EntreContos

Detox Literário.

O Que Fica (Thanatos)

 

O banho era sagrado; tinha a função de purificar o seu corpo para a tarefa a seguir.

Antônio tinha a toalha enrolada na cintura. Atrás de si, o chuveiro ainda gotejava dentro do box. Diante dele, seus dois melhores amigos: a pia e o espelho.

O espelho era o amigo sincero. Falava sem papas na língua sobre as rugas que gritavam para o mundo a sua idade real. A pia era o amigo útil. Passava-lhe o creme anti-idade e o hidratante. Também segurava para ele a base e o pó que usava para disfarçar as imperfeições e acentuar o que tinha de melhor. Ao término da sessão – o chuveiro já não pingava mais – Antônio e o espelho sorriram.

O embelezamento de si mesmo fazia parte da purificação. A tarefa anterior nada tinha de belo: muito pelo contrário, o processo de embalsamento do cadáver tirava do corpo tudo o que havia de imundo. Todas as secreções e gases vinham à tona uma última vez para dar lugar ao eterno. Era um trabalho necessário; a tempestade antes da calmaria. Terminado o serviço, porém, e agora limpo e digno, Antônio andou até a sala que dormia na escuridão. Embebeu-se na ausência de cor, até que todo o seu corpo estivesse mesclado em negro com o resto do ambiente. Respirou fundo. Acendeu a luz.

A lâmpada especial não era forte o suficiente para iluminar a sala da forma correta. A luz veio em um cinza monótono. Ao centro, porém, Jaqueline brilhava. Deitada sobre a mesa metálica, era luz na escuridão. Um jardim de flores no deserto. As mãos sobre a barriga encaixavam-se com perfeição. Os olhos fechados e o semblante sereno de nada falavam sobre o rigor mortis.

Enquanto vestia as luvas cirúrgicas e a máscara, pensava na injustiça do mundo. Para pessoas como Jaqueline, não havia competição. Tantos cadáveres perambulavam pela cidade enquanto ela esbanjava vida mesmo em morte. Era uma pintura a óleo criada pela natureza, e Antônio era o curador do museu.

Dirigiu a luz da luminária para o rosto da jovem que descansava. Era a parte mais demorada, e a que sempre precisava de mais trabalho. A boca perdia a cor rápido demais. Com um pincel delicado e mão firme, Antônio emprestou um tom roseado para os seus lábios. Os olhos inocentes não pareciam ter ciência de que jamais voltariam a se abrir. Com base, pó e um pouco de sombra, o Curador removeu o tom escuro que insistia em aparecer por ali colocando, em seu lugar, uma pele levemente corada, como se Jaqueline, na verdade, estivesse de olhos fechados pela vergonha de ter acabado de ouvir uma declaração de amor.

A pele de todo o seu corpo precisava de trabalho. O tempo roubava a sua cor lenta e irredutivelmente. Precisaria de…

Ding. Dong.

Os olhos de Antônio dirigiram-se incrédulos até a passagem para a sala de jantar. Não queria acreditar que alguém o atrapalhava durante a sua arte. Tinha comprado aquela casa em um condomínio de luxo justamente para…

Ding. Dong.

Estava furioso mas, em respeito a Jaqueline, controlou-se. Removeu as luvas e a máscara, então andou calmamente até a sala de jantar, onde se encontrava a porta da frente de sua casa. O vulto do outro lado esticava o braço para tocar a campainha mais uma vez, mas Antônio girou a chave antes que o fizesse. Quando abriu a porta, deparou-se com Thalita Menezes, sua vizinha.

Mas é claro…, ele pensou.

– Thalita…

A vizinha encontrava-se em estado deplorável. O cabelo desgrenhado e o rosto molhado de lágrimas, tomado de vermelho. Sua boca tremia e ela fungava, mas falou tentando disfarçar o desespero.

– Ah, Antônio, Antônio. Me perdoa bater na sua casa assim. Na distribuição dos cartazes, esqueci que você estava lá quando tudo aconteceu.

– Não se preocupe Thalita. Então você já tem os cartazes? Eu queria ajudar na distribuição.

– Sim, estão aqui.

Ela desenrolou um dos cartazes. Nele, Jaqueline o olhava com um sorriso alegre no rosto. Era a foto mais recente que os Menezes tinham da filha, tirada há meros dois meses na sua festa de quinze anos por um fotógrafo profissional. A luz, a maquiagem, o sorriso: tudo era perfeito em Jaqueline.

– Ela está linda, não está? – Thalita falou, tentando em vão esboçar um sorriso.

– Sim, como sempre foi Thalita. Deus os abençoou com uma filha tão maravilhosa que com certeza irá ajudá-los a encontrá-la. Deixa alguns comigo que eu vou terminar uma ligação e já saio para ajudá-la a distribuir. Você quer entrar? Quer uma água?

O sofrimento de Thalita tocava-lhe a alma de tal forma que sentia a garganta apertar. Um pouco mais e choraria junto com a antiga amiga. Sentiu que de alguma forma deixou que isso transparecesse em seu semblante. Thalita tocou o seu rosto com ternura, olhando-o com um meio-sorriso.

– Ah, Antônio. Você é um anjo. Obrigada, mas eu tenho que distribuir os cartazes. Mais tarde, talvez, possamos comer algo juntos lá em casa, o que acha? Se tudo der certo, receberemos uma ligação. Algo me diz que tudo isso acaba hoje. Tem que acabar.

Antônio meneou a cabeça com um sorriso tímido e uma lágrima escapando-lhe os olhos.

– Mas é claro Thalita. Nos falamos mais tarde.

Despediram-se com um abraço. Antônio voltou para dentro de casa, deixou os cartazes sobre a mesa de jantar e tocou os olhos lacrimejantes. Que situação terrível, meu Deus. Aquela família não merecia aquilo.

Suspirou. Teria que retocar a maquiagem.

Duas horas depois ele terminava a sua arte. Afastado da cama metálica onde agora jazia uma Jaqueline que poderia acordar a qualquer momento, Antônio removeu a máscara e as luvas, admirando a pintura restaurada à perfeição. Dependendo do ângulo que a olhasse, ele poderia até mesmo divisar um sorriso no rosto da jovem. Talvez estivesse sonhando bons sonhos.

Seguiram-se as fotos, onde a busca pela luz e ângulo perfeitos demorou mais do que ele esperava. Trouxe então uma manta branca, onde enrolou Jaqueline até que ela se transformasse em uma silhueta esbranquiçada sobre a mesa. Ela dormiu ali durante toda a tarde, quando Antônio saiu de casa para ajudar Thalita a espalhar os cartazes em busca da filha desaparecida.

À noitinha, Antônio voltou para casa mas não entrou pela sala de jantar. Deu a volta pelo jardim, onde cuidava das mais variadas flores. Andou por elas, tocando-lhes as pétalas e sentindo suas energias e histórias. Escolheu Oleandro e Amaranto.

Entrou por fim em casa e carregou o vulto branco com os próprios braços. Lá fora, em um canto separado do jardim, uma cova a esperava. Deitou o embrulho delicadamente sobre a terra e, sem pressa alguma, escondeu-o a sete palmos. Sobre a terra remexida, criou um belo arranjo de Oleandros e Amarantos, deixando ali também suas sementes. As flores receberiam sua mais nova obra-prima com amor, e dela cuidariam bem.

Andou por outros arranjos de flores parecidos, alguns dos pés com raízes já estabelecidas há algum tempo.  Sentou-se em um banco afastado no jardim, de onde podia olhar a vizinhança. Suspirou. Na noite, o céu estrelado serviu de pano de fundo enquanto Antônio fitava com olhos vazios o firmamento. Tinha no olho da mente a visão clara de Jaqueline: perfeita; magnânima; sem falhas. Duas estrelas próximas nos céus eram os seus olhos. Outras desenhavam o seu rosto.

O embrulho branco sob a terra entraria em decomposição em pouco tempo. A carne daria lugar a ossos, que por sua vez dariam lugar ao pó. Mas seus olhos não veriam nada daquilo. O que ficou de Jaqueline no mundo, a única coisa que restou da sua existência, foi a glória da sua perfeição.

Nada mais importava.

 

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.