EntreContos

Detox Literário.

O Corvo – Conto (Jowilton Amaral)

Seu nome era Estácio, tinha treze anos e todos o conheciam como o Corvo. Ele recolhia lixo pelas ruas da cidade. Preferia a noite ao dia. Não que quisesse passar despercebido, não precisava disso, ele nunca era visto, mesmo de dia, mesmo na frente dos outros, mesmo pedindo licença a alguém para apanhar uma lata, ou uma garrafa pet. As pessoas não o enxergavam. Era socialmente diáfano.

O menino passeava pelas sombras com desenvoltura. Abria e fuçava lixeiras, como um vira-lata de duas patas. Recolhia tudo que pudesse ser reciclado, vendido ou comido. Quanto à comida, era um abutre, comia o que tivesse, até mesmo alimentos em decomposição, muitas vezes proporcionando engulhos em quem estivesse por perto. Nestes momentos, ele sorria mostrando a fileira de dentes ainda hígidos e brancos como marfim, contrastando com a gengiva enegrecida. A dentadura era boa como a de um cavalo de raça. A pele era negra como azeviche. Na cabeça havia um ninho crespo e lanoso. Seus olhos pequenos e vivazes, de passarinho, davam fé de tudo. Tinha o corpo miúdo, magro e enganosamente frágil. Não obstante a aparência debilitada, sua esperteza, inteligência e agilidade de movimentos eram notáveis. Entrava e saia de lojas e casas, cometendo pequenos furtos, com habilidade gatuna. Subia em muros e árvores tão rápido quanto um primata. Aprendeu a ler e a escrever sozinho e sabia somar como um contabilista. A personalidade era forte e não levava desaforo para casa, já que casa ele não tinha. Resolvia tudo ali, na rua, na hora.

Muitas vezes sua frieza e crueldade, adquiridas por toda uma vida de abandono, antagonizavam com sua insuspeita simpatia. Sua alcunha de Corvo foi colocada não só por sua sagacidade e cor, mas também pela sua estranha condição de anunciar maus presságios.

Ele sempre pressentia uma tragédia iminente. Foi assim no dia que seus pais e dois de seus irmãos foram carbonizados em baixo do viaduto que moravam, também foi assim com Alice, sua namoradinha de infância, quando ela foi apanhada pela polícia e nunca mais foi vista. E também quando fora abusado pela primeira vez dentro do reformatório de menores.

O Corvo sempre sabia quando uma desgraça aconteceria, só não conseguia evitá-la. Podia sentir o mau em todas as suas densas vibrações. Começava com um embrulho no estômago, ânsia de vômito e uma paralisia corporal de alguns minutos, depois disso, uma descarga de adrenalina eletrizava seu coração, fazendo com que transpirasse abundantemente. Após a angustia, ele tinha certeza que algo muito ruim se anunciaria.

 

Já passava das 23 horas e uma forte chuva se anunciava. O céu clareava com relâmpagos e os trovões trombeteavam a chegada da tempestade. Ele estava na rodoviária da cidade, jantando as sobras que um comerciante que receptava seus furtos lhe ofertava todos os sábados, como parte do pagamento pelos seus serviços. Terminou seu banquete semanal e pensou que era demasiado tarde para voltar ao centro da cidade.

Refletiu, enquanto fumava, com certa fidalguia, um cigarro de filtro branco, depois da satisfação da fome amenizada, olhando as nuvens que se aglutinavam no céu, e decidiu ir até a detenção de menores que ficava a poucos quilômetros dali. Lá poderia se abrigar da tempestade e dormir numa cama macia e seca, além de passar a noite com sua irmãzinha Lenora, de oito anos. A menina era o que restara da família. Correu em direção à mata, que separava a rodoviária do internato, seguindo na trilha muito conhecida e por tantas vezes percorrida durante as muitas fugas do presídio juvenil.

A floresta durante a noite era seu nicho mais aprazível. Camuflado pelas trevas e protegido pela vegetação, sentia-se ainda mais livre. Deslizou pelas trevas com a leveza de uma ave noturna que plana no ar.

Uma hora mais tarde chegou à cerca lateral do reformatório. Rodeou-a e foi para os fundos do prédio, entrar por lá era mais confiável, ele dizia para si mesmo. A frente da detenção era o lugar mais vigiado, onde ficava a ala dos internos mais perigosos, e por isso existiam duas guaritas, sempre com dois homens armados em cada uma. Em contrapartida, os fundos eram negligenciados, só de hora em hora um guarda passava em ronda.

Ele tirou o papelão que cobria o estreito e curto túnel que conduzia por baixo da cerca ao interior do Bloco. Arrastou-se pelo buraco e entrou. A poucos metros de chegar ao pátio, a chuva precipitou-se sobre ele. Correu e protegeu-se na cobertura do corredor que levava ao dormitório infantil. O silêncio era absoluto e os saguões estavam vazios. O vento que se juntou ao pé d’água zunia como o uivo de um lobo triste.  A ala das crianças era precariamente vigiada, e o Corvo assiduamente fazia visitas clandestinas a sua irmã. Passou silenciosamente pelo senil vigia, que dormia sentado em uma cadeira a sono solto, boca aberta e roncos altos, com a cabeça caída para trás do encosto, fazendo com que seu pescoço ficasse esticado. O pomo de adão subia e descia lentamente no ritmo de sua respiração. Os braços estavam largados ao lado do corpo e os dedos das mãos por pouco não encostavam ao mármore do piso. O dorminhoco vestia o uniforme azul da empresa de vigilância e sua arma descansava despretensiosa e menosprezada em cima de seu colo. Ele, o Corvo, seguiu pelo longo corredor até o quarto de sua irmã, a segunda porta a direita da galeria. Lenora dormia em uma das camas da fileira da esquerda, bem perto do janelão do final do quarto. O menino caminhou cautelosamente, sem emitir nenhum ruído. Para sua surpresa, viu que o leito estava vazio. Naquele instante, ele foi acometido pela agitação física que precedia suas premonições. Imediatamente pensou na irmã e em seu Romão, o crápula que dirigia a casa. As lembranças do vilipendio e do estupro povoaram sua cabeça. Esfregou com asco suas mãos pelo corpo, como se quisesse tirar algo imundo que lhe cobria a pele. Sempre se sentia sujo quando essas recordações o abocanhavam. Saiu rapidamente do dormitório. O suor escorria pelo seu corpo. Voltou pelo mesmo lugar que entrara e pegou sorrateiramente a arma deitada sobre o ventre do velho que ressonava.

Correu com a arma em punho até a sala da direção, era ali, naquele cubículo com chão de carpete verde e paredes úmidas cheirando a mofo, que acontecia os abusos. Ao chegar ao local, percebeu a luz da sala acesa. Controlou seu ímpeto e aproximou-se com cuidado da porta do cômodo. Olhou para dentro do quarto pelo basculante de vidro, na parte superior da porta, e viu o homem de calças baixas e a mão de sua irmã segurando o membro rígido do canalha pedófilo.

A pequena Lenora exprimia nojo e pavor em suas faces. Ele entrou no quarto e fechou a porta com violência atrás de suas costas. O diretor assustou-se e se virou de forma atabalhoada, quase caindo. Levantou em um único movimento suas calças arriadas e se recompôs. Lenora imediatamente correu para o seu irmão e escondeu-se atrás dele. O decrépito homem ostentava uma barriga agigantada pela gula e a preguiça, bigodes amarelados de nicotina, cabelos ralos, escurecidos com tintura barata, olhos doentios e frios. O Corvo repugnou-se. O homem olhou com cara cínica para o menino franzino a sua frente, reconhecendo-o de imediato. Escancarou um sorriso obsceno e disse:

— O que está fazendo aqui seu tiziu dos infernos?

— Eu sou o Corvo.

— Ah sim, eu me lembro de você perfeitamente. Recordo que eu e você brincávamos aqui, lembro-me também de como você gostava, meu negro passarinho.

O Corvo levantou a arma na altura da cabeça do homem, que recuou um passo, entretanto, sem se desfazer da expressão lasciva. Continuou falando:

— Baixa essa arma, minha criança, e venha se juntar a nós nessa festinha. Sua irmã é muito mais esperta que você, aprende muito rápido e suas mãozinhas são muito ágeis e macias — o Corvo nada dizia, apenas olhava placidamente com a pistola firmemente apontada para o crânio do homem.  

O diretor enfureceu-se e vociferou:

— Solta logo essa arma, moleque, ou vou cortar sua garganta e dessa putinha preta. Antes de matá-los vou me aproveitar bastante dos dois — falou e soltou uma sonora gargalhada.

Lenora chorava e se agarrava ao irmão desesperadamente. Então, o Corvo disse:

— Nunca mais.

Um estampido ecoou por todo o pequeno compartimento, seguido de um baque surdo de um corpo que caia e encontrava o chão. Sangue escorria do crânio do homem baleado.

Ouviram-se gritos e correria. Os guardas chegaram ao local rapidamente, mas, já era tarde, o homem já estava morto e não havia sinal do assassino.

Ninguém viu os dois pequenos vultos esgueirando-se pela mata escura, engolfando-se na alma da noite, partindo para nunca mais voltarem.

A chuva cessou e o céu estrelou-se.

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Informação

Publicado às 24 de maio de 2018 por em Contos Off-Desafio e marcado .