EntreContos

Detox Literário.

Silêncio (Will Henley)

 

Há tempos, Jonas acostumara-se à placidez do horizonte, à linha tênue que dividia céu e oceano. Ao sol mergulhando em águas distantes enquanto os último raios se agarravam às nuvens vermelhas. Às constelações que vagarosamente se reconstruíam no firmamento, noite após noite, com sua geometria perfeita, salpicadas por nuvens de poeira que brilhavam como archotes infinitos. Tudo insondável. Como sua própria existência.

Com dificuldade, deixou a amurada no topo e voltou-se para o interior da construção. Apesar do bom tempo, fazia frio. Desviando das enormes lentes, tomou a pequena escadaria em curva que descia íngreme, detendo-se após alguns degraus. Dali tinha acesso às engrenagens, às correias e ao lampião, por meio de uma plataforma secundária.

Vagarosamente acionou o mecanismo que dava vida à fonte de luz. Puxando alavancas e correntes, ativou o movimento giratório dos refletores. Iluminando a linha d’água, o farol haveria de orientar os marinheiros afligidos por ondas sem fim.

Inevitavelmente, murmurou um verso conhecido: “Que jamais navegues sozinho“.

Assim fora por anos e anos sem conta. Seguindo a tradição da família, seu bisavô, seu avô e seu pai e, há tempos, ele próprio, Jonas, entregara-se àquele ofício, empenhando a vida para que outros pudessem ultrapassar as armadilhas do mar, sobrepujar arrecifes e rochas, escapar às ondulações traiçoeiras. E assim seria até que seu próprio filho retornasse de terra para rendê-lo.

Tarsis. Era esse o nome dele. O garoto que partira numa manhã nublada, com o mar de chumbo, calmo como um lago, remando um pequeno bote na direção do continente. Fora estudar. Retornaria um homem. Para fazer-lhe companhia até seus últimos dias. Para continuar aquela sina de auto-sacrifício, de entrega. Talvez trouxesse esposa e filhos. Talvez o farol se enchesse de vida uma vez mais.

Esperar e esperar. Todos os dias. Todas as noites.

À escuridão Jonas acionava o mecanismo, derramando luz sobre a superfície cinzenta que se insinuava abaixo, indo e vindo sobre o promontório. Limpava as peças gastas do equipamento, trocava componentes quebrados, substituía coroas, velas, lâmpadas e rodas dentadas. Conferia o estoque de óleo, refazia a pintura das áreas de ferro, pregava a madeira solta dos degraus e vedava com alcatrão os blocos de pedra que, das fundações ao topo, serviam como sustentação da casa de luz.

Dias e noites.

À aurora, conversava com os pássaros. Uma gaivota, em especial, parecia nutrir por ele uma amizade sincera. Porque retornava à amurada externa, sempre, mesmo quando Jonas não tinha comida para lhe oferecer. Parecia gostar de sua voz, de sua fala calma e arrastada. Talvez apreciasse ouvi-lo sobre a vida no farol, sobre a rotina fatigante que enfrentava, sobre a maneira como perscrutava o mar interminável, como vigiava as ondas na esperança muda de que um dia Tarsis ressurgisse.

Por vezes, confessava a ela seus medos. Sempre acreditou que haveria uma compensação por sua existência solitária. Por certo veria o filho retornando. Assim ocorrera com todos antes dele. Mas e se isso jamais ocorresse? Se a tradição fosse quebrada por algum motivo além de sua compreensão? E se ele próprio terminasse seus dias ali, sozinho, um velho faroleiro arqueado pelo peso dos anos? Não… Deus não poderia ser tão injusto, tão inclemente. Por ter-se entregado de corpo e alma àquele cárcere a recompensa chegaria certamente.

Mas o silêncio, ah, o silêncio eterno e ensurdecedor era também terrível. Por vezes revolvia-lhe as entranhas, esmagava-o qual punho invisível, roubando-lhe o ar dos pulmões, deixando à brisa apenas as batidas de um coração extenuado.

Queria muito compreender sua provação, mas ao fim do dia se resignava, retomando seus afazeres num vai-e-vem perpétuo. Para isso viera ao mundo. Pelos outros e não por si.

Certa manhã, enquanto descansava, ouviu uma batida na porta. Saltou de súbito, mal contendo a excitação. Mesmo com dificuldade no andar, projetou-se escadaria abaixo, pulando os degraus de dois em dois, antecipando o momento tão aguardado. As perguntas que sempre se fizera ressurgiram a um só tempo. Como estaria Tarsis? Trazia companhia? Queria abraçá-lo, beijá-lo, dizer a ele como estava feliz com seu retorno.

À sua frente, porém, emoldurado pela entrada da construção, um homem velho postava-se ereto como um marinheiro confiante. Tinha um sorriso afável, uma barba grisalha e os olhos pequenos, protegidos por grossas lentes de armação negra. Vestido com uma pesada jaqueta azul, trazia nas mãos uma pequena valise e, na cabeça, um gorro de lã de cor verde. Diante de Jonas, descobriu-se, revelando uma calvície proeminente.

“Desculpe a intromissão”, disse ele. Tinha a voz um tanto agradável, quase familiar. “Sou o Doutor Oliveira. Talvez o senhor se lembre de mim.”

Jonas o mirou intrigado. Poderia jurar que jamais o tinha visto. Entretanto, não podia negar que havia algo de acolhedor em seus modos, na maneira como se dirigia a ele e na forma como gesticulava.

Sentaram-se à mesa e Jonas serviu-lhe café. O homem sorveu a bebida em silêncio e devagar, como se as horas não merecessem atenção. Respirando fundo, por fim, disse:

“Precisamos voltar.”

Jonas olhou-o intrigado.

“Voltar para onde?”

“Para casa.”

Como voltar para casa? O farol era sua casa. Não havia outro lugar para ir.

“Não posso sair daqui”, disse, num tom inesperadamente diminuto, quase subserviente. “Pelo menos não até Tarsis regressar.”

“Tarsis não vai regressar.”

“Como não? É claro que vai… Todos nós regressamos. Nós somos o farol… Sem nós, não há vida, não há luz. Só há silêncio.”

O homem apanhou a garrafa e serviu-se de mais café. Depois deixou-se encantar pelo aroma. Quando estava satisfeito, soltou o ar de seus pulmões numa longa expiração. Depois prosseguiu, a voz firme e segura:

“Jonas, não há farol. Não mais…”

“Como não há farol, doutor? O senhor está cego? O que é isso tudo ao redor de nós?”

“Ilusão”, disse o homem, mexendo a bebida com uma pequena colher prateada.

Jonas riu, um riso tímido, nervoso, quase cúmplice.

“Veja estas mãos, doutor. Estes calos, estas marcas. Os cortes que tenho nos dedos, a graxa impregnada nas unhas. Como o senhor quer que eu acredite nesse disparate?”

“Você quer acreditar nisso. Portanto vê as coisas desse jeito. Está mergulhado numa representação, numa realidade fictícia que recria sua juventude, sua idade madura. Seus melhores dias.”

Jonas balançou a cabeça.

“Melhores dias? Que melhores dias, se tudo o que passo aqui é uma angústia sem fim? Porque meu filho nunca retorna…”

“São seus melhores dias porque aqui você ainda tem esperança. Quando observa o mar, quando escuta as ondas quebrando, quando o ar salgado lhe sopra o rosto. Tudo isso faz com que você acredite que no próximo dia, talvez, seu filho retorne. Mas, repito, infelizmente isso não vai ocorrer. Você precisa voltar comigo.”

Jonas parecia absorto. Olhava pela janela, as nuvens se acumulando.

“Que imagem você vê aqui?”, perguntou o homem, oferecendo-lhe um pequeno espelho.

Jonas mirou o próprio reflexo. Por um instante viu a si mesmo um tanto envelhecido, talvez até mais do que seu interlocutor. Numa fração de segundo, lá estavam as linhas de expressão vincando-lhe a testa, as bolsas sob os olhos, a pele manchada, a boca semiaberta.

“Quantos anos você tem, Jonas?”

“Tenho cinquenta anos, doutor”, respondeu enquanto devolvia o espelho ao homem. “Um pouco menos, talvez.”

“Não, Jonas. Você tem oitenta anos. Está numa clínica, vivendo uma realidade que não é a sua. Nós queremos trazê-lo de volta, para o seu bem.”

Ao longe, trovões ecoaram, denunciando um céu em revolta.

“Doutor, não me entenda mal, mas só posso ir embora depois que Tarsis chegar.”

“Tarsis morreu, Jonas. Eu sinto muito.”

Observou-o com ainda mais incredulidade. Tinha a lembrança nítida de Tarsis ainda pequeno, brincando com seus bonecos no pequeno jardim ao lado do farol. Isso ainda antes da mãe deixá-los. Tarsis, o pequeno Tarsis, com suas indagações inesperadas, com sua natureza inquisitiva, com seus livros de histórias. Tarsis indo embora naquele bote de madeira, os remos compridos rasgando a água. O menino, agora um rapaz, lhe lançando um sorriso de confiança. “Eu logo volto, pai.”

“É melhor o senhor voltar para onde veio, doutor”, disse Jonas, levantando-se.

“O barco em que ele estava bateu num rochedo.”

“Não quero enxotar um homem velho como o senhor. Não me obrigue a isso.”

Um raio trincou o céu.

“Jonas, por favor, compreenda.”

“Não há o que compreender.”

“Você apagou da memória os últimos trinta anos de sua existência… Está vivendo num arremedo de realidade, numa fantasia. Não consegue se lembrar de nada.”

“Vá embora, doutor. Não vou pedir de novo.”

O homem se levantou e apanhou a valise do chão. A expressão afável que tinha no início cedera lugar a um misto de desapontamento e tristeza.

“Você não consegue se lembrar… Não consegue. Memória recente, e nem tão recente, totalmente comprometida”.

“Não volte mais, por favor”, disse Jonas. Sob uma garoa fina, viu o homem se afastando rumo ao píer, onde balançava um pequeno barco.

As gotas ganharam força no momento em que ele se lançou ao mar. Logo, fez-se uma cortina d’água, impedindo qualquer visão de seu avanço na direção da costa. Uma chuva grossa se precipitava agora, escorrendo pelas rochas e pedras enquanto a ondulação ganhava volume.

Despertando daquele transe, Jonas lembrou-se de que precisava acionar o farol. Subiu as escadas com o coração martelando-lhe o peito, os degraus rangendo sob seus pés encharcados. No topo, puxou as correias, girou as engrenagens e deu vazão ao óleo que alimentava a lâmpada principal. Logo os refletores giraram em sincronia levando os pulsos de luz para o horizonte longínquo.

De cima, contemplou a fúria do oceano, castigado por um vendaval de fôlego incessante. Ondas extraordinárias engolfavam o promontório, liberando-o em retração. O pequeno farol resistia há séculos às intempéries mais inclementes, aos açoites mais hostis dos elementos. Assim fora por anos e mais anos. E assim continuaria a ser.

Dias e noites. De geração a geração. De pai para filho.

Ainda no topo, com a ventania assobiando por entre os vidros, quando nuvens espiraladas se desenharam no céu, Jonas deixou a segurança do interior e apoiou-se na amurada. Os dedos enregelados seguraram com força a barra de ferro, enquanto os pés se plantavam no chão em meio às poças que refletiam o céu enegrecido. O vento úmido lhe fustigava o rosto, o odor da maresia lhe escalava até as narinas.

De cima, contemplou a imensidão do mar, as águas revoltas que se chocavam contra as paredes do farol.

Lembrou-se do que o homem dissera. Sobre tudo aquilo não ser mais do que uma ilusão. De que se fizera cativo de suas recordações mais caras. Mas o que somos, afinal, senão nossas memórias? O que somos senão o apego às nossas mais cândidas e marcantes lembranças? À história que selecionamos para nós mesmos?

Sentia agora um aperto no peito.

“Por que fez isso comigo?”, gritou em direção ao vazio.

“Por que não fala?”, gritou mais alto, tentando superar o rugido da tempestade.

“Por quê?”

Sentia as lágrimas se misturando à chuva.

“Por que o silêncio, meu Deus? Por quê?”

Ajoelhou-se, as mãos ainda agarrando a barra de ferro.

“Por que Tarsis? Por que não eu?”

Sentou-se junto à amurada, envolvendo os joelhos num abraço. Para que lhe serviria acordar? Voltar a um mundo em que Tarsis não mais existia? Ali, no farol, ilusório ou não, havia ao menos a possibilidade. O talvez. A âncora de sua sanidade.

Ou não havia? Há quanto tempo esperava sem que o filho ressurgisse?

No que deveria crer, afinal?

O choro em profusão.

Teve a sensação agora de que tudo aquilo se repetia. O trabalho, a visita do médico, a tempestade. Uma sucessão infinita de esperança e desamparo.

A espera.

O silêncio.

“Até quando, meu Deus? Até quando?”

Naquela noite, já recolhido à cama, dormiu profundamente, desejando esquecer-se de tudo. Talvez sempre tivesse sido assim.

Certo dia, seria despertado com um chamado. Uma voz reconfortante. Familiar.

“Estou aqui, pai”, diria ele.

Era por isso que deveria viver. Mestre de seu destino. Capitão de sua própria alma.

Anúncios

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.