EntreContos

Detox Literário.

O Suplício de um Deus (Rogan)

 

A Sala Dourada, o cárcere privado de Omthy, mergulhada no cheiro dos incensos de cravo e canela. As Venyusas em êxtase, dançando e contorcendo-se pelo quarto quente e abafado. As janelas fechadas e cobertas por pesadas cortinas, tapetes vindos de toda a Índia forrando o chão. O suor pingando do corpo das mulheres. No centro, uma cama baixa e redonda, sob uma pilha de almofadas coloridas, abrigando a divindade azul que não era homem nem mulher, aquela que auxilia na geração da vida no Reino de Komdira. Ela está em dor, com contrações pelo parto que está prestes a dar. O suor febril escorrendo pela testa ovalada e opaca e, entre suas pernas, o líquido sagrado deslizando pelas coxas, de um vermelho vivo, pingando e manchando os lençóis, formando um rastro até o chão. Do líquido misterioso surge uma vegetação verde e brilhante, criando o botão de lótus que, ao abrir-se, revela um fruto alaranjado e suculento. O líquido, então, resseca e transforma-se num cordão umbilical.

Maravilha”, alguém exclama ao fundo, a figura envelhecida de um homem em trajes reais, escorada na porta da Sala Dourada. Um idoso, carregando uma pesada coroa de diamantes negros na cabeça e uma tesoura de ouro numa das mãos. Shibat, o Rei de Komdira. Ele caminha até a criatura, cortando com a tesoura o seu cordão umbilical, retirando o fruto e o levando ao nariz, sentindo seu aroma adocicado. Shibat morde o fruto, se lambuza com sua seiva, que escorre pelos cantos da boca. Aos poucos cada ruga de seu rosto, cada músculo flácido do seu corpo, todas as marcas causada pelo tempo são curadas como uma doença. Shibat rejuvenesce e volta a ser o mais belo Rei de toda a Índia. Pela fresta de uma janela, a cidade de Komdira perde seu brilho e sua cor, sucumbindo à vaidade do seu governante. Essa era a rotina de Shibat e Omthy a cada ciclo lunar.

 

***

 

Muitas luas atrás o Reino de Komdira vivia em abundância, com fartura de comida e água, suas maravilhas eram narradas nos versos dos poetas e pelas notas dos músicos, agradecendo a criatura conhecida pelo povo como Omthy, um ser misterioso e pouco visto, considerado o guardião e o grande deus da vida na região, enviado pelo próprio Brahma. Era a ele que os enfermos oravam pedindo por cura e as esposas clamavam por um filho. O Rei Shibat de Komdira possuía a fama de ser o maior colecionador de animais silvestres de toda a terra conhecida, abrigando em seu palácio exemplares das espécies mais raras e exóticas já catalogadas. De leopardos a rinocerontes, aquários gigantes com peixes vindos das profundezas, todos vivendo nas Salas especiais do palácio. Numa de suas caçadas pelas densas florestas em torno da cidade, Shibat encontrou dormindo o próprio Omthy. Com o apoio de sua conselheira e conhecida feiticeira local, conseguiu aprisionar a divindade. Em partes graças à sua natureza pacífica e humana. Desde então, ele a mantém sob os efeitos do transe das Venyusas, as dançarinas espirituais.

Com a primeira Lua Cheia após a captura, Shibat descobriu que Omthy gerava um estranho fruto que rejuvenescia todas as células do corpo de quem o consumia. Temendo ser descoberto por outros reis e pelo próprio povo, a trancafiou na Sala Dourada e assassinou sua conselheira. Servindo à sua vaidade, a cada ciclo lunar visitava-a e provava da juventude eterna. Com o passar do tempo, porém, a abundância de Komdira passou a diminuir: menos peixes nos rios, colheitas menores, cidadãos inférteis, doenças se espalhando. Sem o fluxo de vida gerado e guardado por Omthy, o Reino morria. E o próprio corpo de Shibat sentia o peso dos anos, envelhecendo cada dia mais rápido, com a beleza da juventude durando cada vez menos tempo.

Com as crises que a região passava, era comum as reclamações dos habitantes, as inúmeras visitas de ministros tentando marcar reuniões com o Rei a fim de resolverem a situação. Shibat, entretanto, não conseguia se concentrar nos problemas, nas falas dos seus empregados ou em qualquer outra coisa que não fosse o medo de ver a pele envelhecer a qualquer momento. A fronteiras foram fechadas, o comércio com outras regiões foi cancelado. Sempre dispensava todos, quando não os enviava para a forca. Com a ausência da vida, a morte tornou-se um evento recorrente em Komdira. E Shibat divertia-se ao ver todos sucubindo à idade e à doença, enquanto ele próprio se alimentava do fruto da vitalidade.

 

***

 

Para sua surpresa, porém, numa manhã em que se preparava para a colheita em Omthy, o Rei recebeu uma visita inusitada: a rainha de uma terra distante exigia uma conversa com Shibat. Apesar das suspeitas iniciais, a enorme comitiva que acompanhava-a não deixava mentir: carrocerias ornamentadas, cavalos com elmos prateados, elefantes pintados, jacarés em coleiras, entre inúmeros ajudantes mergulhados na opulência. Com receio de iniciar uma intriga, ele aceitou sua exigência e abriu as portas do palácio. Após as devidas boas-vindas e taças de vinhos, a mulher apresentou-se por Belith. “A fama de sua coleção de animais exóticos e de sua beleza percorre todo o continente, caro Rei Shibat. Como pode ter reparado, já estou com a idade avançada. E também possuo uma coleção de animais que gosto de exibir por onde quer que eu vá.

O tom brando na voz de Belith apaziguou os ânimos do Rei, além de servir para o crescimento e inflação do seu ego. “Dou-lhe o que for preciso, o que quiser, para dizer o segredo que o mantém tão jovem e belo”, disse Belith, mas Shibat riu da situação. Não era a primeira vez que tentavam descobrir sua fórmula da juventude. E como fez com quem tentou antes, negou veemente. “Minha cara Rainha, que veio de terras tão longínquas, esse segredo será enterrado comigo. E como pode reparar, isso levará a eternidade!”.

Mas Belith não deu-se por derrotada tão facilmente. Logo que percebeu que Shibat não cederia, pediu para seus ajudantes, que a acompanharam por todo o percurso, todos em vestes púrpuras, que trouxessem uma enorme caixa coberta por um tecido aveludado. “Não peço que divida sua fórmula comigo. Acredite, eu gosto da ideia de morrer e poder renascer numa nova história. Queria apenas saber como que consegue essa façanha. Sua fama me deixa intrigada!”. Fazendo um sinal com a mão, seus ajudantes retiraram o veludo e revelaram uma ave incrivelmente bela aprisionada, com penas de dois metros de comprimento, reluzentes, que brilhavam em contato com a luz do sol que vinha das janelas do palácio. “Em troca de contar-me seu segredo, darei-lhe este lindo Garuda, umas das criaturas mais raras e cobiçadas em todo o mundo, um ser sagrado. Que com toda a certeza o senhor não possui em sua coleção.

O Rei Shibat foi arrebatado com a visão da ave, arregalando os olhos e se impressionando com a visão multicolorida do bicho. E pela primeira vez em anos, decidiu por mostrar o seu segredo. Mais pelo fato de exibir à Rainha que não, não possui um exemplar de Garuda, mas algo muito mais raro.

Os dois entraram na Sala Dourada. De um lado, Shibat enchia a boca de orgulho e presunção ao falar da incrível caçada que resultou na captura da mais incrível das criaturas, da façanha que o tornava o único homem na terra detentor de um deus. Do outro lado, Belith não conseguia disfarçar uma surpresa, rodeando o corpo de Omthy, que de longe se assemelhava a um menino. Aproximou-se do prisioneiro, riu e assobiou. Em instantes todo o quarto entrou numa profunda escuridão, ficando apenas Belith e Omthy iluminados, como se possuíssem um brilho próprio. “Não acredito que esteja aqui”, disse a Rainha estrangeira, tirando Omthy do seu transe. “Belith? Salve-me, por favor…”, ele respondeu, pausadamente, retomando o fôlego a cada palavra. “Ah, meu caro. Minha especialidade não é salvar, como bem sabe. Curioso, a cada ciclo lunar o querido Rei Shibat surge em minha lista, ele deveria ter morrido há anos. Estou sempre a sua espera, mas nunca faz a passagem. Não aguentei e por isso vim até aqui, trazendo um Garuda a fim de descobrir como ele é capaz de enganar a própria morte.

Omthy conseguiu levantar-se um pouco e segurou nas mãos da mulher. “Por favor… eu sinto a cidade morrendo, sinto a vida sendo tirada de mim. Assim como a vida do povo. Escuto suas preces e não posso ajudá-los.” Belith, por outro lado, soltou uma gargalhada. “Claro que sem vida não há morte. Mas não posso interferir nos assuntos humanos e ceifar a existência do seu carcereiro. Não diretamente, claro. Sendo assim… me dê a vida de Shibat que seu infortúnio cessará!”.

As primeiras contrações do dia tomaram conta de Omthy, indicando o fruto que geraria mais tarde. O que antes era feito com amor e felicidade, nutrindo a terra de Komdira, tornou-se um suplício. “Não posso fazer isso…”, ele respondeu. “Ah, pode sim. Hoje é o grande dia, pequeno deus da vida, enviado de Brahma. O dia que Shibat deveria ser levado por mim aos braços de Shiva, porém ele comerá do seu fruto mais uma vez. Então deixe-me experimentar um pouco da sua carne, provar de sua vitalidade, enquanto experimenta minha matéria. Você é o dois em um. Junte-se a mim e gere um fruto diferente.”

O peso das lamentações, da dor e da infelicidade inundaram o coração de Omthy. Pelo povo de Komdira, somente por eles, o deus da vida se uniu à deusa da morte, sentindo os dedos gelados tocando sua pele, o calafrio e a sensação de início e término de um ciclo.

Como num segundo, a Sala Dourada voltou a ser iluminada, com as Venyusas dançando, o incenso no ar e o calor abafado fazendo todos suarem. O Rei Shibat continuava a gabar-se de ter enganado o universo, de ter em suas posses um deus. De volta ao transe induzido das dançarinas, Omthy entrou em seu processo de floração, sentindo as contrações em todo o corpo, deixando escorrer o líquido da vida, como um rio de águas calmas. O botão da lótus abriu e revelou um fruto diferente, mais opaco, sem o brilho alaranjado de sempre. O Rei estranhou a princípio, abaixando e analisando de perto, com uma expressão de dúvida no rosto. Mas não deixaria sua convidada sem ver o espetáculo que a natureza lhe concedera. “Vê essas marcas em meu rosto, essas rugas que teimam em aparecer? Em instantes elas sumirão e serei jovem de novo por mais um ciclo.” Ele tirou a tesoura de ouro do bolso e cortou o cordão umbilical que se formara, arrancando o fruto, mordendo-o com ferocidade.

Passado alguns instantes, o velho Rei permanecia o mesmo. “Que estranho, não costuma demorar tanto…”, ele se indagou. Indo para um canto do quarto, procurou por um espelho de mão e horrorizou-se ao olhar para a própria face. As rugas e a pele flácida estavam cada vez mais fortes. Sua mandíbula começou a desprender-se, os ossos das pernas ficaram fracos, não aguentando o peso do corpo e levando o Rei abaixo. A dor aguda de tantos anos acumulados veio como um golpe. A sentença de Belith, representante da dança mortal de Shiva, estava dada.

Assustadas, as Venyusas correram para fora da Sala Dourada. Shibat contorceu-se de dor, enquanto sua própria carne aos poucos virava pó, varrido pelo sopro da deusa da morte. Entre as vestes caídas ao chão, Belith retirou uma pérola negra e reluzente. Mais uma para a sua coleção, sua verdadeira coleção. Com a ausência dos efeitos das dançarinas, Omthy saiu de seu suplício e observou o quarto à sua volta, o carcereiro finalmente encontrara seu carma. Levantou da cama e viu a cidade pela fresta da janela. Sentiu as preces de homens e mulheres, a vida retomando seu fluxo natural. Perdera a inocência e gerou um fruto infértil, mas concedeu o livramento ao povo, retornando à floresta e aos versos dos poetas.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.