EntreContos

Detox Literário.

Angelical (Nick Tartini)

Deadwood compareceu em peso ao funeral e enterro de Peggy Irons. A mãe de Anne ficou com receio de levar a filha para se despedir da colega de sala, mas as duas estudavam juntas desde o jardim de infância, como negar isso a ela?

Quando voltaram para casa, Anne tomou um banho morno, bebeu leite e comeu alguns biscoitos, mais a pedido da mãe do que por vontade própria e foi para a cama se deitar, ainda que fosse dia.

― Tudo bem, querida? ― A filha apenas fez que sim com a cabeça. ―  Durma um pouco, então. Eu te amo.

― Também te amo, mãe.

A frase saiu mais mecânica do que o habitual, sem qualquer sentimento ao proferir as palavras. Nunca ia se deitar àquela hora, mas não era um dia comum, por causa de Peggy. Na verdade, se a garota de treze anos pudesse voltar no tempo, nunca teria feito aquele pedido a Angelica. Porque sabia, no fundo, no fundo, que Angel faria qualquer coisa por ela. Eram mais que amigas. Eram irmãs de sangue. De espetarem seus dedos, encostando-os, bem forte, para que seus sangues se misturassem, a ponto de não saberem a quem pertenciam as gotas que acabaram manchando a folha do caderno que Anne usava como diário.

Dormiu por algum tempo e já era noite quando despertou com um barulho na janela. Como se uma criatura arranhasse o vidro com as unhas de suas duas mãos… insistente. Ao olhar para a parede, jurava que a luz da lua projetava ali a silhueta demoníaca de quem produzia aquele som infernal.

Estendeu a mão para acender o abajur, quando alguém a segurou, abafando o grito da garota.

― Não acenda, não precisa ― pediu Angelica, sussurrando no ouvido de Anne e deitando-se ao lado dela na cama. ― Está tudo bem?

Anne ia perguntar se ela não estava ouvindo o arranhar no vidro da janela, quando de repente o ruído cessou e a sombra não estava mais lá.

Devia ser o cansaço.

― Sim, está. Estou confusa, Angel ― a garota não se incomodou quando a amiga, a única verdadeira, começou a brincar com os cachos negros de seu cabelo. ― Tá, ela vivia me enchendo a paciência, sendo muitas vezes má comigo, mas…

― Era para dar um susto nela, não era? Sabemos que era alérgica a corante, tudo o que pensei foi em causar nela uma baita alergia! Merecido, não foi?

― Sim, mas… Não foi de alergia que ela morreu. Ninguém sabe, aliás, foi tudo… muito… esquisito…Foi horrível, na verdade…

Anne podia se lembrar da expressão de Peggy. Em um instante ria, sendo o centro da atenção de todos, como sempre era, ainda que estivessem no refeitório, lanchando… E em outro momento estava se contorcendo no chão, o sangue saindo pelos poros, uma poça formada com os jatos do líquido que também saía pela boca, causando pânico em todos que observavam a horrenda cena. Ali, caída no chão, o rosto disforme, a expressão de horror, era mesmo Peggy Irons, a linda garota loira de cabelos sedosos, compridos, sempre presos em um rabo de cavalo?

― Esquisito e engraçado, não foi? Ah, claro que foi! Parecia uma marionete, uma boneca desregulada, um brinquedo que de repente dá pane e fica descontrolado, fazendo tudo que é movimento, até a pilha gastar ― Angelica abafou sua risada. ― Te perguntei se ela mereceu e você não disse nada.

― Co… como você fez aquilo? ― Anne não queria admitir, mas algo dentro dela queria dizer que sim, que a colega tinha merecido. Anos e anos de brincadeiras muito cruéis. Na verdade, não dava para chamar de brincadeira quando a garota quase tinha quebrado uma perna por causa de um empurrão de Peggy, ou quando tentara afogá-la no rio, no acampamento de verão. E outras tantas vezes, que a isolara das atividades, do contato com outros colegas. Por causa de tudo isso, Anne não tinha amigos. A não ser Angelica, que ignorava os colegas esnobes, principalmente Peggy.

― Juro que não era pra ela morrer. Juro, Anne ― a garota ouviu o som do beijo que Angelica deu nos dedos cruzados, para confirmar o juramento. ― Mas aconteceu. Talvez ela merecesse mais do que uma intoxicaçãozinha alimentar, não acha? Eu não acredito em maldições, castigo divino, essas coisas… Não fique se culpando, está bem?

― Tá.

― Posso ficar só mais um pouco aqui hoje? Papai está em casa. Está bêbado, que novidade!

Pela primeira vez, não consentiu de imediato. A amiga dormira muitas vezes ali, fugindo do pai que descontava tudo nela e muitas vezes ia além dos castigos. Talvez Angel fosse adulta demais para os seus treze anos por causa disso. O pai a tratava de forma errada, como um pai jamais deveria tratar uma filha. Angelica contava a Anne toda vez que carinhos estranhos aconteciam. Anne não sabia o que dizer, seu pai morrera quando tinha apenas seis anos, acidente trágico, no qual ela quase perdera a vida também. De alguma forma, apagara da mente aquele momento, não conseguia se lembrar do rosto do pai. Ao olhar fotografias dele, escondida da mãe, era como ver a imagem de um total desconhecido.

 

“Apenas me ouça, Anne”, pedia a garota.

― Angelica, não fique brava… Acho melhor não ficar aqui hoje. Mamãe pode vir mais vezes ao quarto pra me ver… Eu dormi muito cedo…

Angelica acendeu o abajur e Anne pôde ver todo o descontentamento da amiga, a expressão de orgulho ferido.

― Eu acho que entendo. De verdade, sabe o que acho? Que não gostou do que eu fiz. E sabe por quê?

― Por que está morrendo de inveja de mim. Porque eu fiz algo que gostaria de ter feito. Sua fraca, inútil, garota imbecil. Filhinha da mamãe. Bem que queria ser forte como eu. Bonita como eu, mas é só uma merdinha, bem insignificante. Queria ter um pai como o meu, ainda que fosse um bêbado sacana, não é verdade?

― Angelica…

Sentiu a mão da garota apertando seu pescoço, uma leve pressão, o bastante apenas para assustá-la. E estava conseguindo. Anne sentia o coração querendo saltar pela boca.

― Escuta aqui, sua pirralha! Estou cheia dessa cidade, sabe por que vim aqui? Pra te chamar pra ir embora. Sei quem pode me abrigar e queria te levar, mas eu é que não vou querer uma imbecil, uma fracote como você perto de mim. Tchauzinho, Anne.

Angelica beijou Anne de forma a pressionar com raiva seus lábios, com tanta força que chegou a sentir dor e um gostinho de sangue em sua boca. Depois não teve coragem de dizer mais nada e nem de pedir para que Angelica não fosse embora. Desistiu de sair da cama e não soube quanto tempo ficou na posição fetal, até adormecer de novo.

Acordou com barulho de pedrinhas batendo em vidro. Desta vez, nada de unhas arranhando o vidro e nem sombra demoníaca… Pela janela, viu a amiga do outro lado da rua. Trocaram um breve olhar, antes que Angelica ajeitasse sua mochila nas costas e fosse embora, sem virar para trás.

 

***

 

― Oi, mãe. Desculpa não ligar. É, já faz semanas, eu sei. Não, eu saí de lá. Vim pra Nova York, por causa do novo emprego. Ah, saí do outro… O mesmo motivo de sempre… Inveja, mãe, tinha um cara lá que fez de tudo pra me prejudicar. Me sabotou legal. Melhor sair antes que fizesse coisa pior… Oi? Ah, achei um apartamento pequeno aqui no Brooklyn, não precisa se preocupar… Tá, se eu precisar de dinheiro, eu digo. Mãe? A senhora teve notícias daquela garota que eu falei? Nada, só queria notícias… Já faz muito tempo. É, Angel, Angelica Clarke… Na escola, mãe, ela estudou lá até o ano em que a Peggy morreu… Lá devem saber de algo… Não, não sei onde morava. Nunca quis me dizer… Então, por favor, se souber de algo, me liga… Tá bom, mãe, tchau. Também te amo, beijo.

 

Anne gostava de trabalhar na Berger & Scott Association, uma grande companhia financeira. Não havia mistério no cargo de analista de crédito, desempenhava tudo da forma como esperavam que fizesse e não havia o que reclamar a seu respeito. A não ser que era antissocial. Não queria saber de amizades. Eram todos falsos, sempre acabava magoada. Daquela vez, seria diferente. Não se envolveria com amizades fúteis no trabalho. Em todos os outros empregos precisou sair, depois de ver seu nome envolvido em comentários maldosos e mentiras, atribuindo a ela ações que jamais fizera. “É melhor pedir demissão, Anne, é isso ou teremos que comunicar o fato às autoridades”. Não adiantava dizer que não tinha culpa pelos erros em contratos, por vazamento de informações sigilosas, em um até fora acusada de assédio moral, em outro de envolvimento amoroso com um dos sócios quando, na verdade, ela é quem tinha sido assediada.

Como se não bastasse, depois de cada demissão, recebia uma ligação anônima em seu celular. O número era diferente a cada vez, mas a risada era a mesma. Uma gargalhada de mulher. E algo lhe dizia que era o riso de Angelica, o tom de voz agora adulto, mas o mesmo jeito de rir, fazendo pequenas pausas, como se quisesse prolongar a sensação de prazer que sentia ao ouvir a voz de Anne, aflita, perguntando: “É você? Onde você está? Por que não me responde?”

Não, ali tinha que dar certo. Mais um pouco e precisaria mudar de nome para conseguir trabalho, ou desistir de cargos em grandes escritórios. Às vezes sentia vontade de ir embora do país. Para um lugar onde não fosse possível topar com Angelica no meio da rua, por mais que o motivo de escolher Nova York escondesse a vontade que ia bem no seu íntimo. Uma vontade de encontrar a garota, hoje adulta, ao menos mais uma vez, saber como estava. E para que a “amiga” visse que ela não era nada daquilo que dissera a seu respeito antes de partir de Deadwood. Quando meninas, faziam listas de cidades para onde gostariam de ir quando conseguissem sair da cidadezinha, uma entre tantas de Dakota do Sul.

***

Meses mais tarde, congelou os passos no saguão do edifício onde trabalhava ao ver um rosto conhecido no elevador, antes que as portas se fechassem. Não sabia como, mas tinha certeza de que era Angelica. Só podia ser. Pensou que, se Peggy chegasse à idade adulta, poderia se passar por irmã de Angel. As duas eram muito parecidas, afinal. Belas, cabelos loiros, quase sempre presos em um rabo de cavalo, olhos expressivos. Tão diferentes de Anne…

 

Em sua mesa, um recado: “Anne Collins, procurar por Angelica Cooper na sala 4, no Recursos Humanos”.

Angelica Cooper, não era possível. Podia ser ela, com outro sobrenome. Foi à tal sala o mais rápido que pôde e, ao entrar, se deparou com a mulher atrás da mesa de reuniões, a mesma do elevador. Sim, era ela, não havia dúvida.

― Não posso acreditar que é você.

― Por que não? Você me chamou tantas vezes, procurou por mim tanto tempo… Finalmente, aqui estou.

― Co… co-mo podia sa… saber que eu… ― Anne recriminou-se por gaguejar, demonstrando toda a sua insegurança. Tinha que parecer segura, ao menos uma vez, diante de Angelica. Não era possível que, enfim, a amiga de infância tivesse razão: talvez ela fosse uma pirralha, uma imbecil, uma fracote. Uma merdinha. Lembrava-se das palavras como se as tivesse escutado na noite anterior.

― Sei tudo sobre você, Anne, querida. Onde trabalhou, onde morou, como chegou até aqui. Sei de tudo o que fez. Sei até das mortes que provocou. Você está tendo sorte, muita sorte.

― Não estou entendendo… o que quer dizer com isso? Como pode me culpar de algo tão horrível? Eu não matei ninguém!

― Sei porque estava lá, todas as vezes.

― Todas as vezes?

― É, todas as vezes, sua fracote. Desde a morte de Peggy Irons. Desde quando você a matou.

― Está louca? Voltou para me dizer essas bobagens? Posso processar você, chega dessa conversa!

Angelica gargalhou, o mesmo riso cadenciado ouvido pela outra ao longo daqueles anos, do outro lado do celular. Levantou-se da mesa,  aproximando-se de Anne com toda a calma que só alguém como ela era capaz de sentir, diante da respiração descontrolada da amiga.

― Não pode fazer isso, eu estou dentro de você. Eu sou você, Anne. Foi você quem matou Peggy, fez com que ela se intoxicasse com um corante que não podia comer…

― Não, a morte de Peggy foi horrível, eu vi, eu estava lá, foi você, você me disse depois… Aquele sangue todo lavando o chão…

― …Eu sou o ódio. Dentro de você. Agora estou aqui, para que finalmente se liberte disso. Estou cansada de viver presa dentro de você. Vamos, faça o que deve ser feito, agora. Sou toda sua, querida Anne.

 

― Não!!!

Foi como se atendesse a um pedido de uma amiga de infância. Tirou do bolso uma pequena faca que escondera na gaveta de sua mesa há alguns dias, bem afiada, e acertou Angelica onde foi possível. Aos poucos viu, diante de si, um rosto dilacerado, não satisfeita acertou o globo ocular, pressionando para que entrasse bem fundo, o mais fundo possível. Quando arrancou a faca da massa que se tornara o olho esquerdo de Angel, passou a cortar os pulsos, duas, três, vinte vezes, até que, por fim, enfiou o objeto cortante em sua barriga, em um corte abaixo do umbigo, sufocando um grito que agora sabia, vinha de dentro de si. Angel apenas a olhava, com o único olho inteiro. E sorria, como se aprovasse aquele descontrole todo.

― Faça alguma coisa! Grite! Tome a faca de mim, me esfaqueie! Você era melhor do que eu, sempre foi, não foi? Foi você que se deitou com todos os homens que se envolveram comigo, eu sei que foi! Por isso eu não senti nada, nada, nada! Você me roubou tudo, tudo! Você conheceu meu pai, eu não, por isso nunca me lembrei dele!!! Por que, Angelica, por quê?

Vinte e uma, vinte e duas…

Trinta, trinta e uma…

Perdeu a conta.

Ao forçarem a porta, encontraram Anne caída em uma poça de sangue, o corpo esfaqueado, o rosto com dezenas de cortes, um dos globos oculares esmagado. Fizeram grande esforço para tentar compreender o que ela balbuciava, seria “Angel”?

Quando encontraram seu celular para entrar em contato com algum parente e informar sua trágica morte, viram as ligações não atendidas, o mesmo número. Nas mensagens de texto, três recém enviadas:

Filha, por que não atende?

Tem certeza que era Angelica Clarke? Não encontrei ninguém com esse nome na escola.

Não encontrei nem naquele ano em que a Peggy morreu, nem em qualquer outro ano. Me ligue, está tudo bem? Te amo, filha, beijos.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C - Final, Série C1.