EntreContos

Detox Literário.

Saída Temporária (Daniel Reis)

 

Terminal Rodoviário de Taubaté, uma e dez da tarde. Dois homens sem nada a perder, sem nada a fazer. Em paredes de lados opostos no saguão, olhos famintos vagando pelo chão ou acompanhando o movimento dos viajantes e despedidas dos familiares. Cumprimentaram-se à distância, já com a certeza de se terem reconhecido pelos detalhes óbvios: nas mãos, o mesmo modelo da sacola plástica – pequena, mas suficiente para uma muda extra de roupas; nos pés, chinelos de dedo simples, entregues a todos os internos da Penitenciária Doutor José Augusto César Salgado, a P-II, em Tremembé.

Até ali, nada em comum.

Nem mesmo conviviam na mesma ala no pavilhão do complexo prisional. Tremembé ficou famoso por abrigar também alguns criminosos famosos, geralmente gente classe média que se envolve em assassinatos brutais ou escândalos de corrupção com grande repercussão – o que não era o caso deles. Pode ser que tenham se encontrado eventualmente, no pátio, durante banhos de sol; ou na oficina de restauração de carteiras escolares, para progressão de pena por bom comportamento e abatimento de três dias a cada dia de trabalho. Nunca conversaram antes. Apenas, ambos haviam recém-conquistado o regime semiaberto, o que possibilitou, pela primeira vez, que recebessem também o benefício da saída temporária para as festas do fim de ano.

Josílton da Cruz, um negro alto e bem magro, apesar de ter pouco mais de quarenta anos, era conhecido na P-II como Véio, devido ao cabelo pixaim curto  precocemente embranquecido. Carregava um peso extra, além da culpa do passado: a moderna tornozeleira eletrônica, volume indisfarçável na barra de sua única calça jeans.

Já o outro, Jorge Miranda, vulgo Gambito, era mulato claro, de estatura mediana e menos de vinte e cinco anos. Sua musculatura nos braços, abdômen e tórax, hipertrofiada pelo excesso com pesos nas horas ociosas da cadeia, contrastava com as pernas magras e finas – daí o nome de guerra. Tinha um olhar nervoso e não escondia a impaciência permanente.

Véio deixou a vergonha de lado e tomou a iniciativa de se apresentar. Perguntou ao Gambito para onde ele estava indo. Por coincidência, o destino era o mesmo, periferia de Osasco. Cerca de cento e cinquenta quilômetros e trinta e cinco reais de distância – quantia que Véio disse não ter, por ter gasto mais do que esperava no trecho de Tremembé até ali. Pediu ajuda ao colega e disse que pagava depois. Gambito, já com passagem comprada e desconfiado de tudo e de todos, alegou não ter sobra para interar. Porém, como o outro chegou na humildade, e ali não dava para mendigar, pois havia o risco da prisão por vadiagem, prejudicando os dois, arrancou uma nota de vinte reais amassada no fundo do bolso e deu o empréstimo, condicionando o pagamento ao dia do retorno à P-II.

O outro agradeceu, disse até mais e se foi.

Véio tinha uma ideia.

Próximo dali, na região do comércio popular, lojas vendiam quinquilharias diversas pelo preço único de R$ 1,99 em qualquer item.

Dez minutos depois, voltou ao saguão da rodoviária carregado de potes de plástico, pequenos, médios e coloridos. Mesmo com uma falta de talento gritante, a necessidade falou mais alto e ele começou a apregoar:

“Olha o pote, só 3 e 99! É para levar comida na viagem!”

Gambito riu do duplo sentido na frase.

Admirou a honestidade do cara, mas sentiu-se nervoso ao vê-lo chamar a atenção daquela maneira. Certeza que não tinha nota fiscal da mercadoria. Melhor dar o toque:

“Se liga, Véio, não adianta ficar aqui… tem que ir nas casa, bater de porta em porta e falar com as dona, que é quem usa esse tipo de tralha, tá ligado?”

O Véio entendeu. Mas havia outra questão. A aparência e, principalmente, a tornozeleira eletrônica à mostra tiravam qualquer credibilidade dele. Então Gambito, resolveu dar uma força. Primeiro, por pena. Depois, porque ainda faltava uma hora até a saída do ônibus. Tempo mais que suficiente para tentar arranjar o que faltava. Podia até ser divertido. E bom para ocupar a cabeça.

 

******

Cinquenta minutos depois, ofegantes, chegaram ao balcão da viação no terminal, com mais dinheiro na mão do que era necessário para a passagem. Véio ficou impressionado com Gambito, que fez questão de dividir meio a meio a sobra da arrecadação; mas fez questão de pagar, da sua parte, os vinte reais do empréstimo. Gambito também gostou do gesto. Demonstrava respeito e lealdade. As coisas, na vida, que ele mais prezava.

 

******

O ônibus corria pela estrada, quase vazio de outros passageiros. Sentados, lado a lado, em duas poltronas do corredor, os dois ficaram na parte do fundo, sem ninguém nas janelas e nem nos bancos mais próximos, e não tinham muito o que conversar. Mas o Véio tentava puxar assunto, enquanto Gambito vigiava o motorista, tenso.

“Sabe por que é que eu tô contente, Gambito? É a minha primeira saída… e você, vai passar o Natal onde?”

“Ah, sei lá, Véio, com alguma vagabunda por aí…”

“Mas cê num tem família?”

“Família, mesmo, não.”

“Ninguém?”

“Só tinha a Gilda…”

“Sua filha?”

“Não. Gilda era a que dormia comigo.”

Gambito parecia desconfortável. Mas o Véio insistiu:

“E vocês terminaram, é isso?”

“Não. Ela é que terminou comigo.”

A conversa mudou de rumo, para a vida na cadeia, os agentes carcerários e o tratamento diferenciado na P-II. Gambito era reincidente, puxou dois quintos da pena e, por bom comportamento, progrediu para o semi-aberto. O Véio recebeu o benefício de saída por já ter cumprindo um sexto da pena e ser réu primário.

Ao ouvir aquilo, Gambito se espantou.

“Ué, um sexto, só? Quanto tempo faz que cê tá guardado?”

Não é costume comentar crimes pregressos, nem entre os presos. Existe um ditado que diz que quem entra na P-II é o criminoso, o crime fica do lado de fora. Mas o Véio não evitou responder:

“Seis anos, dois meses e dez dias.”

Isso significava que tinha nas costas, pelo menos, trinta anos de condenação.

Trinta anos. Pelo primeiro e único crime.

 

******

 

Tremembé era presídio conhecido como “seguro”, organizado para preservar a integridade moral, física e a vida de presos mais visados pelos inimigos.

Era o caso do Gambito.

Arranjou treta com pessoal do Primeiro Comando da Capital na detenção provisória, e como na P-II não eram aceitos membros de facção, foi removido para lá, por segurança.

Véio tirou um retrato amassado do bolso da calça.

“Essa aqui é a Míriam.”

Gambito olhou de relance e devolveu o retrato ao companheiro. Que emendou, em tom de confidência:

“Estou doido para dar um beijo nela, mas não sei como vai ser…”

Gambito pensou um instante e respondeu, quase que para si mesmo:

“Esse é o problema. A gente nunca sabe.”

 

******

 

Quando passaram de Jacareí foi a vez do Gambito perguntar:

“Me diz uma coisa: se a sua mulher te largasse, o que você faria?”

O Véio coçou a cabeça e baixou os olhos:

“Cada caso é um caso. Difícil responder pelos outros…”

O outro insistiu, percebendo a evasiva:

“No caso, a desgraçada era da vida. Eu tirei ela da rua, dei tudo do bom, até caí de novo por causa de umas paradas que eram pra ela. Fui pra prisão provisória e, depois de um tempo, ela mandou bilhete dizendo que ia voltar a fazer programa pra se sustentar.”

“E você, o que fez?”

“Eu disse que era pra esperar. Mas ela veio  atrás de mim.”

“Daí vocês conversaram?”

Gambito se conteve, medindo se devia contar ou não. Desabafou:

“Eu tinha pedido pra não ir. Mas ela apareceu do nada, na prisão provisória. Toda maquiada e montada. Fiquei louco de raiva, até briguei lá dentro por causa disso…”

O Véio não entendeu.

“Olha, vou te contar, mas morre aqui. Eu sempre fui feio, nunca consegui mulher direita. Gilda foi a primeira que quis dar pra mim. Mas ela é travesti, e eu não queria que vissem a gente como casal. Daí, na saída, ela me lascou um beijo na boca, na frente dos outros. Fiquei fulo. Preso é folgado. Por isso eu acabei com a raça do Caveira. Ele veio me chamando de viadinho…”

Ficou com um pouco de vergonha da confissão, mas pela primeira vez na vida admitiu que precisava de um conselho. Começou até a chorar:

“Tô querendo matar ela e fugir pra bem longe. Que que cê acha?”

 

******

 

Josílton da Cruz ainda não era o Véio e trabalhava como repositor em uma rede de supermercados. Dois casamentos que não deram certo, sem filhos. No terceiro relacionamento, juntou-se com uma menina de quinze anos, que acabou engravidando. Foram morar em um barraco alugado. Pensava todos os dias se tinha feito certo em assumir aquela criança, a esposa, com mais de vinte anos de diferença entre eles. A bebê ainda mamava, e a mulher já queria sair, trabalhar fora, encontrar as amigas, ir a festas.  Josílton, ciumento, disse não. Mulher dele era para ficar em casa. Dinheiro do salário era pouco, mas dava. A esposa até chorou e reclamou que estava muito sozinha ali, nem a vizinhança eles conheciam direito. E dele, que não ajudava com a bebê. O marido cortou a conversa, dizendo que estava cansado e precisava trabalhar cedo.

O tempo passou e a esposa continuou cada vez mais distraída, fria e cansada. Até que chegou o dia em que, no meio da tarde, o chefe dos repositores puxou Josilton para a sala de revista da segurança:

“Tem uma denúncia pra você.”

O negro até empalideceu. Nunca tinha feito nada de errado e precisava daquele emprego.

“Não é isso, seu trouxa. Sou teu amigo e tenho que contar.”

Josilton sentiu tontura, enquanto o outro repassava a história que menino das entregas contou para ele. Disse o rapaz que voltava de bicicleta pela vizinhança onde Josílton morava e viu um homem com a mulher dele, conversando. E depois, que os dois  foram de mãos dadas para dentro da casa.

Chamaram o entregador para confirmar a história. Envergonhado por não ter contado primeiro ao Josílton, mas com bastante segurança, ele repetiu tudo o que viu, confirmando endereço, cor do portão e a descrição da mulher, que ele conhecia de vista.

 

*****

 

Josílton pegou a bicicleta de entregas para chegar mais rápido, mas decidiu ir pela rua de trás e pular o muro. Se o sujeito ainda estivesse lá, ia dar flagrante. Entrou em silêncio pela porta dos fundos, passou pela cozinha e pegou a faca para a eventualidade de uma briga. Nem olhou para a filha que dormia no berço. Na cama do casal, exausta e desarrumada, a mulher estava dormindo. Nua e sozinha.

Chegou sem fazer barulho e inclinou-se sobre ela.

Ao encostar a mão no colchão, sentiu que seu lado da cama ainda estava quente. O sangue subiu à cabeça e ele perdeu a noção das coisas.

 

*****

 

Ainda transtornado, correu para fora do barraco e tentou escalar o muro, mas era mais difícil sair do que entrar. Levou azar. O rapaz que fumava na janela do vizinho ao lado percebeu a tentativa de fuga e chamou a adolescente que morava ali para ver também. Ela identificou o homem, alterado e sujo de sangue. Nervosa, ligou para a polícia e, antes que eles chegassem, mandou embora o visitante que vinha sempre no meio da tarde. Foi a única que deu testemunho quando a viatura apareceu. E que, chorando o tempo todo, acompanhou os policiais até o interior da residência, para buscarem a menina que dormia no berço.

 

*****

 

O ônibus estacionou no horário na rodoviária de Osasco. Desceram na plataforma, carregando as sacolas e tudo o haviam conversado durante a viagem. Cumprimentaram-se, quase um querendo evitar o aperto de mão do outro ou, pelo menos, o momento da despedida. Mas, logo a seguir, já a dez ou doze passos de distância, Jorge, o Gambito, virou-se e gritou:

“Não vá se esquecer do beijo da sua menina.”

“Você também.” – respondeu Josílton.

 

FIM

20 comentários em “Saída Temporária (Daniel Reis)

  1. Givago Domingues Thimoti
    23 de dezembro de 2018

    Olá!

    Tudo bem?

    Gostei do conto, no geral. É a narrativa sobre a primeira saída de final de ano do Véio e sua ansiedade para encontrar a filha.

    A leitura fluí com bastante naturalidade, além de prender a atenção. Os diálogos são reais. As gírias e expressões aulistas ajudaram bastante para reforçar essa realidade.

    Gostei também do tema e dos personagens escolhidos. Presidiários são pessoas “invisíveis” para a nossa sociedade e, muitas vezes, suas histórias são ignoradas por nós. Talvez, por isso achei o conto muito bom. Foi abordado, com bastante conhecimento e realidade, a vida desses homens.

    Véio é um personagem que pode causar um conflito no leitor. Pelo que é mostrado, o homem parece normal, como tantos outros que vemos na rua em nossas rotinas. Porém, ao sabermos que ele matou sua companheira menor de idade, somos levados a nos escandalizar com ele e sentir sentimentos conflitantes. Triste pensar que isso é bastante comum de acontecer.

    Enfim, achei um trabalho bom, com cheiro de polêmica no ar! Mal posso ver os outros comentários

  2. jowilton
    23 de dezembro de 2018

    O conto narra o encontro de dois detentos que foram agraciados com uma saída temporária durante o período natalino.

    O conto está bem escrito, mas eu não gostei muito, desculpe. Não consegui sentir empatia pelos personagens, eles não me despertam emoção e acho que isso aconteceu por conta da narrativa em terceira pessoa, talvez, se um dos personagens fosse o narrador, poderia ter acontecido um envolvimento maior de minha parte. Não sei explicar o porquê, mas tive a impressão de estar lendo um noticiário e não um conto, A cena em que um deles pega o dinheiro emprestado e compra outros produtos para vender na rodoviária não me convenceu muito, achei bem inverossímil. Boa sorte no desafio.

  3. Davenir Viganon
    20 de dezembro de 2018

    Comentário-Rodada5-(“Companheira de guerra”x”Saída Temporária”)
    “Saída Temporária”
    Gambito e Véio são dois presidiários que foram liberados pelo regime semi-aberto que se conheceram na rodoviária a caminho de Osasco. Ambos contam suas histórias. Gambito que namorava uma travesti queria matá-la por raiva e Véio que já havia cometido esse crime, dando a entender que ajudou Gambito a não matar sua namorada.
    Gostei bastante da história, amarrou as duas histórias dos personagens que pareciam que pouco tinham a ver uma com a outra. Acho que as divisões com asteriscos foram mal feitas. Melhor não ter separado em 3 atos: quando se conhecem; história do Gambito e história do Véio para arrematar. A história é muito boa é que fez esse conto levar meu voto nesse confronto.

  4. iolandinhapinheiro
    18 de dezembro de 2018

    Olá, autor, vamos ao resumo do seu conto: Dois presidiários saem temporariamente da prisão e se encontram em uma rodoviária Por circunstâncias financeiras, os dois acabam estabelecendo uma amizade superficial, mas ao dividirem o mesmo ônibus acabam por revelar, um ao outro, coisas íntimas que dificilmente contariam para alguém que acabaram de conhecer.

    Achei o conto bom, embora me desgoste ler descrições físicas dos personagens, principalmente se forem desnecessárias, como era o caso. O autor nos proporciona um mergulho na vida pregressa dos caras (mais na vida do Véio) e consegue manter o interesse do leitor (eu) até o fim dos relatos. Isso é uma coisa difícil, porque meu nome é Distraída e meu Sobrenome é Dispersa. Ao contrário de outro conto que li onde o enredo precisava de enchimento para tornar o conto um pouco maior, aqui não falta enredo, e muito bem criado e desenvolvido, tornando os conflitos críveis, isso aliado a uma ambientação super bem feita, no colocando dentro dos cenários propostos. Vc escreve bem e tem técnica muito apurada. Se houve algum problema gramatical eu nem percebi por estar muito envolvida nas histórias dos dois caras, portanto, meus parabéns. Vc tem grandes chances. Agora vou ler o outro conto, um abraço.

  5. Evandro Furtado
    15 de dezembro de 2018

    A história de dois detentos que se encontram em uma rodoviária e começam a trocar confidências sobre a vida. Além desse encontro no presente, há ainda uma série de flashbacks ao passado no qual conhece-se mais da história de ambos.

    Achei um conto extremamente interessante, consistente. Os personagens são cativantes e suas histórias são realistas. Dá vontade de saber mais, de descobrir pra onde vão, o que acontece com eles. De fato, muito bom.

  6. Ana Carolina Machado
    13 de dezembro de 2018

    Oiiii. Um conto que narra a saída temporária de dois presos, um que tem como apelido Véio e o outro Gambito. Os dois não tinham quase nada em comum, porém isso parece mudar quando Véio pede dinheiro emprestado para Gambito e como ainda faltava dinheiro para completar a passagem Gambito o ajuda a vender umas vasilhas de plástico que havia comprando em uma casa de 1,99. Conseguem até um pouco mais do que era necessário. Já no ônibus Véio tenta puxar assunto e falam brevemente sobre família e sobre com quem vão passar o feriado, mas logo depois o assunto volta para a vida na cadeia e nesse momento é revelado que Véio pegou pelo menos trinta anos de cadeia pelo seu crime. Logo após esse momento ele mostra uma foto de uma moça chamada Míriam(que acho que deve ser a filha dele) e diz que quer dá um beijo nela, mas teme como será a reação dela. Depois de um tempo é a vez de Gambito falar de Gilda e da confusão que ele arrumou no provisório por causa dos comentários de outro preso sobre o relacionamento dele com a Gilda. Depois desse momento e de um questionamento de Gambito a história de Véio é revelada assim como qual foi o seu crime, atacar a esposa com uma faca(e acho que pelo número de anos que ele tem que cumprir deve ter a matado) por achar que ela havia lhe traído. No fim os dois se despedem com desejos de que eles encontrem as garotas da vida deles e lhes deem um beijo para matar a saudade. É interessante como o conto vai aos pouco revelando mais sobre os personagens, principalmente aquela volta ao passado do Véio. E no final em aberto fica a sensação que o que vai ocorrer depois daquela despedida vai depender das decisões que eles vão tomar e que o momento que passaram conversando foi algo que meio que os dois estavam precisando. Parabéns e boa sorte no desafio.

  7. Marco Aurélio Saraiva
    13 de dezembro de 2018

    Você escreve com leveza e simplicidade, o que bate bem com a atmosfera do seu conto (apesar da história não ser nada “leve”). Sua narrativa é muito bem montada e a sua escrita é impecável. Seu estilo é também muito bom, mantendo os olhos do leitor atentos até o final.
    A história é “mais ou menos”. O conto é um daqueles “retratos de um breve momento na vida de alguém”. A história em si é só a de dois presidiários se encontrando na rodoviária e, apesar do trecho das vendas de pote ser interessante, termina aí. É claro que boa parte do conto é dedicada às memórias de Josílton sobre o seu crime, mas o crime dele é tão comum e a sua história é tão trivial que esta parte, na verdade, mal chama a atenção.

    O grande valor do seu conto, além do citado acima, está nos personagens. A construção tanto de Gambito e sua paixão por um travesti quanto de Josílton e sua paixão pela idealização que tinha pela mãe de sua filha, como se ela ainda estivesse viva. Ver o dia-a-dia de presidiários em momentos que praticamente não temos a oportunidade de ver, nem em filmes nem em lugar nenhum, é também muito interessante.

    O saldo do conto é bem positivo. É realmente um texto de alta qualidade e que prende a atenção. Parabéns!

    • Marco Aurélio Saraiva
      13 de dezembro de 2018

      Quanto mais penso no seu conto, mas ele ganha valor para mim. Queria retirar o que eu disse acima, de que “a história é mais ou menos”.

      Fica claro agora para mim que a história é apenas uma ferramenta que você usou para desenvolver estes dois personagens, e que eles são mesmo o coração do conto. Parei para pensar melhor e, enquanto o texto dá muita atenção ao passado de Véio, Gambito tem um destino tão sombrio quanto o dele, senão ainda mais: afinal, ele também planeja matar a sua “mulher”.

      Um homem que carrega consigo o peso de um assassinato passional encontra outro que planeja seguir o mesmo caminho que o seu. É quase como se Véio encontrasse a si mesmo, momentos antes de tomar a decisão que mudaria a sua vida completamente.

      Bem legal!

  8. Priscila Pereira
    7 de dezembro de 2018

    Dois presidiários, em saída temporária, se encontram na rodoviária e fazem amizade. No ônibus trocam confidências, Gambito conta sua relação de amor e ódio com sua namorada que é travesti e Véio lembra do motivo pelo que foi preso, o assassinato de sua esposa, por desconfiança e ciúme, que o autor(a) habilmente deixa subentendido ser infundado.

    Ótimo conto, muito bem escrito, bem pensado e executado. Muito interessante, fisga o leitor e o conduz, quase sem piscar, até a última linha. Personagens muito bem estruturados e verossímeis, enredo simples, mas inteligente. O conto é bem direto e cumpre muito bem o que se propôs, sem enrolação.
    Interessante que aqui na minha região, denominamos “cambito” quem tem as pernas finas assim… vivendo e aprendendo detalhes da nossa língua.
    Parabéns pelo conto e boa sorte!!

  9. Gilson Raimundo
    7 de dezembro de 2018

    Dois detentos recebem o direito de passar as festas em casa, se encontrar na rodoviária onde meio sem jeito travam uma certa amizade inclusive um ajudando o outro a conseguir o restante do dinheiro da passagem pois vão para mesma cidade. No ônibus cada um conta sua história. Véio relembra com findou a infidelidade da esposa.

    gambito – manobra no xadrex para enganar o jogador adversário
    cambito – pernas muito finas

    Uma história bem escrita, cativa nos detalhes e nos personagens ricos, tem bom enredo, clímax e reviravolta, o desfecho é um tanto brusco e vazio, sei que a intenção do autor era nos deixar pensando, mas senti falta do fim condizente com o bom desenvolvimento. No geral, merece aplausos.

  10. Ana Maria Monteiro
    6 de dezembro de 2018

    Observações: Espetacular enquanto conto, tudo na medida certa. A história vai-se desenrolando de forma que o próprio leitor “vai tecendo a camisola”. PS:Adorei a palavra “tornozeleira” – nós chamamos de pulseira eletrónica. 🙂
    Prémio “Autor”

  11. Cirineu Pereira
    6 de dezembro de 2018

    Síntese
    Dois detentos, que até então não se conheciam, ao conquistarem pela primeira vez uma saída temporária da penitenciária por ocasião das festas de fim de ano, encontram-se num terminal rodoviário. Reconhecem-se pelo perfil (sacola plástica na mão) e iniciam um diálogo, após um deles, o Véio, se apresentar a Gambito. Após demonstração de honradez do primeiro que não tendo todo o dinheiro da passagem, pede emprestado ao segundo para pagar logo em seguida, por conta de uma iniciativa empreendedora, viajam juntos e iniciam uma amizade. Durante a viagem, falam sobre seus passados, crimes e relações amorosas, chegando inclusive a confidenciar mutuamente seus planos.
    Análise
    Um conto cotidiano, leve, apesar do tema pesado, em que pouco de fato acontece. Sob a ótica desse leitor, o autor tenta e, até certo ponto consegue, incitar um tanto de empatia para com os personagens, atribuindo-lhes um código de honra, alguma ternura e até sugerindo-os, talvez inconscientemente, como “vítimas da sociedade”. Aqui também muito é contado, por vezes de forma rápida e sucinta, e quase nada é mostrado. As tramas individuais são pouco exploradas. Mais poderia ser dito sobre a história de cada um dos detentos, incitando a crítica social, bem como, ao narrar diretamente a vida pregressa dos personagens, o autor perde a oportunidade de lhes enriquecer os perfis, de delineá-los, torná-los mais concretos ante à imaginação do leitor, gerando a empatia que nos cativaria. Definitvamente uma ideia de valor, cujo potencial não foi plenamente explorado.

  12. Fil Felix
    2 de dezembro de 2018

    Bom dia! Dois presos ganham sua semi-aberta, se encontram no terminal rodoviário e acabam comentando sobre a vida e o passado um para o outro, até chegarem no destino final, Osasco.

    O conto tem alguns aspectos interessantes e toca em alguns pontos que dificilmente vemos por aí. Em outros, achei um tanto simples as soluções. No início, com a compra e venda dos itens de 1,99, foi um pouco rápido e até fantástico demais, acabei não comprando tanto a ideia. Já no ônibus, a trama fica mais interessante. Legal falar do romance com a travesti, tratar desse assunto, de como o Gambito não se via como gay e até entrou em briga, algo que o conto pareado com esse nessa rodada (Ratos sem asas), também retrata. Por outro lado, temos a história de ciúme e assassinato do outro preso. Gostei dessa metade pra frente, de entender o contexto dos dois, da amizade estranha e improvável que surge.

  13. Regina Ruth Rincon Caires
    1 de dezembro de 2018

    Resumo do Conto: SAÍDA TEMPORÁRIA (Manu Braun)
    Dois detentos se encontram na rodoviária da cidade onde fica o presídio. Josilton (Véio) é negro, réu primário e, depois de cumprir 6 anos, 2 meses e 10 dias em regime fechado, passou para o regime semiaberto. Ganhou o direito à saidinha de Natal. Jorge (Gambito) é mulato claro e passou para o regime semiaberto. Reincidente na criminalidade, mas, por apresentar bom comportamento, também desfruta da saidinha de Natal.
    Ambos, apesar de não se conhecerem, rumam para o mesmo destino. Véio puxa prosa e pede dinheiro emprestado para comprar a passagem. Com o dinheiro emprestado, compra produtos no 1,99 e vende mais caro, com a ajuda de Jorge. Paga o empréstimo, a passagem e ainda sobra troco.
    No ônibus, conversam. Josilton deve ter mais de 40 anos, matou a mulher e usa tornozeleira. Jorge deve ter menos de 25 anos e é apaixonado por Gilda (travesti) – que quer abandoná-lo. Nota-se que tem a intenção de matá-la.
    Quando chegam ao destino, despedem-se.
    Um final aberto. Acredito que Miriam seja a filha de Josilton, aquela que ficou no berço.

    Comentário/Avaliação: SAÍDA TEMPORÁRIA (Manu Braun)
    Texto denso e muito bem escrito. Escrita fluente, clara, conexa. Quanto à estrutura, é uma narrativa linear, sem altos e baixos, sem sobressaltos. O conto deixa que a imaginação do leitor busque um final.
    Há muita sutileza nas descrições feitas pelo autor, tudo é contado com punhadinhos de realidade, salpicados aqui, acolá. Recolher e avaliar as informações (ou não) tudo fica por conta do leitor. Um texto que me instigou pelo teor introspectivo de um mundo que existe além das palavras.
    Lindeza de descrição:
    …”carregando as sacolas e tudo o haviam conversado durante a viagem.”
    Diante da decisão que me cabe, tendo no páreo: RATOS SEM ASAS (Ítalo Calvino) e SAÍDA TEMPORÁRIA (Manu Braun), por questões de estrutura da narrativa, o meu voto vai para RATOS SEM ASAS.

    Boa sorte!

    Abraços…

  14. Miquéias Dell'Orti
    29 de novembro de 2018

    RESUMO

    Dois detentos se encontram em uma rodoviária durante uma saída temporária de fim de ano e, durante a viagem, contam um pouco das suas histórias e do porquê acabaram presos.

    MINHA OPINIÃO

    A trama é simples, uma conversa entre dois detentos em uma saída temporária. Gostei da separação em blocos, contando cada parte da história deles. Deixou a leitura muito agradável.

    A escrita é boa, mas encontrei alguns deslizes (de digitação principalmente). Mesmo assim, nada que diminuísse a qualidade do conto.

    O mais bacana da narrativa é a, digamos, singeleza e até certo ponto ingenuidade dos detentos, seu senso de companheirismo (com a ajuda que Gambito dá ao Véio) e também a forma como nos é apresentada sua própria história.

    Só existe um ponto que me incomodou, os diálogos entre Véio e Gambito por vezes me pareceram confusos. Em alguns momentos eu não sabia direto quem estava falando e tinha de voltar a leitura para me situar novamente. Acho que isso aconteceu por conta da falta de verbos dicendi em algumas partes (digo algumas porque isso não acontece em todos os diálogos).

    No mais, um bom conto.

    Parabéns!

  15. Sidney Muniz
    28 de novembro de 2018

    Resumo:

    Conto narra um “encontro” entre dois presidiários que conseguiram liberação para uma saída da cadeia, e durante essa conversa passamos a conhecer um pouco de ambos, de suas personalidades e do motivo de cumprirem suas penas… A história termina revelando como um deles é preso e os dois se despedindo, antes de eles irem para suas antigas casas.

    Estou dando nota para o conto sem o pedido prévio de análise, caso venha a ser solicitado haverá o confronto das notas finais dos dois contos para escolha do vencedor do embate.

    Critério nota de “1” a 5″

    Título: 3,5 – É bom, mas não achei impactante!

    Construção dos Personagens: 3,5 – Não é ruim, mas achei meio insosso, não senti culpa, nem remorso, e também não senti frieza neles… então, achei que o autor(a) não soube definir bem o sentimento deles.

    Narrativa: 3,5 – Muito boa narrativa, apenas acho que a alternância entre os capítulos não causou o impacto que o autor queria, e o fluxo foi quebrado por essa alternância.

    Gramática: 5 – Não vi nada de errado!

    Originalidade: 4 – A história é bastante original, digo em relação a onde se passa e aos personagens e motivos apresentados. Gostei da escolha nesse sentido!

    História: 4 – É uma boa história, a abordagem do que eles esperam encontrar do lado de fora também é bem interessante, ainda que eu ache que o autor(a) falhou um pouquinho em nos passar o sentimento dos personagens, mas foi bem arquitetado!

    Um bom conto!

    Total de pontos: 23,5 pts de 30

    Boa sorte no desafio!

  16. Catarina Cunha
    25 de novembro de 2018

    O que processei disso tudo aí: Dois presidiários cornos e pobres se encontram em uma rodoviária. Dividem histórias de arrependimento velado e esperança, rumo à Osasco para curtir uma saída temporária.

    Título: Bastante mais ou menos; não ajuda, mas também não atrapalha.

    Melhor imagem: “Se liga, Véio, não adianta ficar aqui… tem que ir nas casa, bater de porta em porta e falar com as dona, que é quem usa esse tipo de tralha, tá ligado?”

    Impacto: Profundo. Uma cena do cotidiano muito bem contada. A melancolia está ali na tensão entre os dois. Sem altos e baixos, o conto linear cumpre sua difícil função: gerar empatia.

    Embora não seja uma falha na trama, a seguinte frase gera dúbia interpretação: “Tremembé ficou famoso por abrigar também alguns criminosos famosos, geralmente gente classe média que se envolve em assassinatos brutais ou escândalos de corrupção com grande repercussão – o que não era o caso deles. “ – Os dois cometeram homicídio doloso, embora não fossem de classe média.

  17. Pedro Paulo
    25 de novembro de 2018

    Senhor Braun, boa noite! Minha avaliação ficará dividida entre “resumo”, no qual sintetizarei o enredo, “o conto”, no qual avalio o conto diretamente, e “a disputa”, em que faço uma comparação crítica entre o seu conto e aquele com o qual ficou pareado na rodada. Espero ter sido competente em minha leitura!

    RESUMO: Esforçando-se para ser sucinto, alguém poderia resumir o enredo no encontro de dois presidiários que cumprem em regime semiaberto, desenvolvendo uma rápida amizade que logo possibilita ao leitor adentrar na vida pregressa de ambos, com situações que, embora diferentes, correspondem entre si. Após ouvirmos a história de um confessada pelo próprio e lermos a do outro, o conto se encerra com a despedida de ambos, sem uma conclusão específica para o dilema de Gambito, o que comentarei na minha avaliação.

    O CONTO: Acredito que o autor tenha escolhido muito bem a maneira como quis contar a história. Isto é, temos uma ótima mistura de exposição do narrador e ação das personagens, além de diálogos que, além de acrescentarem ao enredo, também definiram a dinâmica entre os protagonistas e, especialmente, implementaram de maneira sutil a linguagem indicadora das origens dos personagens. Portanto, iniciamos o conto sabendo do contexto no qual estão inseridas ambos os homens justamente a partir da explicação direta do narrador, enquanto depois vemos nas ações de cada um traços definidores de personalidades distintas. Logo depois dessas ações, temos a situação da venda de potes em que se forja a amizade entre os dois, um laço leve, mas verdadeiro, que não advém só daquele instante, mas também do próprio status de presidiário de cada um dos dois homens.

    Devo considerar que isso equivale à primeira parte do conto, enquanto a segunda é com eles já no ônibus, onde se desenrola um diálogo e ficamos sabendo de suas vidas pregressas. Aqui o narrador não faz muito mais do que descrever a maneira como a conversa segue e considero isso um acerto, pois a centralidade da leitura é agora os diálogos, deixando que os personagens nos revelem quem são pelo que falam e pela forma com a qual falam. O dilema de Gambito comove, surpreende e envolve, prendendo o leitor à sua resolução. E aqui o autor acertou mais uma vez ao mudar o foco, trazendo o narrador de forma mais ativa para nos contar o que teria ocorrido a Josilton, Véio, ao mesmo tempo em que resolve para o leitor algo que teria mencionado antes pela perspectiva de gambito: um crime só teria condenado o sujeito a 30 anos.

    A história não é exatamente uma surpresa, traduz relações matrimoniais de base patriarcal, com um homem dominante, opressivo e “provedor”, mas o que a faz especial é justamente por estar dentro deste conto e ter sido introduzida nesse momento específico, em que a história toma o sentido de um conselho. Depois do final trágico nos ser contado pelo narrador, temos a despedida entre os homens e não fica claro qual conselho Josilton poderia ter dado a Gambito e o que o rapaz faria, no fim das contas. O final aberto serviu para deixar a história com um desfecho mais agridoce, em que temos esperanças, mas que ao mesmo tempo fomos imersos num universo cruel e violento no qual “as coisas acontecem desse jeito”.

    Eu faço uma interpretação própria desse final. Suspeito que ao inserir a história de Josilton imediatamente após Gambito pedir conselho, o leitor deve ver a história como algo que o próprio Josilton contaria ao seu companheiro de viagem, sendo sua história o seu conselho. E suponho que a partir daquilo Gambito desistiria do assassinato e decidiria por só estar com a sua ex-namorada. Mas bom, é justamente a livre-interpretação que faz a graça.

    A DISPUTA: Pois bem, esse texto seguirá para os dois autores e sendo a primeira rodada, aproveito para desabafar sobre como é mais difícil equiparar dois contos. Mais difícil do que avaliá-los individualmente. Concebo que cada conto venha com uma proposta totalmente própria, com o autor tendo objetivos quanto à história que quer contar. Nos desafios, ainda temos as limitações temáticas e de tamanho, que para mim é no que consiste o desafio em si. Dessa vez, há só o tamanho e suponho que este é o único parâmetro que vale para os dois autores, a habilidade que tiveram que ter para lidar com um limite tão pequeno.

    Pois bem, acredito que de uma maneira ou de outra, os autores sucederam bastante em contar uma história completa dentro do limite estimado. As estratégias foram diferentes, no entanto. Braun optou por usar uma narração bem mais sucinta, suprimindo diálogos e sendo objetivo em sua escrita, diferente de Henley, que proporcionou uma leitura rica pela escrita poética que deixou um cenário mais estonteante e palpável ao leitor, mas este era seu objetivo, enquanto Braun quis uma narrativa rápida que, de fato, flui com maior velocidade. Portanto, cada autor alcançou seu objetivo estabelecido. Outra diferença nas narrativas é a sequência de fatos. Em “Saída Temporária” vamos e voltamos no tempo, diferente da linearidade de “Silêncio”. Com o limite pequeno, devo parabenizar Braun pelo risco, uma vez que soube não só ir e voltar sem perder o leitor da narrativa central e utilizou isso para deixar um final aberto que teve bem impacto.

    Há ainda outros aspectos para se avaliar. O contexto temático de “Saída Temporária” é reconhecível como brasileiro, enquanto “Silêncio” trata o tempo inteiro sobre temas universais, como velhice, objetivos de vida e memória… claro que existe transversalidade no outro conto, com temas como homofobia e sistema prisional, no entanto, nada que ocupe a centralidade do enredo. Também não era essa a sua proposta.

    Diante de contos de inquestionável qualidade técnica e criativa, é difícil escolher, mas farei meu voto baseado em impacto, algo subjetivo. O conto que escolho para essa rodada é o “Silêncio”, de Will Henley. Desejo boa sorte a ambos os participantes e enfatizo que os dois são autores de contos ótimos!

  18. Fernando Cyrino.
    21 de novembro de 2018

    O enredo é bem simples: Dois presos, saindo do presídio pela primeira vez para uma folga (partem para as festas natalinas) se encontram na rodoviária da cidade. A cena inicial é cinematográfica: em lados opostos do saguão eles estão famintos de liberdade. Como achei bacana esta imagem. Olhos famintos de liberdade a comer tudo em volta, imaginei. Os dois prisioneiros, agora livres, vão criando cumplicidade. Eles que praticamente não se conheciam na prisão, logo estão íntimos e tudo se inicia a partir do pedido de um, necessitado, e do empréstimo concedido pelo outro, para o companheiro de infortúnio necessitado. Ao viajarem eles vão contando, um para o outro, as suas tristes sinas e seus amores sofridos. O de um por uma travesti (a quem quer matar) e o outro, depois de mostrar a foto da nova mulher, a lhe contar da antiga amada (que ele matou por conta de traição). Vão assim, cúmplices, até se despedirem ao final da viagem.

    Meu querido Manu Braum, você me traz um conto bem agradável, gostoso mesmo de ler. Uma narrativa sem grandes necessidades de elucubrações por parte do leitor e muito menos de altas filosofias e pensamentos. Simples, diria que até mesmo um tanto quanto despretensioso em sua linearidade. Mas conto bom é o que é gostoso de ler e a sua história é bastante interessante. O começo, que achei ser bem legal, passa-me a ideia da tensão existente nos dois, vivendo aqueles primeiros tempos de liberdade, após tempos tendo sido privados dela. Olhos famintos e a posição deles em lados opostos do salão ficou bem bacana (cinematográfica a cena). Ao mesmo tempo, Manu, em seguida eles começam a conversar e aí me passou a impressão de que deveria haver algo que os levasse a uma aproximação, uma caminhada de um para o outro teria ficado mais legal, não acha? Afinal pouco antes você tinha me dito que eles estavam em lados opostos do saguão e saguões costumam, pelo menos na minha imaginação, serem bastante amplos. Alguns erros de revisão também, que poderão ser facilmente acertados, acontecem aqui e acolá. Releve, amigo, esses são meros detalhes de um cara chato. Um chato leitor você arrumou.
    Achei legal a maneira como me conta a história. Sinto, Manu, que ela ficaria mais legal se não colocasse as separações “*******”, eis que a história segue de maneira fluida e linear. Tudo se passa em três, ou quatro horas apenas, não é mesmo? Senti que aqueles cortes, pelo menos para mim, provocaram paradas e elas não me ajudaram em nada, ou seja, me pareceram desnecessárias. Ao mesmo tempo, não achei que ficou bacana ter colocado o FIM ao terminar a história. Coisa de filme antigo, né? A maneira que colocou dos dois se comunicando com erros nas palavras, também me deixou, teve horas, confuso. Repare, Manu, em que há momentos em que tal comunicação acontece com a mudança para itálico e em outros está como texto normal e aí fica parecendo erro, como em “intero”. Resumindo, Mano, você sabe contar muito bem uma história. Conseguiu um bom argumento, trabalhou-o bem e soube conduzi-lo de maneira a me fazer entrar na história. Pontos para você, meu amigo. Parabéns mesmo. Curti bem a sua narrativa.

  19. Gustavo Araujo
    20 de novembro de 2018

    Resumo: Presidiários se encontram por acaso durante uma liberação, um indulto, talvez. Acabam conversando e trocando confidências sobre os motivos que os levaram ao cárcere.

    Impressões: Gostei do conto. Criei uma expectativa gigante com a situação apresentada, especialmente por conta da ótima habilidade do autor em contextualizar as cenas. O curioso é que deve ser algo tão comum, tão corriqueiro, que às vezes nem nos damos conta. Quantos presos devem se encontrar por acaso nesse tipo de situação? Legal também que não se apelou aos clichês típicos do gênero, que normalmente aludem às condições da cadeia.

    O conto tem como mote principal as confissões de parte a parte. Os personagens são interessantes e têm características bem marcantes, que os distinguem um do outro. Claro que a gente, como leitor, fica curioso para saber os motivos pelos quais eles foram presos e tal, mas creio que isso não é suficiente para segurar o conto sozinho.

    Pessoalmente, eu apostaria num enredo que falasse mais de amizade. Acho que a vida no cárcere cria uma espécie de ligação entre os condenados e é isso que deveria ter sido explorado, como uma cena em que um pudesse entregar o outro — ou não. Mas, enfim, é só minha opinião. Você, autor, optou por algo mais convencional. Bem escrito, bem bolado, mas poderia ter ousado um tantinho mais. De todo modo, parabéns!

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Informação

Publicado às 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos e marcado .