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Detox Literário.

Amor Próprio ou Zóio de Vidro – Conto (Gabriel Bartolomeu)

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O amor-próprio é o artifício usado para nos protegermos de nossas imperfeições e o mais importante indicador da dificuldade que é lidar conosco de maneira mais realista.

 

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Guto é um garoto muito pouco quisto pelos colegas e, em segredo, também pelos professores. Falta-lhe um olho e a capacidade de se relacionar. Alguns avaliam que pelo modo como seus pais o educaram, no cerne de um relacionamento marcado por brigas, e por, recentemente, um divórcio, teve-se como resultado este menino chato e irritado.

Não é um bom aluno nem mesmo de um ponto de vista intelectual. Sua capacidade cognitiva é mediana. Não que se esforce para tirar boas notas ou realizar as atividades escolares com esmero. Longe disso. Está mais interessado em jogar bolinha de gude e em provocar confusão com os colegas para poder entrar em uma boa briga. Vale destacar que para Guto uma boa briga é aquela com um garoto fraco e incapaz de reagir aos seus socos. No fundo, coitado, acovarda-se em qualquer situação na qual corre o risco de não se sair vitorioso.

Além de carregar o peso de um olho de vidro no lugar de um olho de verdade, o que para um menino de sua idade é um martírio, traz em seu corpo a marca de uma cicatriz horrenda, parecida com uma grande bolha de queimadura que nunca seca. É nojenta. A impressão é a de que, ao olhar em seus olhos, ou ver aquela monstruosidade em sua barriga, as pessoas deixam claro para ele como é alguém muito pouco agradável.

Zóio de vidro é o seu apelido mais pronunciado nas brincadeiras e, em especial, nas desavenças com os colegas de classe. Guto fica extremamente irritado e parte logo para cima do ofendedor, seja com palavras ou com o corpo. Murro no olho é seu principal artifício para se defender dos apontamentos sobre sua condição oftálmica. Redundante explicar o porquê.

Algo que interessa a todos, e que nunca fora respondido, envolto em ares de segredo, é o motivo da ausência do olho de Guto. Trata-se de um mistério aquele buraco na cara preenchido por uma prótese de vidro que ora aponta para baixo, ora para o lado, denunciando sua artificialidade, deixando o interlocutor desconcertado e, intimamente, com vontade de rir. Chega-se a pensar que ele teria colocado uma bolinha de gude para preencher o vazio em sua órbita ocular. Uma outra ideia, desagradável, é tentar imaginar o que existe por detrás da bolinha de gude. Daria para ver seu cérebro observando pela fresta que se abre em sua cara? Algo repugnante de se vislumbrar, mas inevitável de se conjecturar.

Certo dia, um dos colegas de sala de Guto, um rapazinho com um indiscutível pendor para o voyeurismo, sobe na privada e olha para fora do banheiro pela janela. E, desta posição privilegiada, interessado, vê Zóio de Vidro tirando o seu protótipo de olho, metendo-o na boca e o chupando como uma bala de hortelã. Com os olhos fechados, saboreava a partícula concreta de seu amor-próprio.

 

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Como sentenciou La Rochefoucauld: “Por mais descobertas que se haja feito no país do amor-próprio, ainda restam nele muitas terras incógnitas”.

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2 comentários em “Amor Próprio ou Zóio de Vidro – Conto (Gabriel Bartolomeu)

  1. Sidney Muniz
    9 de abril de 2019

    Gostei!

    Um conto que me ganhou principalmente pelo final, desfecho interessante, de fato.

    O autor tem um bom domínio da língua pátria, achei que a ideia para um conto curto foi muito bem executada, até torci o nariz para alguns trechos iniciais, pois na minha opinião a enfase que se dá ao bullying que ele sofre é exagerada, e senti que foi meio forçado a descrição do garoto, mas isso eu senti antes de ler o texto uma segunda vez e gostar bastante.

    Nem sempre é amor à primeira vista.

    Valeu por postar esse aqui, pois foi uma leitura instigante!

  2. Fil Felix
    8 de abril de 2019

    Boa noite, Gabriel! É um conto diferente, que aposta no grotesco para comentar sobre a questão do amor próprio e sobre infância. Dei uma viajada em alguns trechos, como a questão do bullying, as ofensas e apelidos que levamos quando somos criança (e como as crianças podem ser terríveis) que nos acompanham e nos perturbam o resto da vida. Só quem já teve um apelido maldoso sabe como é lembrar disso e, o pior, se alguém chamar de novo. E essas características vão se expressando fisicamente no garoto, seja no olho ou na cicatriz. Já conheci um cara que tinha um olho artificial, dava pra perceber por conta de ser levemente maior que o outro, mas nada de outro mundo. Ao abrir e fechar o texto com um trecho sobre amor próprio, o miolo funciona para exibir sua perspectiva de maneira grotesca e visceral, o se tocar levado a outro patamar, praticamente o de se chupar como uma bala. Me lembrou dos contos de terror do Junji Ito.

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Informação

Publicado às 8 de abril de 2019 por em Contos Off-Desafio e marcado .