EntreContos

Detox Literário.

Cinzas (G. T. Princewood)

 

O soldado caía nas profundezas do abismo e ouvia mil vozes sussurrando coisas incompreensíveis. Ele não sentia suas pernas nem seus braços. Não sentia calor, nem frio.

Sua vida parecia dissipar enquanto ele se contorcia nas trevas, empurrado em direção ao solo. Seu corpo desabava por tubulações enferrujadas, veloz como uma bala.

O mergulho na escuridão já durava tempo demais e o homem chegou a ponderar que, talvez, o fim fosse justamente aquilo: apenas a sensação de cair eternamente. Resolveu, então, entregar-se ao destino, deixando que o vazio o engolisse.

O baque seco do seu corpo ao atingir o solo foi primeiro uma surpresa, seguida pelo desespero. De alguma forma, ele permanecia vivo, consciente.

Tentou se mover. Não conseguiu.  As órbitas dos seus olhos giravam, rebatiam da orelha ao nariz à procura de alguma luz.

Com o silêncio profundo abraçando-o, ele desejou com todas as forças poder se desgarrar do plano físico e descansar em paz.

O tempo executava sua tortura e sua única companhia era a própria Consciência. Companheira essa que, ele podia sentir, aos poucos se transformava em algo terrível e controverso. O soldado podia senti-la nas profundezas dos seus pensamentos. Uma criatura com olhos injetados que ultrapassara os limites da sanidade, voltando-se contra ele e tornando-se sua inimiga mais mortal a partir daquele momento.

A Consciência impiedosa e incontrolável aproximava-se, pronta para feri-lo com o chicote da amargura, para embebedá-lo com a desesperança e para afogá-lo na ira e na loucura, até que ele fosse destruído, reduzido a menos que nada. Até que apenas o recipiente restasse. Só o corpo alvo, nobre, mas inerte, sem utilidade. Como um rubi esquecido em meio à uma porção de cascalhos. Como só mais um galho seco na árvore despida pelo outono.

O som de passos fez com que o soldado deixasse sua batalha interna por um instante. Ele ouviu o tamborilar frenético do seu lado direito, contornando seu corpo. Alguns segundos depois os passos pararam e ele ouviu algo sendo arrastado sobre o chão.

Ao perceber que a entidade incorpórea, moldada à escuridão, estava bem próxima, a tensão fez com que permanecesse imóvel. Ele aguardou ser tocado, ou mesmo morto. O medo e o terror eram como mariposas que se debatiam dentro do seu corpo, tentando escapar por sua garganta, rasgando-o ao meio e abrindo caminho para a liberdade.

A inércia pairou no ar por tempo demais e, tomado por uma agonia insuportável, o homem gritou, berrou, rolou de um lado para o outro, se debateu e agitou os braços em uma última investida por socorro. Mas fez isso por dentro, apenas. Por fora era como um pedaço de madeira.

Não havia como saber quanto tempo se passara. Assim como a luz, o tempo se tornou volátil ali. O soldado lutava contra a loucura, tentando forçar sua alma a reagir. E no meio dessa batalha, flashes do que pareciam lembranças irromperam em uma mistura de repugnância e medo que começou a corroer a fina camada de sua sanidade.

Mesmo envolto em trevas, ele fechou os olhos…

“… e se viu de pé no topo de um monte coberto de cinzas. No horizonte, distante, o inimigo: um aglomerado asqueroso de carne e metal, com bigodes e orelhas pontudas saltando para fora dos capacetes. Um exército de criaturas que grunhiam coisas incompreensíveis e se debatiam, ineptos, como porcos brigando por lavagem.

Olhou para baixo e viu suas tropas. Os rostos endurecidos e sombrios aguardando a morte certa.

Apontou para o adversário e ordenou o ataque, mas o silêncio era um pano cobrindo sua boca, que se mexia para cima e para baixo, mas não pronunciava nada.

O inimigo avançou. Incontáveis olhos vermelhos com dentes projetados para fora de bocas imundas. Animais com uma fome mortal e prontos para destruir qualquer coisa viva que encontrassem.

Eles investiram rápido e atingiram o contingente como uma rocha em um castelo de areia. Um monstro carcinogênico acometendo os que permaneciam na linha de frente, mastigando e arrancando pedaços de seus corpos até reduzi-los a pó.

O guerreiro levantou sua espada e se preparou. Era apenas um ponto vermelho minúsculo de frente a uma floresta viva, feita de unhas e dentes, saltando para abocanhá-lo.

Preparava-se para dar o primeiro e último golpe quando uma gigantesca mão, branca e delicada, surgiu por trás dele, passou pelo seu lado direito e dobrou em forma de concha, envolvendo-o afetuosamente.

E novamente, a escuridão.

Diferente dessa vez, pois agora uma estranha luz permitia que enxergasse a si próprio, e nada mais. Podia ver seu uniforme vermelho, já gasto pelo tempo e sem os cuidados necessários. Percebeu a ausência do braço esquerdo, mas isso não o assustou.

Olhou para frente, com uma intuição implacável despertando sua atenção. Um som estranho chegou aos seus ouvidos, um resfolegar forte e rouco, quase inaudível.

Então, aos poucos, a enigmática luz deu forma a um animal com dentes pontiagudos e pelagem marrom espessa. A boca aberta escorria baba, formando uma gota brilhante na ponta da carregada pelugem. Os olhos, vermelho-sangue, possuíam um brilho negro e distante. A criatura usava uma coroa com algumas manchas de ferrugem e sangue e o fitava ardentemente, como se quisesse penetrar em seu mais profundo pensamento, como se o estudasse de todas as formas possíveis.

Estavam os dois ali, frente a frente, duas faces que eram como o dia e a noite, como o bem e o mal, o humano e o desumano. A luz e a escuridão personificadas e refletidas num espelho.

Como se despertado de um sono infernal, a criatura abriu a boca e emitiu um som estridente que atravessou os tímpanos do soldado, fazendo-o estremecer. Então, o manto do silêncio baixou novamente.”

O soldado vermelho abriu os olhos lembrando-se do quarto empoeirado em que vivera durante anos, em reclusão. Uma revelação diante da confusão que era sua mente naquele lugar infernal. Ele se lembrou do cômodo abandonado. Um lugar onde a única luz possível de ser apreciada entrava pelo buraco da fechadura durante um breve período do dia, projetando um feixe tênue que iluminava um ponto na parede oposta.

Aquele quarto era um vilarejo de abandono, onde os esquecidos como ele ouviam, apreensivos, os passos, conversas e cantorias da vida do lado de fora. Onde o único direito que tinham era o de imaginar rostos opacos e cenários sem cor para as conversas e risadas constantes.

Lá, dentro do mundo esquecido, móveis antigos, espelhos cobertos por mantas da cor de lodo e inúmeras peças de madeira inúteis, inclusive ele próprio, se conformavam com a solidão e esperavam o impossível resgate à sua velha vida.

Ainda envolvido pela lembrança, uma luz avermelhada trouxe o soldado de volta à prisão. Agora ele conseguia ver o lugar onde estava: um tipo de gaiola revestida com colunas de metal, pregadas com ferrolhos entre os vértices.

Sua visão se acostumou com o ambiente e ele viu, com horror, corpos espalhados ao seu redor, jogados como pedaços de madeira podre. Alguns estavam enrolados em barbantes grossos, amarrados de forma bizarra, com as pernas e braços dobrados e repuxados sobre cada lado da cabeça. Laços dados nos pulsos mantinham os corpos nessa posição e a extensão da corda passava em volta das orelhas, atravessando o tronco e a parte de baixo do corpo, formando um tipo de espiral.

A cabeça do leão jazia mais distante, com buracos negros e fundos no lugar das órbitas. Cabeças, braços, pernas e membros formavam um quebra-cabeças medonho pelo lugar. Vidas, um incontável número delas, amontoadas como lixo.

“E talvez o sejam, afinal.”

Seus pensamentos se tornaram sombrios e o soldado sentiu uma bolha de ódio inflar dentro de seu corpo. Onde estava, afinal? Como havia caído naquele inferno silencioso? E como ainda permanecia vivo?

As perguntas só serviram para que a dor aumentasse. Ele sentiu os corvos do seu desespero bicarem as paredes do seu crânio por dentro até uma palavra ecoar em sua mente como num disco riscado.

Sete”.

“Sete. Sete. Sete. Sete. Sete. Sete. Sete”.

Esse número fez com que o interior do seu corpo gritasse e a cena de uma chuva de estilhaços de vidro atingindo-o em cheio e arrancando seu braço repetia-se em suas lembranças.

No meio dessa tempestade de agonia, algo novo foi-lhe relevado e ele se lembrou de tudo. Do motivo de ter sido jogado ali, do porquê do sofrimento e da solidão, e do amor incontestável e irrepreensível. Lembrou-se, em meio aquele turbilhão de recordações, de Marie e de toda a sua doçura. De como ela o abraçou quando tudo estava perdido. A única alma que lhe deu atenção e carinho, que o salvou e prometeu cuidar dele para sempre.

Acompanhada dessa recordação, sua memória relevou a face do verdadeiro inimigo. A força maligna que lhe tomara a única coisa que mantinha a chama da sua vida acesa. E pela primeira vez durante todo o tempo que permaneceu ali, sua Consciência se dispôs a ajudar.

O soldado se lembrou de como foi esquecido. Substituído pela criatura diabólica, com traços semelhantes à sua própria fisionomia, e que usou desse trunfo para lançar um feitiço sobre os olhos de todos, inclusive de Marie que, convencida de um milagre, permitiu o verdadeiro herói fosse jogado como lixo, ocupando um dos cantos daquele quarto empoeirado.

E assim ele permaneceu até o dia em que porta foi aberta. O primeiro rosto que viu foi o de Marie. Quanto tempo havia passado? Ela estava linda, mas seus olhos pareciam ter perdido o brilho de antes.

Ela o pegou pela cintura e o ninou por algum tempo, como na noite em que se conheceram, e ele sentiu o seu calor e o seu perfume doce. Marie não sentiu nada. Por fora, ele era só mais um boneco sem vida.

Ela o levou para a rua, onde o inverno soprava gélido e voraz o seu hálito sobre as árvores. Atrás dela, a sombra do monstro pousou a mão em seu ombro, como um demônio à espreita de uma frágil alma. O ser demoníaco que tomara seu lugar sorria, com a vitória brilhando entre os dentes. O soldado se lembrou de cada detalhe, inclusive das palavras de Marie, que soaram como balas de chumbo atravessando seu corpo:

“Eu sei que já passamos da hora de reformar aquele quarto, D. Mas você acha mesmo que as crianças do orfanato vão gostar desses brinquedos? Será… que vão cuidar bem deles?”

Um mar de melancolia o afogou no momento em que essa memória se fez presente, mas a luz fraca, que à princípio parecia uma vela acesa ao longe, começou a aumentar.

Agora ele via com clareza braços e pernas amontoados nos cantos da gaiola de metal. Cinzas e restos da morte lenta e sofrida de seus iguais cobriam o chão. Boa parte deles, queimados. Alguns só com a metade da face.

As chamas começaram a aumentar tomando conta de tudo. E sem conseguir se mexer, só lhe restava relembrar o ultimato daquele dia, nas palavras frias do seu maior inimigo:

“Pode ficar tranquila, meu amor. Os brinquedos estarão em boas mãos. E tenho certeza de que as crianças vão adorar.”

O fogo se alastrou e a parte de trás da sua ombreira dourada começou a expelir uma fumaça escura. A madeira começou a crepitar e ele viu suas pernas se transformarem em uma coisa negra e disforme.

E enquanto era tomado pelas chamas, o bravo soldado ainda conseguiu se agarrar a uma última lembrança perdida: a de Marie tentando estancar a lágrima que corria de seus olhos azuis momentos antes dele ser levado para sempre.

Então, as cinzas do Quebra-Nozes foram varridas para a eternidade junto com seu um último pensamento:

“Foi o fim de um lindo natal, pena que o sonho acabou.”

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.