EntreContos

Detox Literário.

Fogueira das Sanidades (Gogol Wolfe)

 

Grenaldo Rosa acordou completamente desajuizado.

Coçou o cenho com força e percebeu que estava sem óculos. Jamais havia usado esse artefato – sua visão era ótima – mas como agora era um homem sem qualquer juízo imaginou que poderia ter dormido com uma armação grossa de lentes finas bem ajustada ao rosto quadrado. Sentia-se leve, sem a usual bigorna do senso de responsabilidade. Levantou-se com o pé esquerdo e foi até o banheiro.  Olhou de soslaio para o homem preso no espelho, encarou a língua porosa do sujeito e deu alguns pulinhos. Segurou as pálpebras entre o polegar e o indicador, observando a vermelhidão embaixo dos olhos. Tudo parecia “normal”. Concluiu que a enfermidade não havia atacado seu físico, apenas sua sensatez. Não se lembrava de ter comido nada diferente ou sentido qualquer mal estar. Infelizmente era difícil segurar com força pela gola as coisas abstratas.

Ligou o chuveiro no quente, mesmo sobrevivendo no verão mais abrasivo dos últimos cinquentas anos. A água atingiu sua pele criando uma redundância térmica certamente nociva, Grenaldo Rosa apenas sorriu. Desprovido de qualquer prudência saiu do banho e se recusou a enxugar as costas. Deteve-se em frente ao armário e não refletiu pelos segundos que sua antiga condição determinava. Vestiu uma calça de camurça e colocou uma gravata clara que combinava com seu torso avermelhado.

Entrou na cozinha cantando A Marselhesa e apertou as nádegas de sua esposa. Nem precisou ou tentou explicar a situação para Amarilda Rosa, que há tempo era perita em qualquer tipo de Grenaldo.

– O que você comeu ontem?

– Nada de diferente.

– Falei pra você não dormir com o cabelo molhado.

– Mas teria sido causa ou já o primeiro sintoma?

– Quer que eu ligue para o Dr. Simão?

– Não. Vou trabalhar.

– Nessa condição!? Não é melhor ficar em casa?

– Se tivesse juízo, evidente.

Amarilda entregou a marmita para o seu esposo, mas não antes de retirar a alface e as cenouras. Acompanhou o marido até a porta, já pensando no que faria para o jantar. Certa vez leu em uma revista de dicas nutricionais que peixe era muito bom para a memória. Pensou consigo que um bom filé de tilápia talvez tivesse a propriedade de recobrar os antigos dias de juízo, que era praticamente toda a vida de seu amado.  

Grenaldo e Amarilda esfregaram demoradamente seus narizes, como dois esquimós apaixonados em um equivoco geográfico, social e anacrônico-sazonal. Antes de findada a despedida teatral, olhou para seu príncipe desorientado e fez uma cara de que “você não pode sair assim?”, que Grenaldo desentendido respondeu arqueando as sobrancelhas “assim como?”. Suspirando alto, de um jeito que só ela sabia fazer, Amarilda ajeitou o nó da gravata que caia desalinhada sobre o peito nu encarnado do cônjuge e sorriu exclamativamente, como quem diz “agora sim!!!”.

Grenaldo Rosa, que era fã entusiasmado de elevadores, optou pelas escadas descendo os degraus de três em três. Cruzou a portaria em 3,7 segundos conquistando o novo recorde do edifico e arrancando palmas do porteiro de plantão. Empolgado pela estranha condição, correu em disparada para alcançar o sinal aberto da principal via. No verde, passou por entre os carros como um touro agorafóbico, que despreza tecidos vermelhos, e pulou na calçada com ímpeto olímpico, usando uma pobre Senhora de caixa de areia. Para sua surpresa, ao invés de medalha e coroa de louros, ganhou uma angina e um rubor forçado na bochecha direita.

– Toma juizo! – gritou escandalizada a coroa para-choque, logo após o tapa.

– Nunca nem vi! – Grenaldo berrou por entre as palpitações.

Sem diminuir o ritmo, ultrapassou uma série de obstáculos humanos na pequena calçada e se estabeleceu na frente de uma ótica tradicional. Diante da vitrine, limpou o suor do peito com a ponta da gravata, engoliu um gole de ar fresco e gargarejou com vontade. Com a confiança dos homens de visão que acreditam na terra plana, adentrou no recinto e interpelou o atendente tísico, que sobrevivia atrás do balcão e embaixo do ar-condicionado potente.

– Gostaria de um óculos sem lentes, sem aro e sem armação, de preferência grossa.

– Pra quem?

– Para uma pessoa que precisa de um não óculos.

– Para uma pessoa que não precisa de óculos?

– Não. Eu realmente preciso de um não óculos pra dormir.

– Acho que nunca vi esse modelo, senhor.

– Imagine um óculos….É completamente diferente.

– Talvez o Senhor encontre em uma loja que não venda óculos.

Contrariado, Grenaldo agradeceu o pobre sujeito com uma mesura real e partiu com rumo certo por caminhos tortuosos. Atrasado, desviou do enorme relógio digital que marcava 42 graus célsius, dando sempre de ombros para tudo que a sociedade entendia como relevante. Pela primeira vez na vida sentiu que ansiava pela reprimenda da sua superiora. Em um impulso meio Pavlov, salivou pensando na saliva irritadiça de Franca Marinho jorrando nas elipses das palavras de ordem.

 

VXY

 

Franca Marinho coçava a couro cabeludo com força, pensando na falta de sorte dos últimos dias. Afinal, esse era o segundo caso de enfermidade não catalogada que acometia seus funcionários. Sabe-se lá como, Grenaldo Rosa havia conseguido chegar ao trabalho com apenas alguns cortes nas costelas e sem fazer muito alvoroço. Diferentemente do analista sênior Jorge Dourado, que surgira no dia anterior desprezando todas as coisas estabelecidas, armando um escarcéu na empresa e brigando com seu Antônio Alvo. Tudo devidamente registrado em uma espécie de ATA, a saber;

Aos 30 dias de fevereiro, Jorge Dourado despertou febril e pairando um pouco acima de sua aconchegante cama. Aparentemente, seu corpo negava-se a reconhecer as leis da física. Colocou suas calças pela cabeça, sem qualquer dificuldade, e vestiu as meias depois de calçar os sapatos. Bebeu dois ovos mexidos e mastigou um café com leite. Rastejou a dois palmos do chão até chegar ao escritório, bem antes do expediente, atravessou a porta trancada e se pôs a trabalhar, contrariando não somente as leis de Newton, mas igualmente a legislação trabalhista. Na hora do almoço, para agradar os colegas que literalmente o olhavam torto, muito torto, trouxe pizzas frescas de Nápoles e vinho tinto do Porto de Porto.  Afeito ao puxa-saquismo corporativo trocou todas as lâmpadas queimadas nos lugares menos acessíveis. Porém, infelizmente, em razão deste comportamento altruísta despropositado, travou embate homérico com seu Antônio Alvo, servente da limpeza que não podia admitir todas aquelas pegadas na parede e no teto. Os dois se engalfinharam com dois mafagalfos em um ninho de mafagalfos e, que fique registrado que eu, autor, quando fui apartar a celeuma, levei um tapa de Jorge e uma bronca exaltada pelas minhas analogias. O que resta claro que nem a quarta parede o sujeito parecia levar em consideração.

Ato continuo, o analista sênior foi convocado pela chefe, Franca Marinho que ordenou que pelo bem da empresa, e da civilização, que ele admitisse mais uma vez a existência das coisas estabelecidas da física e do Universo. Nesse momento, Jorge nervoso começou a inflar e a ascender, não fosse os conhecimentos adquiridos por Franca, vendo desenhos animados, e graças a uma zarabatana tribal presente de casamento que ornava sua mesa, Jorge teria saído de órbita. Ou não, porque no momento era difícil de entender a linha lógica que adotava. Atingido na rotunda barriga pelo projetil, Jorge caiu esparramado no carpete, no que Franca rapidamente chamou o estagiário/secretário/menino do escritório, uma vez que seu Antônio Alvo permanecia turvo de raiva.

O aprendiz chegou trazendo uma caixa de papelão e um sorriso nervoso. Sem titubear entre os seus titubeios, colocou a forma pastosa e ainda indignada de Jorge Dourado no recipiente e o lacrou com duas tiras de fita durex. Conquanto, travava o diálogo que reedito integralmente;

– Como pode ver, o funcionário não está passando bem. Envie-o imediatamente para a casa.  Em correio expresso! E, por Deus, faça alguns buracos nessa caixa.

– Mas, senhora?

– Até onde sei as leis da burocracia ainda não o abandonaram!

– Escrevo algum bilhete para a esposa?

– Bem pensado. Tome nota. “Senhora Dourado, em razão do excessivo calor, favor guardá-lo na geladeira. Em hipótese alguma coloque Jorge no congelador, pois apesar de esperamos que ele esteja um pouco mais firme amanhã, de nada serve para esse escritório um funcionário estático e congelado. PS: Minha esposa aguarda a confirmação para o jantar de sexta.”

Deste modo, com o problema remediado, Franca Marinho deu o expediente por encerrado, mas não sem antes subir nas paredes.

O referido é verdade e dou fé.

 

XYZ

 

Com a memória fresca do imbróglio no dia anterior, narrado magistralmente no documento supracitado, Franca Marinho amaldiçoou o engenheiro, que havia construído o prédio em cima de um cemitério indígena de dinossauros, e mandou que o estagiário/secretário/menino do escritório fosse buscar seus funcionários para uma conversa franca.

Grenaldo Rosa adentrou na sala plantando bananeira e assoviando a marcha nupcial em uma afinação de querubins. Logo atrás, Jorge Dourado, trabalhador que não acreditava em atestados médicos, veio claudicante em suas botas de astronauta, com os pneus abdominais socados dentro das calças – tal qual um bolinho inglês dentro da forminha – ainda um pouco gelado, mas relativamente firme. Demonstrando de forma inequívoca todo seu comprometimento e determinação. Ou melhor, resiliência, que era justamente a palavra tatuada em todas as suas redes sociais.  

Franca, mulher objetiva, penteou as sobrancelhas, que pareciam dois camaleões xipófagos que não mudavam de cor e olhou para o alto, com desdém, me encarando?! Logo percebi que poderia ter simplificado dizendo que “suas sobrancelhas pareciam ser dois lagartos siameses”, perdão. Dinamitada essa questão, fez um sinal, como um carrasco que aponta a guilhotina, para que os presentes se acomodassem. Como uma onça pintada de azul marinho que comanda uma empresa, observou a fauna e a flora ao redor, preguntando-se retoricamente, claro, “o que diabos, ou tupãs, estava acontecendo?”. A caneta preta que havia rezado para os deuses da escrita para deixar de ser mordida, enfim foi deixada de lado quando a grande líder bateu na mesa e levantou a voz na direção de Grenaldo, remontando uma espécie de inquisição bem afeita a eletrochoques;

– Em seu aniversário seus parentes costumavam desejar-lhe juízo?

– Não. Desejavam felicidades.

– Caso clássico de imunidade baixa – disse, anotando quadradinhos em um bloquinho.

– Ou alta – interviu, Jorge.

– Em seus tempos de menino, o treinador mandava você acompanhar os laterais?

– Liberdade para atacar! – exclamou Grenaldo, ao passo que chutava a bunda do Sr. Vasquez.

– Caso clássico de comportamento condicionado. – Franca levantou da mesa ajeitando os suspensórios, ligou a lanterna do celular e ordenou – Abra a boca e diga: “amém”, focando mais no início e esquecendo o “mém”.

– “A?”

– Onde estão seus sisos?

– Jamais cresceram!

– Caso clássico de predisposição genética – gritou, abocanhando a caneta que ainda se recuperava das feridas da pele e da alma.

– Eu me demito! – Grenaldo irrompeu, arrancando a caneta da boca da mulher e lançando-a pela janela em um impulso “black bird, take these broken wing and learn to fly”.

– Te readmito com o dobro do salário.

– Por favor, isso não é uma negociação.

– Três vezes seu salário e o Jorge será seu assistente.

Jorge começou timidamente a inflar, enquanto Franca procurava outro objeto pontiagudo. Na falta de tal, despejou seu olhar de dardos sobre o sujeito que não hesitou em retornar ao estado axial. O estagiário/secretário/menino de escritório com grandes aspirações, adiantou-se para buscar uma caixa nova.

– Dez vezes o meu salário, você vira o Chefe e eu farei cafuné em sua cabeça calva cinco vezes por dia – recomeçou, Dona Marinho.

– Se π é três virgula quatorze, logo…

– Seis!

– De acordo – respondeu Grenaldo acertando a gravata e já sentindo-se muito melhor

Então Comandante-em-Chefe, Grenaldo Rosa rapidamente trocou de lugar e se colocou a distribuir tarefas. Pediu um café para o jovem aprendiz, uma caneta virgem para a Sra. Franca Marinho e um rolo de barbante para o analista sênior Sr. Jorge Dourado. Para mim, sentenciou sem paciência;

– Ora, autor. Não percebe o que acontece?

– Não, senhor, ceo.

– Isole a área e contate a vigilância sanitária, e a academia, porque não?

– Por que, porque ou por quê? – divaguei sem confiança.

– Porque estamos obviamente diante de um surto.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.