EntreContos

Detox Literário.

Retorno (Das Nuvens)

 

Não lembrava de tudo. Sabia do homem e seu cheiro, da casa, das estradinhas que se perdiam em margens de capim. Lembrava dos postes, dos fios alvoroçados pelo pouso das aves, do sopro quente do vento e do sol que só fazia queimar.

Ainda pela manhã deixou a casa do pai em direção à crista do morro, o terceiro, maior e mais distante. Era do que lembrava. Caminhava seguindo os riscos negros do chão, a sombra curva dos fios marcadas nas distâncias entre os postes de madeira.

Pela mão levava o filho que já passava dos quatro anos, mais terroso que ela.

Olhava o céu como se flertasse com as nuvens, mas só queria saber dos fios mexidos pelos pardais; eram sinais de que estava no caminho certo na direção daquele homem. O vento rápido arrastava pelo azul as nuvens cor de chá, brancas, purpúreas; a depender do desejo que tinha o sol de colorir o mundo.

Perdia-se nas sombras das árvores, desorientava-se no abrumar das nuvens, na altura de um monte, nos mexidos do capinzal. Nunca se distanciava de suas lembranças: os morros, os fios, a sombra dos fios pelas estradinhas margeadas de capim.

O filho, arredio por gosto ou arte, saltava barrancos, molhava os pés nas poças d’água e lama, rolava no capim, perdia-se no desejo de encontrar coisas que não havia perdido; tudo brinquedo: achava um braço de boneco e o enfiava na sacola que a mãe levava, depois um toco de lápis, as rodas de lata de um caminhão, mais adiante um nada indecifrável e ele imaginava construir um forte, uma cabana, um circo com mil palhaços, leões, ursos, tigres, girafas; todos gigantes, amigos e risonhos. Nos pés, as sandálias tomadas pela lama e o pó vermelho do chão; nem ligava. No corpo apenas o calção e a blusa de algodão com a estampa desmaiada de Nossa Senhora com o Menino Jesus.

“Larga isso, menino…”, ela dizia.

Ele não largava. Colhia um brinquedo imaginado e o levava até a bolsa da mãe. Tinha já o hábito das coleções, bem não sabia do quê; de tudo.

Às vezes ela corria veloz à frente dele, deixando que o filho ficasse para trás. Voltava-se e ria, saltava, fazia caretas, tão criança quanto ele, balançando seu vestido de chita florido. Nos cabelos um lenço vermelho pacificava o desalinho de todas as manhãs. Às vezes apenas olhava o filho, acompanhava seus movimentos com olhos de curioso espanto. Ele estava em sua vida, próximo, ia e vinha, preenchia e esvaziava, era riso e dor. Como tudo aquilo aconteceu?

“Vem!”, ela dizia.

O menino não ia. Chorava e ria, seguia lentamente a mãe com seus passinhos sujos. Ela retornava e o pegava ao colo, beijava seu rosto para logo devolvê-lo ao chão. Era quando o menino corria à sua frente, em disparada, e ria, saltava, fazia caretas com a graça da vitoriosa trapaça.

“Cuidado com o trem!”, ela gritava.

O menino não cuidava e ela o acolhia novamente ao colo. Um bando de rolinhas, certificadas do perigo voaram para longe do arrulho adormecente do trem. Sentados à beira dos trilhos aguardavam a passagem do comboio sob a fuligem saída dos vagões de minério que seguiam na direção do porto. Nos dedos ele contava aquele tanto de vagões: um, três, dois, três, cinco, dez, três, dois, nove…, não havia fim nem começo. Depois retomaram a viagem. Ele aos brinquedos, ela aos fios, aos olhos baixos, às sombras despejadas nas trilhas de terra vermelha tomada de capim e sol.

Ainda ouvindo o som distante do trem, ela se virou na direção do cume da ladeira e viu nas distâncias a sequência dos postes que perseguia, perdidos em longas subidas e descidas; lá, distante, haveria a casa do homem que devia reencontrar. Sabia por confusas lembranças que teria que ultrapassar o mais alto dos três morros, a crista dele, aquele feito só de barro vermelho e capim, onde haveria um tamboril centenário; depois desceria, mas não sabia quanto; disso não se lembrava. Era esse o pouco que ainda guardava vivo daqueles dias.

Sentou com o filho à sombra de um oitizeiro e inventariaram a sacola de coleções.

“Joga isso fora…”, ela disse.

Ele não jogava. Já ia cheia a bolsa que a mãe levava com os achados do filho que voltava a contar os brinquedos encontrados pelo caminho: um, dez, sete, três…

De onde estava podia ver ao longe a cidade na borda do porto. A locomotiva com infindáveis vagões contornava a grande curva no vazio da capoeira ao Norte da cidade e entrava no porto para descarregar o minério.

Como formigas, homens se moviam lentamente pelo grande pátio; uns sobre máquinas, outros caminhando nas sombras dos silos, nos barcos ancorados na lerdeza das águas. Um grande navio mineraleiro guardava providências para o embarque do minério.

Espantava-se por saber que tudo a se mover no porto era tão pequeno. As máquinas, que tão distantes, eram brinquedos. Os guindastes eram aranhas sonâmbulas, dinossauros de pescoço longo, todos a margear o vaivém das águas. Os homens nem a uma aranha chegavam de tão pequenos que eram. Pairando sobre tudo um sol pregado no azul: tudo fazia dó, um sonho feito para despertar.

Ouvira que do outro lado da baía haveria uma cidade imensa, mas era algo só de ouvir, nunca fez caso de se interessar, era tão distante que nem imaginava como tudo por lá seria. Sabia apenas da própria vida, que era a mesma, como pedras ou árvores antigas, a casa que sempre existira, o pai, as lembranças da mãe; tudo ali, perenes, a existir antes dela e continuar depois, menos a mãe, que era só ausência e saudade.

Da vida que tinha só conhecia o que cabia nas costuras e regas da horta, no preparo do almoço e do jantar. Faria dezoito anos em breve, meia vida, imaginava, em mais não acreditava de tão difícil que tudo era. O poço profundo de águas salobras e a cacimba de latão, o cercado da criação, a poda das laranjeiras depois da colheita, as compotas de mamão, os canteiros de salsa, os pés de milho e feijão, o cocho azedo dos porcos sempre cheios, o piso lavado, a roda do moinho na borda do rio triturando a ração que jogaria à criação. Galinhas, patos e gansos. Tantos pombos que chegavam e partiam. Esses não, não eram de criação, só de gosto vê-los chegar e ir embora. O pai sobre a rede descansava. Tudo nela era feito de zelo e cuidado. Uma mulher de enxadas, regas, costuras e alimentação.

Por que não nascera logo um homem de verdade? Mas o que sabia dos homens? Do pai sabia pouco, da voz e do mando, das providências que ouvia e obedecia, às vezes nem ouvia e a obediência chegava como se a água do mar lhe batesse displicente aos pés. O que faria o pai naquela hora? Talvez olhasse com desalento a lenha que ela cortaria para fazer o cozimento das compotas, ou dormiria na rede esperando que os braços dela cuidassem de tudo, hora ou outra, mas ele estaria lá, olhando e descansando, aguardando os resultados que faziam funcionar a horta e o pomar. Tudo. Dera por falta dela ou não? E do menino, do neto, dera pela falta? De estorvo que fora um dia, o menino era agora uma promessa de novos braços para tocar a terra, fazer as podas, as regas, cumprir as colheitas, somando-se aos braços dela.

Voltou a olhar em direção à subida íngreme do morro e puxou o filho pelo braço, a bolsa com as tralhas e a pequena mala com as roupas do menino. Do homem que procurava sabia apenas do cheiro de louro seco que tinha, da força excessiva, das mãos imensas e ásperas, do peso que tinha e que quase a sufocou.

“Vamos…”, ela disse.

Ele não ia, queria coisas, tudo era brinquedo, e agora eram os frutos que vicejavam nas árvores que margeavam o caminho. O menino correu a uma goiabeira onde o amarelo dos frutos gritava alto, ao sabor das carambolas. Do abieiro, mil olhos acenavam. Recolheu o quanto pôde das frutas e despejou tudo na sacola que a mãe carregava. Contou tudo, um a um nos dedos da mão: sete, cinco, três, quinze, dois, sete…

“Tem visgo…”, ela advertiu.

O menino não ligava. Lambuzou a cara no visgo dos abius que comeu. Os lábios se colaram e o menino quis sorrir e não pôde; quis falar e a boca travou. Vezes cuspiu o grumo do visgo e nada mudou. Esfregou na boca a blusa, as mãos, os braços. Tentou sorrir em direção à mãe. Ela sorria quando passou no rosto dele o pó vermelho do chão e esfregou. Tinha agora lábios imensos, numa pintura feliz de um menino palhaço. Ambos riram, o menino não se dava conta do quê.

Ela correu mais uma vez em direção ao alto do morro tentando animá-lo e ele chorou. Ela o aguardou de braços abertos e o menino a ultrapassou correndo em direção ao alto. Tão rápido correu que ela não o pôde deter, ficou fingindo querer pegá-lo, mas não pegou, corria adiante dele, que a seguia com manhas e choro forçado, feitos para enganar.

Voltavam a subir e já haviam cumprido dois morros e descido dois. Atravessaram um rio, uma vereda, uma vacaria, uma estrada de ferro, um grande pomar.

Não era a primeira vez que ela passava ali. Na vez anterior levou uma semana inteira para retornar a casa, esquecida do mundo. Alguém a procurou? Nunca soube ou perguntou. Do menino que começava a se formar em seu ventre só saberia algum tempo depois.

Outra vez estava ali, seguindo os mesmos fios, os mesmos postes que a levariam até o homem com mãos enormes e no corpo o cheiro de louro. Havia quase cinco anos que os pulsos estavam sarados e as roupas queimadas junto com o lixo no mesmo dia em que retornou a casa. A dor, essa, nunca foi embora ou esqueceu.

Nada disse ao pai e nada lhe foi perguntado. Uma semana inteira ausente. O pai, a dormir na fresca da rede ainda esperava dela as providências não cumpridas: as podas, as regas e as costuras que se acumulavam. Do pouco que restava em suas lembranças, apenas os fios, as trilhas estreitas margeadas pelo capim, os postes que diziam de um caminho até o homem que um dia a levou. Vivo ainda o cheiro inconfundível dos pés de louro que cercavam a casa.

Do alto da curva do morro maior, sob o imenso tamboril, via de um lado a sua cidade, a chácara, talvez um pai que ainda dormisse um sono despreocupado dos fazeres dela, que acabariam por se cumprir; do outro lado via a grande várzea perdida onde os postes a levariam e os fios terminavam. Lá estaria a casa do homem que queria reencontrar.

Em torno da casinha podia ver e lembrar dos loureiros. Sentiu novamente o odor daquele homem; mais lembranças que verdade.

Uma dor, a mesma, voltou com toda a força. Se acostumara a ela.

Podia ver a fumaça deixando a chaminé dizendo que ele continuava a queimar a lenha para secar os ramos de louro. Foi quando teve a certeza de que não se havia perdido. Ele estaria lá, o homem das mãos enormes, do cheiro intenso de louro seco, da força excessiva que um dia prendeu seus pulsos e a arrastou morro acima para só deixá-la partir depois de uma semana, com um filho a crescer em seu ventre. Dele só sabia o silêncio, a força, o peso sufocante enquanto invadia seu corpo pequeno, dando-lhe as dores do desassossego que já duravam tempo demais.

Pôs nas mãos do menino a pequena mala, a bolsa com os brinquedos improvisados, seus achados, as frutas que havia colhido pelo caminho. Com a mão virada na direção dos loureiros, indicou ao filho o caminho que os levariam a encontrar o pai.

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.