EntreContos

Detox Literário.

Os Fantasmas de Alba Negri (Violeta Herzog)

 

Desde que tinha memória, Alba Negri tinha também fantasmas. Ela era ainda criança quando acordou no meio da noite com o rangido fino da dobradiça enferrujada da porta do quarto que abria. Um fio de luz vindo do corredor, permitia que ela enxergasse um pouco na escuridão. Não tinha ninguém do outro lado da porta, todos na casa dormiam. Nenhum vento podia como a porta espontaneamente se moveu.

Alba se encolheu embaixo dos lençóis, sentiu o coração acelerar, tentou fechar os olhos, mas não conseguiu parar de olhar para a porta. A porta ainda se mexia, quando a menina viu uma figura disforme no corredor, uma fumaça acinzentada, que flutuava como uma névoa, sem encostar nas paredes ou no chão, veio em sua direção. A sombra entrou no quarto, parou em cima de Alba, voando entre a menina e o teto, ficou parada alguns minutos e sumiu. Alba tentou gritar, correr, mas seu corpo não respondia. Passou o resto da noite paralisada. De manhã, quis acreditar que estava sonhando.  Mas a sombra voltava quase todas as noites. Intimidada, Alba espichava a cabeça para fora dos lençóis e fitava a sombra voadora. Era possível distinguir algumas formas na figura fluída. Mãos gigantes com unhas muito largas e grossas, um nariz enorme, pequenos olhos apertados. A cada aparição a sombra se aproximava mais de Alba, até envolver seu corpo, rodear sua cabeça, sentar em seus ombros. Alba passou a andar de cabeça baixa, sentia o pescoço dolorido, os ombros duros, seu corpo abriu espaço para a sombra e a carregava dia e noite.

O segundo fantasma apareceu quando Alba já era adolescente. Certa noite, ela, que já dormia apenas em curtos intervalos, sentiu um calafrio. Seu quarto ficou gelado, apesar da escaldante temperatura típica dos verões cariocas, que deveria estar cozinhando o ambiente. No canto do cômodo, olhando fixo para a parede: uma menina. Tinha aparência de cinco ou seis anos, pálida, vestida com uma camisola branca. O pequeno fantasma virou a cabeça em direção a Alba, sem mover o corpo. Seu rosto era um borrão embaçado, coberto de lágrimas. O espirito aparecia todas as madrugadas, sempre no mesmo horário, sempre no mesmo canto, voltada para a mesma parede. Alba ouvia um choro baixinho, mas fingia não perceber, apertava os travesseiros contra os ouvidos para não ouvir a súplica do além.  

Alba já era adulta quando o terceiro fantasma apareceu. A essa altura, ela temia ir dormir, passava noites seguidas em claro até ser nocauteada pela exaustão. Em uma noite de insônia, ela viu a noiva pela primeira vez. O espectro apareceu do outro lado de fora da janela de seu quarto, muito magra, com o rosto coberto por um longo véu e saias de renda que balançavam no ar. A noiva estava presa em uma camisa de força que continha seus braços e tronco. A aparição se dobrava, debatia, contorcia, tentando se libertar.   

Mesmo quando não via os espíritos, Alba sentia como se eles estivessem ao seu lado. Sentia sua presença também durante o dia. Eles lhe provocavam arrepios e coceiras, era como se percorressem seu corpo, como bichos andando na sua pele. Alba nunca adormecia completamente, estava sempre alerta aos espectros que a rondavam. Seu sono era repicado e tormentoso. Também nunca estava plenamente acordada. Vagava em transe, exausta, sem saber ao certo o que era sonho ou realidade. Vivia nessa zona cinzenta, na terra de ninguém entre o sono e a vigília.

Ela buscou toda forma de ajuda científica e metafísica. Fez todas as formas de terapia, foi a todas as Igrejas, terreiros e centros que conseguiu encontrar. Acendeu velas e incensos. Encheu a casa de santos, pedras, terços e rosas brancas. Tomou banho de sálvia, sal grosso, água benta. Nada abalava suas assombrações. Terminou por concluir que era ela que atraia os espíritos. Ela era impura, poluída, e, por isso, eles a perseguiam. Ela era como uma ferida aberta, pútrida, infectada e infestada de maus agouros. Na tentativa de se purificar, ela tomava banhos intermináveis, arranhava e ressecava a pele de tanto esfregar. Lavava também a casa, as roupas e todos os objetos que tinha com a mesma compulsão, mas seu esforço era inútil.

Com o tempo, o medo dos fantasmas se transformou em medo do mundo. Ela pouco saia de casa, não tinha amigos, não interagia com quase ninguém. Trocava, no máximo, poucas palavras com sua mãe, que morava com ela, mas era fria e falava o mínimo necessário. Temia os homens mais que tudo. Nas suas raras excursões para fora de casa, se ouvia um homem andar atrás dela, atravessava para outro lado da rua. Quando João, que trabalhava na banca de jornal em frente ao seu prédio, sempre sorridente, dava bom dia, Alba virava o rosto.

 Quando a mãe de Alba morreu, ela passou semanas trancada em seu apartamento com seus fantasmas, sem falar com ninguém, sem nem abrir as janelas. Ela estava arrumando caixas antigas com coisas esquecidas de sua mãe, quando uma foto chamou atenção. Na foto, estavam ela, ainda bem menina, sua mãe, um homem e uma mulher desconhecidos e mais duas meninas, também crianças, na frente de uma casa que lhe pareceu familiar. Atrás da foto, um bilhete: “Querida Alba, esses são seus tios Magno e Michelle com suas duas filhas Eduarda e Flávia. Nós estivemos na casa deles por uns meses, depois que seu pai foi embora. Na época, eu precisava de ajuda. Me desculpe. Com amor, mamãe.”

Sua mãe nunca falava sobre o passado e ela aprendera a não pensar no assunto. A fotografia, porém, despertou em Alba um sentimento inesperado, uma curiosidade que ela nunca sentira antes e que era também um sopro de ânimo e coragem. Queria saber quem eram aquelas pessoas na foto e porque sua mãe sentira a necessidade de se desculpar.

Alba não tinha o hábito de acessar redes sociais. Pessoas virtuais a amedrontavam tanto quanto as reais. Mesmo assim, sem muita dificuldade, localizou Eduarda Negri. Trocou mensagens com a prima por um tempo. Soube que sua Tia Michelle morrera há alguns anos, que Flávia casara e mudara para São Paulo e que Eduarda vivia sozinha com o pai na casa da foto. Seu Tio Magno, disse Eduarda, estava muito doente, acamado e senil.  

A convite de Eduarda, Alba foi conhecer a casa em que estivera hospedada na infância. A casa tinha um terreno grande, uma sala ampla. Eduarda mostrou o quarto em que Alba dormira nos meses que passara ali, mostrou também o quarto de suas irmãs e os demais cômodos.

Seu tio estava no mesmo quarto que sempre ocupara, no final do corredor. Eduarda contou que ele não estava nada bem. Já quase não interagia ou entendia nada. Tinha problemas no coração, uma angina instável. Se ele sentisse dor no peito e não tomasse imediatamente seu remédio, poderia enfartar e morrer. Por isso, Eduarda sempre deixava o remédio do coração e uma garrafa de água ao lado da cama do pai.  

Ao ver seu tio, Alba ficou sem ar, teve náuseas e tremores. Seu tio tinha mãos grandes, unhas largas e grossas, um nariz enorme, olhos pequeninos apertados. Ele tinha a forma da sombra que a aterrorizava desde criança. Alba sentiu o cheiro do tio, ouviu sua respiração e lembrou dos tempos que passara naquela casa. Foi como se a contenção que embarreirava suas memórias tivesse se rompido em um estalo. As reminiscências reprimidas, esmaecidas desde sua infância, resvalaram todas juntas na consciência, ganharam cores e contornos. Alba lembrou dos passos daquele homem, que, nas madrugadas, atravessava clandestinamente o corredor, abria sua porta, deitava em cima dela, colocava a mão na sua boca e levantava a camisola branca de menina que ela vestia.  

A prima saiu de casa. Aproveitou para ir ao mercado e resolver outras pendências. Alba ficou olhando o tio. Ele estava decrépito, magro, fraco. Ela agora era maior do que ele. Magno estava acordado, mas não se movia e nem falava, soltava uns poucos grunhidos incompreensíveis.

Eduarda alertara que ele tinha problemas no coração. Não foi surpresa, então, quando ele colocou a mão no peito, dobrou o torço com esforço e estendeu o braço para o remédio na mesinha. Alba andou em direção a mesa com a sincera intenção de colocar o remédio nas mãos do tio, mas, fez o oposto, colocou o frasco no bolso, sentou em uma cadeira no canto do quarto e esperou. Viu o homem balançar os braços, torcer o corpo, ranger os dentes, gemer e, aos poucos, sufocar. Com a respiração disparada e a boca aberta, o velho buscava puxar o ar como um peixe que tenta sobreviver fora da água. Seus olhos, cada vez mais esbugalhados, ficaram repletos de veias vermelhas. Alba não sabia, mas sufocar é um processo demorado e, pelo que ela pode ver, bastante doloroso. Ela ficou ali, olhando para morte que se instalava e, aos poucos, ocupava todo o cômodo. Esperou até que o corpo do tio pendeu inerte, diminuiu ainda mais de tamanho, empalideceu e gelou.

Enquanto esperava o tio morrer, Alba viu, mais uma vez, seus fantasmas. A menina, como sempre, apareceu fitando a parede, mas, dessa vez, virou o corpo todo para Alba. Seu rosto já não estava embaçado e, mesmo na penumbra, dava para ver que o rosto da menina era o mesmo que ela tinha na foto que sua mãe deixara. Alba parou de sentir medo, se aproximou do fantasma, tentou secar suas lágrimas, mas suas mãos atravessaram a figura sem corpo. De perto, pode ver que o fantasma falava baixinho e, com sua pequenina voz, pedia ajuda. Alba disse que iria ajudá-la, que já lembrara de tudo, que ela podia descansar. A menina parou de chorar, virou novamente para a parede e sumiu.  A sombra apareceu em cima do tio. A sombra se confundiu com a morte, pairou esvoaçante, agitada, mudando de forma, se desfazendo e recompondo, enquanto o idoso sufocava. Desapareceu no exato momento que o homem parou definitivamente de respirar.  Só a noiva continuava ali, presa na camisa de força, coberta pelo véu. 

Ao ter certeza que o tio estava morto, Alba foi embora daquela casa o mais rápido possível. Voltou para o Rio naquela mesma tarde, desligou o telefone, desativou seu e-mail. Não queria receber mensagens de Eduarda.

Depois de alguns dias, conseguiu sair na rua. Suas saídas se tornaram cada vez mais frequentes, seus banhos já não eram tão longos, mas ainda não conseguia dormir.

Às vezes, tomava coragem e comprava uns biscoitos na banca de jornal em frente ao seu prédio. Agora, quando João, sempre sorridente, dava bom dia ela respondia e tentava sorrir também.  Um dia, João saiu de trás do balcão para mostrar uma revista para Alba. Ele nem percebeu quando seu braço roçou no dela, mas para Alba aquele toque acidental era uma festa, um réveillon. 

Alba enrubesceu e sentiu o braço formigar. Fugiu para casa sem entender bem o que estava acontecendo. No canto do quarto, viu a noiva, mais perto dela do que nunca e sem véu. A noiva também tinha o rosto de Alba, uma versão mais velha dela, com olhar malicioso e uma maquiagem pesada que ela nunca tivera coragem de colocar.

Alba correu para o banheiro e encheu a banheira de água quente. Quando seu corpo todo estava imerso em água, passou a mão nos seios que ela tanto escondia, arranhou levemente o próprio abdômen, acariciou as coxas. Calores e espasmos percorreram seu corpo que envergava. Um gemido sorrateiro, baixinho, escapou de sua boca entreaberta e o corpo relaxou na banheira. Ainda confusa, mas rindo um pouco, Alba levantou, se enrolou na toalha e, sem se secar, foi para o quarto. Viu que a noiva também tinha desaparecido. Deitou na cama atravessada, ainda pingando, esquecendo a posição correta dos pés e ignorando o travesseiro. Deitou e dormiu.

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.