EntreContos

Detox Literário.

A Verdadeira Face do Demônio (Dark)

— Felizes os convidados para a Ceia do Senhor.

— Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo.

— O corpo e o sangue de Cristo vos guardem para a vida eterna.

— Amém.

O silêncio fez se presente. Diante de centenas de fiéis ele aproximou-se, estendeu sua mão e me alimentou com o sangue e o corpo de Cristo. Eu que não merecia qualquer migalha de compaixão por ter pensamentos tão desprezíveis.

De longe eu o venerava, enfeitiçada com tamanha perfeição. Durante semanas acompanhei as celebrações com o desejo latente de que ele pudesse me tocar novamente. Apesar de não ser uma mulher religiosa eu o fazia com certa adoração. Com toda certeza eu o adorava. Adorava cheiro doce do perfume que ele deixou sobre mim no dia que senti o fogo queimar no meu interior.

Casualmente eu cruzava com uma centenária que ficava me secando com o seu olhar de velha santificada. Quase no final da liturgia de domingo ela aproximou-se e sem motivo algum começou a me atacar.

— Impura. Você é uma mulher impura. Fixei um olhar dominante sobre ela e pensei: — Maldita velha. Sem nem me conhecer você se dirigi a mim proferindo tais palavras.

— Você vai arder no fogo do inferno. Ela dizia.

— Você é que vai apodrecer no limbo, velha miserável. Respondi com fervor nos lábios. Esqueci completamente que estava dentro de um templo sagrado. Evidente que não deixei por menos. Ela nem me conhecia. Com que direitos diz blasfêmias tão absurdas?

Sem que eu notasse eis que ele surge diante de mim. Por três semanas seguidas eu não o vi durante as celebrações. De repente cá estávamos, frente a frente. Nesse meio tempo a velha não parava de blasfemar. A multidão começou a me afrontar. Não entendi bem o que estava acontecendo.

Comecei a me sentir Maria Madalena. Despida pelos olhares daqueles homens e mulheres que se dizem sagrados. Nunca senti tanto ódio em toda minha vida. A morte parecia pouco para aquela gente.

De maneira estranha a velha começou a passar mal e curvou sua cabeça no chão diante do grande crucifixo. Neste momento ele se desprende da parede e tomba bem diante de nós.

Um amigo me disse uma vez que os pensamentos têm muita força, mas, eu não esperava que ela pagasse pelas suas atitudes pecaminosas tão rapidamente.

— Você está bem? Ele me pergunta

— Estou. Respondo timidamente. E a velha ali se contorcendo tentando tocar a face do Cristo despedaçada. Quando fui abaixar para ajudá-la ele me segurou.

— Deixe-a. Ele disse.

— Padre ela está morrendo!

— Você deve deixá-la. Ele reforça.

— Se você tocar nesta mulher nunca mais poderá ser a mesma.

Algumas pessoas se colocaram diante de nós e ninguém fazia nada para ajudar à idosa.

Apesar do ódio que senti reclinei o meu corpo em direção a ela e tentei levantá-la. Por alguma razão ela pesava muito mais do que o habitual para sua idade. Creio que ela devesse pesar uns 70 ou 80 kg. Nada que eu não pudesse aguentar, mas não consegui. Enquanto eu a segurava ela deu o seu último suspiro.

— Por favor! Alguém precisa me ajudar. Eu pedia desesperadamente por ajuda.

Ninguém fazia nada. Ninguém se propôs tocá-la.

— Vá pra casa criança. Nós tomaremos o corpo.

— Padre, o que é isso que está acontecendo? Por que ninguém está fazendo nada?

— Eu já lhe disse menina. Vá pra casa, tranque as suas portas e janelas, ore com fé. Esta noite ele deverá visitá-la.

— Deus, o que foi que eu fiz? Eu me perguntava.

Fui pra casa pouco tempo depois, mas, por algum motivo eu não estava amedrontada. Na verdade, eu não parava de pensar naquela mão me segurando. Fui ficando excitada, banhada do desejo de ter o seu corpo junto ao meu.

Preparei o jantar e fui tomar um banho quente pra relaxar. Seu rosto e a sensação do toque de sua mão estavam fixados na minha mente. Em razão disto comecei a ter o mais prazeroso de todos os orgasmos. Acariciei carinhosamente meu clitóris com os dedos como se estivesse sentindo seu vigoroso membro recostando em mim. A esta altura eu sabia que a maldita velha tinha razão. Eu devia mesmo arder no fogo do inferno por cometer tamanho pecado.

Fui-me deitar pensando no que ele quis dizer com — Esta noite ele deverá visitá-la. Há quem será que ele se referia?

Para expurgar um pouco dos meus pecados orei com a bíblia nas mãos. De vez em quando eu tinha o hábito de ler uma ou outra passagem antes de dormir. Por coincidência eis que leio o livro de João, capítulo 3:8.

 

— “Aquele que prática o pecado é do Diabo, porque o Diabo vem pecando desde o princípio. Para isso o Filho de Deus se manifestou, para destruir as obras do Diabo”.

 

Quanta asneira. Eu não sou uma pessoa do diabo. Desejar me deitar com o padre não pode ser um pecado tão grave assim. Eu sei que a maioria das pessoas daquela igreja não segue uma vida tão religiosa assim. Embora preguem a palavra de Deus, a maioria é tão pecadora quanto eu. Neste momento começo a folhear algumas páginas diversas da bíblia. O livro de Pedro 5:8-11 parece me repreender:

 

— “Estejam alertas e vigiem. O Diabo, o inimigo de vocês, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem possa devorar. Resistam-lhe, permanecendo firmes na fé, sabendo que os irmãos que vocês têm em todo o mundo estão passando pelos mesmos sofrimentos”.

 

Começo a temer as minhas ações e pedir perdão ao Senhor pelas minhas iniquidades.

São três da manhã, não consigo dormir. A campainha toca uma, duas, seis vezes.

— Quem será a esta hora da manhã?

Sai quase sem roupas dando uma espiada rápida pela janela. Para o meu desespero, é ele. Padre Vicente da Paróquia do Bom Jesus. Homem robusto com os seus 30, talvez, 33 anos.  Másculo, absurdamente lindo. Barba cerrada, camisa branca de botão meio aberta com seu tórax bem definido amostra. Lábios carnudos e convidativos aos meus beijos. Postura inadequada para um servo de Deus. O tesão toma conta de mim. Começo a suspirar com intensidade só de vê-lo.

— Tem alguém em casa? Ele pergunta. — Ah Deus, o que eu faço? Devo atender a porta? Não pude me segurar e respondo: — Um momento eu já estou indo. Desço alguns degraus e grito: — Padre é você? Ele responde com aquela voz grave. — Filha, sou eu. Meu coração palpitava, minhas mãos suavam. A vulva, completamente lubrificada de tanto desejo.

— Seja bem-vindo Padre. Eu o convido a entrar.

— Filha! Vim ver como você está. — Eu estava preocupado com a sua condição emocional depois do que você passou.

— Preocupado com a minha condição emocional? Questiono com ar esnobe. Eu nem me lembrava do que tinha acontecido.

— Entre Padre, vamos sair do relento.

Ele entra, se senta, retira o colar clerical e esfrega as pernas uma na outra ansiosamente. Meus desejos eram incontroláveis. Ele me olha com a mesma vontade. Se levanta! Segura gentilmente as minhas mãos e sussurra palavras em latim no meu ouvido. Da nuca aos seios, ele me beija, incontrolavelmente. Não resisto.

— Que boca deliciosa. Eu lhe disse.

— Você quer que eu pare? Ele pergunta.

— Deus! Por favor, não pare Padre.

Ele tira a camisa, a calça e deita-se sobre mim. O prazer que sinto é inigualável. Enquanto me seduzia acariciando os meus seios ele fora me consumindo, lentamente. Meu corpo tremia de dentro para fora.

— Fique de costas. Ele me diz. Eu o obedeço em cada um dos seus pedidos. Gemi de dor, tesão, de satisfação enquanto ele me penetra de várias formas.

— Eu quero tudo que você tem.

— O que disse Padre?

Senti algo me repuxar para trás, como se minha alma tivesse sido tragada para fora do meu corpo. Neste momento gozamos. Juntos.

— Você pode relaxar agora menina. Satisfiz nossos desejos.

— Padre! Do que você está falando?

Virei rapidamente e ele me segurou com a mesma força que o fizera na igreja. O braço dele era tão forte que perdi todas as minhas forças. Ele me possuía. Nos deitamos lado a lado. Seu vigoroso membro não diminuía.

— Eu Te Amo Padre. Eu lhe disse.

— Você não deve me amar filha. Eu posso não ser quem você imagina.

— Você é Padre. Você é tudo que sonhei pra mim.

Cai no sono completamente, exausta com tanto prazer. Quando despertei, a casa estava vazia, mas, eu sabia que não era um sonho. Ele havia esquecido o relógio na mesa de canto da sala. Aliás, estranhamente parado no horário das três.

Era tarde, eu estava atrasada para o trabalho. Me arrumei depressa e segui rumo à labuta. No caminho coisas estranhas aconteciam. O ar estava pesado e diferente, tinha cheiro de morte. Um cortejo descia a viela. Eu odeio enterros. Um homem me puxa violentamente me chamando de puta. Parecia que eu estava fadada a ser julgada pela ira daqueles que se consideram santos. — Filho da puta, ele há de ter o que merece. Eu lhe disse.

Na ponte da cidade uma adolescente ameaça se jogar. Fui me aproximando para ver se alguém tirava aquela menina de lá. De repente ela me olha apavorada e grita: — Demônio! E se joga. 20 metros em direção ao chão. De novo todos que estavam por ali me olham como se eu fosse a responsável pelos crimes deste mundo sujo. É claro que fiquei com pena da menina, mas, Deus sabe as dificuldades que ela estava enfrentando para ter tomado esta triste decisão.

Cheguei com duas horas de atraso no trabalho. O gerente me repreende. Foram tantos acontecimentos. Ele nem me deixou explicar.

Não faltando muito para o término das minhas atividades meu chefe me chama e diz: — Você está despedida. Seis anos vendendo produtos contrabandeados para clientes vigaristas e ele me dá a notícia desse jeito. — Velho desgraçado. — Eu quero é que você queime junto com a sua empresa. Mal cheguei em casa e minha melhor amiga me liga.

— Miga! Você não vai acreditar!

— A empresa que você trabalha pegou fogo há duas horas.

Santo Deus. O que foi que eu fiz? Na manhã seguinte recebo a notícia de que o Senhor Dr. Carlos Ferrari morreu carbonizado, sufocado na fumaça gerada pelos eletrônicos que vendia.

— Velho charlatão. Teve o que mereceu. Pecadora ou não eu me senti feliz.

Todas as noites ele me visitava. Padre Vicente me penetrava com tanta força que fomos nos tornando uma só pele e carne. Aliás, que carne. De fazer inveja em qualquer mulher da comunidade. Elas cobiçavam e desejavam o que não podiam ter. Eu me considerava uma mulher de muita sorte.

Depois de três meses juntos ele decidiu que deveria deixar a batina e veio até a minha morada, por assim dizer. Parecia um demônio entregue as vontades de um anjo. O mais belo de todos os encantos da cidade rendeu-se aos meus caprichos.

As beatas, freiras, moças puritanas lambiam seus beiços quando me viam de braços dados com ele. Às vezes eu ouvia um zum, zum, zum sobre ele ter deixado a batina: — Como ele pode abandonar o sacerdócio para ficar com aquela piranha?

Doce menina, pouco tempo depois de ouvi-la ela morreu por causa de uma overdose de remédios.  Sabe se lá Deus que tipo de droga ela usava para se sentir assim ávida em tirar a própria vida.

As críticas não paravam. Ele, no entanto, me fazia à mulher mais feliz deste mundo. Caminhávamos juntos, passeávamos de barco de mãos dadas para desgraça da cidade que me repudiava. Aos poucos elas foram se juntando a pobre idosa que desfaleceu em meus braços na santa igreja. Uma a uma elas foram caindo deixando seus homens livres para minha satisfação.

Eu não os desejava. De forma alguma eu ia querer aquele ser decrepito do 305 do outro lado da rua.

Homem feio, barrigudo, porco e imundo, fedia a álcool. Nunca respeitou a esposa. Me olhava de cima em baixo desde o dia que me mudei para aquela cidade.

Ana, a vizinha que morava ao lado começou a sofrer de demência pouco tempo depois que eu a peguei cortejando o meu belo Padre. Tive medo de que ela morresse. No fundo eu gostava dela, dos quitutes que ela me deixava quando eu ainda morava sozinha.

Na ordenação do Bispo Patriarca do Estado do Espírito Santo, Padre Vicente e eu fizemos questão de participar.

O Bispo havia estado na nossa comunidade há poucas semanas. Pediu aos fiéis que orassem com intensidade para expulsar o demônio que habita o lugar. De fato, coisas muito estranhas aconteciam na cidade de Serra, município populoso do Estado do Espírito Santo. Apesar de não ter sido bem acolhida como imaginei, eu me sentia em casa. Deixar a cidade por causa da presença de um espírito demoníaco seria fantasioso demais.

Bispo Marcos fora ordenado e comparado ao apóstolo Paulo na bíblia. Homenageado pelos seus feitos, por ser um pescador de homens. Homem santo e popular entre os seus. Diante do trono do senhor ele me fez sentir dores que eu nunca havia sentido. Na leitura do capítulo 17 de Mateus, versículo 19 ele prega:

 

— Eles perguntaram ao mestre, por que nós não conseguimos expulsar o demônio?

E Jesus lhes disse:

— Primeiro por causa da vossa pequena fé.

 

Padre Vicente de braços dados comigo levanta sua voz em meio aos fiéis e pergunta para todos os presentes: — O jejum tem algum poder? Ninguém lhe responde. Por que será que ele fez tal pergunta? Dois meses depois da consagração do Bispo Marcos ele nos deixa para servir ao Senhor no paraíso. Morreu de forma estranha. Olhos arregalados e a rama de um hibisco vermelho nas mãos. A boca não fechava e quem o viu disse que provavelmente ele tenha enfrentado a pior de todas as faces do demônio.

Pobre homem, tão puro e santo. Não foi capaz de guiar os seus fiéis. Tampouco de se salvar da presença do anjo do mal.

Assim que completamos um ano juntos, Padre Vicente começou a seguir o mesmo caminho do Bispo. Subitamente ele parou de comer. Parecia que viu o demônio. Senti que o fim da nossa união estava para terminar. Como serva do Senhor eu pedi com fé que aquela situação mudasse, mas, era tarde. Ele se foi cinco dias após jejuar incessantemente. Sem ter o que me prendesse naquele lugar profano e tão cheio de ofensas eu segui. Desta vez rumo a outro país. Era hora de mudar os ares. Um incidente fez Serra ser quase toda coberta pelo mar dois dias depois da minha partida. A cidade deve ter ficado livre dos demônios que colocava em risco a segurança dos que eram puros de coração.

Em solo Italiano sou acolhida pelo clero. Roma me recebe de braços abertos. Chegou o momento de rezar com intensidade para o meu senhor, aquele que um dia governará entre o céu e a terra.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C1.