EntreContos

Detox Literário.

O Lírico Poder Transformador da Majestade (Alice)

 

11 de janeiro de 1985, Sexta-Feira

 

Era um dia quente típico de verão carioca. Helena me esperava debaixo do prédio dela, mexendo na mecha cacheada do cabelo, um tanto nervosa. Quando me avistou, um mundo saiu das suas costas.

– Xande, você tem certeza que vamos conseguir entrar?

– Tenho. Um conhecido meu trabalha na segurança. Ele estava me devendo um favor…

Ela me deu um grande abraço. Um daqueles abraços que somente Leninha poderia me dar. Os dois braços se fechando no meu pescoço, uma das mãos fazendo um afago na minha cabeça raspada nos lados.

– Não acredito que estamos indo para…

– O melhor show de todos os tempos?

Ela simplesmente assentiu para mim.

O ponto de ônibus não ficava muito longe da casa da Helena. Fomos conversando sobre algumas bandas que iriam tocar no festival. Antes dela, eu nem curtia tanto música, especialmente rock. Para mim, era só um bando de moleques mimados, com muito dinheiro e um feitiço inexplicável sobre as pessoas. Como as pessoas aquele arranhado metálico eterno invadindo o interior de seus ouvidos?

Não que Helena tenha mudado muito isso em mim. Eu ainda achava que algumas bandas eram apenas terroristas atacando minha audição, porém, conseguia suportar as melhores. Quando digo “melhores”, quero dizer as que Leninha gostava. Aquelas capazes de arrancá-la da realidade e entrar num estado de nirvana, com um sorriso bobo transcendental e o balançar de cabeças, em inúmeros movimentos e direções.

Enquanto íamos para a Barra, compartilhávamos os fones do Walkman dela. Dublávamos as vozes dos vocalistas, empregando nossas próprias caretas e trejeitos.

Não foi difícil encontrar a Cidade do Rock. Uma verdadeira diáspora se dirigia ao local. Quanto a nós, cabia atravessar aquele mar de gente, indo contra a correnteza humana. A nossa educação deu espaço para a pressa e certa rudeza. Não é com gentileza que se vence águas turbulentas.

César me esperava há uns duzentos metros de distância do portão principal. Entregou os ingressos e disse.

– Chegou bem na hora, cara! Eu já estava pensando que você tinha desistido.

– Nada. Eu não ia perder esse show, por nada, Cesinha. – Comentei, animadíssimo, totalmente contagiado pela energia da Cidade.

– Sei como é. Quando soube que ia ter o Queen, eu tinha que vir, nem se fosse como segurança.

Eu e Helena agradecemos e ouvimos:

– Bom show, pombinhos. No final, nós nos encontramos aqui. Levo vocês em casa, beleza?

Notei que, desde que atravessamos aquele mar de pessoas, não soltamos as mãos. Sorrimos envergonhado um para o outro e, em alguns segundos, nos tornamos apenas mais duas pessoas na multidão.

O sol das 13h castigava. Helena havia trazido uma marmita. Comemos sentados no chão mesmo; arroz, bife frito acebolado e batatas fritas murchas. Compramos, por um preço nada camarada, duas garrafas d’água mornas, para ajudar a descer a comida. A fim de passar o tempo, Leninha e eu conversávamos com as pessoas ao lado. Uma moça bastante simpática (e rica), provavelmente com 30 anos, tirou uma foto nossa:

– Vocês são tão fofos. Obrigada por me deixar tirar uma foto de vocês. Toma aqui. – A ruiva nos entregou a foto já revelada.

A maioria das pessoas era um pouco mais velha do que nós. Universitários de vários lugares, fazendo inúmeros cursos e com inúmeros motivos para assistir ao maior espetáculo que o Brasil produziu.

– Nós estamos marcando história. – Disse um cara extremamente bêbado, enquanto nos abraçava, exalando aquele fedor decorrente de uma mistura de suor e álcool.    

Com a chegada da noite, alguns artistas tupiniquins e internacionais começaram a passar pelo palco. Helena curtia cada um deles. Até mesmo aqueles músicos muito mais idolatrados pelos nossos pais.  

Logo depois da última atração antes deles, como num casamento, quando anunciam que a noiva está a caminho, o tempo se arrastou um pouco, apenas para aumentar a grande expectativa para a razão daquilo tudo acontecer. Helena me olhava angustiada e perguntava um tanto exasperada:

– Meu Deus, cadê eles?  

O apagar das luzes fez com que a multidão sumisse na penumbra. Agarrei a mão de uma pessoa, torcendo que fosse da Leninha. Vários brilhos, de inúmeras cores, misturados à fumaça a qual tomava o palco anunciavam a chegada da Majestade. Mesmo com mãos e cabeças na minha frente, pude distinguir claramente os corpos de Freddie, Brian, John e Roger.

O rugido que aquele mar de gente emitiu mostravam a magnitude do momento. Olhei para Helena. Ela não ia conseguir acompanhar o show. Eu não tinha força para aquilo, mas não me importava. Agachei na frente dela e ela subiu nos meus ombros.

O esforço valia a pena, embora minhas pernas estivessem exaustas e a coluna ardia em dor logo depois da primeira canção da banda. Fluente em inglês, Helena cantava a plenos pulmões as músicas, enquanto eu tentava acompanhar, balbuciando as partes que reconhecia ou que acabava de aprender.

A sinergia era fantástica. Certamente eles sentiam a vibração carregada no ar. Faltava apenas a fagulha para incendiar, de vez, o show.

Brian acendeu. Os acordes do violão foram facilmente reconhecidos. Desci Helena, pois não agüentava mais mantê-la no alto. O brilho no olhar e o sorriso estampado no rosto dela seriam o suficiente como agradecimento. Mas ela me puxou para um beijo.

Quando voltamos, era como se um milagre tivesse acontecido. Dava para ver claramente Freddie. O vocalista da banda, por alguns segundos, cedeu seu lugar para a multidão. Regeu a voz-rugido profunda, afinada e encantada por ele:

Love of my life, you’ve hurt me.
You’ve broken my heart,
and now you leave me.

Love of my life, can’t you see?
Bring it back, bring it back.
Don’t take it away from me.
Because you don’t know
What it means to me.

Aquilo foi impressionante demais para mim. Ver Freddie naquele estado, um tanto estonteado pela resposta do público. As pessoas estupefatas por estontearem a banda. Todo mundo na mesma frequência.

E assim seguiu-se durante todo o restante do show. Numa espécie de coral composto por mim, Helena, Freddie e mais umas 270 mil pessoas marcando o espetáculo como um dos maiores de todos os tempos.

Depois que acabou, era difícil encontrar uma forma de reagir. Precisava de tempo para entender aquela aura lírica poderosa que presenciei. Devo ter demorado uma hora para despertar do meu estupor, enquanto Leninha metralhava um resumo sobre o que havia acabado de vivenciar.  

 

Brasília, 11 de novembro de 2018

 

Filha, você está pronta?

– Só falta o perfume.

Espirrei um pouco do liquido do frasco dourado. Sorri ao sentir o cheiro levemente doce no ar. Dei uma última checada no espelho, peguei o casaco de couro e saí do quarto.  

– Alice, você sempre demora, né? Meu Deus…

Enquanto papai dirigia na chuvosa e fria noite de domingo, meus dedos sambavam pelo celular, muito mais por uma tentativa de ignorar aquele típico clima tenso e pesado que se instaurava no ar entre nós do que por conversar com alguém do outro lado da tela.

– Você acha que esse filme vai ser bom? – Arrumei um pouco de coragem para quebrar o gelo, mesmo já sabendo o resultado da minha tentativa.

– Acho. – A secura do papai foi mais do que o bastante para eu retornar a atenção para o Instagram.

No rádio, alguma notícia sobre o vestibular evitava o silêncio solene de velório no carro. Seria nessa hora que mamãe falaria algo como:

– O ator está igual ao Freddie, amor. É inacreditável como eles conseguiram porque, se você for ver a foto normal dele, pensa que ele, no máximo, consegue ser um desses covers muito ruins que se encontram por aí.

Mamãe era assim. Falava pelos cotovelos, detestava esses silêncios incômodos. Silêncios os quais, quando ela estava viva, somente ouvi umas três vezes. Nas únicas três vezes que vi os meus pais brigando.

Era como se ela fosse uma ponte que comunicava duas ilhas rivais. Sem minha mãe, eu era apenas uma conhecida para o Alexandre.  

– Alice, vai para as Lojas Americanas comprar algum biscoitinho, ou um chocolatinho, por favor. Me recuso a pagar esse preço numa pipoca. – Fui sem reclamar, apenas para fugir daquele mal-estar, deixando meu pai sozinho na fila.

Uns quinze minutos depois, lá estavam eu e Alexandre, sentados no bom lugar escolhido por ele. Os trailers demoravam uma eternidade para terminar. Era a expectativa pelo filme do Queen ganhando da paciência que construí arduamente desde a primeira vez que vi o pôster anunciando a cinebiografia.

Pela primeira vez, papai saiu daquela armadura que entrou desde o falecimento da esposa. Foi devagar, como se tivesse esquecido a sensação do ar fresco.

O rosto duro, aos poucos, cedeu às emoções. Os lábios eram comprimidos um contra o outro. Lágrimas desciam lentamente, enquanto as mãos tentavam, em vão, parar aquela sensação de queimação no nariz. O pigarreio era o mecanismo de expelir o nó que se formava na garganta. Os olhos marejados miravam fixamente a tela do cinema, a qual mostrava Freddie descrevendo a sensação daquela noite no Rio de Janeiro.

Não sei para onde papai foi transportado ao ver aquelas cenas. Talvez fosse para o mundo das histórias que eu adorava ouvir de mamãe. Onde os plebeus Alexandre e Helena, que viviam naquele típico romance de adolescente “chove-não-molha”, foram para um show marcante na história do rock. Ou para o dia em que Leninha ouviu do tímido Xande o escapar sincero do primeiro “Te amo!”. Ou do “Aceito” na Igreja de São Gonçalo…

Fiquei ali, dividida entre o filme do Queen e o papai perdido em nostalgias. Embora, vez ou outra, quando uma música era tocada, meu pai reagia e cantava. Eu estava prestes a ralhar com ele, quando notei que o cinema inteiro cantava. Seja a Rapsódia Boêmia, seja a Radio Gaga, as regras de silêncio absoluto foram ignoradas pelas lembranças de cada pessoa da sala de cinema.

Acho que, quando saí do cinema, tive a mesma reação que o papai teve ao sair do show. Pelo menos, de acordo com o relato da minha mãe. Eu apenas olhava, abobalhada, para os cantos. Enquanto isso, meu pai não demonstrava sinais de voltar para sua armadura. Entregou a chave do carro para mim e disse:

– Vamos para casa.

Durante o tempo no qual eu dirigia de volta para casa, papai olhava fotos antigas que ele passou para o celular. Uma inclusive do show de 85. Os dois estavam com os rostos colados, exibindo sorrisos vitoriosos, como se ninguém tivesse notado que eles eram um tanto jovens para estarem ali. Mas não acho que alguém se importava com isso, naquela época.  

O silêncio não me incomodava mais. Papai, com a voz embargada, resolveu contar o seu lado da história:

– Era um dia quente típico do verão carioca…

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.