EntreContos

Detox Literário.

Canibalismo Cultural (Bebel Souza)

I

Você que você tem, baby,
um incêndio preso entre os dentes
e essa maneira de atravessar a madrugada
feito faca molhada de perfume barato.
Trouxe restos de estrelas no bolso da calça,
cinzas, comprimidos, flores mastigadas,
um animal vivo tremendo na garganta.
Você acende o quarto inteiro
só encostando a boca no meu pescoço.
Fica high.
Fica até o teto respirar devagar.
Até os móveis esquecerem seus nomes.
Te gusta quando danço cansada,
suor escorrendo pelas pernas
e o mundo lá fora apodrecendo sozinho.
A polícia, os homens, o dinheiro,
todos aqueles cadáveres vestidos de domingo,
nada entra aqui.
Tem sangue no rádio.
Tem mel na fumaça.
Tem uma onça dormindo entre nossos corpos.
Você diz meu nome
à guisa de quem cospe uma joia no chão.
Reincido
Mesmo sabendo que tua cama
é uma espécie de desastre religioso.
Você que você tem, baby,
essa febre de destruir tudo que toca
e ainda assim deixar as coisas mais belas.

II

Sei que tua pele
já deixou febre em outros corpos
e que o mundo te engole inteiro
entre luzes, fumaça e madrugada.
Meu peito não.
Meu peito é um quarto abafado
onde o cansaço apodrece devagar
enquanto o vento desmonta teus cabelos
sobre minhas mãos inquietas.
Teu sotaque me fere.
Há alguma coisa na tua voz
que desloca os móveis do meu corpo.
Teu sotaque invade.
Violento.
Bonito.
Há cidades mortas dentro da tua voz.
Teus olhos passam.
Teu sorriso permanece aberto
feito ferida fresca
pedindo amor
pedindo abrigo
pedindo qualquer coisa viva.
Se eu pudesse
atravessaria São Paulo de joelhos
até encontrar teu quarto respirando no escuro.
Vestiria tuas roupas esquecidas,
o cheiro antigo das mangas,
o suor preso nos tecidos,
só para teu desejo me reconhecer
entre as paredes úmidas da noite.
A tua cidade mastiga gente.
Frio nos dentes.
Pressa nos ônibus.
Prédios acesos feito hospitais.
Continuaria
até tua boca surgir outra vez
só para me dizer
que até gostou
mas que não vai me dar amor.

III

Adoro os tecidos escuros agarrados às tuas coxas
cansadas,
porque eles anunciam teu corpo
como cortinas pesadas abrindo um altar antigo.
Adoro as faixas apertadas envolvendo tua carne
inquieta,
o modo como teu ventre respira com dificuldade
sob a disciplina inútil da seda.
Teus sulcos.
Teu peito oscilando lentamente
feito frutas maduras esquecidas sobre a mesa.
Teu ar de criatura faminta,
de animal que atravessou invernos demais
e ainda assim continua desejando.
Teu tempo derramado sobre minha pele febril.
E principalmente teu constrangimento
essa beleza doente
quando percebes que meus olhos já tocaram
cada ruína escondida sob tuas roupas.
Os mantos que carregas.
O perfume espesso do teu corpo fatigado,
mistura de flores antigas, poeira e noite úmida.
Tudo em ti me alimenta.

VI

Teus joelhos encostados nos meus
faziam a madrugada mudar de ritmo.
Lá fora, sirenes.
Dentro do quarto,
nossos corpos imóveis
e essa tensão delicada
quase cruel
de quem deseja tocar
mas prolonga a fome.

6 comentários em “Canibalismo Cultural (Bebel Souza)

  1. Martim
    5 de junho de 2026
    Avatar de Martim

    Bebel! Que bom te ler aqui. E já adianto que achei seu poema muito bonito. A intersecção entre beleza e violência, tesão e destruição, desejo e gratuidade, tudo isso me é muito caro e entendo que você encontrou uma ótima forma a essas tensões. Particularmente me agradaram as imagens de roupas apertadas, como que contendo alguma coisa que não cabe nelas (e talvez não caiba em lugar nenhum). A imagem da onça dormindo entre os corpos é um lindo achado também.

    A poesia, mais do que uma coisa que se lê, é uma coisa que se relê. Porque no lirismo em um estado mais puro não vamos de um lugar a outro, senão que vivemos momentaneamente em um estado. Ainda não reli seu poema, mas algo que ainda não captei foi a razão da sequência. Há uma necessidade nela? É um só poema ou vários? Dito de outro modo, esses estados se conectam para o desenho de um estado maior?

    A minha hipótese até agora é que os quadros compõem o retrato do desejo, cuja saciedade é sempre provisória. Besteira minha buscar uma conclusão em um texto que se encerra falando justamente da prolongação desse desejo. Enfim, estou brisando aqui…

    Mas é isso por enquanto, gostei bastante!

    • Canibalismo Cultural
      6 de junho de 2026
      Avatar de Canibalismo Cultural

      Ei, benzinho, que comentário bonito.Fiquei sorrindo enquanto lia porque você reparou justamente nas imagens que eu mais tenho carinho.

      A da roupa apertada tentando conter algo que não cabe nela e a da onça dormindo entre os corpos são imagens que me acompanham há bastante tempo, então é sempre especial quando elas encontram morada na leitura de alguém.

      E sua hipótese não está tão distante quanto você imagina. Os textos são independentes, mas pertencem ao mesmo universo, aos mesmos personagens e aos mesmos fantasmas.

      Gosto de pensar neles como fragmentos de uma narrativa maior, ou diferentes portas para entrar no mesmo sonho.

      Talvez seja por isso que exista uma sequência. Não para conduzir a uma conclusão, mas para acompanhar as metamorfoses de um desejo que nunca se resolve completamente. Ele muda de forma, de cenário, de pele, mas continua voltando.

      E, entre nós, gostei bastante da sua brisa.

      Principalmente porque você fez exatamente o que eu esperava que alguém fizesse: entrou no texto, passeou por ele e voltou trazendo perguntas em vez de respostas. Acho isso muito mais interessante. Agora fiquei curiosa para saber o que você vai encontrar quando reler.

      Tenho a impressão de que alguns bichos do poema ainda estão escondidos por lá esperando você esbarrar neles.

      Obrigada pela leitura tão generosa, bem. Estou gostando de te ler também.

  2. André Lima
    5 de junho de 2026
    Avatar de André Lima

    Fala, Bebel. Uma honra ler um escrito seu pela primeira vez. Muito interessante seu poema. A primeira parte é a melhor, para mim. As enumerações e repetições possuem uma qualidade de inventário do desejo muito eficaz. Não é uma lista decorativa, é um retrato de alguém que carrega demais e transborda. É um trecho extremamente imagético. A onça dormindo entre os corpos é uma das imagens mais bonitas do poema.

    A ideia central, que dá título ao poema, aparece bem na última linha da primeira parte: essa febre de destruir tudo que toca e ainda assim deixar as coisas mais belas. Senti algumas influências tropicalistas na estrutura e na formação de imagens. Proposital?

    A segunda parte muda o ângulo. A voz que estava fascinada agora está ferida, e o que muda não é o objeto do desejo, é o lugar de quem fala. Aí o estilo tropicalista já se afasta, caindo talvez em um poema pós-modernista de violência urbana. Toda aquela acumulação de imagens, toda aquela intensidade, desemboca numa frase quase coloquial, quase prosaica.

    Há momentos muito bons na terceira parte. Curiosamentre, há um acúmulo de adjetivos que competem com as imagens formadas, isso é uma característica que identifico em mim também. Algumas pessoas vão torcer o nariz para esse excesso de qualificativos.

    O quarto fragmento, brevíssimo, é uma boa escolha de encerramento.

    Confesso que não consegui conectar o poema com o título kk. Não entendi o “cultural”. Tirando isso, é um trabalho bom.

    • André Lima
      5 de junho de 2026
      Avatar de André Lima

      Só acrescentando: eu consegui captar bem o “canibalismo”, só não consegui conectar bem com o “cultural”. Até reli o poema agora. O “canibalismo” está bem presente no final da primeira parte, como eu disse no comentário, mas o “cultural” ainda está me escapando! Me explica aí!

      • Canibalismo Cultural
        5 de junho de 2026
        Avatar de Canibalismo Cultural

        esse não é o título rsrsr era pra ficar Canibalismo Cultural no lugar de bebel Souza. Os textos não tem título, não coloco título em nada q escrevo c:

    • Canibalismo Cultural
      5 de junho de 2026
      Avatar de Canibalismo Cultural

      sempre falam do acúmulo de adjetivos mas eu particularmente gosto de escrever textos bem poluído kkkkkk mas vou procurar escapatórias mais criativas para minhas seguintes poesias, (é bom fazer diferente pra ver se eu gosto), super obrigada pelo comentário e pelas dicas, aprecio muito. 🫶🏼

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 5 de junho de 2026 por em Poesias e marcado .

Navegação