EntreContos

Detox Literário.

Saída Temporária (Manu Braun)

 

Terminal Rodoviário de Taubaté, uma e dez da tarde. Dois homens sem nada a perder, sem nada a fazer. Em paredes de lados opostos no saguão, olhos famintos vagando pelo chão ou acompanhando o movimento dos viajantes e despedidas dos familiares. Cumprimentaram-se à distância, já com a certeza de se terem reconhecido pelos detalhes óbvios: nas mãos, o mesmo modelo da sacola plástica – pequena, mas suficiente para uma muda extra de roupas; nos pés, chinelos de dedo simples, entregues a todos os internos da Penitenciária Doutor José Augusto César Salgado, a P-II, em Tremembé.

Até ali, nada em comum.

Nem mesmo conviviam na mesma ala no pavilhão do complexo prisional. Tremembé ficou famoso por abrigar também alguns criminosos famosos, geralmente gente classe média que se envolve em assassinatos brutais ou escândalos de corrupção com grande repercussão – o que não era o caso deles. Pode ser que tenham se encontrado eventualmente, no pátio, durante banhos de sol; ou na oficina de restauração de carteiras escolares, para progressão de pena por bom comportamento e abatimento de três dias a cada dia de trabalho. Nunca conversaram antes. Apenas, ambos haviam recém-conquistado o regime semiaberto, o que possibilitou, pela primeira vez, que recebessem também o benefício da saída temporária para as festas do fim de ano.

Josílton da Cruz, um negro alto e bem magro, apesar de ter pouco mais de quarenta anos, era conhecido na P-II como Véio, devido ao cabelo pixaim curto  precocemente embranquecido. Carregava um peso extra, além da culpa do passado: a moderna tornozeleira eletrônica, volume indisfarçável na barra de sua única calça jeans.

Já o outro, Jorge Miranda, vulgo Gambito, era mulato claro, de estatura mediana e menos de vinte e cinco anos. Sua musculatura nos braços, abdômen e tórax, hipertrofiada pelo excesso com pesos nas horas ociosas da cadeia, contrastava com as pernas magras e finas – daí o nome de guerra. Tinha um olhar nervoso e não escondia a impaciência permanente.

Véio deixou a vergonha de lado e tomou a iniciativa de se apresentar. Perguntou ao Gambito para onde ele estava indo. Por coincidência, o destino era o mesmo, periferia de Osasco. Cerca de cento e cinquenta quilômetros e trinta e cinco reais de distância – quantia que Véio disse não ter, por ter gasto mais do que esperava no trecho de Tremembé até ali. Pediu ajuda ao colega e disse que pagava depois. Gambito, já com passagem comprada e desconfiado de tudo e de todos, alegou não ter sobra para interar. Porém, como o outro chegou na humildade, e ali não dava para mendigar, pois havia o risco da prisão por vadiagem, prejudicando os dois, arrancou uma nota de vinte reais amassada no fundo do bolso e deu o empréstimo, condicionando o pagamento ao dia do retorno à P-II.

O outro agradeceu, disse até mais e se foi.

Véio tinha uma ideia.

Próximo dali, na região do comércio popular, lojas vendiam quinquilharias diversas pelo preço único de R$ 1,99 em qualquer item.

Dez minutos depois, voltou ao saguão da rodoviária carregado de potes de plástico, pequenos, médios e coloridos. Mesmo com uma falta de talento gritante, a necessidade falou mais alto e ele começou a apregoar:

“Olha o pote, só 3 e 99! É para levar comida na viagem!”

Gambito riu do duplo sentido na frase.

Admirou a honestidade do cara, mas sentiu-se nervoso ao vê-lo chamar a atenção daquela maneira. Certeza que não tinha nota fiscal da mercadoria. Melhor dar o toque:

“Se liga, Véio, não adianta ficar aqui… tem que ir nas casa, bater de porta em porta e falar com as dona, que é quem usa esse tipo de tralha, tá ligado?”

O Véio entendeu. Mas havia outra questão. A aparência e, principalmente, a tornozeleira eletrônica à mostra tiravam qualquer credibilidade dele. Então Gambito, resolveu dar uma força. Primeiro, por pena. Depois, porque ainda faltava uma hora até a saída do ônibus. Tempo mais que suficiente para tentar arranjar o que faltava. Podia até ser divertido. E bom para ocupar a cabeça.

 

******

Cinquenta minutos depois, ofegantes, chegaram ao balcão da viação no terminal, com mais dinheiro na mão do que era necessário para a passagem. Véio ficou impressionado com Gambito, que fez questão de dividir meio a meio a sobra da arrecadação; mas fez questão de pagar, da sua parte, os vinte reais do empréstimo. Gambito também gostou do gesto. Demonstrava respeito e lealdade. As coisas, na vida, que ele mais prezava.

 

******

O ônibus corria pela estrada, quase vazio de outros passageiros. Sentados, lado a lado, em duas poltronas do corredor, os dois ficaram na parte do fundo, sem ninguém nas janelas e nem nos bancos mais próximos, e não tinham muito o que conversar. Mas o Véio tentava puxar assunto, enquanto Gambito vigiava o motorista, tenso.

“Sabe por que é que eu tô contente, Gambito? É a minha primeira saída… e você, vai passar o Natal onde?”

“Ah, sei lá, Véio, com alguma vagabunda por aí…”

“Mas cê num tem família?”

“Família, mesmo, não.”

“Ninguém?”

“Só tinha a Gilda…”

“Sua filha?”

“Não. Gilda era a que dormia comigo.”

Gambito parecia desconfortável. Mas o Véio insistiu:

“E vocês terminaram, é isso?”

“Não. Ela é que terminou comigo.”

A conversa mudou de rumo, para a vida na cadeia, os agentes carcerários e o tratamento diferenciado na P-II. Gambito era reincidente, puxou dois quintos da pena e, por bom comportamento, progrediu para o semi-aberto. O Véio recebeu o benefício de saída por já ter cumprindo um sexto da pena e ser réu primário.

Ao ouvir aquilo, Gambito se espantou.

“Ué, um sexto, só? Quanto tempo faz que cê tá guardado?”

Não é costume comentar crimes pregressos, nem entre os presos. Existe um ditado que diz que quem entra na P-II é o criminoso, o crime fica do lado de fora. Mas o Véio não evitou responder:

“Seis anos, dois meses e dez dias.”

Isso significava que tinha nas costas, pelo menos, trinta anos de condenação.

Trinta anos. Pelo primeiro e único crime.

 

******

 

Tremembé era presídio conhecido como “seguro”, organizado para preservar a integridade moral, física e a vida de presos mais visados pelos inimigos.

Era o caso do Gambito.

Arranjou treta com pessoal do Primeiro Comando da Capital na detenção provisória, e como na P-II não eram aceitos membros de facção, foi removido para lá, por segurança.

Véio tirou um retrato amassado do bolso da calça.

“Essa aqui é a Míriam.”

Gambito olhou de relance e devolveu o retrato ao companheiro. Que emendou, em tom de confidência:

“Estou doido para dar um beijo nela, mas não sei como vai ser…”

Gambito pensou um instante e respondeu, quase que para si mesmo:

“Esse é o problema. A gente nunca sabe.”

 

******

 

Quando passaram de Jacareí foi a vez do Gambito perguntar:

“Me diz uma coisa: se a sua mulher te largasse, o que você faria?”

O Véio coçou a cabeça e baixou os olhos:

“Cada caso é um caso. Difícil responder pelos outros…”

O outro insistiu, percebendo a evasiva:

“No caso, a desgraçada era da vida. Eu tirei ela da rua, dei tudo do bom, até caí de novo por causa de umas paradas que eram pra ela. Fui pra prisão provisória e, depois de um tempo, ela mandou bilhete dizendo que ia voltar a fazer programa pra se sustentar.”

“E você, o que fez?”

“Eu disse que era pra esperar. Mas ela veio  atrás de mim.”

“Daí vocês conversaram?”

Gambito se conteve, medindo se devia contar ou não. Desabafou:

“Eu tinha pedido pra não ir. Mas ela apareceu do nada, na prisão provisória. Toda maquiada e montada. Fiquei louco de raiva, até briguei lá dentro por causa disso…”

O Véio não entendeu.

“Olha, vou te contar, mas morre aqui. Eu sempre fui feio, nunca consegui mulher direita. Gilda foi a primeira que quis dar pra mim. Mas ela é travesti, e eu não queria que vissem a gente como casal. Daí, na saída, ela me lascou um beijo na boca, na frente dos outros. Fiquei fulo. Preso é folgado. Por isso eu acabei com a raça do Caveira. Ele veio me chamando de viadinho…”

Ficou com um pouco de vergonha da confissão, mas pela primeira vez na vida admitiu que precisava de um conselho. Começou até a chorar:

“Tô querendo matar ela e fugir pra bem longe. Que que cê acha?”

 

******

 

Josílton da Cruz ainda não era o Véio e trabalhava como repositor em uma rede de supermercados. Dois casamentos que não deram certo, sem filhos. No terceiro relacionamento, juntou-se com uma menina de quinze anos, que acabou engravidando. Foram morar em um barraco alugado. Pensava todos os dias se tinha feito certo em assumir aquela criança, a esposa, com mais de vinte anos de diferença entre eles. A bebê ainda mamava, e a mulher já queria sair, trabalhar fora, encontrar as amigas, ir a festas.  Josílton, ciumento, disse não. Mulher dele era para ficar em casa. Dinheiro do salário era pouco, mas dava. A esposa até chorou e reclamou que estava muito sozinha ali, nem a vizinhança eles conheciam direito. E dele, que não ajudava com a bebê. O marido cortou a conversa, dizendo que estava cansado e precisava trabalhar cedo.

O tempo passou e a esposa continuou cada vez mais distraída, fria e cansada. Até que chegou o dia em que, no meio da tarde, o chefe dos repositores puxou Josilton para a sala de revista da segurança:

“Tem uma denúncia pra você.”

O negro até empalideceu. Nunca tinha feito nada de errado e precisava daquele emprego.

“Não é isso, seu trouxa. Sou teu amigo e tenho que contar.”

Josilton sentiu tontura, enquanto o outro repassava a história que menino das entregas contou para ele. Disse o rapaz que voltava de bicicleta pela vizinhança onde Josílton morava e viu um homem com a mulher dele, conversando. E depois, que os dois  foram de mãos dadas para dentro da casa.

Chamaram o entregador para confirmar a história. Envergonhado por não ter contado primeiro ao Josílton, mas com bastante segurança, ele repetiu tudo o que viu, confirmando endereço, cor do portão e a descrição da mulher, que ele conhecia de vista.

 

*****

 

Josílton pegou a bicicleta de entregas para chegar mais rápido, mas decidiu ir pela rua de trás e pular o muro. Se o sujeito ainda estivesse lá, ia dar flagrante. Entrou em silêncio pela porta dos fundos, passou pela cozinha e pegou a faca para a eventualidade de uma briga. Nem olhou para a filha que dormia no berço. Na cama do casal, exausta e desarrumada, a mulher estava dormindo. Nua e sozinha.

Chegou sem fazer barulho e inclinou-se sobre ela.

Ao encostar a mão no colchão, sentiu que seu lado da cama ainda estava quente. O sangue subiu à cabeça e ele perdeu a noção das coisas.

 

*****

 

Ainda transtornado, correu para fora do barraco e tentou escalar o muro, mas era mais difícil sair do que entrar. Levou azar. O rapaz que fumava na janela do vizinho ao lado percebeu a tentativa de fuga e chamou a adolescente que morava ali para ver também. Ela identificou o homem, alterado e sujo de sangue. Nervosa, ligou para a polícia e, antes que eles chegassem, mandou embora o visitante que vinha sempre no meio da tarde. Foi a única que deu testemunho quando a viatura apareceu. E que, chorando o tempo todo, acompanhou os policiais até o interior da residência, para buscarem a menina que dormia no berço.

 

*****

 

O ônibus estacionou no horário na rodoviária de Osasco. Desceram na plataforma, carregando as sacolas e tudo o haviam conversado durante a viagem. Cumprimentaram-se, quase um querendo evitar o aperto de mão do outro ou, pelo menos, o momento da despedida. Mas, logo a seguir, já a dez ou doze passos de distância, Jorge, o Gambito, virou-se e gritou:

“Não vá se esquecer do beijo da sua menina.”

“Você também.” – respondeu Josílton.

 

FIM

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.