue que formara. “Minha pele, maculada pelo tempo”, iniciou o ensaio, “anseia pela vida e pelo gozo que o sangue me traz”. Encharcou as mãos no sangue e passou-as no rosto, sorriu de prazer. O laboratório perfeito, a Condessa Sangrenta fluindo em suas veias, queimando a pele, fazendo bater de adrenalina o peito. Observou o corpo a sua frente e fincou os dedos no ferimento do pescoço, sentindo o sangue viscoso e a maciez da pele. “Como pode?”, pensou, “uma criatura tão ríspida por fora, mas tão delicada por dentro”. Tirou e levou-os a boca, sentindo o gosto de Tereza. Como tribos antigas, sentiu correr em seu corpo a energia da atriz. Queria poder tocá-la mais, sentir a pele junto à sua.

Mas o transe do encontro macabro foi quebrado por um bater de palmas vindo da plateia. Cláudio forçou a vista, não conseguia visualizar com distinção, mas havia alguém ali, sentado em meio às primeiras fileiras. Alguém que observava-o o tempo inteiro. Apertou os olhos, viu com nitidez a imagem de Tereza, satisfação estampada no rosto, batendo palmas. Ele olhou para a companheira na banheira e percebeu que ao seu lado estava, o tempo todo, a jovem Erica Souza, com o pescoço aberto como uma flor. O rapaz levantou de súbito, escorregando e caindo no chão do palco, quebrando o maxilar e deixando um rastro de sangue.

Tereza apertou um controle em sua mão e, num clique, o holofote pairou sobre o palco, iluminando o corpo dilacerado da jovem dentro da banheira, enquanto Cláudio tentava se arrastar pelo cenário vazio, com o vermelho do sangue contrastando com o branco de sua pele, emitindo gemidos de dor. Sentiu-se desnudo, envergonhado e cobrindo o sexo que o robe deixava a mostra. Tereza levantou e foi de encontro à cena, ajoelhando e segurando o corpo de Cláudio contra o seu, como uma pietà fúnebre. Ele, sobre o corpo de sua musa inspiradora, sentiu a ardência da lâmina no pescoço. E uma cascata escarlate banhou as coxas da mulher.

Uma vez mais o palco do Teatro da Quimera foi ativado, girando em sentido horário e mostrando a cena em 360º, a multidão de sombras projetadas na plateia pelo holofote observava o espetáculo. Faixas de tecido vermelho caíram do teto, simulando as lágrimas de Elizabeth Báthory, que chorou uma última vez antes da morte. Chafurdada no sangue de Cláudio Cristina, Tereza levantou e caminhou em direção à banheira, tocando o rosto daquela que seria ela mesma, num outro contexto. Agarrou com as mãos uma das faixas que despendia do teto e, conforme o tablado continuou a girar, Tereza entrelaçou-se com o corpo de Erica. Ambas numa só frequência, uma nova transubstanciação. O real e o ilusório. Toda a peça de Miss Bathory suicidou-se, contorcida pelas faixas que entrelaçaram a tudo, como alguém que molha e contorce um pano, deixando escorrer sangue por todo o palco.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série A.